Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

27 outubro 2012

O ideal democrático, o Brasil ária de 500 anos, e o Brasil ameríndio de (pelo menos) 15 mil



Decidi republicar este artigo neste dia 27.10.2012, em que Luís Inácio Lula da Silva completa 67 anos, véspera de uma eleição que tende a reafirmar a importância histórica dele próprio e do partido que se consolidou em torno dele, o PT -
 

... e, ao mesmo tempo, num momento em que o drama das populações brasileiras originais volta à tona com especial pungência, através do caso das populações guarani kaiowá sitiadas em Mato Grosso do Sul.

O artigo havia sido publicado neste blog em 07.04.2008, com o título Alguns subsídios históricos para as ações de 19 de abril. Naquele momento eu colaborava com a preparação do evento "Julgamento Público de Borba Gato", que teve lugar no "Dia do Índio" desse ano.

Já não se tratava, porém, de um texto escrito originalmente para a ocasião, e sim de uma colagem de dois textos anteriores:

A primeira parte (O LADO DE 500 ANOS) é basicamente o artigo que distribuí por email em 2006, como contribuição à campanha de reeleição do Lula, tentando mostrar seu significado histórico no contexto dos 5 a 6 mil anos de expansão indoeuropeia ou ariana.

A segunda (O LADO DE PELO MENOS 15 MIL ANOS) investiga o espírito das culturas ameríndias, sua pertença a uma certa "vertente do pacífico" e sua contribuição para o ideal de democracia. Procede de outro trabalho de 2008, Liberdade socialmente sustentável, disponível na íntegra em www.tropis.org/biblioteca .

Observo, finalmente, que embora o texto mais antigo seja de 2006, é desde 1990 que tenho me ocupado com essa temática e perspectiva.

