Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

29 julho 2013

Reflexões sobre junho-julho 2013: Movimento Occupy denunciou o fascismo dos Black Bloc já no início de 2012

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Esta matéria de CHRIS HEDGE, publicada nos EUA em 06/02/2012, mostra que, tanto lá como aqui, BLACK BLOCs e P2 são diferentes cepas DO MESMO VÍRUS - inoculados na sociedade por agentes DO MESMO IMPÉRIO, como VACINA ANTI-REVOLUÇÃO.

Título original: THE CANCER IN OCCUPY
http://www.truthdig.com/report/page2/the_cancer_of_occupy_20120206/
Tradução e notas entre colchetes: Ralf R.


Os anarquistas Black Bloc, que estiveram em ação nas ruas de Oakland e de outras cidades, são o câncer do movimento Occupy. A presença de anarquistas Black Bloc - chamados assim porque se vestem de preto, escondem a cara, se movem como massa unificada, buscam confrontos físicos com a polícia e destroem propriedades - é um presente do céu para o Estado da Segurança e Vigilância. Os acampamentos Occupy em várias cidades foram fechados justamente porque eram não violentos. Foram fechados porque o Estado percebeu seu amplo potencial de atração, até mesmo para os de dentro dos sistemas de poder. Foram fechados porque articularam uma verdade, sobre o nosso sistema econômico e político, que cruzava transversalmente as linhas políticas e culturais. E foram fechados porque eram locais onde mães e pais com carrinhos de bebê se sentiam seguros.

Os adeptos do Black Bloc detestam a nós que estamos na esquerda organizada, e procuram, bem conscientemente, nos arrancar nossos instrumentos de empoderamento. Confundem com revolução o que são atos de vandalismo banal e de repugnante cinismo. Os verdadeiros inimigos, eles argumentam, não são os capitalistas corporativos, e sim os seus colaboradores no meio dos sindicatos, dos movimentos de trabalhadores, dos intelectuais radicais, ativistas ambientais e movimentos populares como os zapatistas. Qualquer grupo que busca re-estruturar estruturas sociais, especialmente por meio de atos de desobediência civil não violenta ao invés de destruir fisicamente, se torna o inimigo, aos olhos dos Black Bloc. Anarquistas Black Bloc empregam a maior parte da sua fúria não contra os arquitetos do NAFTA (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio) ou da globalização, e sim contra os que reagem contra esse problema, como os zapatistas. É uma inversão de sistemas de valores grotesca.

Por não acreditarem em organização, e na verdade se oporem a todos os movimentos organizados, os anarquistas Black Bloc garantem sua própria impotência. Tudo o que eles conseguem ser é obstrucionistas. E são obstrucionistas principalmente para aqueles que resistem. John Zerzan, um dos principais ideólogos do movimento Black Bloc nos Estados Unidos, defendeu o desconexo manifesto "A sociedade industrial e o seu futuro", de Theodore Kaczynski, conhecido como Unabomber, mesmo se não endossou seus atentados. Zerzan é um feroz crítico de uma longa lista de supostos vendidos, a começar por Noam Chomsky. Anarquistas Black Bloc são um exemplo do que Theodore Roszak, em "The Making of a Counter Culture", chamava de "progressiva adolescentização" da esquerda estadunidense.

Em sua extinta revista Green Anarchy (que sobrevive como website), Zerzan publicou um artigo escrito por alguém chamado "Borboleta Venenosa” (Venomous Butterfly), que execrava o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). O artigo dizia que "os objetivos dos zapatistas não só não são anarquistas, como sequer são revolucionários. Também denunciou o movimento indígena por “linguagem nacionalista", pelo fato de defender que o povo tem direito de “alterar ou modificar sua forma de governo”, e por ter como objetivos “trabalho, terra, moradia, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz”. Tal movimento, o artigo afirmava, não seria digno de apoio pois não demandava "nada de concreto que não possa ser fornecido pelo capitalismo. "

"É claro que não se pode esperar", continuava o artigo, "que as lutas sociais dos explorados e oprimidos se adaptem a algum ideal anarquista abstrato. Essas lutas surgem em situações particulares, provocadas por eventos específicos. A questão da solidariedade revolucionária com essas lutas é, portanto, a de como intervir de um modo que sirva aos nossos próprios objetivos, de uma maneira que seja vantajosa para o nosso projeto revolucionário anarquista." [O original usa o eufemismo “one’s”, mas não há falseamento em traduzi-lo por “nosso”].

Solidariedade vem a ser então o sequestro ou destruição de movimentos concorrentes, o que é exatamente o que os contingentes Black Bloc estão tentando fazer com o movimento Occupy.

