Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

02 dezembro 2009

Re: PARADOXO EVANGÉLICO ou (infelizmente) APENAS UMA VARIAÇÃO DA REGRA DE SEMPRE?

Recebi do amigo Chico Lobo (não sei se redigido por ele ou repassado de outro) o texto que transcrevo inteiro abaixo, e depois passo a comentar:
 


PARADOXO EVANGÉLICO

Pastor Deputado ora agradecendo a "propina nossa de cada dia"...


É MUITA CARA DE PAU!!! ao mesmo tempo que confirmamos o brutal equívoco dos pastores evangélicos seguidores da famigerada "Teologia da Prosperidade" e seus estranhos (e nada honestos) conceitos de bençãos.


Assista  o vídeo de deputado distrital do DF, Rubens Brunelli, fazendo uma oração 


http://tvig.ig.com.br/193183/oracao-apos-receber-dinheiro.htm 

 

Eis o texto transcrito de sua oração:


"Somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares."

 

Nosso parecer:

-Fuja daquele que supostamente "em nome de Deus", venha lhe pedir dinheiro ou voto para eleger-se a cargo político, pois com certeza, quem usa do nome de Deus para angariar riquesas ou poderes, não merece sequer ser lembrados na história da humanidade.

 


 
Antes de mais nada, apesar de não duvidar de que a corrupção grasse solta por aí, quero sugerir certo cuidado com nossos "vereditos": o Lula está certíssimo ao dizer que "imagens não falam por si". Muita gente já foi morta por parecer, visivelmente, estar sacando uma arma quando estava, digamos, ajeitando as calças. Então realmente é preciso que todos os lados tenham sido amplamente ouvidos antes de se afirmar que o que estava acontecendo ali era isto ou era aquilo.
 
Mas depois deste relativo atenuante quero é agravar a acusação:
 
Por quê damos tanta atenção à apropriação indébita explícita dos atos que batizamos de corrupção?
 
O motor central do sistema capitalista é apropriação indébita. A cada salário que é pago, o pagador está descontando significativa parte do que o trabalhador produziu, mais ou menos como prêmio a si mesmo por organizar e manter o sistema.
 
Esse roubo se expressa na imposição unilateral de quanto vale a hora de trabalho de cada um: o patrão define sozinho quanto vale a hora de trabalho de um trabalhador e quanto vale a sua - que, aliás, nem sempre é exatamente de trabalho. (Ou seja: admito que muitas vezes o patrão trabalha pesado sim; mas a hora que bem entende ele pode oferecer um luxuoso dolce far niente [doce fazer nada] à sua familiagem ou a si mesmo).
 
Enfim: sistema capitalista é roubo implícito o tempo todo... e os evangélicos nunca tiveram nenhum problema com esse sistema! Ao contrário, Max Weber mostra que foi o modo de pensar evangélico que permitiu o desenvolvimento do capitalismo.
 
Pois o evangélico investe fortemente num elemento judeu repassado ao cristianismo: a idéia de que o Deus supremo do Universo seja capaz de escolher um grupinho de humanos como seu querido, desprezando o resto da humanidade.
 
Esse Deus agracia especialmente quem mais lhe leve presentes e mais lhe puxe o saco - o que é a tradução popular da palavra "louvor". Ou seja: cultuam precisamente a imagem (mesmo se mental) do Corrupto-Mor.  (Atenção, não estou dizendo que Deus é assim! Estou dizendo que se há alguém que mereça ser chamado de Deus, não será assim).
 
Finalmente, talvez uma das maiores funções da religião até hoje tenha sido produzir legitimações imaginárias para o ilegítimo, propondo ou impondo uma outra ética baseada numa "revelação" que alguns poucos tiveram, no lugar da "ética natural" (se eu posso me expressar assim), que é simplesmente o respeito a qualquer outro como "um outro eu" de igual dignidade e direito.
 
Assim, a religião legitimou que se entegassem milhões de pessoas à espada ou à fogueira, com apropriação dos seus bens, porque se tratava de uma guerra em nome de Deus (cruzadas, inquisição, conquista das Américas). E os que procedem assim sempre se julgam guerreiros, guiados por uma ética de guerra: se uma apropriação é em favor "dos fiéis" ela será por definição considerada legítima, pois "os fiéis" estariam a serviço de uma (suposta) causa maior, cuja grandeza e importância é tamanha que diante dela as leis e razões dos outros viram pó.
 
Não duvidem, então, que o pastor da oração que aparece no vídeo estivesse sendo sincero. Sentindo-se um "combatente do bom combate". Ou seja: não o julguem um monstro de cinismo.
 
Mas sinceridade nunca disse nada sobre legitimidade. Hitler era absolutamente sincero; acreditava mesmo no que dizia. Mas isso não é bastante para legitimar os seus atos. Não era um monstro de cinismo, era um monstro de convicção - um tipo ainda mais perigoso de monstro, porque mais sólido.
 
Recentemente escrevi o seguinte, num trabalho dirigido a pessoas que apostam na expressão Arte da Paz, mas buscam embasar a construção da paz em conhecimentos rotulados de "espirituais": "A paz nunca vai acontecer enquanto seres humanos não assumirem a responsabilidade integral de seus atos uns para com os outros, sem buscar justificações em instâncias a que o outro não tem acesso."
 
Isso não diz nada quanto a "o outro lado" existir ou não: quanto a isso, cada um que acredite no que quiser - mas só até o ponto em que isso não começar a servir como desculpa para ações prejudiciais aos colegas de humanidade.
 
Passou disso, é pretexto - seja da variante cínica, seja da sincera, ou seja: de quem se convenceu a si mesmo da própria mentira para começar.

3 comentários:

  1. então podemos supor que o cerne da questão seja o acreditar versus o legítimo. e sobre isso acima a distinção de até onde é crédito/fé e real.

    já é velha a questão de que Religiosidade e Política não devem andar juntas sob um plano democrático: é impossível justamente pela crença religiosa como é até os dias de hoje não poder aceitar a flexibilidade da multiplicidade do indivíduo - ser evangélico e budista pelo mesmo templo é querer que um bêbado possa operar máquinas de corte... [risos] que dirá assumir postura política de que o homem não é Deus, logo a fé no mesmo pode e deve ser questionada - e interceder sobre um fato de fé como verdade é tão justo quanto um indivíduo alegar não conhecer as leis perante um tribunal, e todos sabemos que mesmo sendo verdade, isos nunca é um argumento válido perante a lei.

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  2. Achei que tinha deixado claro que não estava discutindo a verdade nem a natureza dos fatos de fé - mas apenas o nosso (não) direito de aplicá-los à vida social. E essa não é uma posição tomada em abstrato, e sim pq uma mundo tem sido uma bela m* desde que temos registro - e a aplicação dos fatos de fé à vida social é uma das principais causas dessa m* crônica, que nada tem de nova. Deixar de aplicá-los é que é novo, e responde por muito do que há de melhor no momento atual em relação ao passado.

    Mas é claro que isso é uma loooonga história. Assunto para livros, e não para ser decidido em scraps num blog... :-)

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  3. poisé isso mesmo que penso, deixemos de lado as crenças, deuses e afins e tratemos o homem pelo homem, sem churumelas, depois, quem quiser que acredite no que quiser, mas que isso não possa ter valor nas decisões sociais

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