Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

21 fevereiro 2014

BEM MAIS QUE UM BEIJO




Publicado originalmente em 14/02/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje.

Não costumo chamar atenção para produtos da TV Globo, mas, como em tudo na vida, há momentos que merecem uma exceção. Por outro lado, para a vida efêmera dos assuntos televisivos, este já é um assunto velho - embora fosse o mais palpitante do momento há apenas três semanas. O fato, porém, é que os temas abordados no final da novela
Amor à Vida são de importância perene - e tanto, que comentá-los suficientemente exigiria pelo menos três vezes os 3000 caracteres de que disponho no jornal ES. Na impossibilidade de ampliar este texto agora, apenas reproduzo o texto como saiu no jornal - mas não deixo de registrar a intenção de desenvolvê-lo mais em outro momento.
O assunto mais comentado há uns dias foi o primeiro beijo na boca entre dois homens numa novela da TV brasileira. Aliás, não só comentado como ruidosamente comemorado, e por uma parcela tão grande do público, que certamente o número de héteros comemorando ultrapassou o de LGBTs. Isso é ótimo, pois indica que há uma grande massa de heterossexuais que não desejam que o país retroceda a uma ditadura da hipocrisia e da ignorância!

Na própria comunidade LGBT, no entanto, a cena do beijo não foi a de maior impacto em Amor à Vida. Para entender, nada melhor que este depoimento anônimo que se espalhou velozmente na net, veiculado por um amigo do autor: "Estavam todos na sala - eu no sofá - quando o Félix beijou o ‘carneirinho’. Silêncio… Fiquei quieto pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro. Mas a cena final, do Félix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses 4 anos que não falamos direito. Estava em total descontrole… daí veio minha mãe me abraçar com a cara toda melada de chorar, e meu pai do outro lado segurou minha mão, e pôs a outra mão em volta do meu ombro. Não falamos nada! Na hora de dormir, meu irmão entrou no quarto, deu a mão, e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo. Pela primeira vez [nesses 4 anos] não dormi no inferno."

Convém relembrar o contexto: Félix, que passou a maior parte da história como vilão, vive agora com Niko numa relação amorosa, não sexual, constituindo família com este, seus filhos, e ainda César, o pai de Félix, cuja rejeição homofóbica ao filho foi a principal fonte das distorções na vida deste, e agora está em cadeira de rodas devido a um AVC. A cena: Félix dá ao pai os cuidados matinais, e em seguida o leva à praia, onde assistem ao nascer do sol. Aí, de modo ainda sofrido, Félix afirma seu amor pelo pai. Este busca com dificuldade a mão de Félix e a segura dizendo “também te amo - meu filho”. Por um instante o universo parece pacificado… e a novela termina aí.



Não quero enveredar agora pelas muitas discussões cabíveis; só apontar que esse final fez de Amor à Vida a primeira novela brasileira com um personagem principal gay - e mais: inteiramente estruturada em torno de uma das questões LGBT mais agudas: ninguém - LGBT ou hétero - quer ter de optar entre a família de origem e o parceiro de intimidade sexual; todos almejam uma comunidade de amados integrada, sem exclusões. Mas não muitos LGBTs alcançam.

É claro que é bom que um beijo nosso, que sentimos como lindo, seja reconhecido como lindo também por outros - mas isso é detalhe. Importa é podermos ser quem somos e amarmos do jeito que brota espontâneo de dentro de nós, sem nos vermos excluídos por isso da consideração, carinho e convívio dos outros que também amamos. Já se sabe que sentir-se acolhido é a necessidade humana mais elementar; sem isso não há quem seja capaz de sentir amor à vida. Nem à sua, nem à dos outros.

17 janeiro 2014

Perversão: filha da liberdade ou da repressão?


Publicado originalmente em 10/01/2014 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente corrigido em relação ao texto do jornal.
 

Quem lê esta coluna sabe que costumo associar sexo com o Bem, não com doença ou pecado - mas não ignoro que haja crimes bárbaros envolvendo o desejo sexual. Isso significa que ele é perigoso e deve ser reprimido? Analisemos um caso: em São Paulo um rapaz perfeitamente agradável fazia amizade com garotas e terminava convidando-as a passear nas belas matas do Parque do Estado. Lá fazia sexo com elas e em seguida as estrangulava e enterrava.

