Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

20 junho 2010

Um jorro salutar de momentâneas catedrais [variações sobre um fenômeno chamado samba]

 
O samba é pai do prazer
o samba é filho da dor
o grande poder transforma-dor

Gilberto Gil & Caetano Veloso, 1993

Desde há muito me passou a parecer que a alegria é mais preciosa,
mais difícil e mais bela que a tristeza. E assim que fiz essa descoberta,
por certo a mais importante que se possa fazer ao longo desta vida,
a alegria se tornou para mim não apenas uma necessidade natural
- o que já era - mas até mesmo uma obrigação moral.

André Gide, 1935


I. Quem será mais revolucionário, a dor ou o prazer?

Começo estas notas num domingo à noite, chegando de uma espécie de missa corpórea e revigorante: um samba.

Um samba popular, robusto - mas não “simples”, porque “samba simples” não é possível, seria uma contradição em termos. Se algum ouvinte achar que um verdadeiro samba é simples, simples é o ouvinte, incapaz de reconhecer sua complexidade.

Mas ao dizer que é complexo não estou dizendo difícil nem penoso! Estudada bioquimicamente, a fotossíntese é de uma complexidade absurda - e no entanto as plantas estão aí, despejando vida no mundo sem parar... como se fosse simples!

Bom, mas então eu estava no Samba do Monte, no espaço da Associação Comunitária Monte Azul, e a cada mês o Samba do Monte homenageia um ou uma grande sambista: já foi Clara Nunes, Noel Rosa... e hoje era Chico Buarque. O lado sambista do Chico.

Chico veio da classe média? Ora, Noel também. E nenhum sambista ousaria dizer que o Chico não tem sambas tão sambas quanto os de um sambista oriundo de favelas ou cortiços. É samba sim!

É sim. Sim. Mas mesmo assim...

... não houve como negar: no meio dos sambas do povo local, o samba do Chico soou intelectualizado: soou cheio de intenções não brotadas da própria vitalidade, mas acrescentadas ao samba pela cabeça.

Ora, nós sabemos que a intenção do Chico é a de conscientizar o ser humano das suas dores pra que se revolte contra elas e tente superá-las com uma ruptura chamada revolução.

E não é agora que pretendo discutir se a revolução é mesmo o melhor caminho para a humanidade, ou qual modelo de revolução; o que me interessa agora é o fato de que o samba do povo não parece estar ali para estimular anseios por um gozo futuro, e sim para ser um gozo presente. (Reparem nos três pares contrastantes: o de verbos, o de substantivos, o de adjetivos).

Não que o samba ignore a dor, nem a necessidade de soluções no longo prazo - de modo nenhum! Mas sabe que inclusive pra poder lutar pelas soluções de longo prazo precisamos estar bem alimentados agora, tanto de alimento-substância quanto de alimento-prazer.

Também não entendam que eu esteja menosprezando a música do Chico! Vejam: não pude deixar de me arrepiar dos pés à cabeça, como sempre, ao ouvir “quero ver a Mangueira / derradeira estação...” preparando e dando sentido à frase musical seguinte, a das palavras: “quero ouvir sua ba---tucada, ai, ai” - que para mim atinge de repente a pungência das árias das Paixões de Bach, nada menos. É tanta beleza, que ouço pouco pra não gastar - mas é uma beleza, sabe-se lá como, feita ainda em substância de dor. Não se trata de “dor transformada”, mas de dor-ainda-dor ajeitada de modo a gerar um prazer-de-beleza ao doer...

... enquanto que no samba do povo tenho a impressão de que se pegou a dor como quem pega garrafas pet vazias e faz outra coisa com elas: corta em tiras, faz luminárias, tranças, bolsas, sei lá o quê. Na hora do uso aquilo é tudo menos garrafa.

E o sambista pode ter pego a dor como matéria prima, mas o que ele nos serve na hora de sambar é tudo menos dor. O prazer estético acontece aí na vivência não de dor mas de saúde.

Pois o samba nos traz um reforço justamente aos ritmos da vida no sentido biológico mesmo - e aí de repente esses ritmos se animam, começam a saltar, se expandem para além dos limites do corpo...

... isso porém sem jamais deixar seu enraizamento no corpo, enraizamento no fundo dos ossos e das fibras dos músculos, como quem diz: “vejam, levado a este equilíbrio e intensidade, viver é bom - e portanto a vida pode ser boa, pode ser prazer: você está experimentando que pode”.

