Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

03 fevereiro 2008

20 POEMAS DE 3 POETAS QUE SÃO 1

Duas semanas atrás eu falei aqui da intenção de começar a publicar na net o meu "estoque" de poesia com sistema...
... e de lá pra cá trabalhei um tanto sobre quê sistema seria mais adequado.
E aí me dei conta de que, na verdade, a poesia que eu tenho estocada parece ser de no mínimo três autores diferentes, e não de um só.
Ora, direis :-) ... Fernando Pessoa já fez isso... mas não!, não se trata de um "projeto de produção literária" ou algo assim - e tenho certeza de que também em Fernando Pessoa não se tratava: ele foi é um sujeito com percepção da complexidade do ser humano, e usou a si mesmo como exemplo de como essa complexidade é. Todo mundo, caso se conhecesse a fundo, acabaria sendo tentado a dar nomes diferentes (= heterônimos) aos diferentes aspectos de si...
Sem muita teoria mais, passo a contar então que identifiquei basicamente "três autores" por trás dessas páginas arquivadas:
(1) Um sujeito que gosta de brincar - com palavras & com os fatos da vida: trocadilhos, tiradas, poemas curtos, uma dose considerável de rima e outra de auto-ironia...  Esse sujeito se sentiu estimulado e à vontade na espécie de trans-concretismo que predominou nos anos 80, como o do conterrâneo Paulo Leminski.
E desconfio que pra esse sujeito cabe bem o nome Ralf, com que eu fui registrado... - mas não porque esse seja "o eu verdadeiro", e os outros sejam personagens - pelo contrário! Eu me identifico bem mais com o Zé... Afinal, Ralf é o nome que me deram, não que eu escolhi - e portanto tão ou mais heterônimo quanto os outros!
Quem disse, aliás, que Fernando Pessoa foi "mais ele mesmo" nos poemas que registrou sob esse nome mesmo? (E além disso: quem diz que o nome oficial é "o certo"? A tal designação "ortônimo", quem vem sendo usada para contrastar com "heterônimo", NUM TÁ CUM NADA NÃO!!)
E afinal - honestamente, gente - pra um sujeito nascido no Brasil em 1957, e cujo último ancestral nascido na Europa viveu de 1835 a 1921... darem o nome Ralf só pode ser algum tipo de piada, né?
Um exemplo típico desta poesia? O "Bom dia, Coisa" publicado aqui em 19/01. Mas quem sabe também o...
DRAMA ADOLESCENTE
eu queria tanto ser tudo mas mamãe não deixa
1987
(2) O Zé, ao contrário, não é um sujeito exatamente divertido.
Afinal, não é moleza nenhuma ser um Zé.
O Zé é aquele que escolheu observar com consciência o que é ser um qualquer, no Brasil e no mundo em geral... e se encheu de amargura - pelo descompasso entre isso e a dignidade divina que ele entrevê em todo ser humano.
No Zé coincidem uma atitude de enlevo perante a grandeza & beleza do universo e a crítica à forma amesquinhante de convívio humano a que se deu o nome de "sociedade" - não uma crítica meramente cerebral, mas asco mesmo. Visceral.
É para essa coincidência do místico com o político (e não para o suposto dom de adivinhar o futuro) que os teólogos usam a palavra "profético". O Zé se sente compelido a falar nesse tom profético -- aliás, se não me engano seu verdadeiro nome é Isaías José Lobo, algo assim... -- e aí soa muitas vezes ranzinza, queixoso, acusador...
... o que no fundo é um puro debater-se em um amor desesperado com sua própria impotência diante do sofrimento que vê afligindo a maioria dos seres em seu mero existir.
Um exemplo de fala típica do Zé:
 você já olhou a luz que brilha
nos olhos daquelas mãos
que limpam a tua privada?
   
já?
e não morreu de paixão?
1982
(3) E aí tem o autor de poemas que puxam para o erótico - ou talvez melhor: que falam, de modo mais explícito ou menos, do mundo do desejo e do sexo - às vezes de modo seguro de si e atrevido, às vezes lamentoso pela ausência, pelo não correspondido, etc. Para esse foi adotado já faz algum tempo - por razões que eu conto outro dia - o nome Valdo Valente.
Sobre os poemas do Valdo cabem duas observações: uma, que embora muitos deles possam ser lidos em referência a qualquer variante de Eros, o Valdo pensou a maior parte em relação à variante que lhe ressoa mais fundo, a homoerótica - e muitos dos poemas deixam isso explícito.
Algum problema? Ué, se 129 dos 154 sonetos de Shakespeare falam explicitamente de amor entre dois homens, por que é que eu e o Valdo também não podemos falar? - E se há alguma dúvida entre a propriedade de me comparar a Shakespeare, olha aí se eu não posso...

