Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

14 junho 2010

Israel, a paz enganosa e o Estado Tupinambá do século 35


Dedico este artigo a todos os judeus de hoje que vêm honrando a tradição dos grandes profetas do seu povo e se colocando contra os crimes do movimento sionista e do Estado de Israel

Tenho recebido algumas tentativas de defender Israel no caso da flotilha que rumava para Gaza, em forma de denúncia de que eles “não eram na verdade pacifistas”. Entre elas se destaca a mensagem de uma médica brasileiro-israelense (ah, essas duplicidades a que nós comuns dos mortais não temos direito...) que teria “visto com os próprios olhos” provas das más intenções da flotilha.
 
Sua mensagem parece de boa-fé, mas é engraçado como contrasta com as vigorosas denúncias da posição de Israel como indefensável por parte de intelectuais e políticos judeus que constituem uma espécie de elite moral do seu povo - um deles o grande lingüista Noam Chomsky, um judeu que foi proibido de entrar e palestrar em Israel há poucas semanas. Outro, o jornalista e ex-parlamentar israelense Uri Avnery, que elencou 81 perguntas incômodas sobre o caso (link 1 no fim do post).

Quero acreditar que essa médica seja uma pessoa boa porém ingênua, que nunca ouviu falar em evidências plantadas - risco que qualquer jovem brasileiro de periferia sabe que corre quando a polícia o manda parar.
                       
Mas quero falar mesmo é de outra coisa: de o quanto pode ser enganosa a palavra “paz”.

Que eu lembre, em nenhum momento o pessoal da flotilha disse que era pacifista. Humanitário e pacifista não são sinônimos. Gandhi (o evidente modelo da ação da flotilha) nunca se disse pacifista, ele falava de luta não-violenta, de emprego da força da verdade (satyagraha).

Soa meio chocante, mas em política "paz" e "pacifista" são via de regra palavras ou de trouxa, ou de trapaceiro.

A chave pra entender isso é: o conceito "paz" só é real entre partes que estejam em igualdade de condições. Onde existem diferenças de poder ou de oportunidade, a palavra "paz" se torna sinônima de "não-perturbação da opressão". Como opressão é violência solidificada, onde há desigualdade a palavra "paz" sozinha já é uma mentira, um disfarce do seu contrário.

(Com “violência solidificada” quero dizer: transformada de ato momentâneo em estrutura duradoura. Para ajudar a entender: "receber um impacto de 10 toneladas" nos parece algo violento, mas não costumamos pensar o mesmo de "ter que suportar continuamente 10 toneladas nas costas" - o que é na verdade pior).

Já Santo Agostinho se referia a isso com a expressão "paz é fruto da justiça". Evito um pouco essa expressão porque a própria definição de "justiça" costumar gerar briga... Mas falei acima de "igualdade", e sei que essa palavra também arrepia a maior parte dos conservadores. Acaba exigindo explicações de que não estamos negando as diferenças naturais entre os indivíduos, apenas questionando as diferenças não-naturais, criadas e mantidas por ações humanas (quer individuais, quer coletivas; quer conscientes, quer inconscientes).

Aí as vezes vale lembrar, sobretudo pra conhecedores da Bíblia, que é precisamente o par igualdade/desigualdade que em linguagem mais antiga se dizia eqüidade/iniqüidade...

E por falar em Bíblia, temos visto que justamente quem recebeu uma educação cristã e/ou bíblica tende facilmente a procurar desculpas para o lado de Israel. E, olhando bem, descobrimos aí uma razão puramente emocional: os judeus são nossos conhecidos. Ouvimos os nomes e histórias deles desde o berço. Em contraste, na nossa mente "árabes" ou "persas" são apenas vultos sem rosto e sem história.

Mas partindo de um conhecimento desigual dos dois lados, nosso julgamento só pode terminar sendo iníquo - mesmo que por ingenuidade, como a de uma criança que não quer que prendam o Papai Noel que é na verdade um ladrão disfarçado.

Com conhecimento equitativo dos fatos reais relativos aos dois lados, presentes e passados, a mera existência do atual Estado de Israel se mostra como uma barbaridade injustificável. Os dados que vou mencionar a seguir provêm de historiadores e jornalistas judeus, não árabes; apenas que de judeus moralmente responsáveis: para começar, os judeus que criaram o Estado de Israel não descendem do povo judeu dos tempos bíblicos, e sim de integrantes de outros povos convertidos ao judaísmo em tempos pós-bíblicos (ver o link 2, para texto de um historiador da Universidade de Tel-Aviv).

