Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

13 outubro 2008

Ressonâncias em torno do filme Zeitgeit e DA NATUREZA DO DINHEIRO (corrigido)

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Amig@s
 
Como vcs sabem, ontem na Trópis assistimos o filme Zeitgeist e depois conversamos até mais de meia-noite. Compartilho aqui algumas informações & idéias adicionais em torno da temática do filme, sem me restringir ao que emergiu ontem. Vai primeiro uma dica sobre a Parte II do filme, mas minha ênfase aqui é o tema da Parte III (economia, ou mais precisamente finanças). 
 
11 de Setembro como "novo Pearl Harbour" / terrorismo de estado
O grupo que colocou Bush no poder publicou em 1997 o PNAC (Project for a New American Century - "projeto para um novo século americano"). Embora haja pouca coisa em português sobre isso, há um artigo do historiador e cientista político Moniz Bandeira, acima da média de qualidade do próprio material em inglês: http://www.espacoacademico.com.br/023/23bandeira.htm .
 
Há também alguma coisa no CMI, em http://brazil.indymedia.org/pt/blue/2003/04/253537.shtml . Em inglês há informações básicas na Wikipedia, em http://en.wikipedia.org/wiki/Project_for_the_New_American_Century .
 
Uma informação que não encontrei em nenhuma dessas fontes: embora publicado um ano antes do PNAC (em 1996), o livro O Choque das Civilizações, de Samuel Huntington, já seria parte do projeto de poder desse grupo. Ouvi essa informação traduzindo palestra de Christopher Schaefer, que antes de virar consultor organizacional de linha antroposófica foi aluno e professor de Ciência Política no MIT (Massachussets Institute of Technology), onde foi aluno de ninguém menos que Henry Kissinger (o 'Condoleeza Rice' de Richard Nixon e provavelmente o principal responsável pela Guerra do Vietnã).
Natureza do dinheiro
Embora permeeie toda a nossa vida, apreender a natureza do dinheiro é dos maiores desafios com que a mente humana se defronta. Não sou economista, mas meu conhecimento alcança para me dar a certeza de que nenhuma das caracterizações existentes dá conta desse assunto sozinha. P.ex., as concepções de Marx são fundamentais, mas de nenhum modo enecerram o assunto - nem creio que Marx acreditasse que pudessem encerrá-lo.
 
Aqui, como nos demais campos, considero que nada é mais enriquecedor que tentar desenvolver conceitos a partir da observação e análise mental próprias, como se ninguém tivesse escrito sobre o assunto antes - e depois comparar os resultados com as idéias já consagradas por aí. (Essa é uma das razões por que eu gostaria tanto que pessoas com formação em economia viessem participar dos nossos debates: para contribuírem com esse esforço de comparação!)
 
Quanto às idéias que andam por aí:
Coincidiu que, enquanto discutíamos ontem, sem nem saber disso o amigo Thomas Ufer enviou link para uma animação de 47 minutos realizada pelo canadense Paul Grignon, chamada Money as Debt ('dinheiro como dívida'), disponível na net em inglês (infelizmente sem legendas). Encontra-se em http://video.google.com/videoplay?docid=-9050474362583451279 . Até agora só pude dar uma olhada por cima, mas percebi que cita muitos fatos, personagens e falas também presentes na Parte III do Zeitgeist.
O título "Dinheiro como dívida" me lembrou das diversas palestras que o economista inglês Christopher Houghton Budd deu no Brasil entre 1998 a 2004, das quais fui o tradutor. O Christopher dizia que começamos a entender que dinheiro é crédito: = um valor que emerge do que ainda não existe mas está como que sendo gestado = que vem como do futuro. Aí tenho que me perguntar se dívida e crédito se referem à mesma coisa, vista por um lado ou pelo outro - ou se há implicações mais complexas na escolha dessas diferentes palavras.
 
Mencionei essa dúvida ao Thomas Ufer, e a primeira impressão dele foi a seguinte: "diria que é a mesma coisa sim, só que a palavra 'crédito' põe um olhar mais "maquiado" na história. Parece que a descrição que você trouxe tenta mascarar o fato que o dinheiro não existe, com o fato de que ele possa vir a existir. :-) " Curioso que de todas aquelas palestras (e de uma considerável correspondência pessoal em que ele sempre se esquivou de responder minhas colocações e perguntas de frente), foi justamente essa a impressão que me ficou do Christopher Budd: um maquiador.

Quanto às minhas reflexões próprias:
Lamento não ter conhecimento operacional de matemática avançada para poder demonstrar uma coisa de que 'o olho da mente' vem suspeitando já há um bom tempo, auxiliado pelo 'espírito geral' da estatística e de coisas como as Leis dos Grandes Números, cuja natureza sou capaz de apreender embora não saiba operar com elas: se cada pessoa produzisse o que pode e entregasse aos outros sem pedir no ato nenhuma compensação nem promessa de compensação, mas ao mesmo tempo também pudesse pegar tudo de que precisa (ou solicitar a execução de serviços de que precisa) sem ter que dar no ato nenhuma compensação nem promessa de compensação, no conjunto da sociedade terminaria tudo 'elas por elas': todos teriam o que precisam sem que fosse preciso empregar nenhum meio de contabilização e de compensação de débitos e créditos (que é alegadamente para que o dinheiro serve).
Me pergunto antes de mais nada se isso corresponde à visão que Marx tinha de um comunismo já plenamente realizado - e noto que alguns amigos que estudam a área já me disseram que não sabiam responder!
 