Fazia isso porque ninguém “colocou limites”, ensinando que é errado matar? Ridículo! Quem tem noção da alma humana vê de imediato que o mais provável é que algo lhe tenha incutido muito cedo (talvez ainda antes de falar) que sexo é algo muito, muito feio; imperdoável. E portanto é preciso livrar-se das testemunhas de ter cometido tal “barbaridade”: a de dar satisfação ao seu desejo normal, mesmo com quem também o desejava!

Também é parte da normalidade do desejo que ele volte sempre - e que, até meados da vida, seja uma força irresistível, que pode deixar seu sujeito completamente bêbado de hormônios para forçá-lo a satisfazer-se; pode mudar de objeto, mudar de forma, mas nunca desiste de buscar sua satisfação. No caso acima, isso significou que houve vítimas em série. Culpa do desejo? Não: culpa da culpa que alguém um dia associou ao desejo (talvez com a melhor das intenções), sem o que esse jovem conseguiria se satisfazer normalmente, em prazer compartilhado e sem violência.

Não há como não lembrar as palavras de Jesus em Lucas 11:46: Ai de vós, doutores da lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar... E o mesmo versículo conclui: mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos. Coisa daqueles tempos? Ora, quantos casos temos conhecido de líderes religiosos, ordenados ou leigos, que atacam duramente a homossexualidade (que nem é perversão!), acusando jovens de “darem lugar ao diabo” quando a assumem - e depois são reconhecidos pelos mesmos jovens num cinemão, num perfil fake na internet, num ponto de pegação!

Não, não estou fantasiando: falo de casos concretos conhecidos. E não os acuso por estarem sendo humanos: acuso por venderem regras que eles sabem, de suas próprias vidas, que são pesos que homens não podem levar - e que portanto não podem ter sido impostas pelo mesmo Deus que, segundo eles, criou esses homens como criou. A taxa de suicídio é três vezes mais alta entre jovens gays que na média geral - e os suicídios ocorrem especialmente depois que o jovem procurou uma pessoa mais experiente da qual esperava compreensão e acolhimento, e se viu rejeitado por ela. Será preciso dizer mais?

A liberdade não garante um mundo sem perversões de um dia para o outro - mas coloca o mundo no rumo virtuoso da superação gradual das perversões. Precisamente o contrário acontece com a repressão. Como escreveu William Blake já por volta de 1790 (tradução nossa): Abster-se do prazer joga areia / nos membros e cabelos flamejantes; / desejo satisfeito aí semeia / vida e beleza frutificantes.*

* Abstinence sows sand all over / The ruddy limbs and flaming hair, / But Desire gratified / Plants fruits of life and beauty there.

22 dezembro 2013

O gemido de Natal dos excluídos (ou: A paradoxal marchinha de Natal do suicida Assis Valente)



Publicado originalmente em 13/12/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente adaptado em relação ao texto do jornal.




Confesso que me irrita esta época em que toca música de Natal em toda parte - e a irritação chega ao máximo quando aparece a única música brasileira usual nesse repertório: aquela “Papai Noééél... vê se você tem / a felicidade / pra você me dar”. 
 
Por que me irrita tanto? Porque as pessoas a cantam festivamente, sem dar a mínima para o fato de a letra ser uma denúncia da falsidade dessa mesma festividade, e um gemido de dor de uma vítima de todo tipo de opressões e rejeições. [Veja letra completa ao final]

Nascido em pobreza no interior da Bahia, muito cedo o negrinho Assis Valente foi arrancado dos pais - e da infância - para ser criado trabalhando.
 
A sorte pelo menos lhe deu um patrão diferenciado, pois aos 10 anos, além de prático em farmácia, o menino tinha surpreendente conhecimento de literatura. Quando os artistas de um circo passaram necessidade devido à indiferença da cidade, o menino intercedeu por eles com tal eloquência que acabou ganhando do circo uma carona para o mundo. Aos 16 chega ao Rio, já profissionalizado em Salvador como protético. Aos 20 compõe seu primeiro samba, e aos 21 essa paradoxal marchinha de Natal, num quarto solitário de Niterói.

Sensível, de inteligência brilhante... mas baiano, preto, pobre e gay numa metrópole falsamente tolerante, foi com certeza em busca de respeito que aos 30 se casou - para 4 meses depois se atirar do Corcovado num dia 13 de maio. Agonia dupla, o que era pra ser um desfecho trágico emblemático termina quase ridículo: fica enroscado em árvores e é resgatado pelos bombeiros.