"Os Black Bloc podem dizer que estão atacando policiais, mas o que eles realmente estão fazendo é destruir o movimento Occupy", me disse o escritor e ativista ambiental Derrick Jensen quando o contatei por telefone na Califórnia. "Se o seu alvo fosse de fato a polícia, e não o movimento Occupy, os Black Bloc separariam completamente suas ações das do Occupy, em vez de efetivamente usar este último como escudo humano. Seus ataques a policiais são meramente um meio para outra finalidade, que é a de destruir um movimento que não se encaixa no seu padrão ideológico."

"Não vejo problemas no emprego de táticas de escalada [aumento gradativo de pressão que pode chegar a atos violento] para algum tipo de resistência militante, se isso for moral, estratégica e taticamente apropriado", prosseguiu Jensen. "Isso vale no caso de você levantar um cartaz, uma pedra ou uma arma. Mas você tem que ter refletido sobre isso. Os Black Bloc passam mais tempo tentando destruir movimentos que atacando quem está no poder. Eles odeiam mais a esquerda que os capitalistas."

"Seu modo de pensar não é apenas não estratégico, mas ativamente contrário à estratégia", disse Jensen, autor de vários livros, incluindo "The Culture of Make Believe" (A cultura do faz-de-conta). "Eles não estão dispostos a pensar criticamente sobre se a pessoa está agindo de forma adequada no momento. Não vejo problemas em alguém violar limites quando essa violação é a coisa mais inteligente ou apropriada a fazer - mas vejo enorme problema em pessoas que violam limites apenas para violar limites. É muito mais fácil pegar uma pedra e jogar na janela mais próxima do que organizar - ou que pelo menos descobrir em qual janela você deve jogar a pedra, se você for jogar uma pedra. Muito disso é preguiça."

Grupos de manifestantes Black Bloc, por exemplo, moeram as janelas de um café de propriedade local e o saquearam, em novembro, em Oakland. Não era, como Jensen aponta, um ato estratégico, moral ou tático. Foi feito por fazer. Atos de violência, saques e vandalismo são justificados, no jargão do movimento, como componentes de insurreição "selvagem" (feral) ou "espontânea." O movimento defende que atos desse tipo nunca podem ser organizados. Organização, no pensamento do movimento, implica hierarquia, que deveria ser combatida sempre. Não poderia haver restrições a atos de insurreição “selvagens” ou "espontâneos". Quem se machucar se machucou. O que for destruído se destruiu, não importa o quê.

Há um adjetivo para isso: "criminoso".

O movimento Black Bloc está infectado com uma hipermasculinidade profundamente perturbadora. Essa hipermasculinidade, tenho a impressão, é o seu apelo básico. Ela cutuca a volúpia de destruir que se esconde dentro de nós - destruir não apenas coisas, mas também seres humanos. Ela oferece o poder como de deuses que vem com a violência da turba. Marchar como massa uniforme, todos vestidos de preto para se tornarem parte de um bloco anônimo com rostos cobertos, isso supera temporariamente a alienação, os sentimentos de inadequação, impotência e solidão. Confere aos participantes da massa um sentimento de camaradagem. Permite que uma raiva indefinida seja descarregada em qualquer alvo. Piedade, compaixão e delicadeza são banidos pela intoxicação do poder. É a mesma doença que alimenta os enxames de policiais que jogam spray de pimenta e espancam manifestantes pacíficos. É a doença dos soldados em guerra. Transforma seres humanos em feras.

Erich Maria Remarque escreveu em "Nada de novo no front ocidental": "nós íamos em frente, sobrepujados por essa onda que nos carrega, que nos enche de ferocidade, nos transforma em bandidos, em assassinos, em só Deus sabe o que diabos: essa onda que multiplica a nossa força pelo medo e loucura e gana de viver, buscando e lutando por nada além de sair dali” [for our deliverance: impossível determinar, fora de contexto, se se trata de “libertação” ou de “dispensa” no sentido militar].

O estado corporativo [corporate state: neste contexto, o estado dirigido por interesses privados associados para seu bem comum] entende e aplaude a linguagem da força. As táticas do Black Bloc de confronto e destruição de propriedades, o estado corporativo as pode usar para justificar formas de controle draconianas e para incutir medo de apoiar o movimento Occupy nas camadas mais amplas da população. Uma vez o movimento Occupy seja pintado como uma multidão que queima bandeiras e joga pedras, estamos acabados. Se ficamos isolados podemos ser esmagados. A prisão de mais de 400 manifestantes em Oakland na semana passada, alguns dos quais haviam jogado pedras, carregado escudos caseiros e feito barricadas, são uma indicação da dimensão da escalada de repressão, e do nosso fracasso em permanecermos uma oposição unificada e não violenta. A polícia atirou gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e disparos "menos letais" para o meio das multidões. Uma vez na prisão, foram negados medicamentos cruciais aos manifestantes, os quais foram mantidos em celas superlotadas e tocados de um lugar para outro. Uma marcha em Nova York, chamada em solidariedade aos manifestantes de Oakland, viu alguns manifestantes imitarem as táticas dos Black Bloc em Oakland, inclusive jogando garrafas contra a polícia e despejando de lixo na rua. Eles gritavam "foda-se a polícia" e “racist, sexist, anti-gay / NYPD go away" (racista, sexista, anti-gay / cai fora, polícia de Nova York).

