Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

09 junho 2010

um livro PARA TODOS, e MUITO mais importante do que se imagina

 
Se você pensa que esse é um livro que interessa exclusivamente à comunidade gay, se enganou. Confesso que eu mesmo nunca imaginei que encontraria aí tanto conteúdo para reflexão - pedagógica, política, antropológica - e tanto motivo de respeito e admiração.

Estou falando de Soldados Não Choram, 200 páginas que representam 1/3 dos depoimentos do ex-sargento Fernando Alcântara de Figueiredo registrados pelo jornalista Roldão Arruda, sobre sua vida e a do seu companheiro Laci Marinho de Araújo.

Sim, são os dois que saíram na capa da Época em 2008, e dias depois apareceram no programa da Luciana Giménez. Se por algum acaso a imagem que lhe ficou for a de umas bichinhas histéricas que foram dar piti na tevê por fragilidade, apague.

E vá ao livro conhecer dois meninos das periferias de Recife e de Natal, sofridos e lutadores desde o berço - um deles que chegou a enfrentar, recusando-se a chorar, o assassinato do pai a foice, e o conseqüente mergulho da mãe em anos de depressão.

Vá ainda conhecer dois cabras machos que decidiram expor seu amor-entre-iguais em público sobretudo como um lance radical em sua resistência a uma apavorante perseguição, devida não à sua homossexualidade, e sim a terem levado a instâncias superiores seu inconformismo com a grossa roubalheira com que viam representantes de interesses privados lesarem gente humilde como seus pais dentro da instituição pública. Confesso que com as poucas linhas da imprensa sobre isso, eu havia chegado a suspeitar de balela, mas a concretude do relato não deixa dúvidas.

Já está lhe surpreendendo? Pois lhes garanto que o livro vai ainda muito além!


Desde há muito avalio que a questão mais grave da teoria política seja a seguinte: mesmo a mais justa e igualitária das sociedades precisará manter uma instância capaz de fazer uso de força caso seja preciso impedir que alguém destrua essa justiça e eqüidade em algum ponto. Mas como impedir que essa instância capaz de fazer uso de força a empregue para outros fins, que não a proteção da justiça e eqüidade?
Essa é uma das questões mais sérias para toda e qualquer sociedade no alvorecer deste milênio, e o livro de Fernando oferece abundante material de reflexão sobre essa questão geral através do caso específico brasileiro.

Começa por uma descrição como nunca vi da chocante anti-pedagogia empregada em todos os níveis de sua formação, de aspirantes e recrutas a sargentos. Não duvido que haja outros relatos sobre isso na literatura brasileira - mas de uma formação que se deu de 1990 para cá? Depois da "plena redemocratização"?

Onde estarão as origens de um "sistema de treinamento" que consiste basicamente em humilhar, brutalizar, desumanizar - e em que o pouco que poderia merecer o nome de "ensino" é aplicado com espantosa incompetência?

Parece coisa remanescente do prussianismo do século 19, e em parte talvez seja - mas de outras histórias sabemos que foi de instrutores estadunidenses que o exército brasileiro recebeu, depois de 1964, instrução sistemática quanto a aplicação de certos tipos de tortura. E - pasmem - pouco antes de sua formatura como sargentos nossos jovens se vêem submetidos sem aviso a sessões reais de torturas desse tipo, inclusive com risco nada desprezível de morte.

Isso vem de onde, e desde quando? Nossa sociedade foi consultada se é isso o que ela quer como formação de seus jovens para a defesa nacional?

E que tipo de instituição se procura criar e manter através disso?

E aí voltamos ao grande drama: como um governo democrático pode conseguir transformar as forças armadas que tem teoricamente a seu serviço, se a possibilidade de empregar a força está justamente com elas? Tenho dito com freqüência que em política nada está mais longe da verdade que o famoso ditado "querer é poder": é justamente na vasta e tensa distância entre esses dois verbos que toda a política se dá!

Volto a Fernando e Laci: eles ainda têm 36 anos, então espero que a longa vida que ainda devem ter pela frente não venha a me contradizer - mas neste momento, se eu tivesse que apontar um livro a ser entregue sem hesitação na mão de adolescentes brasileiros como modelo de garra no enfrentamento da vida e - sim - da bravura moral de que nosso povo tanto precisa, eu não teria a menor dúvida em apontar esta dupla biografia de Fernando e Laci.