Mas nosso Valente morreria mesmo de suicídio, na terceira tentativa, aos 47 anos. Dando continuidade à hipocrisia, grande parte das biografias diz apenas: “devido a dívidas”. Mas como, o autor de Camisa Listrada e Brasil Pandeiro, entre 153 composições? Tímido, reservado, Assis vivia sozinho e pagava para satisfazer a necessidade de atenção, de toque e de calor de corpo que todo ser humano tem - cada um a seu modo. E, com o senso de dignidade hipersensível devido a tantas violações, era um prato cheio para chantagistas.

Um dia se dirigiu a um parque infantil, pôs formicida num guaraná, e partiu. Como quem buscasse a porta da infância perdida.

É por isso que eu acho: ninguém deveria ter o direito de cantar Boas Festas, senão assumindo o compromisso de lutar contra as causas do suicídio do valente Assis. Vamos crescer, gente: Papai Noel não trará mesmo a felicidade para ninguém. Pois ele nem existe. Quem existe somos nós - e somos nós os responsáveis pelo que houver de felicidade ou de infelicidade no mundo.

Que tal lutar por um mundo sem crianças forçadas a trabalhar? E um Natal em que gays, lésbicas e trans não precisem chorar longe de suas famílias, como única alternativa a serem humilhados por elas? Em que possam festejar junto a todas as pessoas que amam, sem separar?

Se alguém vê imoralidade nisso, desculpe, mas não faz ideia do que seja o Bem. E, bem traduzido, o que o canto natalino dos anjos diz é “paz na Terra às pessoas que almejam o Bem”. Assim seja!

 Letra completa da canção "Boas Festas",
de Assis Valente (1932)

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar


Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel


Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem



15 novembro 2013

Homossexualidade e Negritude

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Publicado originalmente em 08/11/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje. Ligeiramente adaptado em relação ao texto do jornal.
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Zumbi dos Palmares, maior líder da resistência negra nos tempos coloniais, foi morto num 20 de novembro, mês que por isso se tornou referência na luta contra a discriminação racial no Brasil. Como isso se cruza com a luta contra outra discriminação, a por orientação sexual?

Há alguns anos muitos receberam como um insulto a sugestão do antropólogo paulista Luis Mott, casado com o historiador negro baiano Marcelo Cerqueira, de que Zumbi fosse gay. Os argumentos de Mott são de fato bem fracos, mas qual seria o problema, se tiver sido mesmo? Baste lembrar que os maiores guerreiros da Grécia antiga, Aquiles e Alexandre, amavam homens!

Infelizmente, a justíssima autoafirmação de valor dos negros da diáspora muitas vezes se equivoca, encarando a homossexualidade como manifestação de fraqueza branca, na qual seria indigno um negro incorrer. Espalhou-se inclusive o mito de que não havia homossexualidade na África, nem entre os índios - o que o jesuíta Pero Correia desmentia já em 1551: “O pecado contra a natureza, que dizem ser lá em África muito comum, o mesmo é nesta terra do Brasil, de maneira que há cá muitas mulheres que, assim nas armas como em todas as outras coisas, seguem ofício de homens e têm outras mulheres com que são casadas”.

Em 1998, Murray e Roscoe publicaram Boy-Wives and Female Husbands, 350 páginas de textos sobre homossexualidade masculina e feminina na África, começando em 1732 e passando por todo o século 20. Entre as centenas de exemplos, me chama atenção o dos trabalhadores de etnia tsongo, em minas na África do Sul e Moçambique: desde o século 19, é usual que um mais velho convide um mais jovem a ser “sua esposa”, tanto no sentido de cuidar da casa quanto no da satisfação sexual; esta, no entanto, é buscada entre as coxas do parceiro, não se vendo nenhuma necessidade de penetração anal (o que tantos desinformados pensam ser a essência obrigatória da homossexualidade masculina).

Não se trata, porém, de uma situação só tolerada devido à falta de mulheres no ambiente das minas: na mesma região, Moshesh, um chefe bosotho do século 19, deixou claro que em sua tradição não havia punição nem restrição ao sexo entre iguais. E me parece especialmente notável a formulação do povo fânti, de Ghana: os homens e mulheres “que têm alma pesada”, desejam mulheres; já os homens e mulheres “que têm alma leve” preferem homens. Que esplêndida e sábia simplicidade!

