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17 janeiro 2014

Perversão: filha da liberdade ou da repressão?


Publicado originalmente em 10/01/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente corrigido em relação ao texto do jornal.
 

Quem lê esta coluna sabe que costumo associar sexo com o Bem, não com doença ou pecado - mas não ignoro que haja crimes bárbaros envolvendo o desejo sexual. Isso significa que ele é perigoso e deve ser reprimido? Analisemos um caso: em São Paulo um rapaz perfeitamente agradável fazia amizade com garotas e terminava convidando-as a passear nas belas matas do Parque do Estado. Lá fazia sexo com elas e em seguida as estrangulava e enterrava.

Fazia isso porque ninguém “colocou limites”, ensinando que é errado matar? Ridículo! Quem tem noção da alma humana vê de imediato que o mais provável é que algo lhe tenha incutido muito cedo (talvez ainda antes de falar) que sexo é algo muito, muito feio; imperdoável. E portanto é preciso livrar-se das testemunhas de ter cometido tal “barbaridade”: a de dar satisfação ao seu desejo normal, mesmo com quem também o desejava!

Também é parte da normalidade do desejo que ele volte sempre - e que, até meados da vida, seja uma força irresistível, que pode deixar seu sujeito completamente bêbado de hormônios para forçá-lo a satisfazer-se; pode mudar de objeto, mudar de forma, mas nunca desiste de buscar sua satisfação. No caso acima, isso significou que houve vítimas em série. Culpa do desejo? Não: culpa da culpa que alguém um dia associou ao desejo (talvez com a melhor das intenções), sem o que esse jovem conseguiria se satisfazer normalmente, em prazer compartilhado e sem violência.

Não há como não lembrar as palavras de Jesus em Lucas 11:46: Ai de vós, doutores da lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar... E o mesmo versículo conclui: mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos. Coisa daqueles tempos? Ora, quantos casos temos conhecido de líderes religiosos, ordenados ou leigos, que atacam duramente a homossexualidade (que nem é perversão!), acusando jovens de “darem lugar ao diabo” quando a assumem - e depois são reconhecidos pelos mesmos jovens num cinemão, num perfil fake na internet, num ponto de pegação!

Não, não estou fantasiando: falo de casos concretos conhecidos. E não os acuso por estarem sendo humanos: acuso por venderem regras que eles sabem, de suas próprias vidas, que são pesos que homens não podem levar - e que portanto não podem ter sido impostas pelo mesmo Deus que, segundo eles, criou esses homens como criou. A taxa de suicídio é três vezes mais alta entre jovens gays que na média geral - e os suicídios ocorrem especialmente depois que o jovem procurou uma pessoa mais experiente da qual esperava compreensão e acolhimento, e se viu rejeitado por ela. Será preciso dizer mais?

A liberdade não garante um mundo sem perversões de um dia para o outro - mas coloca o mundo no rumo virtuoso da superação gradual das perversões. Precisamente o contrário acontece com a repressão. Como escreveu William Blake já por volta de 1790 (tradução nossa): Abster-se do prazer joga areia / nos membros e cabelos flamejantes; / desejo satisfeito aí semeia / vida e beleza frutificantes.*

* Abstinence sows sand all over / The ruddy limbs and flaming hair, / But Desire gratified / Plants fruits of life and beauty there.

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