Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

19 maio 2010

do Guardian hoje: 'dá quase pra sentir o poder escapando do Ocidente'

Luis Nassif escreveu hoje: "A ofensiva do Itamaraty, no episódio do Irã, é um divisor de água na ordem mundial do pós-guerra." Não é balela. Dá pra ver que ele conhece e entende a história contemporânea. Falta ainda fazer relação com o desafio ativo chamado PNAC (Plan for a New American Century), mas isso fica pra mais adiante. É preciso parar pra olhar como o mundo hoje não é o mesmo de há três dias, e ainda não entende bem como: os jornais dos EUA foram unânimes em ironizar o acordo Brasil-Turquia-Irã, mas seus leitores praticamente unânimes em criticar Hillary e o jornal e apoiar o nosso acordo! (Ver p.ex., em inglês: http://bit.ly/ab49SQ ). Deixo vocês com um novo e impressionante artigo do The Guardian que acabo de traduzir (reparem nas últimas frases!); depois conversamos mais!

O acordo nuclear do Irã e a nova primeira divisão de potências globais

Brasil e Turquia estão determinados a ir atrás de diplomacia e acordo - mesmo que isso signifique enfurecer Washington



Simon Tisdall -The Guardian
Original em
http://bit.ly/d81uP9
Quarta-feira 19 de maio de 2010, 16:59 BST

Tradução:
Ralf Rickli, 19.10.2010, 21:39 BST

A furiosa contenda entre a administração Obama e os líderes do Brasil e da Turquia sobre a melhor forma de lidar com as ambições nucleares do Irã, na sequência da controversa negociação de troca de urânio desta semana em Teerã, reflete um desacordo mais fundamental e crescente sobre como o mundo deve ser regido no século 21.


Quanto ao Irã, como em outras questões que considera fundamentais para a sua segurança e interesses nacionais, Washington espera que as coisas saiam do jeito que quer - e está acostumada a conseguir. Está sempre pronta a impor a sua vontade quando necessário. Foi isso que a Secretária de Estado, Hillary Clinton, tentou fazer esta semana colocando
o Conselho de Segurança das Nações Unidas na linha no chicote.


Brasil e Turquia, dois membros com liderança em uma nova primeira divisão de potências mundiais emergentes, têm uma abordagem bem diferente. Eles dão ênfase à persuasão e ao acordo. No caso do Irã, em vez de ultimatos, prazos e sanções, eles preferem o diálogo - o que é facilitado pelo fato de que nenhum desses países se sente ameaçado por Teerã.


Lula da Silva, o popular presidente do Brasil, tipifica essa perspectiva. No início deste ano ele advertiu Hillary Clinton com franqueza de que "não seria prudente acuar o Irã num canto". De modo mais geral, Lula tem lutado pela causa dos países emergentes, desafiou os pressupostos do mundo rico na Cúpula Climática de Copenhaguen, e os EUA quanto a Cuba e a Hugo Chávez.


Lula fala por um mundo que se formou à imagem do Ocidente, mas está rejeitando cada vez mais a sua tutela e suas ideias. A China e a Índia são os membros mais avançados desse grupo, mas a prioridade mais urgente de seus líderes é desenvolver a potência econômica dos seus países. No mais das vezes Pequim evita conflitos abertos com os estadunidenses e seus aliados da Europa Ocidental. Virá o tempo em que isso vai mudar - mas ainda não é agora.


Reagindo com irritação à sugestão implícita de Hillary Clinton, de que o Brasil teria de alguma forma sido "enrolado" pelos astuciosos iranianos para se envolver na questão do urânio, Maria Luiza Ribeiro Viotti, a embaixadora do Brasil na ONU, disse que o Brasil não cooperará com discussões no Conselho de Segurança convocadas pelos EUA, sobre uma nova resolução [contra o Irã]. E sem unanimidade no Conselho, novas sanções têm ainda menos chance de serem honradas ou efetivamente implementadas do que já é o caso agora.


O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, também advertiu Washington de que deveria pensar de novo sobre a questão. "Nós temos uma chance de alcançar uma solução pacífica, negociada, [com o Irã]. Aqueles que descartam essa possibilidade, ou que pensam que são sanções ou outras medidas o que nos aproximará, terão que assumir a responsabilidade por isso." A robustez dessa linguagem é uma expressão eloqüente da mudança na dinâmica de poder entre a antiga superpotência e seus novos rivais.


Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, e, como Lula, o líder de uma potência regional emergente, tem um interesse mais direto no que acontece no Irã. Os dois países têm uma fronteira comum e uma crença comum de que o Oriente Médio tem visto interferência demais de potências estrangeiras. Ancara não quer um Irã com armas nucleares mais do que quer um Israel com armas nucleares. Na verdade, busca esvaziar a região de todas as armas de destruição em massa.


Mas Erdogan está cada vez mais resistente ao modo de agir dos EUA, seja fechar os olhos à depredação de Gaza por Israel, dar aulas à Turquia sobre a história da Armênia, ou manter padrões duplos quanto a armas nucleares. Como a maioria dos turcos, Erdogan se opôs à invasão do Iraque. Ele conduziu uma aproximação com a Síria, outro bicho-de-sete-cabeças para os estadunidenses. E esta semana sugeriu que Washington estava se comportando com arrogância ao fazer pouco do acordo com o Irã. "Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou a lei dos supremos e superiores", disse ele. "Enquanto os EUA ainda têm armas nucleares, de onde eles tiram a credibilidade para pedir a outros países que não tenham?" No entanto, apesar de sua óbvia irritação, Erdogan deu resposta às críticas de Clinton de que o cronograma para a troca de urânio era "sem forma": disse que se espera que o Irã cumpra a sua parte do acordo no prazo de um mês, ou então "ficará por sua própria conta".

Ahmet Davutoglu, Ministro das Relações Exteriores da Turquia, deixou clara a oposição de Ancara a novas sanções - e que não estava preocupado com deixar os americanos irritados. "Nós não queremos novas sanções em nossa região porque isso afeta a nossa economia, afeta as nossas políticas de energia, afeta as nossas relações com a nossa vizinhança", disse ele. E sem a cooperação turca, haverá dificuldade para que quaisquer novas medidas tenham impacto.


Aliás, o caso pode ser esse qualquer maneira. No furor se está deixando de ver que, graças à rígida oposição da Rússia e da China, as novas sanções propostas serão bastante fracas mesmo se forem aprovadas como aparecem no esboço. Não será nada do "pacote paralizante" prometido por Hillary Clinton: consiste em grande parte de medidas voluntárias ou não condicionantes, e não terá afetará as vendas de petróleo e gás do Iran, sua principal fonte de renda.


Complementarmente, são esperadas medidas mais duras da parte da União Europeia mais à frente, e países como os EUA e o Reino Unido podem tomar medidas adicionais unilaterais. Assim, é provável que aquilo que os EUA gostariam de apresentar como a frente unida da comunidade internacional contra o Irã termine se reduzindo a uma coalizão estreita de interessados, envolvendo apenas Washington e alguns estados da Europa Ocidental.


O simbolicamente significativo experimento desta semana, de Brasil e Turquia fazerem as coisas de modo diferente, e as divisões que foram expostas pela contenda que se seguiu, sugere que a já frágil arquitetura tradicional de segurança internacional, mantida e policiada por uns poucos países auto-nomeados, não pode mais se manter por muito tempo. O poder está indo embora do Ocidente. Dá quase para senti-lo escapando.

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