(A foto é de 1981. A da esquerda... ­- Mas, brincadeiras à parte, quem não quiser respeitar o Valdo por causa disso, jogue fora junto, além de Shakespeare, todo García Lorca, Mário de Andrade, o próprio Pessoa, Verlaine, Rimbaud, Michelangelo, a filosofia e literatura dos gregos inteira etc etc etc...)
A segunda observação é que só em parte desses poemas é que o Valdo merece seu sobrenome Valente - aquele que vai à luta e até mesmo celebra conquistas. Alguns outros expressam uma espera tão desesperançada e lamentosa que eu desconfio que são do irmão gêmeo do Valdo: o Covaldo.
Tá, mas chega de prosa. Coloco a seguir mais algumas amostras dos três, inclusive do Valdo e do Covaldo de quem ainda não mostrei... coisa nenhuma. Ah, TODOS OS POEMAS PODEM SER REPRODUZIDOS, DESDE QUE COM O NOME CORRETO DO AUTOR E LINK DA FONTE!
E por hoje é isso aí!





Algumas amostras do RALF

*  *  *

você não conhece a Rose Feijão?
não?!
a mulher do Povo Brasileiro?!
1986

(batendo palmas)

a língua portuguesa
já entrou na menopausa:
não tem mais regras!
não tem mais regras!
1986
*  *  *
é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso.
    a curva e a reta
    o arco e a seta
e principalmente
o gozo.

é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso!
    o pão, o leite
    o leito, a alta
mas principalmente
a falta.
1993
"em parceria com o Valdo"

A FORÇA QUE DOMINOU O MUNDO
EUROPEIDOS
1997 rev.2008

ERROS QUE SÃO ACERTOS
restou a esperança
ou a espernaça?
1997 rev.2008
*  *  *
problemas da juventude?
não acho que a solução seja escó-la
1997 rev.2008
*  *  *
in
    te
        lec
             tu
                 alma
1997

VENTOS DA LIBERDADE
cabelos do oriente
fustigaram meu rosto
ao passar do trem
2006
Da serie Paulistanas,
iniciada em 1982
*  *  *
qual das realidades é a real? qual
dentre as imagens
                           a original?
e sobretudo:
entre todos
                  - qual de mins sou eu?
1985



Algumas amostras do ZÉ
(O primeiro texto é o que deu nascimento ao personagem em 1982. Pretendia ser a introdução a um poema maior, comentando o desaparecimento das Sete Quedas sob as águas da represa de Itaipu, mas foi deixado de lado no ponto em que o próprio Zé ia começar a falar...)

                assim falava zé, filho de mané - embora pouco lhe importando isso, pois todos os humanos de alguém são filhos, e não lhe interessava distinguir-se das mulheres e homens todos desse mundo -
                assim falava zé, cheio de tristeza pelo pouco sol que agora lhe atingia e de ânsias de uma vez mais voar, acima dos obstáculos do corpo da terra, pra melhor vê-la e melhor apaixonar-se,
                cheio de vontade de voar para oeste, sobrevoar cidades onde ‑ sabia ‑ em cada uma haveria um punhado ou pitada ou um só como ele, sempre sonhando vencer o peso do mundo que nos agrilhoa o corpo, sonhando-se tão leves que pudessem entregar de si até a última fibra
                ao amor da terra e de sua pele belíssima, à potência dos raios do irmão-mais-velho, à dança dos sóis e planetas, ao abraço noturno e interior do céu-matriz ou pai que nos unifica,
                e ao amor assim de cada humano, cada um e todos dos humanos, que trazem cada um dentro de si a terra, os astros e o céu também dançando, cada-um pequeno-mundo,
                pois só assim ao se entregar até o seu último terão alguma chance de ganhar-se ou descobrir-se, e de afinar sua dança interna com a dança dos mundos de fora,
                o que permitiria um vento morno atravessar suas almas trazendo aromas macios e coloridos, algo assim que sugerisse mesmo até o que fosse ou que pudesse talvez ser o ser feliz.
(ser feliz...                                ser feliiiiz...)
- dizia o gato -
a senhora já pensou em ser feliz? )
1982


*  *  *
ser vencedor, pra quê?
se já contemplei até
a sombra dos grãos de pó!
1986
um "haikóide"

XPT1

e de Ti, que falarei? e com que nome
que não haja
de sangue sido manchado?

roubaram teu nome, meu mestre,
e como escrever-te um poema
                                  de pura luz?
1986
*  *  *
Grão Cavaleiro da Sagrada Ordem
dos Desordenados
em cidades muradas meu coração não se encaixa
e chácaras cercadas não dão campo a seu galope
ébrio de se escancarar
pra ver as coisas como são.