De onde vem, então, que a África venha sendo apontada como o pior reduto da homofobia violenta no mundo, quase como mais uma prova de seu suposto primitivismo? Embora ainda escondam, está fartamente provado: tanto a humanidade quanto a civilização começaram na África, e lá não havia miséria antes da intervenção branca. Nem homofobia. Um movimento negro inteligente não pode, portanto, engolir a balela de que homossexualidade seja uma fraqueza importada a rejeitar: cabe-lhe rejeitar a homofobia ao mesmo tempo e com o mesmo vigor com que rejeita a discriminação pela cor - pela sabedoria e pela honra dos seus ancestrais.
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17 outubro 2013

LGBT e Literatura Brasileira


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Publicado originalmente em 11/10/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje
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Já falamos de amores entre iguais nas remotas literaturas suméria e hebraica. E na brasileira, tem? Há um paradoxo, aqui: dizem que temos “o 1º romance homossexual da literatura ocidental”: Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, que já em 1895 tratou dos amores entre um marinheiro negro e um grumete loiro. Mas, esgotada a edição inicial, o livro foi proibido, e só reeditado em 1985. Só a partir de 1970 autores como João Silvério Trevisan e Caio Fernando Abreu passaram a tratar do tema com naturalidade, não mais com meias palavras ou como aberração, como vemos p.ex. em Raul Pompeia e Lúcio Cardoso.

Do que se escreveu no entremeio, tenho apreço especial por Mário de Andrade, sujeito de espantosa universalidade: formado pianista, inaugurou no país a poesia moderna, a prosa experimental, as políticas públicas de cultura, e a pesquisa respeitosa das religiões afrobrasileiras; não bastasse, foi quem revelou ao mundo a arte do Aleijadinho, então abandonada, e contratou Lévi-Strauss para as pesquisas entre os índios do Mato Grosso que revolucionaram a antropologia.

No campo LGBT, Mário costuma ser mencionado por Frederico Paciência, do livro Contos Novos (1943), mas na verdade há referências sutis espalhadas por toda sua poesia, crônicas, cartas e - o que eu mais gosto - nos Contos de Belazarte, escritos em 1923-25. Dos 7, 3 descrevem mulheres que se envolvem com cafajestes, e terminam com a frase “Fulana era muito infeliz”. Um descreve os sofrimentos do filho pequeno de uma dessas, e outro a paixão de uma adolescente por um professor. No 5º conto, o narrador conhece no bonde um jovem negro cujos olhos “adoçavam tudo que nem verso de Rilke”, e o contrata como doméstico. Não conseguindo romper as barreiras, ajuda-o a casar, batiza o filho… mas admite explicitamente que almejava um amor também corporal.

E aí aparece Nízia Figueira, última remanescente de uma família tradicional. O pai morre e deixa Nízia, aos 16, com um sítio nas imediações de São Paulo e uma criada negra uns dez anos mais velha: a prima Rufina. Vigorosa, esta empreende o plantio de frutas e hortas e vai vender na cidade, junto com os trabalhos de Nízia em tricô. Juntam seu dinheiro, aparecem pretendentes, Nízia nem sabe namorar, o tempo passa, pretendentes desistem, dores vêm e vão… e vão ficando só as duas e a cachaça: “Prima Rufina, se encostando em quanta parede achava, puxava Nízia. Nízia se erguia, agarrava o garrafão em meio, e as duas, se encostando uma na outra, iam pro quarto”. Sexo? O conto não dá nome. Mas fala de uma intimidade em que uma “acabava se aconchegando entre as pernas da outra, fazendo daquela barriga estufada um travesseiro cômodo”. Uma adormecia, a outra “ficava piscando devagar, mansamente. Que calma!”… E o livro ousa concluir: “Nízia era muito feliz”.

Noto agora que estes três textos atacam não só a barreira do sexo igual, mas também a racial, e dois deles a de classe social. Talvez por isso eu goste tanto deles: não são LGBT em abstrato: tratam de um lugar chamado BRASIL.
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20 setembro 2013

AMORES DE GUERREIROS ANCESTRAIS nº 2

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Publicado originalmente em 13/09/2013 na coluna Espaço LGBT do jornal ES Hoje
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Contam antigos papiros que Baskã reinava sobre o pequeno mas aguerrido povo de Akã, nos confins da Ásia. Colérico e instável, era menos querido que o filho Hediyê, autor de proezas nas lutas constantes com os vizinhos rakip - mas nenhuma comparável à do desconhecido boieiro Sevgili, que surpreendeu a todos abatendo o maior guerreiro rakip, pelo quê Baskã o convidou ao palácio. Sevgili sentiu-se honrado, mas nada à vontade na presença do rei - até que chegou o príncipe e (dizem os papiros) “a alma de Hediyê se ligou à alma de Sevgili”.