E, não sei, algo me diz que talvez essa vivência motive mais a buscar meios de superar a dor de modo duradouro (revolução) do que é capaz aquela outra arte que é vivência estetizada da própria dor.

Afinal, quem não conhece o “revolucionarismo” romântico que consiste em levar vida desregrada para adoecer e morrer jovem, em lugar de participar das tarefas concretas tantas vezes monótonas de que dependem a manutenção e o melhoramento real da vida?

Sei que eu volto do samba com vontade de produzir melhorias & alegrias neste mundo - enquanto tantas vezes saio das mais lindas audições de música clássica com pura vontade de sumir, de me desfazer de vez em pó da terra ou em qualquer outra forma de poeira estelar.


II. O que os músculos
escutam melhor que os ouvidos
 

Pareceu-me que o melhor e mais seguro meio
de derramar felicidade em torno de si
seria mostrar em si a imagem da felicidade
- e resolvi ser feliz.
 André Gide

Mas aqui com certeza alguns dirão “sei não... ainda prefiro ouvir sinfonias que ouvir sambas” - e aí preciso esclarecer depressa que não estamos falando do mesmo ouvir! - e que, de resto, também não quero abrir mão das sinfonias! Apenas aprendi a intercalá-las com samba y otras cositas igualmente vitales para não adoecer! - Aliás, Nietzsche já havia sacado essas coisas com aquele papo do apolíneo e do dionisíaco, não é?

Então: o ouvir do samba não é só de ouvido, é com o corpo inteiro - mas, por favor!, não estou falando de um “ouvir com o corpo” metafórico, simbólico, ou induzido pelos poderes da imaginação, como quem diz: “parece que ao ouvir tal peça eu senti as rajadas do vento, ou as ondas do mar batendo em mim”. Isso pode ter seu valor, mas é de outra coisa que estou falando aqui. Definitivamente outra. Uma coisa que até hoje só identifiquei na música da Índia e na que tem raízes na África: seus ritmos têm a ver literalmente com  os ritmos dos processos biológicos do nosso corpo.

Por isso não faz sentido nenhum ouvir samba sentado - pelo menos não o tipo de samba de que estou falando. Só se você estiver doente. E aí provavelmente será chato. Pra realmente aproveitar o samba você tem que estar de pé, e não ter vergonha nem preguiça de deixar o corpo começar a se mexer, mesmo se de modo bem discreto.

Além disso, não bastam 30 segundos, dois minutos desse movimento: é preciso deixar que prossiga por um tempo razoável, até que seja um fluxo que mais ou menos nos carrega independente de qualquer esforço nosso.

E aí você começará a identificar coisas pela interação entre esses ritmos e os sensores internos dos seus músculos - coisas que jamais perceberia só com os ouvidos da cabeça.

Entenda: absolutamente não é preciso “dançar certo” de acordo com alguma receita! Apenas se deixar fazer os movimentos que os ritmos e outros sons sugerem nas diferentes partes do corpo. Aí, de repente você estará de certa forma dançando - e essa forma é importante e útil a você; as formas convencionais nem sempre. (Nesse sentido é pena que em São Paulo se tenda a olhar esquisito pra quem dança fora de formas convencionais; já vi que no Rio existe mais naturalidade quanto a isso - e entre africanos então nem se fala!)

Acontece que esses nossos ritmos biológicos são em grande parte reflexos, dentro de nós, de ritmos do ambiente, do mundo, do universo - de modo que o samba “conversa” basicamente é com os ritmos universais que nos criaram e que mantêm a nossa saúde, muito mais que com as paixões da alma que constituem a matéria principal do romantismo musical, as quais de certa forma modulam, alteram esses ritmos vitais, chegando às vezes a distorcê-los por completo, causando doença.


III. As catedrais momentâneas
e seus discretos sacerdotes
 
Eu havia escrito: ‘Daquele que é feliz e que pensa,
desse se dirá que é verdadeiramente forte’.
 André Gide
 
E pra terminar quero contar de uma imagem que me veio no último carnaval, quando caminhava alguns quarteirões com o bloco aqui do bairro. Bem: era carnaval, e carnaval é mesmo pra ser escracho: tudo o que é feio, bobo, até nojento, tem aí uma chance de se ostentar e se desafogar.