Esses neo-judeus da Europa já haviam convencido e financiado os cristãos a fazerem guerras de conquista daquela região no século 12 (as cruzadas). E de certa forma repetiram a dose entre a 1.ª e a 2.ª guerras mundiais, quando praticamente obrigaram os ingleses a apoiá-los na invasão da região - inclusive chantageando-os com atos de terrorismo (é isso mesmo o que eu disse: terrorismo de judeus contra ingleses).

Não vou entrar agora no histórico de barbaridades e massacres que vem sendo perpetrado há um século por esses neo-judeus contra os povos que viviam há mais de dois mil anos na região cobiçada, ainda falando em grande parte a língua que Jesus falava: o aramaico. Vou só destacar que há mais sangue de judeus dos tempos bíblicos no povo palestino que nos judeus que saíram da Europa pra implantar o Estado de Israel.

Não foram reconhecidos como tais porque a palavra “judeu” não se refere a um povo e sim a uma religião, e boa parte daqueles judeus originais havia se convertido ao cristianismo, e outra parte ao islamismo - o qual havia surgido como uma espécie de retorno ao monoteísmo “linha-dura” dos tempos do Velho Testamento, enquanto o judaísmo medieval tinha virado na prática um festival de recurso a seres espirituais intermediários, aliás bastante parecido com a umbanda.
 

O ESTADO TUPINAMBÁ. Acho que a situação atual da Palestina fica mais clara com uma comparação imaginária - que, não me entendam mal!, não traz nenhuma acusação aos tupinambás verdadeiros, e nem qualquer desculpa para o terrível genocídio praticado nas Américas pelos invasores europeus de que em parte descendemos.  Mas vamos lá:

Imaginem que uns poucos descendentes de índios tupinambás espalhados pelo mundo fossem pouco a pouco convencendo pequenos grupos, aqui e ali, a adotar elementos da antiga religião e costumes dos tupinambás, e a se identificarem com esse nome.

Então, por volta do futuro ano de 3400, esses grupos escolhem um nome histórico como símbolo, se organizam como "movimento pindoramista" e começam a invadir a costa e a primeira faixa dos planaltos brasileiros do Maranhão até São Paulo, e a exigir a soberania da região, com a submissão de todo o povo que se formou aí nesse meio tempo (que neste exercício podemos imaginar como o que somos hoje, embora não saibamos como vai ser daqui a 1400-1500 anos).

Conseguem apoio internacional para uma partilha que deixa umas pequenas faixas descontínuas fora da sua soberania, mas depois não cumprem o acordo e começam a invadir também o resto, pois "historicamente lhes pertence".

Aí, quando algum de nossos tatatatataranetos, desesperado de ver seus amigos e parentes reduzidos à miséria e opressão, cometer algum ato contra eles, será acusado de "não querer a paz". 

E ali pelo ano 3450 um líder pindoramista proclamará: "devemos matar cem ou mil brasileiros para cada tupinambá que eles matam".

Essa frase foi pronunciada a semana passada pelo sionista Ron Torossian, organizador da manifestação “Estamos com Israel” em frente à missão da Turquia na ONU: “devemos matar cem ou mil árabes por cada judeu que eles matam”.

Mas isso não é uma reação a violências recentes: ele está apenas dando continuidade ao programa definido já na década de 1920 pelo ideólogo do "sionismo revisionista" Zeev Jabotinsky: “a única maneira de impor o Estado judeu será esmagando os árabes” (v. link 3).

Esse árabes que de lá para cá só deram provas de que merecem mesmo ser esmagados, e precisamente pelo crime de não se deixarem esmagar sem reagir: "queríamos poder roubá-los e pisá-los sem derramamento de sangue, mas eles são perversos: não sabemos por quê, não nos deixam fazer isso em paz."
 
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Link 1: Uri Avnery (jornalista e ex-parlamentar israelense),
O que o governo e os militares israelenses tentam esconder”
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/uri-avnery-o-que-o-governo-e-os-militares-israelenses-tentam-esconder.html

Link 2: Schlomo Sand (historiador e professor da Universidade de Tel Aviv),
Como surgiu o povo de Israel?”
http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1147

Link 3: Juan Gelman (escritor judeu argentino), “Inexplicável?”
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16672

Outra recomendação importante sobre os métodos do Estado de Israel:
o filme “Munique”, do judeu Steven Spielberg.

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