Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

21 março 2014

VITÓRIAS DA DIVERSIDADE



Publicado originalmente na coluna Espaço LGBT no jornal ES Hoje, em 14.03.2014.
 
Na última quarta-feira, 12 de março, Vitória celebrou pela primeira vez seu Dia Municipal de Combate à Homofobia, instituído no fim de 2013 pela Lei 8552. A data relembra a criação, em 1990, do Triângulo Rosa, primeira entidade de defesa dos direitos LGBT no Espírito Santo. De início pensei: mas por que não 17 de maio, que já é oficialmente dia mundial, nacional e estadual nesse sentido? - mas logo caiu a ficha: é claro que é vantagem ter mais dias, muitos dias, para este assunto tão crucial para a conscientização e educação da sociedade!

Audiência Pública na Câmara de Vitória marca a passagem do seu
primeiro Dia Municipal de Combate à Homofobia, em 12.03.2014

Quinze dias antes a mesma Câmara de Vitória havia promulgado outro instrumento de alta relevância: a Lei 8627, que estabelece sanções administrativas (multas, suspensão de alvará e proibição de participar em licitações) para pessoas físicas e jurídicas que, dentro do município de Vitória, praticarem discriminação de pessoas em virtude de sua identidade e orientação sexual, bem como origem, raça, idade, sexo e cor. A questão LGBT aparece com ainda mais explicitude na ementa: Dispõe sobre penalidades a toda e qualquer forma de discriminação, prática de violência ou manifestação que atente contra a orientação sexual da pessoa homossexual, bissexual, travesti ou transexual.

Vale notar que a primeira lei foi proposta por um vereador do PT, a segunda por um do PSDB - partidos tidos como antípodas - mostrando que a questão não pertence a este ou aquele grupo de interesse e de opinião, mas é de puro bom senso e do interesse da sociedade inteira. Afinal, é justamente a quase infinita variedade de formas de ser possíveis o que mais distingue o ser humano do animal. É a própria humanitude da humanidade que é ofendida, cada vez que alguém é discriminado ou agredido apenas por ser como é.

Enriquecendo a reflexão, na quinta o ES Cineclube da Diversidade exibiu no Arquivo Público o filme Bent, que mostra entre outras coisas a origem da expressão Triângulo Rosa: o distintivo que os gays eram obrigados a usar nos campos de concentração nazistas. Profundamente tocante, é uma séria advertência nestes tempos em que tanta gente ameaça regredir para concepções totalitárias.

Para completar, o sábado 15 terá uma variação do que talvez seja a mais bonita ação afirmativa LGBT que costuma acontecer em Vitória: os piqueniques realizados há quase três anos pelo Grupo CORES - Consciência, Orgulho e Respeito do Espírito Santo. Acho especialmente bonitos porque não envolvem exploração comercial, nem usam som amplificado para mobilizar: são puro encontro humano por vontade de se encontrar. Depois de onze edições na Pedra da Cebola, desta vez resolveu-se marcar o último fim de semana do verão dando-lhe a forma de Praia das Cores, no que para mim é um dos mais poéticos lugares de Vitória (às vezes injustamente discriminado): a Curva da Jurema. A partir das 16 horas o povo vai se encontrar no espaço mais sereno lá no fim, próximo ao Posto Policial da Ilha do Boi. E uma superstar muito querida do povo LGBT não vai faltar: a Lua. Cheia (ou quaaase lá).
 
Jovem participante hasteia a Bandeira da Diversidade na Curva da Jurema,
em Vitória, ES, na "1ª PRAIA DAS CORES", em 15.03.2014
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20 março 2014

RCDH: novo portal de INFORMAÇÕES e DENÚNCIAS sobre DIREITOS HUMANOS

Convido tod@s a explorarem este novo site de Direitos Humanos, uma parceria da SEADH - Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Espírito Santo (de cuja equipe faço parte) e da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo.

Já está no ar, mesmo se o lançamento oficial vai ser na segunda 24/03/2014. Quero apostar que o conteúdo irá surpreender :)
REDE CAPIXABA DE DIREITOS HUMANOS
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http://www.rcdh.ufes.br
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21 fevereiro 2014

BEM MAIS QUE UM BEIJO




Publicado originalmente em 14/02/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje.

Não costumo chamar atenção para produtos da TV Globo, mas, como em tudo na vida, há momentos que merecem uma exceção. Por outro lado, para a vida efêmera dos assuntos televisivos, este já é um assunto velho - embora fosse o mais palpitante do momento há apenas três semanas. O fato, porém, é que os temas abordados no final da novela
Amor à Vida são de importância perene - e tanto, que comentá-los suficientemente exigiria pelo menos três vezes os 3000 caracteres de que disponho no jornal ES. Na impossibilidade de ampliar este texto agora, apenas reproduzo o texto como saiu no jornal - mas não deixo de registrar a intenção de desenvolvê-lo mais em outro momento.
O assunto mais comentado há uns dias foi o primeiro beijo na boca entre dois homens numa novela da TV brasileira. Aliás, não só comentado como ruidosamente comemorado, e por uma parcela tão grande do público, que certamente o número de héteros comemorando ultrapassou o de LGBTs. Isso é ótimo, pois indica que há uma grande massa de heterossexuais que não desejam que o país retroceda a uma ditadura da hipocrisia e da ignorância!

