Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

21 fevereiro 2014

BEM MAIS QUE UM BEIJO




Publicado originalmente em 14/02/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje.

Não costumo chamar atenção para produtos da TV Globo, mas, como em tudo na vida, há momentos que merecem uma exceção. Por outro lado, para a vida efêmera dos assuntos televisivos, este já é um assunto velho - embora fosse o mais palpitante do momento há apenas três semanas. O fato, porém, é que os temas abordados no final da novela
Amor à Vida são de importância perene - e tanto, que comentá-los suficientemente exigiria pelo menos três vezes os 3000 caracteres de que disponho no jornal ES. Na impossibilidade de ampliar este texto agora, apenas reproduzo o texto como saiu no jornal - mas não deixo de registrar a intenção de desenvolvê-lo mais em outro momento.
O assunto mais comentado há uns dias foi o primeiro beijo na boca entre dois homens numa novela da TV brasileira. Aliás, não só comentado como ruidosamente comemorado, e por uma parcela tão grande do público, que certamente o número de héteros comemorando ultrapassou o de LGBTs. Isso é ótimo, pois indica que há uma grande massa de heterossexuais que não desejam que o país retroceda a uma ditadura da hipocrisia e da ignorância!

Na própria comunidade LGBT, no entanto, a cena do beijo não foi a de maior impacto em Amor à Vida. Para entender, nada melhor que este depoimento anônimo que se espalhou velozmente na net, veiculado por um amigo do autor: "Estavam todos na sala - eu no sofá - quando o Félix beijou o ‘carneirinho’. Silêncio… Fiquei quieto pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro. Mas a cena final, do Félix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses 4 anos que não falamos direito. Estava em total descontrole… daí veio minha mãe me abraçar com a cara toda melada de chorar, e meu pai do outro lado segurou minha mão, e pôs a outra mão em volta do meu ombro. Não falamos nada! Na hora de dormir, meu irmão entrou no quarto, deu a mão, e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo. Pela primeira vez [nesses 4 anos] não dormi no inferno."

Convém relembrar o contexto: Félix, que passou a maior parte da história como vilão, vive agora com Niko numa relação amorosa, não sexual, constituindo família com este, seus filhos, e ainda César, o pai de Félix, cuja rejeição homofóbica ao filho foi a principal fonte das distorções na vida deste, e agora está em cadeira de rodas devido a um AVC. A cena: Félix dá ao pai os cuidados matinais, e em seguida o leva à praia, onde assistem ao nascer do sol. Aí, de modo ainda sofrido, Félix afirma seu amor pelo pai. Este busca com dificuldade a mão de Félix e a segura dizendo “também te amo - meu filho”. Por um instante o universo parece pacificado… e a novela termina aí.



Não quero enveredar agora pelas muitas discussões cabíveis; só apontar que esse final fez de Amor à Vida a primeira novela brasileira com um personagem principal gay - e mais: inteiramente estruturada em torno de uma das questões LGBT mais agudas: ninguém - LGBT ou hétero - quer ter de optar entre a família de origem e o parceiro de intimidade sexual; todos almejam uma comunidade de amados integrada, sem exclusões. Mas não muitos LGBTs alcançam.

É claro que é bom que um beijo nosso, que sentimos como lindo, seja reconhecido como lindo também por outros - mas isso é detalhe. Importa é podermos ser quem somos e amarmos do jeito que brota espontâneo de dentro de nós, sem nos vermos excluídos por isso da consideração, carinho e convívio dos outros que também amamos. Já se sabe que sentir-se acolhido é a necessidade humana mais elementar; sem isso não há quem seja capaz de sentir amor à vida. Nem à sua, nem à dos outros.

17 janeiro 2014

Perversão: filha da liberdade ou da repressão?


Publicado originalmente em 10/01/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente corrigido em relação ao texto do jornal.
 

Quem lê esta coluna sabe que costumo associar sexo com o Bem, não com doença ou pecado - mas não ignoro que haja crimes bárbaros envolvendo o desejo sexual. Isso significa que ele é perigoso e deve ser reprimido? Analisemos um caso: em São Paulo um rapaz perfeitamente agradável fazia amizade com garotas e terminava convidando-as a passear nas belas matas do Parque do Estado. Lá fazia sexo com elas e em seguida as estrangulava e enterrava.

Fazia isso porque ninguém “colocou limites”, ensinando que é errado matar? Ridículo! Quem tem noção da alma humana vê de imediato que o mais provável é que algo lhe tenha incutido muito cedo (talvez ainda antes de falar) que sexo é algo muito, muito feio; imperdoável. E portanto é preciso livrar-se das testemunhas de ter cometido tal “barbaridade”: a de dar satisfação ao seu desejo normal, mesmo com quem também o desejava!