Rebelde? Bobagem!
Rebelde só se é frente a um padrão
– e quem diz
que é padrão ser prisioneiro?
Rebelde é na verdade quem tem medo
de seguir o Grande Mandamento
que é ser si mesmo
o seu padrão.

Bárbaro,
a esses castigarei brutalmente:
lançarei seus arreios na fogueira
condenando-os a chocante liberdade
sem rótulos nas rotas nem roteiros nas mãos.

Vinde,
vinde tentar me tosquiar,
e saireis aturdidos
com vossas próprias lãs!

2006
Assinado: ZÉ. Profissão:
robinhoodismo filosófico-pedagógico
selvageria intelectual


Amostras do VALDO
*  *  *
    no meu travesseiro
depois de uma viagem
procuro estalagem
encontro teu cheiro.
    meu coração salta
de encontro a teu peito
- ó encontro perfeito
do pleno co'a falta!
    pressinto tuas partes,
tua pele, teus pelos,
parece-me vê-los,
senti-los, tocar-te...
    mas vai-se ligeiro
o estúpido engano:
num corpo de pano,
da alma - nem cheiro!
1987

*  *  *
queria agora alguma coisa apaixonada
como um beijo em tua boca desdentada
1985
*  *  *
Quanto mais me calo, mais
te amo
estou dizendo –
e mais desejo
tua ilusória entrega:
sem entrega
e no entanto assim entregue,
intensa,
e, sem paixão embora,
apaixonada mais
que a de apaixonados tantos.
não, não te chamarei,
pois, se importuno,
não seria amor condigno.
então me calarei.
e assim calando
é que te chamo –
pois quanto mais me calo
mais te amo.
1997 -
esse é possivelmente
do CoVALDO
*  *  *
e se tuas mãos me deslizassem peito abaixo
enquanto eu me elevo
e me ancorassem
a ti
– gêmeas colunas,
mistérios gêmeos –
então
de mim se estenderiam asas
de infinito
e ao, das alturas,
contemplar teu peito aberto
em mergulho de águia
eu
te romperia o invólucro
e dentro em teu coração explodiria
repousado
enfim
em ti
em mim
.

sustenta-me, ah!
sustenta meu vôo
e eu te farei
voar
.
1995

POEMA DA FIDELIDADE MAIS ALTA

te quero companheiro de aventuras!
mas
se te pretendes
resposta final e suficiente
a todos os anseios meus -
que aventura restaria no universo, a perseguir?

ver novos lugares, novas tardes, novos grãos de areia?
mas que podem eles, quando cada humano,
cada um,
é em si um universo inteiro?
cada um com seus pássaros, seus grãos de areia,
seus pores de sol?

te quero um companheiro investigador de universos! e depois -
depois, cansados e ricos do que vimos e provamos,
cada um na sua expedição,
cairmos rindo nos braços um do outro
e em puro gozo
compartilhar o mais que nos tornamos
(... tanto enquanto dois
como enquanto o um que também somos)

vai, vai para o mundo, meu amor, e vive mais!                      
mas volta! pra que eu também possa viver mais
em ti,
e em mim,
e em-ti-em-mim-e-em-mim-em-ti!

vai, vai, meu amor!
e vem.
2007
*  *  *

2 comentários:

  1. oi Ralf! gostei muito de tuas poesias.
    Alias faz muito tempo q gosto de tudo o q vc escreve, e me inspira no meu dia a dia e no meu trabalho.
    Nem sei se vc lembra de nós, mas a associação de mulheres aqui do pará, q nasceu qdo lemos a filosofia toda da Trópis, já tem 4 anos e agora somos "legais" (antes tb éramos...)
    vou ler as poesias para as meninas. um beijão!

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  2. Muito feliz com isso, Antonella! Você nem imagina o quanto!

    Acho que a necessidade de "desencaixotar" minha poesia surgiu pra contrabalançar o fato de que estava trabalhando só com textos teóricos... E chega uma hora em que o esforço da formulação teórica parece que seca a alma, suga tudo dela, ameaça matar... Aí o trabalho empacou, e deu uma vontade doida de fazer uma temporada mais pelo coração...

    E que as DUAS coisas, a teoria & a poesia, possam ser úteis numa situação como a do seu trabalho aí na Amazônia... isso traz uma alegria emocionada que dá um arrepio da cabeça aos pés, rsrs

    Então eu agradeço DE CORAÇÃO mesmo que você tenha tido a iniciativa de se manifestar!

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