Na própria comunidade LGBT, no entanto, a cena do beijo não foi a de maior impacto em Amor à Vida. Para entender, nada melhor que este depoimento anônimo que se espalhou velozmente na net, veiculado por um amigo do autor: "Estavam todos na sala - eu no sofá - quando o Félix beijou o ‘carneirinho’. Silêncio… Fiquei quieto pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro. Mas a cena final, do Félix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses 4 anos que não falamos direito. Estava em total descontrole… daí veio minha mãe me abraçar com a cara toda melada de chorar, e meu pai do outro lado segurou minha mão, e pôs a outra mão em volta do meu ombro. Não falamos nada! Na hora de dormir, meu irmão entrou no quarto, deu a mão, e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo. Pela primeira vez [nesses 4 anos] não dormi no inferno."

Convém relembrar o contexto: Félix, que passou a maior parte da história como vilão, vive agora com Niko numa relação amorosa, não sexual, constituindo família com este, seus filhos, e ainda César, o pai de Félix, cuja rejeição homofóbica ao filho foi a principal fonte das distorções na vida deste, e agora está em cadeira de rodas devido a um AVC. A cena: Félix dá ao pai os cuidados matinais, e em seguida o leva à praia, onde assistem ao nascer do sol. Aí, de modo ainda sofrido, Félix afirma seu amor pelo pai. Este busca com dificuldade a mão de Félix e a segura dizendo “também te amo - meu filho”. Por um instante o universo parece pacificado… e a novela termina aí.



Não quero enveredar agora pelas muitas discussões cabíveis; só apontar que esse final fez de Amor à Vida a primeira novela brasileira com um personagem principal gay - e mais: inteiramente estruturada em torno de uma das questões LGBT mais agudas: ninguém - LGBT ou hétero - quer ter de optar entre a família de origem e o parceiro de intimidade sexual; todos almejam uma comunidade de amados integrada, sem exclusões. Mas não muitos LGBTs alcançam.

É claro que é bom que um beijo nosso, que sentimos como lindo, seja reconhecido como lindo também por outros - mas isso é detalhe. Importa é podermos ser quem somos e amarmos do jeito que brota espontâneo de dentro de nós, sem nos vermos excluídos por isso da consideração, carinho e convívio dos outros que também amamos. Já se sabe que sentir-se acolhido é a necessidade humana mais elementar; sem isso não há quem seja capaz de sentir amor à vida. Nem à sua, nem à dos outros.

17 janeiro 2014

Perversão: filha da liberdade ou da repressão?


Publicado originalmente em 10/01/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente corrigido em relação ao texto do jornal.
 

Quem lê esta coluna sabe que costumo associar sexo com o Bem, não com doença ou pecado - mas não ignoro que haja crimes bárbaros envolvendo o desejo sexual. Isso significa que ele é perigoso e deve ser reprimido? Analisemos um caso: em São Paulo um rapaz perfeitamente agradável fazia amizade com garotas e terminava convidando-as a passear nas belas matas do Parque do Estado. Lá fazia sexo com elas e em seguida as estrangulava e enterrava.

Fazia isso porque ninguém “colocou limites”, ensinando que é errado matar? Ridículo! Quem tem noção da alma humana vê de imediato que o mais provável é que algo lhe tenha incutido muito cedo (talvez ainda antes de falar) que sexo é algo muito, muito feio; imperdoável. E portanto é preciso livrar-se das testemunhas de ter cometido tal “barbaridade”: a de dar satisfação ao seu desejo normal, mesmo com quem também o desejava!

Também é parte da normalidade do desejo que ele volte sempre - e que, até meados da vida, seja uma força irresistível, que pode deixar seu sujeito completamente bêbado de hormônios para forçá-lo a satisfazer-se; pode mudar de objeto, mudar de forma, mas nunca desiste de buscar sua satisfação. No caso acima, isso significou que houve vítimas em série. Culpa do desejo? Não: culpa da culpa que alguém um dia associou ao desejo (talvez com a melhor das intenções), sem o que esse jovem conseguiria se satisfazer normalmente, em prazer compartilhado e sem violência.

Não há como não lembrar as palavras de Jesus em Lucas 11:46: Ai de vós, doutores da lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar... E o mesmo versículo conclui: mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos. Coisa daqueles tempos? Ora, quantos casos temos conhecido de líderes religiosos, ordenados ou leigos, que atacam duramente a homossexualidade (que nem é perversão!), acusando jovens de “darem lugar ao diabo” quando a assumem - e depois são reconhecidos pelos mesmos jovens num cinemão, num perfil fake na internet, num ponto de pegação!