Também é parte da normalidade do desejo que ele volte sempre - e que, até meados da vida, seja uma força irresistível, que pode deixar seu sujeito completamente bêbado de hormônios para forçá-lo a satisfazer-se; pode mudar de objeto, mudar de forma, mas nunca desiste de buscar sua satisfação. No caso acima, isso significou que houve vítimas em série. Culpa do desejo? Não: culpa da culpa que alguém um dia associou ao desejo (talvez com a melhor das intenções), sem o que esse jovem conseguiria se satisfazer normalmente, em prazer compartilhado e sem violência.

Não há como não lembrar as palavras de Jesus em Lucas 11:46: Ai de vós, doutores da lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar... E o mesmo versículo conclui: mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos. Coisa daqueles tempos? Ora, quantos casos temos conhecido de líderes religiosos, ordenados ou leigos, que atacam duramente a homossexualidade (que nem é perversão!), acusando jovens de “darem lugar ao diabo” quando a assumem - e depois são reconhecidos pelos mesmos jovens num cinemão, num perfil fake na internet, num ponto de pegação!

Não, não estou fantasiando: falo de casos concretos conhecidos. E não os acuso por estarem sendo humanos: acuso por venderem regras que eles sabem, de suas próprias vidas, que são pesos que homens não podem levar - e que portanto não podem ter sido impostas pelo mesmo Deus que, segundo eles, criou esses homens como criou. A taxa de suicídio é três vezes mais alta entre jovens gays que na média geral - e os suicídios ocorrem especialmente depois que o jovem procurou uma pessoa mais experiente da qual esperava compreensão e acolhimento, e se viu rejeitado por ela. Será preciso dizer mais?

A liberdade não garante um mundo sem perversões de um dia para o outro - mas coloca o mundo no rumo virtuoso da superação gradual das perversões. Precisamente o contrário acontece com a repressão. Como escreveu William Blake já por volta de 1790 (tradução nossa): Abster-se do prazer joga areia / nos membros e cabelos flamejantes; / desejo satisfeito aí semeia / vida e beleza frutificantes.*

* Abstinence sows sand all over / The ruddy limbs and flaming hair, / But Desire gratified / Plants fruits of life and beauty there.

22 dezembro 2013

O gemido de Natal dos excluídos (ou: A paradoxal marchinha de Natal do suicida Assis Valente)



Publicado originalmente em 13/12/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente adaptado em relação ao texto do jornal.




Confesso que me irrita esta época em que toca música de Natal em toda parte - e a irritação chega ao máximo quando aparece a única música brasileira usual nesse repertório: aquela “Papai Noééél... vê se você tem / a felicidade / pra você me dar”. 
 
Por que me irrita tanto? Porque as pessoas a cantam festivamente, sem dar a mínima para o fato de a letra ser uma denúncia da falsidade dessa mesma festividade, e um gemido de dor de uma vítima de todo tipo de opressões e rejeições. [Veja letra completa ao final]

Nascido em pobreza no interior da Bahia, muito cedo o negrinho Assis Valente foi arrancado dos pais - e da infância - para ser criado trabalhando.
 
A sorte pelo menos lhe deu um patrão diferenciado, pois aos 10 anos, além de prático em farmácia, o menino tinha surpreendente conhecimento de literatura. Quando os artistas de um circo passaram necessidade devido à indiferença da cidade, o menino intercedeu por eles com tal eloquência que acabou ganhando do circo uma carona para o mundo. Aos 16 chega ao Rio, já profissionalizado em Salvador como protético. Aos 20 compõe seu primeiro samba, e aos 21 essa paradoxal marchinha de Natal, num quarto solitário de Niterói.

Sensível, de inteligência brilhante... mas baiano, preto, pobre e gay numa metrópole falsamente tolerante, foi com certeza em busca de respeito que aos 30 se casou - para 4 meses depois se atirar do Corcovado num dia 13 de maio. Agonia dupla, o que era pra ser um desfecho trágico emblemático termina quase ridículo: fica enroscado em árvores e é resgatado pelos bombeiros.

Mas nosso Valente morreria mesmo de suicídio, na terceira tentativa, aos 47 anos. Dando continuidade à hipocrisia, grande parte das biografias diz apenas: “devido a dívidas”. Mas como, o autor de Camisa Listrada e Brasil Pandeiro, entre 153 composições? Tímido, reservado, Assis vivia sozinho e pagava para satisfazer a necessidade de atenção, de toque e de calor de corpo que todo ser humano tem - cada um a seu modo. E, com o senso de dignidade hipersensível devido a tantas violações, era um prato cheio para chantagistas.

