Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

07 abril 2012

'AQUILO QUE TEM QUE SER DITO': o poema 'escandaloso' de Günter Grass sobre o perigo nuclear israelense, em nova tradução

.
Não fiquei muito satisfeito com nenhuma das traduções deste poema em português a que tive acesso e resolvi tentar a minha. Me desculpo de antemão: traduzir alemão é uma das coisas que merecem o rótulo "missão impossível", então também estou longe de prometer que esta versão vai satisfazer mais que as outras. É apenas a minha tentativa, mais uma, e espero que de algum modo possa pelo menos complementar as outras.

Detalhe interessante: na primeira leitura também achei que era um mero "artigo disfarçado de poema" pelo velho Grass (84 anos), como alguém sugeriu - mas ao trabalhar com o texto descobri a densidade de uma decisiva textura poética por baixo da superfície aparentemente tão prosaica!

Quanto ao tema, sinto que se torna a cada dia mais premente, e pretendo voltar a ele pelos ângulos mais diversos - e por isso mesmo acho bom advertir desde já: "antissemita" jamais, pois isso seria crime contra a humanidade; "antissionista", definitiva e decididamente - pois aqui se trata apenas de ser contra outro crime contra a humanidade. Pois pela humanidade só se pode ser a favor dela inteira: tudo o que for a favor de partes em detrimento de outras é contra.   (Ralf R. - Páscoa de 2012)



Aquilo que tem que ser dito
Günter Grass, 84 anos, Prêmio Nobel de Literatura, em 04/04/2012.
1º ensaio de tradução por Ralf Rickli, 07/05/2012



Por que tenho me calado, me calado por tempo demais
sobre o que é patente e já vem sendo ensaiado
em simulações ao fim das quais nós, como sobreviventes,
somos no máximo umas notas de rodapé?
É o alegado direito de ataque preventivo
que poderia extinguir aquele povo
subjugado por um fanfarrão
e empurrado ao júbilo organizado (o iraniano),
porque se suspeita da construção
de uma bomba atômica em seus domínios.
Por que, no entanto, eu me proíbo
de chamar pelo nome aquele outro país
no qual se dispõe há anos - ainda que em segredo -
de um potencial nuclear crescente
e sem controle, pois não se dá acesso
a nenhuma inspeção?
A generalizada omissão desse fato,
à qual se subordina o meu calar,
eu a sinto como incriminadora mentira
e coerção com promessa de punição:
assim que desobedecida,
o veredito “antissemitismo” está em toda parte.
Agora, porém, porque o meu país,
- que por seus crimes próprios,
que estão além de comparação,
é volta e meia chamando às falas ­-
deve entregar a Israel
(por razões puramente comerciais,
embora declarado
com lábios ligeiros
que se trata de reparação)
mais um submarino, cuja especialidade
é ser capaz de direcionar ogivas
de destruição total a um lugar
onde não foi comprovada a
existência
de uma bomba atômica sequer, e no entanto
com o fim de atemorizar se pretende
que existam provas conclusivas -
por isso agora eu vou dizer
o que precisa ser dito.
Por que, no entanto, até agora eu me calei?
Porque eu pensava que a minha origem,
marcada com mácula nunca extinguível,
proibia declarar tais fatos como verdadeiros
em relação ao país Israel, com o qual tenho laços
e quero continuar a ter.
Por que é que eu digo somente agora,
envelhecido e com o fim da minha tinta,
que o poder atômico de Israel põe em risco
a paz mundial, já frágil sem isso?
Porque precisa ser dito
o que amanhã pode ser muito tarde;
e também porque nós
- como alemães já o suficiente incriminados -
podemos vir a ser fornecedores para um crime previsível,
com o que nenhuma das usuais desculpas
teria o poder de redimir
nossa participação na culpa.
E admito: não mais me calo
porque estou farto da hipocrisia do Ocidente,
e tenho esperança que com isso
possam se libertar muitos desse calar-se
e conclamar o causador do reconhecível perigo
a abrir mão de violência, e igualmente
a que seja permitido pelos governos dos dois países
um controle permanente e desimpedido
do potencial atômico israelense
e das instalações atômicas iranianas
por uma instância internacional.
Somente assim será possível ajudar
a todos, israelenses e palestinos,
e mais: a todos os seres humanos
que nessa região ocupada pelo delírio
vivem apertados em inimizade - e afinal
a nós mesmos
também.
.

2 comentários:

  1. Sinto muito, mas talvez Günter Grass tenha perdido a parte em que o Irã (ahmadinejad) declarou (em diversos momentos) que, se pudesse, varreria Israel do mapa.
    Por outro lado, nunca vi esse tipo de declaração vinda do lado israelense. Ou é melhor pagar pra ver e esperar até que o Irã mostre sua bomba (que todos sabemos em quem será usada, sem nenhuma sombra de dúvida)?

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    1. Primeiramente, não existe Israel, existe o complexo Israel-EUA - versão atual de um consórcio iniciado no primeiro milênio da Idade Média e que construiu a civilização ocidental - e foi SEMPRE o agressor, o invasor, o que foi ocupar terras distantes.

      Os povos do Oriente Médio sempre tiveram que se endurecer em reação a isso - a os ocidentais pretenderem tratar o mundo como seu. E é óbvio que no contexto dos abusos cometidos por Israel incessantemente desde 1967, em seu repetido rompimento de tratados, sua desobediência sistemática às decisões da ONU etc., impondo tensão e insegurança permanentes à região, qualquer outro líder político de lá só pode sonhar com que não existisse esse pesadelo. E muitas vezes expressar isso - mas bestas de tentar o impossível eles não são, inclusive por terem milênios há mais de experiência de civilização que o povo dos EUA.

      Gandhi analisou com serena lucidez e bom senso, em 1938 e em 1947, o absurdo que seria a criação do Estado de Israel, como se pode ler aqui http://pluralf.blogspot.com.br/2010/06/palavras-de-gandhi-sobre-os-judeus-na_05.html

      Infelizmente esse absurdo - absolutamente desnecessário como proteção ao povo judeu - foi cometido, e agora o mundo paga preço altíssimo por ele.

      Não há traço nenhum de "antissemitismo" no que eu digo - e não só porque os judeus são uma fração mínima dos povos semitas: o que há e defesa da humanidade como um todo - e toda prepotência e intenção de dominação do outro é um crime contra a humanidade, venha de alemães, israelenses ou estadunidenses.

      Aliás, intenção de dominar a Terra e a humanidade toda só foi manifesta até hoje pela cultura ariana, ou indo-europeia, que já registrou essa intenção nas suas escrituras mais antigas. E desde que indo-europeus e judeus formaram consórcio, já no começo da Idade Média como eu disse, juntaram-se diferentes habilidade e fatores ideológicos dos dois, e o resto da humanidade nunca mais deixou de estar ou sob ataque ou sob pressão.

      Não vejo saída para nada disso, não - mas já será um grande passo que apenas possamos começar a assumir os fatos e a falar do que vemos, e não mais aceitarmos a obrigação de fingir que acreditamos nas versões inconvincentes que essa máquina de dominação fornece - como, p.ex., já as alegações ridículas que foram usadas para justificar as cruzadas, primeiro empreendimento de grande fôlego desse consórcio.

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