Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

17 novembro 2008

ecos do 2.º filme ZEITGEIST na Trópis

Tentando manter aberto o ESPAÇO VIRTUAL DE REFLEXÃO mesmo se não está sendo possível manter a casa aberta todo domingo!
 
Assisti o segundo filme Zeitgeist: "Zeitgeist: Addendum".
 
Haveria muito a comentar... mas no momento não há tempo. E não há justamente por estar correndo atrás de pagar minhas contas - isto é: preso na malha do sistema financeiro, que os 2 filmes da série denunciam com propriedade.
 
ECONOMIA - O conjunto dos 2 filmes acaba chegando no mesmo ponto que eu já tinha entrevisto com os olhos do meu próprio raciocínio: nas condições atuais é perfeitamente viável uma sociedade simplesmente sem dinheiro - inclusive o dinheiro que existe puramente como contabilidade, que é a maior parte do dinheiro atual. Dinheiro só faria sentido como uma espécie de vale para a distribuição de cotas nos momentos de escassez: "vale-sua-cota".
 
Mas nas circunstâncias atuais, e tomando o mundo como um todo, não há escassez real, nem risco de escassez real, de nada que constitui necessidade fundamental, nem mesmo de energia. Toda situação de escassez é forjada para fazer o dinheiro continuar artificialmente necessário. E isso porque a emissão dos tais vale-sua-cota é em si mesmo um negócio privado, com fins de lucro.
 
Em resumo, vivemos todos em estado de escravidão disfarçada, igualzinho ao pessoal que trabalha em fazendas isoladas: o contratador adianta sua comida, e na hora de pagar fica com o salário inteiro por conta da comida que adiantou. E você ainda fica sempre devendo um pouco, e então supostamente não pode largar o trabalho e sair. E isso porque é ele mesmo quem determina os dois valores: o do que você vende (o seu trabalho) e o do que ele te vende.  (As imagens demonstrativas que estou usando aqui não estão no filme, só estão implícitas).
 
Enfim, na parte denúncia o filme é absolutamente convincente. Os dois, aliás. Não só porque quadra perfeitamente com as nossas próprias percepções-raciocinadas, como também por apresentar fartas palavras de endosso de pessoas que trabalham dentro do sistema ou já trabalharam para ele. 
 
POLÍTICA - Mas deixa sérias interrogações assim que passa a propor: a saída dos problemas da humanidade estaria na tecnologia, desde que não manipulada por grupos privados - o que não deixa de fazer sentido; também o grupo alemão de esquerda Krisis, com seu Manifesto contra o Trabalho, aposta nisso de certa forma (mais sobre ele logo adiante, inclusive link). A questão é que ele também usa a palavra "política" como algo que deve ser suariamente rejeitado - e pode ter razão quando fala da política pseudo-representativa atual. Mas em lugar de falar sobre "uma outra política", como andamos fazendo, simplesmente se cala sobre como a sociedade tomaria suas decisões de alcance coletivo - o que é o sentido mais profundo da palavra política.
 
Ao não propor com clareza com quem ficaria o poder sobre a tecnologia (o que inclui logicamente a alternativa "com todos"), deixa um vácuo perigoso para a formação de apenas uma nova forma de poder manipulativo - apenas que muuuito mais eficiente que o atual.
 
RELIGIÃO - Além da rejeição não detalhada da palavra "política" aparece a rejeição-em-bloco de tudo o que se possa chamar "religião" - o que, mais uma vez, historicamente parece ser fartamente justificado. Mas também aí existe por trás uma questão antropologicamente mais complexa do que o filme dá conta de ver: a necessidade humana de tecer com símbolos algum sistema de justificação da existência. E a usual profundidade do amor e/ou apego interior ao sistema de símbolos dentro do qual a consciência de cada indivíduo emergiu.
 
Aqui definitivamente não dá pra se alongar, mas adianto o seguinte: suspeito que o filme (e o pretendido movimento por trás) pisa na jaca ao confrontar tão diretamente o universo da religião e seus símbolos - mesmo se isso for justificado. Pois essa é uma receita segura para levantar suspeita e resistência.
 
E especificamente: onde houver cristianismo orientado escatologicamente (isto é, para "as coisas finais" - e isso inclui tanto fundamentalistas evangélicos e pentecostais quanto cristãos esotéricos como os antropósofos), estará lá o veredito: "o que esse filme está fazendo é preparar a manifestação do Anti-Cristo", aquele que resolveria de fato todos os problemas concretos do mundo, deixando-o maravilhoso, ao preço de que o ser humano abrisse mão de sua dimensão espiritual (seja lá o que isso quiser dizer...  - assuntinho também pra lá de espinhoso, sobre o qual venho há alguns anos desenvolvendo um ensaio que está difícil de terminar...)
 
Mas não estou tomando posição - pelo menos não nenhuma posição fechada, monolítica. É preciso ver esses filmes - seja para concordar ou para discordar ou - mais inteligentemente - um pouco de cada um. Afinal, onde não há controvérsia não há ciência (estou adaptando isso de Saadi, o grande poeta persa do século XIV).
 
É preciso ver por mil razões. Para quem se sente "de esquerda" uma delas é que sem tem aí uma amostra de uma espécie de esquerdismo autóctone dos EUA, que existe desde o século XVIII e cujas elaborações não passam pelo dialeto marxista - mas nem por isso são necessariamente opostos a este, e muito menos concorrentes (idéia capitalista por excelência!). E é preciso conhecer.
 
LINKS - Os dois filmes Zeitgeist podem ser vistos na íntegra, com legendas em português, em http://www.zeitgeistmovie.com/. Duas horas cada um. O início dos dois parece enrolado, depois deslancha. Aqui na Trópis já temos o primeiro em DVD, o segundo ainda não (não consegui baixar com legendas). Há também um site ainda pobre que deve ser do movimento: http://thezeitgeistmovement.com (sem o THE não funciona).
 
Já o Manifesto contra o Trabalho se encontra na íntegra em http://www.dhnet.org.br/desejos/textos/krisis.htm . Agradeço ao Daniel por haver me relembrado da existência desse grupo Krisis: eu li entrevista deles quando estiveram em São Paulo nos anos 90 e fiquei muito bem impressionado. Não exagero ao dizer que me marcou a ponto de ter influenciado no pensamento-e-prática da Trópis. Mas isso foi antes da net, e eu havia perdido a pista dele.  Valeu, Dan!!
 
Abraços a tod@s,
Zé Ralf
 
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Ralf Rickli • arte em idéias, palavras & educação
http://ralf.r.tropis.org • (11) 8552-4506
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