Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

26 novembro 2017

FUNDAMENTANDO HISTORICAMENTE: CONSCIÊNCIA HUMANA TEM COR, SIM SENHOR!

- Ralf Rickli, novembro de 2017

EPÍGRAFE 1: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.” ANGELA DAVIS

EPÍGRAFE 2: “Minha proposta no mês da Consciência Negra é chamar a todos os não negros que reflitam publicamente sobre a educação racista que receberam. Quando foi que perceberam que havia um plano diabólico e separatista envolvendo suas vidas? E o que vão fazer pra limpar a própria barra? É isso mesmo, se não se pronunciam, é natural que pensemos que todos os brancos são racistas, a não ser que estes mesmos provem que não. ... É urgente. Quem diz é nossa antiga gente: se posicione pois quem cala consente.” 
ELISA LUCINDA, em “Convocação à luz dos novos tempos”, em 20/11/2017 em sua página no Facebook.

De acordo com os testemunhos históricos não há por que dizer que a Europa fosse “mais desenvolvida” que a África até o século XV: eram estilos de vida diferentes, em boa parte condicionados pelas diferenças de clima - e na qualidade de vida da população comum, dá pra apostar que os africanos estavam melhor.
  
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Na costa oriental, ricas cidades portuárias comerciavam já há muito com a Índia, Indonésia, até a China, antes que os europeus (começando justamente pelos portugueses) se lançassem por primeira vez à navegação oceânica, em navios bem mais precários que os do Oriente, porém com um diferencial: por primeira vez navios levavam canhões.

Foi como uma invasão alienígena: onde aportavam, os branquinhos esquisitos declaravam sua posse do local e destruíam a bala de canhão as cidades que não aceitassem exclusividade comercial com eles, sob suas condições. Em poucas décadas, as milenares redes comerciais que atravessavam o continente estavam destruídas (a miserabilização do continente começou aí) e não se encontravam mais mercadorias africanas pra comprar ou piratear... a não ser... as próprias PESSOAS africanas e sua força de trabalho.

Mas... pessoas humanas poderiam ser tratadas como mercadoria? Ora, isso não seria problema: luminares do pensamento religioso europeu logo “esclareceram” que pessoas africanas NÃO ERAM humanas: “não tinham alma”.

E à medida em que o pensamento religioso foi cedendo lugar ao científico, não faltaram “cientistas” dispostos a forjar todo tipo de “prova” da não humanidade dos negros - o que chegou ao auge há pouco mais de cem anos, quando livros de divulgação científica, INCLUSIVE ESCOLARES, continham frases assim: “O cérebro de um negro adulto equivale ao de um feto branco de sete meses”; “[Os negros] estão abaixo de certos macacos na escala da evolução”, ou “Todos os estudos [sobre o negro] comprovam sua natureza caracteristicamente símia” - esta última em um panfleto intitulado “PROVAS BÍBLICAS E CIENTÍFICAS DE QUE O NEGRO NÃO É PARTE DA RAÇA HUMANA”. (Fontes? Consultem em Basil Davidson, “Revelando a velha África” - entre muitos outros).

Gênios negros como o jurista e filósofo Anton Amo (sequestrado na África aos 3 anos e criado na Alemanha) e o poeta brasileiro Cruz e Souza foram psicológica e economicamente triturados nessas campanhas, pois NÃO PODIAM ser o que eram: negros portadores de uma consciência humana avançada.

E agora, quando mais e mais negr@s começam a se levantar e dizer: “Não estamos nem aí se vocês brancos se recusam a admitir (na teoria ou na prática) que nós somos da mesma espécie que vocês, o fato é que nós TEMOS CONSCIÊNCIA. Consciência, para começar, da nossa humanitude e do nosso valor. E com total autonomia: vocês endossarem ou não a nossa humanitude não faz a menor diferença para nós: NÓS SOMOS. Humanos negros. E não deixaremos de ser.”

... Aí, nesse dia, brancos aparecem bonzinhos dizendo: “o que é isso, gente, a humanidade é uma só, por que esse papo de uma consciência negra diferenciada, isolacionista?” - fazendo de conta que não foram eles, os brancos, que SE isolaram dizendo que só eles eram humanos, só eles eram capazes de consciência. Dá pra aguentar, gente?

Quem está escrevendo aqui tem entre 1/16 e 1/32 de genética negra em seu corpo, frações desconhecidas de genética indígena e árabe, e um predomínio de genética europeia - mas dá pra estranhar que, quando falo, minha consciência acabe optando por se identificar quase integralmente com o que há de não-branco em mim?

Isso é pra não morrer de vergonha, gente. Pois a não ser em caso de ignorância histórica ou de falta de caráter mesmo, é impossível que a manifestação central da CONSCIÊNCIA HUMANA num branco tenha outra forma que não a da vergonha.

TENTANDO SUMARIZAR A QUESTÃO DA CONSCIÊNCIA HUMANA EM PRETO E EM BRANCO: a consciência humana é uma CAPACIDADE.

De que conteúdo essa capacidade se preencherá caso se manifeste no contexto de um corpo negro? Suponho que algo como “O quanto roubaram dos meus - e consequentemente de mim! Mas isso NÃO impedirá, nem a mim nem aos meus, de realizarmos os potenciais humanos tão plenamente como qualquer outro humano possa realizar. E de lutar com todos os recursos que forem necessários para que não nos roubem mais”.

De que conteúdo essa capacidade PRECISA se preencher num corpo branco, caso não se queira continuar no caminho de desenfreada BESTIALIZAÇÃO PREDATÓRIA pelo qual os brancos enveredaram há alguns séculos? Acho que algo assim: “Estou consciente de que nós brancos não teríamos chegado à atual posição de vantagem em relação aos outros povos se não tivesse sido à custa do suor, sangue e lágrimas dos negros; de outros povos também, mas de modo especial dos negros, pelo volume, duração e sistematicidade do processo. É dever de consciência lutar com os da minha própria cor para que essa exploração e suas consequências deixem de existir - e mais: reconhecer ainda (o lugar de fala!) que se tem coisa que meus antepassados brancos NÃO me legaram é a condição moral de dizer aos negros como é que eles devem pensar, falar, viver e lutar”.

Acho que é isso aí. Em nome de minha trisavó Floriana Rosa do Espírito Santo, nascida escrava, em caráter de afirmação - e de meu bisavô Johann Ulrich Rickli, missionário evangélico na África antes de vir para o Brasil, em caráter de reconhecimento de um equívoco & de tentativa de reparação.
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