De olho numa junção de talentos guerreiros, Baskã mandou Sevgili ficar no palácio. Mal cabendo em si, Hediyê tirou e lhe deu sua túnica principesca e, sentindo que era pouco, entregou também o cinto, as melhores roupas, o arco, a espada - como querendo que o outro dividisse com ele o seu lugar na roupa e na vida, pois “o amava como à sua própria alma”.

Sevgili acompanhava Baskã nas batalhas, e tudo ia bem até que o rei reparou que o povo gabava mais os feitos de Sevgili que os seus. Alarmado, mandou que o matassem, mas Sevgili foi avisado e escapou para um esconderijo no mato, onde Hediyê o encontrava. O príncipe tentou demover o pai - mas este se enfureceu ainda mais e por pouco não acerta a lança no próprio filho, gritando “pensa que eu não sei que te juntaste ao boieiro, para vergonha tua e da vida-torta que te pôs no mundo?”
 

Assim Sevgili entendeu que precisava partir para outras terras, e se despediram beijando-se, abraçando-se e chorando em abundância, e Hediyê lhe dizia: “Tu vais vencer. Teus inimigos terão até os nomes varridos da Terra - mas meu nome há de ficar porque eu fiquei contigo. Até meu pai já entendeu que tu serás o rei, e eu serei o teu braço direito, e o nosso Deus Supremo unirá a tua descendência e a minha para sempre”. Pois (dizem os papiros) “Hediyê amava Sevgili com todo o amor da sua alma”.

Muito tempo passou, e muitos conflitos sangrentos naquela terra conturbada - até que um dia Baskã e seus filhos foram emboscados e, sem Sevgili para ajudar, trucidados pelos rakip. Ao sabê-lo, Sevgili chorou amargamente a batalha perdida e a morte do rei que, apesar de tudo, ele havia querido como a um pai - culminando seu pranto na declaração “Hediyê, meu irmão, a dor por ti me transpassa! Tu eras minha alegria, e o teu amor mais desejável para mim que o amor das mulheres”. Pouco depois Sevgili se tornou rei de Akã, e mandou buscar o filho de Hediyê para o proteger.

Que tremenda história de amor gay! Ou não? Homens que assumem sua natureza homoafetiva reconhecem de imediato o sentimento de cada frase. Se emocionam que há 3 mil anos alguém tenha descrito com tal precisão sensações que conhecem tão bem! Mas há quem não admita - pois essa história é da Bíblia, apenas mudei os nomes Jônatas, Davi, Saul e Israel por palavras turcas. Ninguém vê razão para negar que heróis bíblicos matassem, tivessem mulheres mil - mas que amassem um ao outro de corpo e alma, isso “não pode estar lá”. Não procure a razão: não há.

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13 setembro 2013

Os tais ex-gays e o caso bi

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Publicado originalmente no jornal ES Hoje, em 09.08.2013
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É uma minoria barulhenta, entre os religiosos, quem insiste em julgar a diversidade natural como anormal e abominação. E essa deu de apregoar que uma meia dúzia de ex-gays ou ex-travestis seriam prova de que o caminho certo para todos os 20 milhões de LGBTs brasileiros é aceitar a religião deles para virarem normais. Ativistas LGBT retrucam com fúria que orientação sexual não muda e os ditos ex só estão mentindo a si mesmos. Não é sem razão - mas parece que travamos nesse -É! -Não é! e não vamos adiante. Que tal tentar enfrentar a questão com um pouco mais de ginga?

Vejam: tem muito homem que nunca sonhou fazer sexo com outro, viveu um casamento convencional por anos ou décadas, até que um dia, por brincadeira ou bebedeira, consentiu em uma aproximação - e aí não quer mais ficar sem o sexo entre iguais. Alguns desses conservam o interesse em mulheres, outros perdem completamente. E aí: houve mudança de orientação sexual, não houve? Acreditem: não!