Um dia se dirigiu a um parque infantil, pôs formicida num guaraná, e partiu. Como quem buscasse a porta da infância perdida.

É por isso que eu acho: ninguém deveria ter o direito de cantar Boas Festas, senão assumindo o compromisso de lutar contra as causas do suicídio do valente Assis. Vamos crescer, gente: Papai Noel não trará mesmo a felicidade para ninguém. Pois ele nem existe. Quem existe somos nós - e somos nós os responsáveis pelo que houver de felicidade ou de infelicidade no mundo.

Que tal lutar por um mundo sem crianças forçadas a trabalhar? E um Natal em que gays, lésbicas e trans não precisem chorar longe de suas famílias, como única alternativa a serem humilhados por elas? Em que possam festejar junto a todas as pessoas que amam, sem separar?

Se alguém vê imoralidade nisso, desculpe, mas não faz ideia do que seja o Bem. E, bem traduzido, o que o canto natalino dos anjos diz é “paz na Terra às pessoas que almejam o Bem”. Assim seja!

 Letra completa da canção "Boas Festas",
de Assis Valente (1932)

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar


Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel


Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem



15 novembro 2013

Homossexualidade e Negritude

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Publicado originalmente em 08/11/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente adaptado em relação ao texto do jornal.
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Zumbi dos Palmares, maior líder da resistência negra nos tempos coloniais, foi morto num 20 de novembro, mês que por isso se tornou referência na luta contra a discriminação racial no Brasil. Como isso se cruza com a luta contra outra discriminação, a por orientação sexual?

Há alguns anos muitos receberam como um insulto a sugestão do antropólogo paulista Luis Mott, casado com o historiador negro baiano Marcelo Cerqueira, de que Zumbi fosse gay. Os argumentos de Mott são de fato bem fracos, mas qual seria o problema, se tiver sido mesmo? Baste lembrar que os maiores guerreiros da Grécia antiga, Aquiles e Alexandre, amavam homens!

Infelizmente, a justíssima autoafirmação de valor dos negros da diáspora muitas vezes se equivoca, encarando a homossexualidade como manifestação de fraqueza branca, na qual seria indigno um negro incorrer. Espalhou-se inclusive o mito de que não havia homossexualidade na África, nem entre os índios - o que o jesuíta Pero Correia desmentia já em 1551: “O pecado contra a natureza, que dizem ser lá em África muito comum, o mesmo é nesta terra do Brasil, de maneira que há cá muitas mulheres que, assim nas armas como em todas as outras coisas, seguem ofício de homens e têm outras mulheres com que são casadas”.

Em 1998, Murray e Roscoe publicaram Boy-Wives and Female Husbands, 350 páginas de textos sobre homossexualidade masculina e feminina na África, começando em 1732 e passando por todo o século 20. Entre as centenas de exemplos, me chama atenção o dos trabalhadores de etnia tsongo, em minas na África do Sul e Moçambique: desde o século 19, é usual que um mais velho convide um mais jovem a ser “sua esposa”, tanto no sentido de cuidar da casa quanto no da satisfação sexual; esta, no entanto, é buscada entre as coxas do parceiro, não se vendo nenhuma necessidade de penetração anal (o que tantos desinformados pensam ser a essência obrigatória da homossexualidade masculina).

Não se trata, porém, de uma situação só tolerada devido à falta de mulheres no ambiente das minas: na mesma região, Moshesh, um chefe bosotho do século 19, deixou claro que em sua tradição não havia punição nem restrição ao sexo entre iguais. E me parece especialmente notável a formulação do povo fânti, de Ghana: os homens e mulheres “que têm alma pesada”, desejam mulheres; já os homens e mulheres “que têm alma leve” preferem homens. Que esplêndida e sábia simplicidade!

De onde vem, então, que a África venha sendo apontada como o pior reduto da homofobia violenta no mundo, quase como mais uma prova de seu suposto primitivismo? Embora ainda escondam, está fartamente provado: tanto a humanidade quanto a civilização começaram na África, e lá não havia miséria antes da intervenção branca. Nem homofobia. Um movimento negro inteligente não pode, portanto, engolir a balela de que homossexualidade seja uma fraqueza importada a rejeitar: cabe-lhe rejeitar a homofobia ao mesmo tempo e com o mesmo vigor com que rejeita a discriminação pela cor - pela sabedoria e pela honra dos seus ancestrais.
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