1. O lado de 500 anos
(para entender a ação da cultura invasora)
1.1. O ENXERTO E SUAS RAÍZES ANTIGAS
A compreensão do que acontece hoje no Brasil depende do conhecimento das coisas que aconteceram logo depois da chegada dos portugueses, há 500 e poucos anos –
... mas essas mesmas coisas se mostram ainda mais significativa à luz de outras que começaram bem antes: 5 mil, 5500 anos atrás.
Nessa época um povinho da divisa Europa-Ásia começou a se espalhar para todos os lados.  Analfabetos mas brilhantes no uso do cavalo e das armas, iam conquistando tudo, inclusive povos bem mais avançados.
Há várias marcas típicas dessas conquistas, mas uma me impressiona mais: esses árias (ou indo-europeus) impunham sua língua, e depois de algum tempo os conquistados nem se lembravam de quem eram antes. Só sabiam que por alguma razão eram árias "de segunda classe", com uma cultura sincrética (feita de cacos recombinados), e escravos de uma elite que dizia ser a fundadora daquela sociedade.
Na Índia, conquistaram o povo escuro e "de nariz chato" que construíra a primeira cidade planejada do mundo, com água e esgoto no 2.º andar (Mohenjo-Daro). Aí os vencedores foram civilizados pelos derrotados, mas não deixaram de escravizá-los como "casta inferior".
A expansão foi lenta – milênios – mas avassaladora: na Europa inteira só sobrou uma língua de antes das invasões: a língua basca. Importante: a maioria dos outros espanhóis também descende de bascos, mas não sabem ou não admitem isso.
Não se trata portanto de uma raça dominante, e sim de uma cultura: não de um modelo de computador e sim de um programa, um sistema operacional – o qual tem suas riquezas e belezas, mas também um problema sério: impele pessoas a saírem agindo como dominadores. "Com nossas armas e carros de guerra, conquistaremos o mundo" – está lá, em um de seus escritos mais antigos.
Alguém pode dizer "mas todo povo e todo ser humano pensa assim!", mas acredite: não é verdade. Boa parte dos povos só pensou em ter um espaço seu, nunca em conquistar o mundo... Só nos parece natural porque também recebemos esse "programa" já com a nossa língua.
Tampouco estou falando de coisas do passado: dos 5 auto-nomeados guardiões do planeta – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – só a China não é de fala indo-européia.
E eu digo que podemos encontrar marcas típicas dessas invasões ainda nas operações de "desbravamento" da Amazônia nos últimos 50 anos.[1]
1.2. BRASILEIROS E BRASÍLICOS
Aqui, depois de 1500 começaram a aparecer brasileiros - palavra como "madeireiros", significando "comerciantes de pau-brasil". Vinham para exportar, enriquecer... e ir gozar a vida nas metrópoles da época. Claro que com o tempo muitos estabeleceram residência aqui, mas com a mesma atitude básica.
Ao mesmo tempo, porém, ia se formando aqui um povo mesclado de índios, africanos e de europeus "desclassificados", os quais não queriam ou não tinham como se manter ligados à Europa. Um povo que não tinha esta terra como campo de exploração econômica, mas, bem ou mal, como seu único lar.
Lamentavelmente também ficaram chamados de "brasileiros". "Brasilianos", "brasileses" ou "brasílicos" seria bem melhor.
Não estou falando propriamente de "burguesia e proletariado"; isso é parecido, mas não a mesma coisa.
Tem mais a ver com a divisão de Roma entre patrícios e plebeus: falo de duas populações que convivem num mesmo espaço - as duas "impuras" do ponto de vista racial, mas sempre sob o mando daquela que foi arianizada antes, e que portanto foi a que impôs uma língua indo-européia no lugar (aqui, o português).
Somos educados a não admitir que somos dois povos, embora na prática todo morador de favela e toda "patrícia" que diz "essa gente" saibam disso muito bem.
Só que, como em tudo no Brasil (e isto não é crítica), os limites entre uma coisa e outra não são nítidos; existe uma vasta faixa de transição. Com isso fica difícil falar em números, mas podemos dizer com certeza que, de cada 10 brasileiros, pelo menos 7 são "plebeus". Talvez esse número fique em torno de 9, havendo para esses só um "patrício", e olha lá.
Apesar disso, ao longo de 502 anos, exclusivamente "patrícios" estiveram no comando geral desta terra – às vezes só mantendo o estado das coisas, às vezes querendo fazer todo mundo "crescer" ou "se desenvolver" de um modo tal que os beneficiários principais, senão únicos, fossem eles mesmos. Foi só em 2002 que o país decidiu arriscar o que nunca tinha tentado: colocar um dos plebeus no centro do poder.
Pode-se discutir se o que essa pessoa está fazendo é o mais adequado ou não, e mais ainda:  se a natureza da própria instituição presidida (o Estado) corresponde às necessidades humanas de hoje. Ainda assim, não se pode desconsiderar a dimensão histórica desse fato - suficiente para que o nosso momento atual seja lembrado no futuro como é, digamos, a participação dos Gracos na história de Roma.
1.3. ESTOU PREGANDO A DIVISÃO DO PAÍS?
Muito pelo contrário! O que estou é apelando por reconhecermos a real dimensão e natureza de uma brecha que já existe, para lidarmos com ela adequadamente – em lugar de ficar disfarçando-a com reboco mais uma vez.
Insistir em negar a realidade irá mais cedo ou mais tarde fazer do país uma praça de guerra, com ou sem teoria por trás. Já tivemos como amostra São Paulo conflagrada pelo PCC em 2006. Mesmo o PCC não passando de uma organização de crime comum, a dimensão e condições do "lado de baixo" pode lhe pôr à disposição um estoque de massa-de-manobra quase inesgotável.
500 anos de governantes da elite nunca tentaram unir o país de fato. Se falaram de unidade, foi na base do "nós mandamos, vocês obedecem, e assim nossa casa está em paz."
Como se a plebe também não fosse formada de seres humanos, isto é: com capacidade de análise e de decisão.
1.4. A FORÇA MUNDIAL DE SER O QUE SE É
Eu disse que estamos fazendo diferença, mas ao mesmo tempo parecemos insignificantes frente ao que é apresentado pela imprensa como as grandes questões mundiais.
A maior dessas questões é provavelmente a que vem sendo apresentada como "confronto Islã-Ocidente" – apresentação enganosa já porque ao Islã só incomoda o eixo EUA-Israel.
E na verdade as forças por trás do Sr. Bush vêm há décadas urdindo planos para (literalmente) um século de dominação do mundo. Fazer do Islã um inimigo estava nos planos. Parte disso vem sendo a preparação da opinião pública com a divulgação de teorias pseudo-científicas – neste caso a "teoria do choque das civilizações" – num paralelo espantoso com a preparação da ascensão do nazismo.
Falei da conquista ariana do mundo deixando claro que não se trata de uma raça, mas de uma linhagem cultural: um programa, um sistema operacional.
E esse infelizmente parece ter vindo ao mundo contaminado por um vírus – um mito obsessor – com os seguintes efeitos:
- faz os contaminados enxergarem a humanidade dividida em duas partes, sendo a parte em que eles se encontram predestinada a conduzir os destinos de todos (com essas palavras ou não, a Herrenrasse [raça de senhores], na expressão dos nazistas), enquanto os outros da outra parte seriam já de berço destinados a apenas servir;
- apresenta a guerra como modo de libertar outros humanos de seu primitivismo e barbárie, concedendo-lhes a graça de serem incluídos, como servos, no melhor dos mundos possíveis: o mundo de dois pisos de que se consideram senhores.
Termos um plebeu no poder poderia ser um gesto demagógico que se esgotasse em si mesmo - mas, em certa medida para minha própria surpresa, está sendo muito mais: está correspondendo de verdade a, na escala mundial, assumirmos e participarmos da cena como o que de fato somos.
Se estamos fazendo diferença agora é justamente por isso. Pois como país de plebeus assumidos, o mundo vê nobreza em nós; como pretenso país de patrícios, somos ralé.
Nossas elites só enganam a si mesmas: olhadas de fora, a imagem de bobos úteis se evidencia por si mesma. E disso só um asno deixaria de se envergonhar.
(Falo no geral, é claro. No nível individual sempre existem exceções).
1.5. UMA PAZ REAL A CONSTRUIR
Lá em cima, vimos, senhores servos de mitos maléficos tramam guerras e sujeições.
Em baixo, plebeus matutos cuidam da vida e tramam paz.
Redes capazes de sustentar o planeta múltiplo-e-um, Oikumene, quando esse – Oxalá! – escapar das mãos dos mortos-vivos dominados pelo deus Ganância.
Muito além do que programas partidários baseados em teorias antigas consigam conter...
... muito além de picuinhas que precisam ser resolvidas mas são realmente picuinhas...
... muito além dos interesses do meu ou do seu grupo em particular...
... estamos todos fazendo parte é disso.
E disso qualquer um de nós só pode ter orgulho de querer participar.