Kinsey apontou 7 variações do desejo, conforme seus objetos: 0: Só diferentes, nenhum igual. 1: Um igual vez ou outra. 2: Iguais com considerável frequência, mas os diferentes ganham. 3: Diferentes e iguais na mesma medida. 4: Diferentes com considerável frequência, mas os iguais ganham. 5: Diferentes só vez ou outra. 6: Exclusivamente iguais. Como se vê, 5 dos 7 tipos são capazes de prazer com os dois sexos, só 2 não são. A população de gays/lés 100% é relativamente pequena, mas a de 100% héteros também. Em períodos longos sem contato com o sexo oposto, a maior parte se descobre capaz de desejo por iguais. Dos que não chegam a praticar, a maioria se contém com esforço e por medo incutido, bem poucos por nem chegarem a desejar.

Nenhum hétero exclusivo optou por ser assim: simplesmente é. O mesmo vale para gays/lés exclusiv@s. Já o bissexual, tampouco optou por desejar os dois, mas tem sim 3 opções para realizar o desejo: só com iguais, só com diferentes, ou com os dois. Sua história de vida pode ter levado a começar por um dos lados, e esse ter sido satisfatório o bastante para ele nem desconfiar que o outro lhe poderia ser igualmente bom, ou ainda melhor. Supostos ex-gays, se estão felizes, são é bissexuais explorando outra de suas possibilidades. Ex-héteros podem ser a mesma coisa, ou são gays quase-exclusivos que haviam se deixado dominar pela doutrinação social heteronormativa. Alguns destes se libertam sozinhos ou com ajuda de amigos, outros só com ajuda psicológica.


Reconheçamos: também existem héteros quase-exclusivos que a vida levou a viver como homossexuais ou mesmo travestis em situações p.ex. de prostituição forçada por penúria ou escravização. Quando essas condições cessam, tais héteros reencontram sua orientação sem psicólogo nem pastor, pois no rumo hétero a sociedade inteira ajuda. Mas se ser ex-gay te custa esforço, terapia ou oração, meu bem… então seu caso não é esse - e aí só posso dizer: despacha da tua vida esses parasitas, se solta… e (re)começa a ser feliz sendo o gay que Deus te fez!
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02 setembro 2013

DAS GRACIOSAS ESTRATÉGIAS DOS QUE QUEREM VER UM MUNDO EM CHAMAS

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Com um pé no em nosso nível natural-animal, outro no nosso nível cultural, BRINCAR sempre foi exercitar simuladamente, na infância, habilidades que serão aplicadas pra valer na vida adulta, com a adolescência como uma fase de transição gradual entre a simulação e o pra valer (não importa A MÍNIMA que a adolescência só tenha começado a ser NOMEADA a partir do século tal - antes que me venham com esse tipo de clichê acadêmico europeu).

Também não me venham com aquele papo de que "se jogos violentos produzissem pessoas violentas, jogar Banco Imobiliário produziria ricos". Pois jogar Banco Imobiliário de fato pode estimular o espírito competitivo-especulativo, mas FICAR RICO É UM CRIME DE EXECUÇÃO MUITO MAIS DIFÍCIL que sair dando tiros em alguém - e é por isso que tão pouca gente consegue, mesmo que tenha jogado Banco Imobiliário.

De resto, se apenas 1% dos que jogam games violentos forem induzidos por isso a serem violentos na vida real, isso significará um estrago bárbaro na vida coletiva. Provavelmente são bem menos que 1% os que partem para violência aberta - e mesmo isso JÁ VEM fazendo um estrago bárbaro - à parte determinado tempero nas atitudes de vida mesmo daqueles que não chegam à violência aberta.

Enfim: A CHAVE DO SISTEMA DE DOMINAÇÃO do Império Mundial dos Psicopatas, dominação sob a qual vivemos, é manter todos em conflito com todos, ou a ponto de, tanto na escala microssocial (indivíduos, famílias, grupos de trabalho), quanto na meso (empresas médias, política local e regional) e na macro (grandes corporações, relações internacionais, etc).

Para eles, não importa o credo ideológico que as pessoas recitem, o importante é que estejam em conflito, incapacitadas de construírem consensos e estabelecerem laços. O avô de Bush viabilizava o acesso de Hitler ao aço e o acesso de Stálin ao petróleo, no mesmo momento em que estes guerreavam um com o outro. George Orwell identificou e exemplificou o jogo naquela peça supostamente de ficção que é "1984": QUEM CONTROLA OS DOIS LADOS DO CONFLITO CONTROLA O RESULTADO. E para isso é essencial que tudo ESTEJA sempre em conflito, pois aí as peças estão soltas, móveis, manipuláveis.