Segundo, noto que isso só funcionaria se ninguém pegasse mais do que precisa - e então (mais uma vez alegadamente) o dinheiro (= contabilização) teria uma missão distributiva - e menos de distribuir os bens do que de distribuir as faltas, as insuficiências que existam dentro do sistema.
 
Acontece que o dinheiro não discrimina suficientemente o que é que ele está contabilizando - talvez justamente porque as regras de contabilização não tenham sido concebidas e estabelecidas por todos em conjunto, mas concebidas por uma parte da humanidade e imposta a outra parte sem que esta última sequer chegasse a entendâ-las. E, com isso, seu uso acaba permitindo precisamente o oposto da distribuição das insuficiências inevitáveis: acaba permitindo a geração, em acréscimo, de insuficiências artificiais (reverso da concentração, em algumas mãos, de bens que na realidade não estão em falta no sistema como um todo).

Pró-capitalistas alegarão que a concentração surge como resultado de mérito - mas, olhando bem, o único 'mérito' que permite a concentração é a esperteza, enquanto que qualquer coisa que merecesse o nome de mérito num sentido ético levaria o sujeito que acumula a não acumular apesar de ter nas mãos a possibilidade de fazê-lo.

O que o dinheiro acaba sendo na prática, hoje, independe totalmente de ele haver sido projetado para isto ou para aquilo, e independe inclusive do fato de ele ter alguma existência real ou ser puramente imaginário: ele terminou sendo precisamente uma quantificação da diferença. Diferença de quê? Diferença de poder. Poder de quê? De impor a própria vontade a outros, neutralizando as vontades próprias desses outros.
 
É mais sutil do que parece: não estou dizendo que o dinheiro gera a diferença, mas que seu valor advém todo do fato de existir a diferença - diferença que só veio a existir por ser imposta pela força e/ou pela exploração da ignorância do outro.
 
Não está claro? É o seguinte: se todos tivessem a mesma quantidade de dinheiro, o dinheiro não valeria NADA, pois não compraria nada de ninguém. Ninguém entregaria nada se não por vontade própria.
 
E o mais problemático: ninguém recolheria o lixo nem lavaria privadas dos outros... se não por vontade própria!
 
Isso me leva de volta a uma idéia com que me bato desde 1980: dinheiro é uma tentativa de lidar com o que a filosofia da Índia (não a religião) chama de carma: as conseqüências das ações. Mas sobretudo as conseqüências indesejáveis das ações: os 'rabos' chatos das ações, que ninguém gosta de fazer: lavar a louça, dar um jeito no lixo ou na bosta. Ou seja: o dinheiro está menos ligado a processos de criação e/ou produção que a tentativas de se livrar do trabalho não-criativo e não obstante necessário: os trabalhos de manutenção, recuperação, descarte final, etc. -
 
... mas também das partes mais desagradáveis dos processos criativos (atividade repetitiva, fisicamente pesada etc). É uma forma de fazer com que alguém faça os trabalhos que ninguém quer fazer - ou, em suma: uma forma de escravizar.
 
Resumo da ópera:
 
1) Não me parece exato dizer que dinheiro não existe: ele é apenas a documentação de desigualidades de poder que existem, e instrumento para a mantuenção e reforço dessas desigualdades, embora não lhes seja causa. Podemos abolir o dinheiro como conhecemos hoje, mas, enquanto deixarmos que existam desigualdade de poder, a essência do dinheiro continuará em existência, e mais cedo ou mais tarde encontrará novas formas de expressão sistematizada.
 
2) Acabamos de dizer que dinheiro sempre significará opressão - já que no momento em que não houver opressão o dinheiro já não terá valor, automaticamente. Mas ao mesmo tempo admitimos que sem o dinheiro/opressão a civilização entrará em colapso... a menos que se invente um jeito efetivamente não-opressivo de lidar com os trabalhos indesejados porém indispensáveis à existência de civilização.
 
3) Esperar que as pessoas assumam voluntariamente suas cotas de trabalhos indesejados - isso é de fato, como tantos dizem, contar com que sejamos anjos, e não meros humanos... Então é óbvio que não tenho 'soluções garantidas' a propor. Mas aposto que o ponto-raiz dos problemas inter-humanos está suficientemente identificado. Tentar localizá-lo em outras frentes é sempre desconversar...
 
4) Restam portanto apenas o resignar-se ou compactuar com que a existência seja sinônimo de opressão, ou de outro lado a aposta no 'potencial angélico' do ser humano - ou melhor: no seu potencial de ser propriamente humano por primeira vez, o que significa "evoluir para sentir-se responsável por um 'nós' que inclui a todos, e não apenas por 'eu' ou por um 'nós' que deixe alguém de fora."
 
E, enfim, não tem sido outro o tema, desde sempre, do que gosto de chamar de Filosofia e Pedagogia do Convívio...
Link do filme Zeigeist (repetindo)
O site oficial do filme (e de sua seqüência Zeitgeist: Adendum, que ainda não assisti) é http://www.zeitgeistmovie.com/ .  Para ir direto ao filme com legendas em português (de Portugal), é http://video.google.com/videoplay?docid=-2282183016528882906 – isso para assistir.
Para download, há um outro link no site, é só procurar.
 
Uma curiosidade sobre como o filme veio parar nas nossas mãos: o pessoal nosso que participou da campanha da Mari Almeida, com o lema "Outra Política", entregou o "cyber-panfleto" (DVD) a uma pessoa no centro de São Paulo, e essa pessoa disse: "legal, vou retribuir com outro DVD" - e entregou o Zeitgeist. Pra que melhor?? :-D
Abraços a tod@s,
Ralf
 
Pluralismo Radical: a revolução da revolução • www.tropis.org

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