Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

10 outubro 2014

O MOMENTO POLÍTICO BRASILEIRO E A "CONTRARREVOLUÇÃO PATRIARCAL" DE MARCUSE E FREUD




Esses dias resolvi ler a sério um livro que tenho “bicado” desde a juventude: Eros e Civilização, de Herbert Marcuse - sujeito que executou a proeza de mostrar como as teorias de Freud e de Marx se articulam. Quase um ídolo nos anos 60 e 70, nunca foi superado, apenas injustamente esquecido no rescaldo da onda neoliberal.

No capítulo 3, tio Herbie tenta explicitar os sentidos da teoria apresentada por Freud em forma simbólica, como um mito, sobre a derrubada de uma tirania patriarcal primordial e o que teria vindo depois. E lá topei com o seguinte - levemente adaptado pra facilitar a leitura - e aqui peço a vocês que não se ponham a julgar por esse parágrafo isolado uma ideia que é discutida através de um livro inteiro. Sugiro que “aceitem experimentalmente” pelo menos por uns momentos, para entender o impacto que isso me causou agora, neste outubro de 2014:

“Na hipótese de Freud, parece essencial que, na sequência do desenvolvimento rumo à civilização, um despotismo patriarcal primordial tenha vindo antes do período matriarcal. Estão tradicionalmente associados ao matriarcado um baixo grau de dominação repressiva e uma amplitude de liberdade erótica. Na hipótese de Freud, estas nos aparecem mais como consequências da derrubada do despotismo patriarcal, do que como condições “naturais” de origem. No desenvolvimento da civilização, a liberdade só se torna possível como libertação. A liberdade vem depois da dominação - e termina conduzindo à reafirmação da dominação. O matriarcado é substituído por uma contrarrevolução patriarcal, e esta última é estabilizada mediante a institucionalização da religião.”

Deu calafrio. Lembrei de imediato das gestões petistas de Luíza Erundina e de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Foram sem dúvida as melhores gestões municipais de toda a história de São Paulo - pelo menos antes de Haddad. A qualidade de vida deu um salto, e a vida cultural entrou em ebulição. Apesar disso, nenhuma das duas foi reeleita, e as duas foram sucedidas por dois pares de cafajestes - Paulo Maluf/Celso Pitta e José Serra/Gilberto Kassab - que rebaixaram de imediato as políticas sociais e a qualidade de vida, e calaram toda efervescência cultural numa espécie de noite gélida e silenciosa.

E agora temos novamente uma mulher, de esquerda, tentando a reeleição ao final de uma gestão que o mundo inteiro reconhece como extraordinária.  
 
E daí? Isso é bastante para falar de “contrarrevolução patriarcal”?

Acontece que não estou pensando apenas em Aécio Neves. Há tempos eu vinha observando que o tradicional clamor “em defesa da família” não significa defesa de uma comunidade familiar internamente democrática, e sim defesa da restauração do poder absoluto do pai dentro dela. “O macho adulto branco sempre no comando”, como cantou (ou antes gemeu) Caetano Veloso. Esse clamor sobe e desce de tempos em tempos - e a atual onda começou precisamente na época da campanha de Dilma em 2010. (Não deixem de reparar, a propósito na menção de Freud/Marcuse ao papel da religião).

Aí em setembro de 2014 temos uma campanha em que as grandes estrelas foram três mulheres (o homem que conseguiu maior ressonância não foi na condição de estrela e sim de buraco negro, eu diria...). Uma das mulheres com intensa presença simbólica, as duas outras claramente previsíveis como as competidoras na batalha final.  Até a véspera. E aí, de modo absolutamente imprevisível, uma das competidoras cai, e o macho que ela vinha deixando longe atrás desde sua entrada na competição aparece, de repente, já na cola da competidora que vinha na dianteira - num salto tão improvável, tão “fora da curva”, que jamais poderá deixar de levantar suspeitas sobre a lisura do processo - ainda se houver acontecido a limpo mesmo. (Se uma das eleições mais decisivas da história do país considerado mais importante do mundo foi ganha em fraude com participação ativa do judiciário, há apenas 14 anos, quem dirá que fraude neste caso é impossível?)