2. O lado de pelo menos 15 mil anos
2.1. A RAIZ GENÉTICA E CULTURAL MAIS PROFUNDA DO POVO BRASÍLICO
Quando apresento minha Filosofia do Convívio aponto sempre sua ligação com uma certa "vertente de pensamento do Pacífico", fora da tradição eurocêntrica da história da filosofia: o pensamento taoísta e o zen (da China e Japão) e o ameríndio (dos povos indígenas das Américas).
Não se trata de uma junção arbitrária. De acordo com a pesquisa genética, a população que se encontrava nas Américas antes de Colombo descendia quase integralmente de povos da Sibéria – e é também no pensamento xamânico siberiano que vamos encontrar a raiz do taoísmo, o qual mais tarde se juntou ao budismo procedente da Índia, resultando no zen.[2]
Mas para não falar besteira é preciso estar consciente dos intervalos de tempo envolvidos: os índios se encontram aqui há pelo menos 15 mil anos, e provavelmente há mais. O taoísmo tem uns 2.500 anos de história, mais talvez uns 1.000 de pré-história, e o zen tem "apenas" uns 1.500 anos.
É preciso mencionar, aliás, que a arqueóloga Niède Guidon provou que os vestígios de presença humana no Piauí têm não menos que 50 mil anos – mas com isso se torna praticamente impossível que esses primeiros habitantes fossem do tipo siberiano de que estamos falando; há, pelo contrário, razões para imaginar que tenham vindo diretamente da África.
Em última análise teriam sido esses os "descobridores da América" – mas para nossa história cultural importa bem mais o estrato (camada) que veio da Ásia – uma gente para a qual esta terra foi o Extremo Oriente, e não o Extremo Ocidente como para os africanos e os europeus – dado em que podemos encontrar ricas implicações simbólicas.
É urgente, portanto, que paremos de pensar que a nossa história, no Brasil, começa com a chegada dos portugueses em 1500 –
... inclusive a história cultural e intelectual. Pois há mais elementos do que pensamos para identificar algo como "uma forma ameríndia de pensar". Há, inclusive, muito mais textos produzidos por índios do que costumamos imaginar.[3]
2.2. A RAIZ AMERÍNDIA DO IMPULSO DEMOCRÁTICO MODERNO
Outro dado de grande interesse nesse sentido são as teorias que sugerem que a própria democracia moderna deve mais aos índios que aos gregos, a quem a costumamos vincular. Por quê razão, enfim, o impulso democrático grego teria ressurgido na Europa depois de uns dois mil anos de abandono – dois mil anos em que a história e filosofia dos gregos não deixaram de ser conhecidas no Ocidente a não ser por alguns momentos?
Por outro lado, foi depois da "descoberta" européia das Américas que o impulso democrático começou a se fazer sentir entre os próprios europeus.
Há pelo menos duas trajetórias pelas quais essa influência parece ter se dado: por um lado, os ensaios do francês Michel de Montaigne (1533-1592), ainda sob o impacto dos relatos dos navegadores – entre eles os do missionário calvinista Jean de Lery que participou da tentativa de estabelecimento na Baía da Guanabara conhecida como Invasão Francesa, e os de Villegaignon, que dirigia esse empreendimento.
Esses ensaios tiveram forte impacto, dois séculos mais tarde, no pensamento do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), uma das principais fontes das idéias democráticas na época iluminista.
Por outro lado, o estatuto da Liga das Nações Iroquesas (um povo indígena norte-americano) teria tido forte influência sobre outra dessas grandes fontes, que foram a Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos – razão pela qual o escritor Bruce Johansen menciona esses índios entre os fundadores da nação norte-americana como os "fundadores esquecidos".[4]
As razões que me levam a vincular a Filosofia do Convívio à vertente do Pacífico são portanto não só de afinidade metodológica e teórica (como veremos adiante), mas também razões políticas: a intenção de desenvolver um pensamento que se vincule não só à cultura que está nestas terras há 500 anos, mas também, e mais profundamente, àquela que está aqui a 15 mil anos, ou mais – e que, reconheçamos ou não, constitui a raiz genética e cultural mais profunda do povo brasileiro.


