Publicado originalmente na
coluna Espaço LGBT no jornal ES Hoje, em 11.04.2014.
No quê Bolsonaro morreu, já
resolveu dar um golpe de Estado no além para “moralizar a história da
humanidade”. Conseguindo se apossar do grande computador dos destinos, mandou
suprimir do passado todos que tenham tido vivências homo e trans, duradouras ou
ocasionais.
Rio de Janeiro: no Teatro
Municipal, o maestro havia levantado as mãos para iniciar um concerto com o
Bolero de Ravel e a 5ª Sinfonia de Tchaikóvski, quando as partituras sumiram, e
os músicos nem lembravam que peças deveriam tocar. Nas escolas de samba, além
de muita gente sumir, o pessoal também não sabia o que fazer, pois sua
organização derivava da criada em 1929 por Ismael Silva. Blocos e bailes de
carnaval ficaram igualmente no vazio, sem as marchinhas de Lamartine Babo e de
Assis Valente. E a vista do Pão de Açúcar, cadê? Sem o Parque do Flamengo,
concebido por Lota Macedo Soares, os prédios tapavam tudo.
Música no rádio? Como, sem
tantas das vozes masculinas e femininas, e tantos dos compositores, na MPB,
rock e pop nacional e mundial? Em todos os idiomas, poesia, ficção e teatro
também se calavam, sem contribuições fundadoras como as de Shakespeare,
Whitman, Wilde, Gide, Goethe, García Lorca, Fernando Pessoa. Nas artes
plásticas, a devastação incluiu a Mona Lisa, a Capela Sistina, a Pietà, a ode
ao corpo masculino que é aquele Davi de 6 metros - tudo de Da Vinci e de
Michelangelo, enfim. E a filosofia evaporou de Sócrates até Wittgenstein e
Foucault - e como sem Sócrates não haveria Aristóteles, sumiram também todas as
bases da lógica, da ciência e da política ocidentais.
Correram aos computadores
para entender - mas sem os fundamentos lançados pelo matemático Alan Turing não
havia computadores e, como se pode imaginar, quase nada da tecnologia atual.
Com isso, nos hospitais mais avançados imperava o caos, e, sem a tradição
fundada por Florence Nightingale, nem enfermagem havia. Cidades inteiras
sumiam, como Alexandria, já que não houve Alexandre para fundá-la. E por falar
em Alexandria, a maior parte das bibliotecas já nem fazia sentido, pois, sem
Júlio César, os romanos não tinham conquistado a Europa Ocidental, e assim as
línguas portuguesa, espanhola e francesa não chegaram a existir, e nem mesmo o
inglês, que recebeu metade do seu vocabulário do latim!
Sem as teias da cultura que lhes conferiam identidade, pessoas vagavam sem saber quem eram nem onde estavam. Foi quando o arcanjo Rafael, patrono da cura, da comunicação e de tudo o que intermedeia entre os extremos - inclusive entre os sexos e os gêneros - percebeu o que estava acontecendo, chamou os colegas Gabriel e Miguel, e irromperam na sala em que o filhote de Hitler aprontava. Miguel quis logo evaporá-lo com um raio, mas os outros preferiram o humor - e o projeto de ditador foi colocado para servir refrescos nos círculos do purgatório pelo resto da eternidade, como garçonete drag caricata. Assim, o mundo ficou tendo não só sobrevivência, mas recuperou as cores, arte, cultura, civilização… e eu pude acordar aliviado!
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A cidade de Alexandria teria desaparecido - junto com muitas outras - com a tal moralização da história intentada pelo fantasma de Bolsonaro... |