O mais estranho é que no mesmo momento entra em campo todo um coro e gigantesca legião de figurantes louvando o candidato macho - que ainda há uns dias era tratado como uma piada de mau gosto por muitos dos que de repente apareceram cantando no coro - e com tal “música” e “coreografia” que evidentemente não se preparam em um dia.

A questão era apenas derrubar Dilma? Marina tinha sido o tempo todo a única candidatura a lhe representar ameaça. Mas ao que parece - voltando a Freud e Marcuse - a substituição de uma “deusa” por outra não traria o mesmo sabor sadomasoquista da restauração da dominação por um “deus” macho.

Ouvi de um amigo de Governador Valadares que neste dia 9 a cidade foi percorrida por um “triunfo romano”: uma carreata não em tom de campanha, e sim já de celebração de vitória de Aécio Neves. Eu não estava lá e não perguntei, mas conheço o suficiente os interiores do Brasil para ter certeza de quem estava lá: patriarcas rurais e seus sucessores em preparação, o empresariado urbano, a elite dos “profissionais liberais” e dos “homens públicos” profissionais. Em resumo: os “homens de bens” - os quais costumam se definir como “homens de bem” quando via-de-regra não são nada do que isso possa significar literalmente. E não será surpresa nenhuma se essas ações tiverem sido combinadas em espaços maçônicos, e não nos espaços partidários abertos aos comuns dos mortais.

Aécio os representa não por qualquer capacidade, virtude ou realização própria: ele é um membro da classe com chances de vir a ocupar o posto individualmente mais decisivo do Estado, e isso basta. Naturalmente, “classe” aqui não se mede apenas em termos de patrimônio econômico: sejam quais for suas deficiências, quem está ali é o neto de Tancredo Neves, por sua vez neto de José Juvêncio das Neves, e este neto do Alferes José Antônio das Neves, nascido ainda no século 18 num lugar cujo ressonante nome a biografia de Tancredo faz questão de mencionar: “Angra do Heroísmo”. Virtuoso ou não, um herdeiro da condição “natural” de patriarca.
 
Pelo que se viu nestes poucos dias, não hesito em dizer que eles aguardam o segundo turno como mera formalidade para uma entronização que eles já decidiram a seu modo. Ou, em outras palavras: já deram o golpe.

E isso significa: se apesar da manipulação pela mídia e pela a irmandade Judiciário & Ministério Público (e falo aqui não das suspeitas mas apenas de seus atos públicos, oficiais, do mais deslavado contrapartidarismo  - “contra” porque o que os une é apenas serem todos contra o PT), e ainda da “torcida” estrangeira (que tem razões para ser de novo muito concretamente participativa, como já foi no passado)...

... o PT e sua militância conseguirem garantir que no dia 26 seja anunciado um número que dê vitória à nossa Dilma - ainda assim podemos nos preparar para novas batalhas, provocadas por essa gente, para fazer valer a eleição de Dilma. Entre outras coisas, não é de duvidar que o inverno de 2013 tenha sido uma espécie de ensaio.

E isso tudo acontece, espantosamente, no momento de maior prosperidade e bem-estar na história do país!

Espero com todas as minhas forças que eu esteja enganado - mas sei que não é nada impossível que não esteja.

Deixemos para depois de dia 26, discutir o erro que foi não ter cerceado a liberdade de conspirar contra a democracia - o que, obviamente, NÃO pode fazer parte do rol das liberdades democráticas - e isso sem nem ao menos tentar criar algum veículo de educação política da população, que atuasse no sentido contrário da manipulação pela “imprenstituta”.

Me pergunto se ajudarão agora invocações a todas as deidades femininas do universo - e por via das dúvidas, sugiro: quem é disso, que comece a invocar!

Isso, é claro, enquanto continuamos firmes da nossa militância por todos os meios virtuais e materiais!

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