Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

16 março 2008

postagem reflexivo-poética de um fim-de-verão gelado

Revendo a poesia de anos passados me vem certa impressão de que existe uma melancolia própria do mês de março, que eu ainda não havia associado claramente com o mês.
Ou será que já? Talvez tenha a ver com o "espírito de quaresma". E nem sei como é que a tal quaresma pode ter "pegado" no Hemisfério Norte, pois me parece uma coisa bem própria do ciclo do ano aqui, no Hemisfério Sul:
... depois de um semestre de escalada crescentemente frenética, lá pelo Natal se havia alcançado um platô, um patamar ao sol - às vezes até à beira d'água - para finalmente desfrutar um pouquinho do que a vida no Planeta Terra também pode ter de bom: o verão!
Isso dura até a época Carnaval, cujo nome não por acaso costuma ser interpretado como "adeus à carne" (mesmo que a verdadeira origem provavelmente seja outra).
Aí a quaresma: quarenta dias (número que no simbolismo antigo se refere sempre à um período de expiação do passado e preparação para outra fase) para ir se conformando com o fato de que o verão não dura mesmo para sempre, e que estamos começando mais um ano de dura batalha...
Para culminar, vem a sexta-feira que a tradição reservou oficialmente para se morrer de paixão - no sentido mineiro e latino (romano) da palavra: padecimento, agonia.
E aí no terceiro dia deve vir a festa da ressureição da vida - mas, estranhamente, isso só parece caber direito nesta época no Hemisfério Norte: afinal lá é começo de primavera, gelo quebrando, flores brotando do chão por entre a neve que derrete...
E aqui, a gente, como fica? Haja força para celebrar ressurreição quando se entende que agora o verão acabou mesmo e que, no mais das vezes, nas nossas vidas não resta mais que baixar a cabeça e trabalhar... pra pagar as contas que o verão deixou!
Como celebrar uma Páscoa por aqui? Pra mim, pelo menos, definitivamente não é terminando de arruinar o fígado com um monte de chocolate, para alegria dos supermercados e das farmácias, e para uma ranzinzice ainda maior no meio do trampo do dia seguinte. Sei lá, acho que por aqui podemos celebrar a Páscoa no máximo como uma festa de esperança... de afirmação de que apostamos que a vida ainda vai ressuscitar, sim, lá mais adiante... mas sem mentirmos pra nós mesmos que já estamos saltitantes de alegria...


*
No fim de março de dois anos atrás eu estava morando sozinho na cidade de Praia Grande - mais à beira do brejo que da praia, é bom esclarecer - em um galpão bastante charmoso que um ano e meio antes os jovens do movimento Trópis haviam erguido com as próprias mãos. Mas todos os nossos projetos por lá haviam dado pra trás. Todo mundo tinha vindo embora pra São Paulo.
As chuvas do fim do verão tinham enxarcado muito daquela construção que desde o início se pretendia provisória; paredes de placa OSB apodreciam com lindas flores de fungos brancos; roupas e livros preciosos apareciam manchados para sempre de um mofo preto que parece ser especialidade do litoral, depois de enxarcados por goteiras discretíssimas que eu nem tinha chegado a perceber; devastadores buracos de cupim apareceram no velho e querido piano Bechstein. Não havia quem ajudasse, e nem adiantava tentar arrumar, pois os proprietários do terreno já haviam avisado que não renovariam o comodato, e que em agosto teríamos que cair fora de lá.
Foi no meio disso tudo que escrevi o que creio ser um dos poemas mais desalentados da minha vida... que resolvo compartilhar aqui, neste março sem goteiras mas em que o mofo parece ter tomado conta dos ossos por conta do verão mais broxa dos meus 51 anos de existência, pródigo em dias chuvosos e frios, cujos dias exuberantes e de calor puderam se contar nos dedos das mãos...
Voltando a 2006, seis meses depois (na boca da primavera...) escrevi um poema bem diferente - que assumia o "ponto zero" com orgulho e como possibilidade do começo de algo novo mais autêntico, sonhado e construído com menos ilusões...  Mas esse outro poema vai ser objeto de outra postagem mais à frente, já um tanto pensada mas ainda não amadurecida.

*
Por agora, antes de passar ao poema e sair, quero mencionar um livro fantástico que descobri há poucos dias, e que no fundo tem a ver com isso tudo. Deixo claro que não concordo com o autor em tudo, principalmente em seus textos mais recentes. Mas ainda assim não posso deixar de tirar o meu chapéu para suas realizações como filósofo: o Rubem Alves. O livro em questão é A Gestação do Futuro, escrito originalmente em inglês e publicado nos EUA em 1971 como Tomorrow's Child (aqui saiu em 1987).
É interessante notar que a partir da época do poema abaixo fui mergulhando numa fase de crescente nitidez na percepção intelectual da realidade... e de crescente paralisia prática.
Me vi num impasse: não estava disposto a abrir mão da clareza conquistada trocando-a por nenhum dos tantos "analgésicos psicológicos e espirituais" que há no mercado - sistemas de ilusão bem-intencionados mas ainda assim indefensáveis - mas ao mesmo tempo não há sinais de que eu esteja pra morrer e portanto não podia continuar na paralisia... (RISOS!)
E aí de repente topei com o livro do Rubem Alves, que consegue recolocar a Esperança num lugar digno e com base intelectualmente sólida - mais sólida e ampla que a de qualquer outro que já tenha visto se dedicar ao assunto. Acho até que não seria exagerado referir-se ao Rubem como "Filósofo da Esperança" - e não só por ter nascido na cidade de Boa Esperança em Minas Gerais.
Com certeza voltaremos a isso aqui, mas... por agora vamos para um pouco de poesia (ah!, "de tudo resta um pouco" é referência a um poema de Carlos Drummond de Andrade; e se você não sabe quem é Godot, é só perguntar! Problema nenhum!)
*
        PRAIA GRANDE 31.03.2006

Parece que está tudo podre e quero dizer "desisto".
Culpa de ninguém, só do tempo.
Melhor deixar tudo e começar do zero?
Mas quem enterrará o decomposto,
porá fogo no seco?
Seguirei por aí
mais um construtor de ruínas?

E quanto a recomeçar... sem escudeiro ou par
é perda de tempo pegar na espada
(ou esquadro, martelo, enxada).
Quê resta?

Se encolher no meio
da ruína em formação
esperando a graça
do desabamento ou incêndio em breve?

(Ou algum galope
desses que escuto ao longe
virá no rumo daqui
que não pra passar ao largo?)

(Como se eu não soubesse
que não restou cavaleiro
que não se chame Godot!)

(Ou valerá apostar
que de tudo mesmo resta um pouco,
até do bem?)

*

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