Mas um casal gay como exemplo para adolescentes? - muitos são capazes de exclamar chocados.

Pois digo que no conjunto total do livro como eu o apreendi, a homossexualidade é quase que circunstancial: o jovem que tiver em si uma tendência predominantemente heterossexual também irá se beneficiar desse modelo de bravura sem que isso venha a lhe alterar a orientação sexual. Quem já estudou o assunto a sério sabe muito bem disso.

Por outro lado, os não poucos jovens estruturalmente homossexuais, e os bissexuais com razões para optar por esse lado, têm aqui também um magnífico exemplo de que sua orientação sexual não tem que ser sinônimo de uma vida fútil nem covarde, mas que, pelo contrário, podem estar entre os elementos de maior valor na luta de construção de um Brasil e de um mundo mais dignos que os de hoje.

Esclarecendo melhor este último ponto, toco de leve num assunto a ser aprofundado futuramente: o psicólogo Carl G. Jung dizia acreditar numa sabedoria da natureza - e por essa mesma fé previa que "no futuro" haveria um grande aumento da taxa de homossexulidade na população. Por quê? Para ele, simplesmente porque o tamanho da população humana já estava ultrapassando o razoável em muito, e sem dúvida será necessário reduzi-la. E vínculos de afeto sem risco de procriação servem tanto a essa redução quanto à manutenção do bem-estar da sociedade, que depende precisamente de vínculos.

Conservadores fazem às vezes discursos alarmados no sentido de que a humanidade estaria em risco de extinção com o aumento da homossexualidade - o que diante da situação real não passa de uma piada de péssimo gosto. Mesmo se, digamos, 60% da humanidade optasse exclusivamente por relações sexuais não reprodutivas, por muitos séculos isso não seria um problema e sim um benefício à própria humanidade e ao conjunto do planeta. E estou falando de um número altíssimo que provavelmente jamais será atingido.

Acrescente-se a isso a descoberta feita pelos zoólogos, de que quanto mais freqüentes as relações homossexuais dentro de determinada espécie, mais pacífica é essa espécie: mais as relações de competição são substituídas pelas de colaboração, mais a violência é substituída pelo cuidado mútuo como força estruturadora da sociedade.

Não é de estranhar, portanto, que os que se empenham em preservar uma cultura da violência e da opressão se sintam incomodados ao verem dois machos potentes e capazes de briga se entregarem, pelo contrário, ao amor.

Mas a despeito de qualquer oposição, nossas ruas estão cada dia mais cheias de pares de adolescentes do mesmo sexo manifestando atração e carinho um pelo outro - exatamente como Jung previu há mais de 50 anos. E os mais informados e/ou perspicazes sabem enxergar nisso não um desvio da natureza, e sim uma manifestação da sua sabedoria; não uma degeneração da humanidade, e sim um dos passos de uma evolução que visa a sua salvação.

Não pensem, porém, que eu esteja só feliz ao ver isso: também me sinto preocupado. Pois que modelos de vida estamos oferecendo a esses adolescentes? O das drag queens e o dos go-go boys e nada mais? Pois não se enganem: adolescentes sempre pensam que inventam tudo e não imitam ninguém, mas nós sabemos que é justo o contrário... E o que a sociedade vem oferecendo - e com certeza nada inocentemente - é um modelo de pura futilidade, que só encoraja o narcisismo e o consumo, e jamais a participação na luta de construção da sociedade justa e igualitária, antes de cuja realização nenhum ser humano tem direito moral de descansar mais que por instantes.

E é por isso que digo uma vez mais: não conheço nenhum outro livro que ofereça um modelo humano tão realisticamente apropriado aos jovens brasileiros de hoje - tanto homo quanto heterossexuais - como a história desses dois soldados que souberam lutar e também chorar, e também rir, cantar e se amar.

PS: o livro foi lançado em dezembro de 2008 e eu só fiquei sabendo da sua existência há poucos dias - talvez mais uma demonstração da tentativa de submersão da vida gay numa cultura da futilidade. Mas volto a insistir que esse não é um livro apenas para gays e simpatizantes: é um livro para todo brasileiro que se interessa pelo presente e pelo futuro do seu próprio povo, e da humanidade em geral.

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