Por isso vamos, vamos meninos: vamos brincar de surto e de psicose!!  É DIVERTIDO... e, não, não, não pode ter nenhuma consequência nociva, isso é papo de careta que não entende o dinamismo e a ludicidade da vida das crianças e adolescentes de hoje...

Com vocês, então, o Lança Chamas (Flammen-werfer) disponilbilizado por essa nobre instituição educacional que é o UOL-Folha, para você brincar de DESTRUIR CIDADÃOS, e DETONAR FORÇAS POLICIAIS (neste caso representando o papel que DEVERIAM ter: protetores dos tais cidadãos) - enquanto GANHA DINHEIRO e APERFEIÇOA SUAS HABILIDADES... DE DESTRUIÇÃO,

... oh bravos jovens soldados das novas S.A. (Divisões de Assalto) que apenas não cantam mais 'Deutschland über alles' e sim "o clarão vermelho dos foguetes e as bombas estourando no ar" - visão essa que *é o atestado de que a 'bandeira decorada de estrelas' está dominando o lugar* (conforme reza a primeira estrofe do hino nacional da Matriz).
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08 agosto 2013

O direito e o torto em liberdade e em repressão

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PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL ES HOJE, em 13.07.2013



Em junho prometi seguir detalhando as 1001 Diversidades da sexualidade - e não deixarei de cumprir. Mas, conversando com gente que leu a coluna, ouvi falas como “para mim até tal ponto vai - mas tal outra coisa já passa dos limites” - e percebi que antes de prosseguir é fundamental conversar sobre isso: existem mesmo esses limites? E, se existem, quais são? Existem, p.ex., mulheres trans que anteriormente viviam o papel de homem em um casamento hétero, fizeram operação de transgenitalização, e quiseram continuar vivendo com a esposa de antes num casamento lésbico. E aí? Conheço quem fique indignado dizendo que isso passa dos limites - e quem veja aí uma comovente história de amor.

Há mais de cem anos surgiu a psicanálise. Milhões de pessoas já foram analisadas, e se descobriu que todos têm fantasias sexuais que não dá pra falar, pois vão bem além do que as pessoas dizem umas pras outras que é o normal. Por volta de 1950 Alfred Kinsey pesquisou também as práticas de milhões de pessoas - e se comprovou o dito de Nelson Rodrigues: de perto ninguém é normal!

Então a Ciência diz que pode tudo? Não! A Ciência descreve o que acontece, quem analisa o que se pode é a Ética, filha da Reflexão com a Investigação, mestra de todo Direito digno desse nome (Ética filosófica, não a da tradição, pois esta, religiosa ou não, costuma ser só desculpa para manter a Lei do Mais Forte - que é a própria negação do Direito). E a primeira coisa que a Ética diz é o óbvio que todo mundo pensa que entende - só que não: o limite da liberdade de um é a liberdade do outro. Também na cama: o que dois (ou mais!) fazem por querer, sem um forçar o outro, por que não poderiam? É esse o único limite necessário: quando se força alguém a fazer algo, aí devemos entender que há crime - não por se tratar de sexo, e sim porque, ao tratar um ser humano como objeto, lhe estamos violentando o órgão que o faz ser humano: sua liberdade.

Estuprar, fazer entregar a carteira ou a vida, ou criar situações que obriguem o outro a aceitar condições de trabalho indignas para não ver os filhos na fome, são no fundo a mesma coisa. Forçar o outro devia ser considerado crime sempre, exceto em um caso: reprimir a execução desses crimes, o que não é violentar nenhuma liberdade legítima: é impedir que a liberdade primária de alguém, legítima, seja destruída por uma liberdade nível 2, ilegítima. Já a liberdade nível 3, que reprime a nível 2, é legítima, pois significa proteger a liberdade primária, a qual é a própria humanitude de cada ser humano.

Então está claro: forçar o outro a fazer o que ele não quer é crime. E forçar o outro a não fazer o que ele quer? Se um homem quer beijar outro, e o outro também quer, a liberdade de impedir não é direito de ninguém, é um torto a ser reconhecido como crime - e pregar que dois homens que se beijam livremente devam ser reprimidos, reconhecido como crime de incitação ao crime. Reprimir tais crimes contra a humani/liber/dade é mais que um direito: tem que ser também um dever.
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