Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

23 fevereiro 2008

"Parentes" da TEORIA CONVIVIAL - importância do vínculo com a Vertente do Pacífico

Dia desses (18.02) fiz uma apresentação introdutória da Filosofia do Convívio para a equipe da Fábrica de Criatividade, e achei interessante mencionar de passagem o nome de alguns pensadores ou correntes de pensamento com os quais sinto que a Teoria Convivial tem afinidades notáveis, mesmo se geralmente parciais – e mesmo que muitos, muitos outros também pudessem se incluídos:

Dimensão filosófica:  pensamento taoísta e zen; pensamento ameríndio; Heráclito;  Nicolau de Cusa; Goethe; "trimembração social" de Rudolf Steiner; Lupasco; Edgar Morin (pensamento da complexidade).

Dimensão psicológica: Wilhelm Reich; R.D. Laing (anti-psiquiatria); Winnicott; Wallon; Vygotsky; Jung; Carl Rogers.

Dimensão pedagógica: Sócrates; Epicuro; Rudolf Steiner (Pedagogia Waldorf); A.S. Neill (Summerhill); Janusz Korczak; Ivan Illich; Paulo Freire.

Sendo incomum a referência a contribuições de fora da tradição eurocêntrica, achei importante detalhar um pouco mais o que chamo a "vertente de pensamento do Pacífico": o pensamento taoísta e o zen (da China e Japão) e (ainda mais raramente mencionado) o ameríndio - ou seja: dos povos indígenas das Américas.

Não se trata de uma junção disparatada nem arbitrária, como pode parecer à primeira vista. De acordo com a pesquisa genética, a população que se encontrava nas Américas antes de Colombo descende quase integralmente de povos da Sibéria – e é também no pensamento xamânico siberiano que vamos encontrar a raiz do taoísmo, o qual mais tarde se juntou ao budismo procedente da Índia, resultando no zen.[1]

É preciso estar consciente, "para não falar besteira", dos intervalos de tempo envolvidos. Os índios se encontram aqui há pelo menos 15 mil anos, e provavelmente há mais. O taoísmo tem uns 2500 anos de história, mais talvez uns 1000 de pré-história, e o zen tem "apenas" uns 1500 anos.

É preciso mencionar, aliás, que a arqueóloga Niède Guidon provou que os vestígios de presença humana no Piauí têm não menos que 50 mil anos – mas com isso se torna praticamente impossível que esses primeiros habitantes fossem do tipo siberiano de que estamos falando; há, pelo contrário, razões para imaginar que tenham vindo diretamente da África.

Em última análise teriam sido esses os "descobridores da América" – mas para nossa história cultural importa bem mais o estrato (camada) que veio da Ásia – uma gente para a qual esta terra foi o Extremo Oriente, e não o Extremo Ocidente como para os africanos e os europeus – dado em que podemos encontrar ricas implicações simbólicas.

É urgente, portanto, que paremos de pensar que a nossa história, no Brasil, começa com a chegada dos portugueses em 1500 –

... inclusive a história cultural e intelectual. Pois há mais elementos do que pensamos para identificar algo como "uma forma ameríndia de pensar". Há, inclusive, muito mais textos produzidos por índios do que costumamos imaginar.[2]

Outro dado de grande interesse nesse sentido são as teorias que sugerem que a própria democracia moderna deve mais aos índios que aos gregos, a quem a costumamos vincular. Por quê razão, enfim, o impulso democrático grego teria ressurgido na Europa depois de uns dois mil anos de abandono – dois mil anos em que a história e filosofia dos gregos não deixaram de ser conhecidas no Ocidente a não ser por alguns momentos? Por outro lado, foi depois da "descoberta" européia das Américas que esse impulso começou a se fazer sentir entre os próprios europeus.

Há pelo menos duas trajetórias pelas quais essa influência parece ter se dado: por um lado, os ensaios do francês Michel de Montaigne (1533-1592), ainda sob o impacto dos relatos dos navegadores – os quais foram lidos dois séculos mais tarde influenciaram as teorias do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), uma das principais fontes do impulso democrático na época iluminista. Por outro lado, o estatuto da Liga das Nações Iroquesas teria tido forte influência sobre outra dessas grandes fontes, que foram a Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos. [3]

As razões que me levam a vincular a Filosofia do Convívio à Vertente do Pacífico são portanto não só de afinidade metodológica e teórica (como veremos adiante), mas também razões políticas: a intenção de desenvolver um pensamento que se vincule não só à cultura que está nestas terras há 500 anos, mas também, e mais profundamente, àquela que está aqui a 15 mil anos, ou mais – e que, reconheçamos ou não, é a raiz genética e cultural mais profunda do povo brasileiro.
 


[1] Ver Bloise, Paulo V. O Tao e a psicologia. São Paulo: Angra, 2000.

[2] Não cabe aqui uma relação ampla nesse sentido. Sugiro apenas que se preste atenção às publicações recentes, no Brasil, de Daniel Munduruku, Kaká Werá Jekupé e Olívio Jekupé – bem como a qualquer escrito ou entrevista de Aílton Krenak. Também são notáveis os estudos do casal francês Pierre e Hélène Clastres sobre a visão-de-mundo guarani, entre muitos outros. Em relação à América do Norte costumo me referir a McLuhan, T.C. Touch the earth: a self-portrait of Indian existence. Londres: Abacus, 1980.

[3] Sobre este ponto: Johansen, Bruce E. Forgotten founders: Benjamin Franklin, the Iroquois and the rationale for the American revolution. Ipswich MA: Gambit, 1982. Consultado em http://www.ratical.com/many_worlds/6Nations/

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Um comentário:

  1. espero que já tenha visto meus livros e se gostou, entre em contato comigo.
    oliviojekupe@yahoo.com.br

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