Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

22 abril 2010

Fw: resposta a um amigo: DEBATE X DIALÉTICA

Ontem quis compartilhar aqui no blog o que escrevi em uma lista de discussão, e por descuido acabei mandando mais de uma semana de mensagens que nem sempre tinham a ver com o ponto. Repito agora sem esse "rabo". Se alguém ainda quiser ler o que dizia lá, é só me pedir que eu reenvio. Abçs


Caio nos escreve: "Ralf, Acho q é válido sim soltarmos bombas no calor do debate, pois se todos compartilhamos que "debater é preciso, brigar não é preciso", seremos exaltados em certos momentos, mas compreenderemos o valor de cada resposta para a construção de nossas próprias concepções e de próximas manifestações."
 
Já eu acho que na real o fazemos mais pelo prazer animal de tentar sobrepujar, que tendo em vista os objetivos políticos necessários.
 
E que essa nossa compreensão leviana do que seja "debate" tem custo social altíssimo, pois mantém a esquerda submersa numa cultura de irmão disputando com irmão - com os inimigos esfregando as mãos de gosto na janela. 
 
Repare, aliás, que você diz "brigar não é preciso", mas usa a metáfora "soltarmos bombas". Desculpe, mas pra mim "bomba construtiva" sempre foi papo demagógico de imperialista estadunidense...
 
Há uma corrente que propõe um ideal de diálogo no lugar de debate - e isso não é mero papo pequeno ou grande burguês. Verdade que tem burguês usando esse palavreado para fins suspeitos, mas é preciso distinguir esse mau uso e a essência da coisa. Eles citam muito o físico David Bohm como sistematizador da idéia, mas esquecem que muito antes a palavra diálogo já foi enaltecida como chave máxima por ninguém menos que Paulo Freire, escrevendo do exílio.
 
Via de regra o que se almeja nos "debates" é encurralar o outro para que aceite o ponto de vista que já trazíamos, ou no mínimo calá-lo. É uma aplicação da lógica exclusora de Aristóteles, pura expressão filosófica do ideal de dominação da vertente cultural ariana. E precisamos entender que DIALÉTICA pressupõe uma superação dessa lógica aristotélica, com sua excludência.
 
Geralmente temos sido rasos demais na compreensão do que seria um agir dialético. Achamos que a idéia de concórdia é de direita: apenas um disfarce para o interesse burguês em manter as coisas numa ordem sob seu controle. E que ser de esquerda é sempre questionar qualquer ordem, qualquer estabilidade, pois é compreender a vida como luta. Mas eu digo que ficar nesse nível é ser vítima da dialética, não seu agente consciente.
 
Quando nos tornamos agentes dialéticos, vemos a nós mesmos com duas mãos, tendo numa delas o controle de dosagem de "conservação", na outra o de "inovação" (como se não me engano Benjamin mostrou na análise da própria composição musical). Talvez em outras palavras: "reafirmação" e "negação"; "concordância" e "contestação".
 
Ou seja: nenhuma ação verdadeiramente dialética pode abrir mão de usar também a força da concordância, quando se mostra mais adequado. O que jamais significa ter aberto mão da possibilidade da discordância a qualquer momento (o que seria mais uma vez recair na lógica opressiva de Aristóteles).
 
Voltando então a essa palavra com a mesma origem de "dialética", que é "diálogo": este exige, sim, um certo intervalo entre o ouvir e o responder: o tempo necessário para montar dentro de mim um modelo da posição do outro, simular para mim mesmo que estou adotando a posição dele sem nenhum preconceito...
 
... para depois voltar a mim e avaliar onde é que posso somar com o outro (sempre preferível, pois representará soma de forças também na hora da realização), onde é realmente necessário convidá-lo a mudar os seus pontos, e até mesmo passar a combatê-los se ele não quiser.
 
Se tivéssemos entendido isso talvez a esquerda já tivesse se imposto no mundo há muito tempo, pelos seus resultados superiores. Não estivesse sempre por um fio, como costuma estar. Enquanto continuamos brincando de fogo amigo nas mesas de bar.
 
Pra terminar: não devemos imaginar que dialética seja um troço inventado por Hegel e aperfeiçoado por Marx: dialética é uma característica estrututral da realidade, de o modo de tudo ser. Muita gente, além de Hegel e Marx, fez tentativas de apreender essa característica estrutural e de inventar modos de lidar com ela na prática: os taoístas, Heráclito, Nicolau de Cusa, Goethe, Lupasco, Morin.
 
Em Morin eu mesmo denuncio uma traição silenciosa à constatação mais inquestionável de Marx: a imoralidade intrínseca do mecanismo da acumulação privada do capital (que ele sequer menciona em todo o seu volume de Ética). Mas isso não desfaz o fato de em muitos pontos ele estar levando o pensamento dialético para mais perto da realidade concreta do que o próprio Marx conseguiu.
 
Abraços esperançosos a todos,
Zé Ralf
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