[1] Para quem quiser saber mais : a expansão dos árias ou indo-europeus, atestada pelo parentesco das línguas e de outros traços culturais, foi reconhecida ainda antes de 1800, e tratada em profundidade no século XX por (entre outros) Georges Dumézil, bastante utilizado por Mircea Eliade, nossa fonte principal. A relação disso com a história do Brasil é uma observação original nossa, apresentada pela primeira vez no trabalho Três raízes, dez mil flores, de 1992.
[2] Ver Bloise, Paulo V. O Tao e a psicologia. São Paulo: Angra, 2000. Para uma imagem fascinante da concepção de mundo dos povos siberianos, onde fica evidente sua semelhança com a dos ameríndios, ver o filme Dersú Uzalá, do diretor japonês Akira Kurosawa.
[3] Não cabe aqui uma relação ampla nesse sentido. Sugiro apenas que se preste atenção às publicações recentes, no Brasil, de Daniel Munduruku, Kaká Werá Jekupé e Olívio Jekupé – bem como a qualquer escrito ou entrevista de Aílton Krenak. Também são notáveis os estudos do casal francês Pierre e Hélène Clastres sobre a visão-de-mundo guarani, entre muitos outros. Em relação à América do Norte costumo me referir a McLuhan, T.C. Touch the earth: a self-portrait of Indian existence. Londres: Abacus, 1980.
[4] Johansen, Bruce E. Forgotten founders: Benjamin Franklin, the Iroquois and the rationale for the American revolution. Ipswich MA: Gambit, 1982. Consultado em http://www.ratical.com/many_worlds/6Nations/

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