Esta é uma luta para conquistar os corações e mentes de um público amplo, bem como daqueles que estão dentro das estruturas de poder e são dotados de uma consciência (incluindo a polícia). Não é uma guerra. Movimentos não violentos de certa forma recebem a brutalidade policial com abraços. A tentativa continuada do Estado de esmagar manifestantes pacíficos, que reivindicam meros atos de justiça, deslegitima a elite do poder. Isso incita uma população passiva a reagir, traz alguns de dentro das estruturas de poder para o nosso lado, e cria divisões internas que produzem paralisia na rede dos canais de autoridade. Martin Luther King promoveu marchas em Birmingham repetidamente porque sabia que o Comissário de Segurança Pública "Bull" Connor era um vilão que iria se exceder na reação.

O clichê da "diversidade de táticas", alegado pelos Black Bloc para acabar com a reflexão, termina por abrir caminho para que centenas ou milhares de manifestantes pacíficos sejam desacreditados por um punhado de arruaceiros. O Estado não poderia ficar mais feliz. É aposta segura, que entre os grupos Black Bloc em cidades como Oakland se encontram agentes provocadores instigando-os a fazer mais confusão. Mas, com ou sem infiltração policial, o Black Bloc está servindo aos interesses do um por cento. Esses anarquistas representam a ninguém além de si mesmos. Os que agiram em Oakland, embora em sua maioria fossem brancos, e muitos de fora da cidade, repudiaram arrogantemente as lideranças afroamericanas de Oakland, que, junto com outros organizadores comunitários locais, deveriam ter determinado as formas de resistência.

O crescimento explosivo do movimento Occupy Wall Street se deu quando algumas mulheres que ficaram encurraladas atrás de um isolamento de malha laranja foram atacadas com spray de pimenta pelo vice-inspetor Anthony Bologna, da Polícia de Nova York. A violência e a crueldade do Estado foram expostos. E o movimento Occupy, por meio de sua firme recusa em responder à provocação da polícia, repercutiu em todo o país. Perder essa autoridade moral, esta capacidade de mostrar através de protesto não-violento a corrupção e a decadência do estado corporativo, mutilaria o movimento. Seria reduzir-nos à degradação moral dos nossos opressores. E é isso o que nossos opressores querem.

O movimento Black Bloc tem a rigidez e dogmatismo de todas as seitas absolutistas. Só os seus adeptos possuem a verdade. Só eles entendem. Só eles se arrogam o direito - porque eles são iluminados e não somos - de repudiar e ignorar pontos de vista concorrentes como infantis e irrelevantes. Eles ouvem apenas as suas próprias vozes, dão atenção apenas a seus próprios pensamentos. Acreditam apenas em seus próprios clichês. E isso os faz não só profundamente intolerantes, mas também estúpidos.

"Se você é hostil à organização e ao pensamento estratégico, a única coisa que lhe resta é a pureza do seu estilo de vida", disse Jensen. “O ’estilismo de vida’ suplantou a organização em grande parte do pensamento ambientalista predominante [mainstream]. Em vez de se opor ao estado corporativista, o ‘estilismo de vida’ sustenta que devemos usar menos papel higiênico e fazer compostagem dos detritos. Este tipo de atitude é inefetivo. Se você abre mão de organizar, ou é hostil a organizar, tudo o que lhe resta é essa hiperpureza, que acaba se tornando dogma rígido. Você acaba atacando pessoas por usarem telefone, por exemplo. Isso vale para os vegans e as questões de alimentação. Vale para as atitudes dos ativistas anti-carro em relação a quem usa carro. Acontece o mesmo com os anarquistas. Quando eu liguei para a polícia depois de ter recebido ameaças de morte, para os anarquistas Black Bloc eu virei 'amante dos porcos’."

Jensen prosseguiu:"Se você vive no território Ogoni e você vê que Ken Saro-Wiwa foi assassinado por causa dos seus atos de resistência não violenta, e você vê que a sua terra continua sendo destruída, então você pode pensar em partir para uma escalada. Eu não tenho dificuldades com isso. Mas a gente tem que ter passado pelo processo de tentar atuar junto ao sistema e ter ‘se ferrado’. É só aí que cabe ‘avançar o sinal’. Não podemos dar curto-circuito no processo. Há um processo de maturação que a gente precisa ser atravessar, enquanto indivíduos e enquanto movimento. A gente não pode simplesmente dizer: 'Ei, vou jogar um vaso num policial porque eu acho legal."

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