Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

21 julho 2011

Condição para o combate efetivo à homofobia e similares: entendimento da mecânica psico-bio-social do preconceito e da agressão

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(ANOTAÇÕES SEM SISTEMA NEM PRETENSÃO DE ESGOTAREM O ASSUNTO)
Do artigo "De onde vem o mal", revista Galileu nº 240, julho de 2011, p. 69: 

[Susan] Fiske, Ph.D. em psicologia pela Universidade de Princeton, é uma das primeiras a ver em scanners cerebrais marcas das influências situacionais.

Desde o fim da Segunda Guerra, filósofos e sociólogos afirmam que os absurdos praticados durante o Holocausto só foram possíveis porque os agressores viam nas suas vítimas apenas animais repugnantes ou objetos. 

"As pessoas naturalmente naturalmente inibem a violência contra outros que categorizam como seres humanos. Então é preciso que a outra pessoa seja 'desumanizada' dentro da cabeça para que isso ocorra", explica Fiske. Seus estudos, desde 2006, traçam o caminho disso no cérebro. Num dos mais impressionantes, fotografias de pessoas foram mostradas a voluntários, enquanto os cérebros dos observadores eram analisados com scanners. Quando os voluntários viam indivíduos de baixo status social, como mendigos, viciados em drogas ou até imigrantes, ativavam padrões cerebrais relacionados à visão de objetos e não aqueles ativados ao vermos seres humanos. Ou seja: nesse caso, a empatia não funcionaria para evitar uma agressão.

Para a psicóloga, isso explica o que acontece dentro da cabeça de pessoas que agridem mendigos ou que se deixam levar por um preconceito estimulado pelo Estado para praticar torturas e genocídios. Os discursos e a opinião do grupo dominante podem ser influências importantes nesse caso.

E aqui comento eu: o que nos programa para interpretar a percepção de certos humanos como se fossem coisas ou bichos, ou no mínimo como "essa gente" (isto é, seres supostamente diferentes de "nós") é o que é denominado ideologia na terminologia marxista. Ninguém sozinho é autor ou portador da ideologia inteira: cada um carrega um pedaço, que recebeu nem se lembra de quem; e as pessoas vivem repassando esses pedaços umas às outras, criando uma rede de interpretações deformadas carregada coletivamente. 

Crianças e jovens são ensinados a verem gays como seres nojentos. Gays mesmos são ensinados a verem gays como seres nojentos - o que explica o alto índice de suicídio entre aqueles que ainda não se libertaram dessa programação. Isso vem de tantas fontes diferentes, e há tanto tempo, que é realmente difícil combater, pois não se sabe de onde a coisa vem.

Ora, mas há certos casos em que sabemos de onde vem: há pessoas que assumem publicamente o papel de difusores de uma ideologia de desumanização dos diferentes - o que é precisamente o caso das direitas que se expressam em termos religiosos: contra os que eles elegem como adversários da vez, esses praticam essa desumanização imaginária na variante "demonização", além das meras animalização e coisificação (ou reificação, da palavra latina para coisa: res).

E aí me sinto tentado a dizer: "devemos combater sem trégua esses que sabemos onde estão"... mas a experiência ensina que combater pessoas geralmente fortalece suas posições! Não conseguiremos nos livrar da desumanização imaginária praticada pelos religiosos praticando outra variante de desumanização imaginária contra eles. O que temos é que expor permanentemente ao mundo a inconsistência dos discursos desumanizadores - inclusive porque desconstruindo discursos, em lugar de atacar os discursadores, estaremos combatendo ao mesmo tempo tanto os de origem conhecida quando os de origem difusa, em princípio mais difíceis de combater.

E digo que nada mais poderoso para isso do que expor com realce e celebração a humanidade dos imaginariamente desumanizados, em situações que praticamente forcem a empatia, a identificação.

(Sei que ao dizer isso posso incorrer no deprezo - mais que ira - daqueles que cultuam o torto, o esquisito, o desafiador, como se fossem os agentes principais ou mesmo únicos da transformação... Bom, isso me parece francamente uma crença fantasiosa - mas isso já seria assunto para outra discussão!)


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PODE SER REPRODUZIDO À VONTADE DESDE QUE MENCIONADA E LINKADA PELO MENOS UMA DAS SEGUINTES FONTES ORIGINAIS:
·          http://pluralf.blogspot.com/2011/07/condicao-para-o-combate-efetivo.html
·          http://www.advivo.com.br/blog/pluralf/condicao-para-o-combate-efetivo-a-homofobia-e-similares-entendimento-da-mecanica-psico-bio-social-do-preconceito-e-
·          https://www.facebook.com/note.php?note_id=244534815570211

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