Mas eu não fiquei reparando em nada disso: só aproveitei que estava quase dentro da bateria e me soltei na batucada. E aí percebi que na batucada em si não existia nada de escracho: era prazer, mas era sério, era profundo; no fundo não tinha nada a ver com o grotesco por trás do qual se disfarçava; sua natureza era bem mais a do sublime.

Aqueles homens aparentemente simplórios que caminhavam pela rua compenetrados em bater nos seus instrumentos iam lançando formas pelo ar: formas regulares, harmônicas, que extraíam beleza e sensação dos jogos entre simetria e assimetria... como detalhes arquitetônicos - rosáceas, volutas, arcos, pináculos... na verdade nem conheço os nomes usados para o que eu quero dizer! - formas que se configuravam "no ar" e imediatamente se desfaziam, para voltarem a surgir modificadas aqui, ali restauradas à configuração original, e já modificadas de novo acolá...

Falam da arquitetura sagrada das catedrais, onde as formas e medidas expressam proporções de ritmos cósmicos (só por exemplo, uma das torres da Catedral de Chartres, na França, é proporcional ao número de dias do ano solar, a outra ao do ano lunar).

Falam também que esse tipo de harmonia matemática que flerta com a dimensão cósmica (a "música das esferas" dos antigos) pode ser encontrado na música de alguns compositores, especialmente o já citado Bach.

Pois eu afirmo que estar imerso em Bach ou num bom samba não são experiências tão diferentes quanto os virgens disso possam imaginar.
 
É verdade que Bach desenvolve sua complexidade em grande parte na dimensão do tom - das construções melódico-harmônicas - e não é nessa dimensão que o samba desenvolve a sua complexidade: é mais na da dimensão das durações (construções em ritmo) cruzada com as do tom e do timbre usadas em conjunto como faixas: por exemplo a faixa dos surdos, a das caixas, a dos tamborins, a dos agogôs, que atingem centralmente áreas e funções diferente do nosso sistema corporal (e através dele também o psiquismo - o que nem seria preciso dizer se ainda não vivêssemos no meio de tanta superstição pseudo-filosófica sobre uma suposta "inferioridade do corpo").

Diziam os contemporâneos de Bach que ele atingia seu máximo quando improvisava ao órgão, não quando a música era escrita. Embora dentro de parâmetros muito bem definidos previamente, o nota-por-nota do samba é improvisado a cada realização, irrepetível (como também o do jazz e os da maior parte das tradições musicais do mundo). Mas as construções que o samba produz, desse modo, dentro das dimensões em que atua, não são de nenhum modo menos complexas que as contruções produzidas por Bach nas dimensões com que trabalha, e também não menos ricas de efeitos complexos sobre o ser humano.
 
E ambos produzem uma espécie de arquitetura fugaz, estruturas que surgem no "ar", brincam com as proporções dentro de si mesmas e entre umas e outras, são apreendidas com o ouvido e com o corpo no interior de um instante, e já não existem mais... a não ser nas conseqüências que deixaram em nós.

Quem se deixa arrancar do chão pelos golpes dos surdos para em seguida ser jogado como nas mãos de um malabarista pelas batidas do tamborim, e ter os quadris conduzidos pelo pulsar frenético e ao mesmo tempo harmônico do cavaquinho... esse perde peso e ganha graça - não só no sentido de aparência harmoniosa mas também de sensação de plenitude espiritual: “sim, existe a dor, mas o humano também pode ser isto: erguido acima do seu próprio peso, trepidante de uma glória atingível pelo aperfeiçoamento, realização, intensificação - não pela negação de si.

E aí eu vi a palhaçada dos mais levianos - ali na rua naquele carnaval - como de grande utilidade não só como desafogo para eles mesmos, mas sobretudo para distrair a atenção de potenciais inimigos da profundidade do principal: com mais ou com menos consciência disso nas mentes, por trás de seu leve sorriso, aqueles homens simples no fundo sabiam da grandiosidade das funções sacerdotais que estavam a desempenhar, reoficiando antiqüíssimos ritos de saúde e de afirmação ao encherem o ar com jorros gozosos de forças e formas vitais... como um antídoto contra os equívocos mortíferos da civilização ocidental.

Um comentário:

  1. Pois é. Eu achei o post brilhante, apenas penso que as construções de Bach sejam bastante mais complexas, não obstante atingirem o mesmo alvo, talvez com a mesma força. De resto, é uma reflexão muito original e estou até agora meio pasmo com a coisa dos gozos presentes e futuros.

    Muito inteligente.

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