Não, não estou fantasiando: falo de casos concretos conhecidos. E não os acuso por estarem sendo humanos: acuso por venderem regras que eles sabem, de suas próprias vidas, que são pesos que homens não podem levar - e que portanto não podem ter sido impostas pelo mesmo Deus que, segundo eles, criou esses homens como criou. A taxa de suicídio é três vezes mais alta entre jovens gays que na média geral - e os suicídios ocorrem especialmente depois que o jovem procurou uma pessoa mais experiente da qual esperava compreensão e acolhimento, e se viu rejeitado por ela. Será preciso dizer mais?

A liberdade não garante um mundo sem perversões de um dia para o outro - mas coloca o mundo no rumo virtuoso da superação gradual das perversões. Precisamente o contrário acontece com a repressão. Como escreveu William Blake já por volta de 1790 (tradução nossa): Abster-se do prazer joga areia / nos membros e cabelos flamejantes; / desejo satisfeito aí semeia / vida e beleza frutificantes.*

* Abstinence sows sand all over / The ruddy limbs and flaming hair, / But Desire gratified / Plants fruits of life and beauty there.

22 dezembro 2013

O gemido de Natal dos excluídos (ou: A paradoxal marchinha de Natal do suicida Assis Valente)



Publicado originalmente em 13/12/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente adaptado em relação ao texto do jornal.




Confesso que me irrita esta época em que toca música de Natal em toda parte - e a irritação chega ao máximo quando aparece a única música brasileira usual nesse repertório: aquela “Papai Noééél... vê se você tem / a felicidade / pra você me dar”. 
 
Por que me irrita tanto? Porque as pessoas a cantam festivamente, sem dar a mínima para o fato de a letra ser uma denúncia da falsidade dessa mesma festividade, e um gemido de dor de uma vítima de todo tipo de opressões e rejeições. [Veja letra completa ao final]

Nascido em pobreza no interior da Bahia, muito cedo o negrinho Assis Valente foi arrancado dos pais - e da infância - para ser criado trabalhando.
 
A sorte pelo menos lhe deu um patrão diferenciado, pois aos 10 anos, além de prático em farmácia, o menino tinha surpreendente conhecimento de literatura. Quando os artistas de um circo passaram necessidade devido à indiferença da cidade, o menino intercedeu por eles com tal eloquência que acabou ganhando do circo uma carona para o mundo. Aos 16 chega ao Rio, já profissionalizado em Salvador como protético. Aos 20 compõe seu primeiro samba, e aos 21 essa paradoxal marchinha de Natal, num quarto solitário de Niterói.

Sensível, de inteligência brilhante... mas baiano, preto, pobre e gay numa metrópole falsamente tolerante, foi com certeza em busca de respeito que aos 30 se casou - para 4 meses depois se atirar do Corcovado num dia 13 de maio. Agonia dupla, o que era pra ser um desfecho trágico emblemático termina quase ridículo: fica enroscado em árvores e é resgatado pelos bombeiros.

Mas nosso Valente morreria mesmo de suicídio, na terceira tentativa, aos 47 anos. Dando continuidade à hipocrisia, grande parte das biografias diz apenas: “devido a dívidas”. Mas como, o autor de Camisa Listrada e Brasil Pandeiro, entre 153 composições? Tímido, reservado, Assis vivia sozinho e pagava para satisfazer a necessidade de atenção, de toque e de calor de corpo que todo ser humano tem - cada um a seu modo. E, com o senso de dignidade hipersensível devido a tantas violações, era um prato cheio para chantagistas.

Um dia se dirigiu a um parque infantil, pôs formicida num guaraná, e partiu. Como quem buscasse a porta da infância perdida.

É por isso que eu acho: ninguém deveria ter o direito de cantar Boas Festas, senão assumindo o compromisso de lutar contra as causas do suicídio do valente Assis. Vamos crescer, gente: Papai Noel não trará mesmo a felicidade para ninguém. Pois ele nem existe. Quem existe somos nós - e somos nós os responsáveis pelo que houver de felicidade ou de infelicidade no mundo.

Que tal lutar por um mundo sem crianças forçadas a trabalhar? E um Natal em que gays, lésbicas e trans não precisem chorar longe de suas famílias, como única alternativa a serem humilhados por elas? Em que possam festejar junto a todas as pessoas que amam, sem separar?

Se alguém vê imoralidade nisso, desculpe, mas não faz ideia do que seja o Bem. E, bem traduzido, o que o canto natalino dos anjos diz é “paz na Terra às pessoas que almejam o Bem”. Assim seja!

 Letra completa da canção "Boas Festas",
de Assis Valente (1932)

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar


Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel


Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem