Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

05 agosto 2012

Mensalão, Legalidade, Ética - e a horda que gritava "crucifica-o"


A defesa diz que o mensalão simplesmente não existiu: teria sido um mega-boato com a intenção de derrubar ou pelo menos dificultar ao máximo a atuação do governo petista democraticamente eleito - e quem nasceu há mais de 50 anos e já viu esse filme inúmeras vezes, no Brasil e fora, sabe que é perfeitamente plausível: quem esteve por cima da carne seca nunca a largou sem briga.

Mas... e se tiver havido mesmo o tal mensalão? Será o caso de estar gritando "cadeia nesses ladrões", como tenho visto fazerem algumas pessoas que, por seu envolvimento em outras causas, sei que são bem intencionadas? 

Acho uma grande bobagem o ditado "mente vazia oficina do diabo", mas boas intenções sem boa informação e reflexão consistente, essas com certeza o são. Foi justamente a LIUCAN - Legião dos Inocentes Úteis a CAusas Nocivas - quem amplificou as ondas emitidas por uns poucos malévolos conscientes e possibilitou a ascensão de Hitler, Franco, Médici, Pinochet, Bush, bem como os assassinatos de um Allende, um Gandhi e outros (não muitos) que tenham chegado ao poder ou liderança apesar de serem do bem. O que vale inclusive, segundo os relatos existentes, para a crucificação mais famosa da história.

O que, afinal, teria sido o mensalão? Um esquema de apropriação de dinheiro público por parte de gente do governo e de seus aliados? 

Nada disso! - segundo a própria acusação. Teria sido um esquema em que gente do governo teria pago - quer dizer: teria soltado dinheiro, não pego, e dinheiro de origem privada, não pública.

Detalhe: o dinheiro usado seria oriundo de 
atividades publicitárias. Esse tipo de atividade, embora não seja propriamente produtiva, tem altissimo valor de mercado justamente por sua capacidade mágica de fazer qualquer supérfluo ser comprado e gerar fortunas. Ou seja: publicidade é sempre uma máquina de criar valor onde não existia,
e essa criação de valor é "natural" e perfeitamente legal no sistema capitalista. Mais: obviamente a publicidade não cria valor só para os outros, mas surfa junto na onda do valor que criou.

De modo que não é preciso perguntar de onde o dinheiro teria sido tirado: se há publicidade envolvida, não seria preciso tirá-lo ilegitimamente de nenhum lugar. A lógica do sistema possibilita concentrá-lo do que está difuso por aí como quem condensa água do ar, sem nenhuma contravenção.
 
Segundo, essa gente do governo teria pago a quem? Não a efetivos aliados - pois verdadeiros aliados jamais cobrariam - e sim a efetivos inimigos (mesmo que não declarados) para que estes suspendessem sua oposição-por-princípio, e possibilitassem ao governo a aprovação de determinados projetos.

E aí (terceiro passo) chegamos ao que mais importa: projetos de quê natureza? Ou: essa gente do governo teria pago para quê? Seriam projetos para se auto-beneficiarem, ou beneficiarem aliados, ou contrários de uma ou de outra maneira ao interesse público?

Aqui o que os acusadores costumam dizer é que o PT pagou para que outros não atrapalhassem o seu "projeto de poder" - e aí os inocentes e culpados úteis exclamam em coro "oh, que horror!" - como se todo partido não fosse, por natureza, legal e legitimamente, um projeto de poder!

Com o que permanecemos dentro do terceiro ponto: o PT queria o poder para quê? Pelo poder em si? Para beneficiar seus próprios membros e aliados?

Ora, os oito anos do governo Lula mostraram claro que não (e opto aqui por não entrar no governo Dilma para não introduzir novas variáveis que não pertencem ao caso): o  que o PT conseguiu reunir de poder foi aplicado basicamente em duas frentes:
  1. construir um espaço de autonomia para o Brasil na cena internacional (sem o qual tampouco haveria autonomia nas decisões internas), e 
  2. iniciar um processo de distribuição mais equitativa, entre a população, do produto social nacional - a começar pela comida no prato.

Tenebrosos objetivos, não?  

Sim, de fato tenebrosos: para as elites que dominaram este território por 502 anos produzindo desigualdade intencionalmente, para através dessa desigualdade concentrarem poder para - elas sim - usarem apenas em benefício próprio.

Ou seja: o PT teria pago, com dinheiro privado, para que o deixassem empregar o mandato recebido da população para seus fins legais e mais do que legítimos: para o bem coletivo dessa mesma população.

Mas, esperem aí: o PT já não havia recebido esse mandato legalmente? Por que ainda precisaria pagar para poder exercê-lo?

Por que - sim, meu caros: a lei foi feita pela mesma classe de senhores que criaram intencionalmente a desigualdade por 502 anos, e cheia de salvaguardas para que o efetivo poder não lhes escapasse das mãos.

E esses senhores sabiam que os projetos do PT empurrariam o país
ainda que uns poucos passos no rumo da diminuição do seu poder senhorial.

Mas alguns deles teriam se mostrado dispostos a permitir alguns desses passos - provavelmente na fé de que não iriam muito longe mesmo - em troca de algumas pequenas compensações pessoais.

A esta altura não começa a ficar claro quem são os bandidos, quem foi ou pode ter sido vítima nessa história?

Se vocês pensam que vou dizer "o PT" ainda não estão apanhando todo o alcance da coisa: a vítima nesses casos é sempre o povo brasileiro - e o PT junto com ele, na medida em que estava tentando representar de fato os interesses desse povo, e não apenas nominalmente.


MAS COMPRAR VOTO É CRIME SEJA COMO FOR, NÃO?

Não vou negar: se tiver havido o mensalão, membros do PT terão de fato feito coisas previstas na lei como crimes: formalmente tratar-se-ia de corrupção ativa - ainda que estivessem pagando para que pessoas que atuam normalmente contra o interesse público atuassem uma vez em favor deste - isto é: pagando para alguém se tornar menos mau, precisamente o oposto do sentido da palavra "corromper"!

Uma coisa curiosa neste ponto é: há grandes resistências no próprio congresso quanto ao reconhecimento de culpa nos atos de corrupção ativa - por exemplo, inculpar o empresário que pagou para liberar algo de seu interesse, e não apenas o político ou funcionário que cobrou a propina. Mas no caso do mensalão - apenas neste! - praticamente toda a culpa e recriminação são dirigidas justamente à frente ativa da suposta corrupção; mal se mencionam os nomes da frente passiva, ou seja: dos que teriam pedido e/ou aceitado dinheiro para abrir caminhos, que em outros casos costumam ser os únicos apontados como criminosos.

Outra coisa curiosa é falar-se como se o PT tivesse inaugurado esse tipo de procedimento, quando todos sabem que no Brasil ele é tão antigo quanto a chegada do dinheiro ao território, além de estar presente em qualquer lugar do mundo onde exista esse sistema de poder oligárquico falsamente chamado de "democracia representativa". 

Por que, então, um esquema mais antigo que o Brasil começaria a ser denunciado justamente quando o PT assumiu o poder? Mais: por que a classe média e elites brasileiras, corruptas e corruptoras desde sempre, passaram a fazer campanhas "contra a corrupção no governo" justamente durante os governos que mais combateram a corrupção em toda a história do país? (Basta conferir os números da Polícia Federal para ver o quanto!)

Justamente porque, como já sugeri acima, o PT começou a usar o sistema pseudo-representativo como se fosse pra ser de verdade: em favor dos interesses coletivos da população.

Então precisa ser apeado do poder seja como for! E até mesmo os que teriam vendido seu voto ao PT devem ser punidos: afinal, teriam traído os interesses de sua própria classe (a
classe dominante) em troca de vantagenzinhas meramente pessoais, e ainda bastante modestas! - mas punidos fora dos holofotes, como também já apontei, pois afinal "no fundo eles ainda são dos nossos"...

Mas admito: nada disso nega o fato de que, se mensalão houve, os atos praticados por membros do PT terão sido ilegais.

Mas terão sido ilegítimos? Ou teriam sido ilegais no sentido em que era ilegal um escravo fugir do seu senhor, ou uma mulher ao domínio do seu marido tirânico?


DA ILEGALIDADE DE TODA REVOLUÇÃO

Embora eu não seja um trotskista - pois não sou -ista nenhum! - neste ponto quero invocar um conceito de Trotsky que me tem feito pensar bastante: ele teria dito que ética é uma questão bastante simples, do ponto de vista revolucionário: ético é tudo aquilo que serve à revolução, antiético tudo aquilo que vai contra ela.

Conheci essa ideia de Trotsky através da crítica que o ex-marxista (e em parte meta-marxista) Edgar Morin faz a ela: observa que Trotsky acabou sendo assassinado por alguém que acreditava piamente estar servindo à revolução com esse ato.

Não é uma crítica desnecessária: mostra que não podemos jamais atrelar todo nosso arsenal de critérios a uma única palavra, pois de uma palavra é muito fácil manipular o sentido conforme nos convém. Precisamos ser capazes de chegar à mesma avaliação partindo de pelo menos dois ou três princípios diferentes, que validem um ao outro.

Feita essa ressalva, podemos passar a considerar que tampouco o conceito de Trotsky é sem fundamento - desde que se olhe com cuidado o sentido da palavra "revolução".

No sentido cru, revolução é simplesmente "revolver, revirar", pôr em cima o que estava embaixo, e vice-versa. Marx a usa no sentido de a classe majoritária da sociedade - a que realiza os trabalhos mais físicos e concretos - vir a assumir o poder, 

... o que seria uma absoluta novidade histórica, pois o poder sempre foi disputado entre classes que estavam mais acima - como a burguesia e a aristocracia feudal -, sem alterar a situação de submissão da classe trabalhadora (embora esta vez por outra seja chamada a ajudar nas lutas dos poderosos, seduzida com lemas como "liberdade, igualidade e fraternidade", apenas para ser chutada escada abaixo assim que não seja mais necessário tê-la ao lado, como aconteceu na revolução burguesa francesa).

Mas Marx não era nenhum imbecil de imaginar que uma classe majoritária pudesse viver sentada em tronos dando ordens a uma pequena minoria de ex-burgueses e ex-nobres que passariam a fazer todo o trabalho pesado! Marx vê essa etapa (a tomada de poder pelo proletariado) apenas como estratégia para a destruição da estrutura de classes, e instauração final de uma sociedade sem classes que, em o sendo, poderia prescindir da instituição do Estado e do próprio dinheiro (o que é perfeitamente lógico, mas obviamente não cabe tentar demonstrar em um ou dois parágrafos!).

Ora, é só tendo em vista seu sentido final (a sociedade sem classes) que a palavra "revolução" ganha seu sentido pleno: trata-se da realização das mesmas velhas e boas igualdade, liberdade e fraternidade - só que realização universal, envolvendo a humanidade inteira, e não apenas as camadas dos "gentis-homens", "filhos de algo", "gente de bem(ns)" e que tais.

E o que realmente importa é chegar a esse resultado, e não que ele aconteça por este ou por aquele meio. Se Marx, no ponto em que estava, só conseguia enxergar como meio para isso uma "ditadura do proletariado", não quer dizer que por toda a eternidade só possa existir esse meio. Não me proponho aqui a discutir que outros poderia haver, apenas insistir em que a tal ditadura do proletariado foi proposta como meio, e não fim. O fim é a sociedade sem nenhum tipo de exploração ou opressão.

Voltemos agora ao PT, no momento em que assumiu o poder federal. Seu objetivo era dar tantos passos quanto fossem possíveis, na conjuntura atual, na direção da universalização dos direitos. Diante de si tinha um muro multissecular de improbidade e interesses escusos. Brechas se ofereceram que, embora ilegais, permitiriam "colocar um pé na porta", calçar posições a partir das quais depois seria possível prosseguir de modo, digamos, menos informal.

A outra opção seria desperdiçar o mandato que lhe havia sido concedido formalmente, sem realizar conquista nenhuma em favor da população. Ou alguém aqui acha que tinha alguma chance, em vez disso, convocar a população a defenestrar com as próprias mãos os corruptos do congresso? Por muito menos que isso João Goulart foi apeado em 1964, por militares brasileiros comprados pelo capital internacional.

Em resumo: acredito que não houve mensalão, mas se tiver havido eu o entendo como perfeitamente legítimo e ético como ato revolucionário. Pelo menos no momento em que teria acontecido, um ato muito mais eficiente no sentido da distribuição urgente de direitos (a começar por comida!) do que qualquer tentativa irresponsável de apelar para uma força física de que não se dispunha (e olhem que coloco este verbo no passado apenas como um gesto de esperança...)
 
Ilegal? Sem dúvida, em relação aos limites de uma legalidade desenhada para coibir a realização da justiça. E o reconhecimento desses limites da legalidade não são invenção marxista: 1400 anos antes de Trotsky, já Santo Agostinho dizia que "uma lei injusta não é em absoluto uma lei".

O que conta no PT é que seu governo realizou o mais veloz e massivo processo de "desmiserificação" da história. Se foi sem mensalão, melhor. Se foi com mensalão, me importam muito mais os milhões de brasileiros que deixaram de passar fome do que o respeito à legalidade burguesa. Não diminuirei em um milímetro minha admiração pelo governo Lula e todos os que o viabilizaram.

Quanto aos que clamam pela condenação... pode parecer bem esquisito, mas o que isso me recordou foi uma passagem da "Paixão segundo São Mateus", obra em que o relato bíblico foi musicado e comentado poeticamente por Bach, o compositor barroco alemão. Nessa passagem a multidão, atiçada pelos notáveis da sociedade da época, está pedindo a Pilatos que crucifique Jesus. Pilatos pergunta, segundo o texto bíblico: "mas o que foi que ele fez de mau?". Antes que a Legião dos Inocentes Úteis responda, Bach convoca um soprano angelical a cantar: "A todos nós ele fez o bem: aos cegos deu visão, aos paralíticos fez andar, aos aflitos ele reergueu - fora isso meu Jesus nada fez” - após o quê a multidão açodada volta a rugir: "manda crucificar! manda crucificar!". Vale lembrar que os tais notáveis haviam encontrado bases legais para isso.

Estou certo de que quando a história da nossa época for relatada com suficiente distância, os que agora clamam pela condenação do partido e do governo que realizaram "o mais veloz e massivo processo de desmiserificação da história" aparecerão sob a mesma luz que aqueles que gritaram "manda crucificar".

Da minha parte, não sei o quanto a minha voz pode, nem se deixarei um só traço visível na história - mas pelo menos morrerei com a satisfação de não ter sido à horda míope dos inocentes-úteis-a-causas-nocivas que eu juntei minha pequena força.

Com mensalão ou sem mensalão.

08 julho 2012

Que pena! (Duas frustrações com a reinauguração do Museu Capixaba do Negro - com todo respeito)

.
Começo por observar que fiz absoluta questão de não averiguar quê pessoas organizaram o evento, para ficar claro que me refiro exclusivamente aos fatos objetivos que mencionarei, sem nenhuma interferência de sentimentos em relações a pessoas e nem mesmo a instituições - isso apesar de que, devido ao pouco tempo que resido em Vitória, provavelmente eu não conheço mesmo as pessoas envolvidas.
Também faço questão de dizer que reconheço que não é moleza organizar um evento desse porte, e sei que eu mesmo não seria capaz!
É, enfim, num tom de 'feedback' amigável e colaborativo que trago esses dois pontos à baila.
- - - - - - - - -
Não vem de hoje meu encantamento pela vertente humana e cultural que procede da África - como pode ser ver no post anterior, sobre um livro meu escrito há 18 anos. 
Por isso fiquei extremamente entusiasmado quando soube da existência da existência de um centro de referência para a cultura afro em Vitória: o MUCANE - Museu Capixaba do Negro - e triste de saber que estava em reforma há tempo.
Aí recebi notícias da festa de reinauguração, na última quinta-feira, a partir das 19 horas, e coloquei ansioso na minha agenda, com duas semanas de antecedência. Sabia que, por razões de trabalho e de saúde, não ia conseguir estar lá às sete, mas não me preocupei: com apresentação programada de dois grupos musicais - sendo o segundo o Ilê Ayê de Salvador - a festa havia de ser longa!
Cheguei às oito horas - e encontrei apenas um show na rua. As portas do museu fechadas. Mas como assim? João nos convida para o seu aniversário, aparece para abrir a festa e vai embora?
Voltarei ao ponto acima, mas antes falo da segunda frustração: ao colocar os pés no trecho de rua onde o show acontecia, percebi: "não posso ficar; não trouxe protetor de ouvido, e talvez nem mesmo o protetor fosse suficiente".
Explico: talvez devido ao excesso de volume usual nos shows da minha adolescência, nos anos 70, por volta dos quarenta anos comecei a ter problemas de audição. Algumas frequências são mal ouvidas, encobertas por tinidos e chiados, outras soam fortes demais, dando um efeito de saturação e, com aquele volume, de dor física mesmo. Sendo a música uma das minhas maiores paixões, a ponto de não ver razão para sobreviver num mundo sem música, valorizo demais preservar o que restou da audição, e já fui advertido por especialistas que a exposição a altos volumes é o melhor caminho pra terminar de perdê-la.
Estou fazendo onda com um assunto exclusivamente pessoal? 
NÃO! Estou falando de um assunto de saúde pública.
E, de quebra, de educação.
Desde meados dos anos 80 eu nunca havia voltado a encontrar, em nenhum lugar, os níveis de volume de som que tenho visto em Vitória. Já é o quarto evento, entre os artísticos e os políticos, que me vejo obrigado a abandonar por isso. Mas consultem qualquer otorrinolaringologista responsável, e ele dirá: o ouvido humano - danificado ou normal - não foi feito para tolerar esses níveis. O dano pode só se tornar perceptível muitos anos depois, mas ele é garantido. 
Como é, então, que o mesmo poder público responsável por zelar pela saúde dos cidadãos se descuida a ponto de ele mesmo infligir danos corporais permanentes aos cidadãos sob seus cuidados? Se as secretarias de saúde ainda não têm especialistas e protocolos de procedimento nessa área, está na hora de instituir - senão isso é crime de responsabilidade, senhores!
Só  não confundam: com isso não estou levando água para o moinho da perseguição à música em bares - medida totalmente equivocada, no meu ver, lesiva à vida social, cultural e turística da cidade, e que não costuma incidir no problema dos níveis de volume de que estou falando. Falo é dos grandes shows em espaços abertos - mas também de manifestações, eventos políticos e sindicais, cujos responsáveis também fariam bem em estudar o assunto, pois sua finalidade última também é o bem da população.
Sei que muitos dirão que "é assim que o povo gosta", "só assim o povo vem". Não é verdade. Experimentem fazer eventos com som alto mas não ensurdecedor, e vão ver. Shows são inclusive momentos de encontro, em que as pessoas também gostam de conversar, e na reinauguração do MUCANE nem isso era possível a menos de uns 60 metros do palco. As pessoas se sentem oprimidas no meio disso, e acabam indo embora mais cedo. 
Também nos eventos políticos, não é expressão de democracia um volume duas ou três vezes superior ao necessário à perfeita compreensão por todos do que é falado nos microfones: é, pelo contrário, típico das técnicas de dominação, de subjugação: "não deixo você falar com que está ao lado, não deixo nem pensar por si: invado sua cabeça com a minha voz até pela vibração dos ossos". De modo que qualquer instituição que atue de verdade pela democracia e pelo povo faria bem em rever seus padrões de controle da mesa de som!
Finalmente: tendo trabalhado por muitos anos com jovens de periferia, percebi que, depois de terem sido levados a experimentar isso, eles mesmos logo aderiam aos volumes moderados, percebendo que eles permitem apreciar melhor a música em seus detalhes do que os volumes que provocam embotamento. Então isso é também uma questão de educação.
E - ah, sim, falando em educação: estranhei muito mesmo que o museu estivesse fechado ao longo dos shows que comemoravam... sua reabertura! Seria preciso fechar as portas para preservar os espaços internos, já que esse tipo de show poderia atrair vândalos ou algo assim? 
Circulei por cerca de meia hora entre os presentes (apesar dos riscos à audição) e não consigo acreditar que isso fosse possível (mantidas, é claro, as medidas de segurança básicas indispensáveis em espaços e eventos públicos). E também não quero acreditar que a organização tenha pensado assim - pois teria sido uma chocante manifestação involuntária de preconceito internalizado, atuando justo no momento de consagração de um local destinado ao combate ao preconceito!
Não quero crer que tenha acontecido isso... mas não tenho como não lembrar da imensa quantidade de material pedagógico que se perde no Brasil, enviado a escolas mas não repassado aos alunos com a alegação de que "eles estragam tudo..."
Então não tenho como não me perguntar se não atuou aqui um outro tipo de preconceito, profundamente entranhado nos meios pedagógicos e administrativos do nosso país: o que vê a cultura das ruas, do povo, como uma não-cultura, e vê como cultura apenas aquilo que for institucionalizado, realizado em espaços fechados e - em última análise - derivado da cultura das classes dominantes. Escolas seriam espaços feitos para arrancar crianças e jovens de sua não-cultura (na verdade, de sua cultura nativa) e imergi-los em outra cultura decretada de cima para baixo. Quase não há trânsito nem interação entre os saberes e valores das ruas e os escolares - e é por isso que a escola continua sem conseguir quase nada: educar alguém não pode ser sinônimo de fazê-lo renegar a si e aos seus.
A própria palavra "museu" é impregnada de ressonâncias dessa concepção de "cultura culta" procedente das classes dominantes - mas é óbvio que as pessoas capazes de criar e instituir um Museu do Negro estão muito além dessa forma retrógrada de entender "museu" - senão sequer o teriam criado!
Mesmo assim, não há como evitar a pergunta: não terá havido algum traço de contaminação desse tipo de ideologia na organização desse evento em particular - esse estranho evento em que se celebrou a reabertura de um espaço fechando-o?
Espero que este artigo não seja entendido como uma declaração de guerra, e sim - muito pelo contrário - como a declaração de profundo interesse que é, e de vontade de contribuir, seja como for, para o máximo sucesso do Museu Capixaba do Negro!

"O DIA EM QUE TÚLIO DESCOBRIU A ÁFRICA - um jovem brasileiro visita as civilizações dos seus antepassados" disponibilizado na íntegra na internet


Tenho a satisfação imensa de comunicar que em 1º de julho disponibilizei em PDF o livro "O dia em que Túlio descobriu a África" NA ÍNTEGRA (~230 páginas), em sua versão original de 1997, no endereço www.tropis.org/biblioteca/tulio1997.pdf .
 

Não quero deixar de mencionar que o livro é dedicado a Floriana Rosa do Espírito Santo, avó do meu avô materno, nascida escrava em Paranaguá, Paraná, em 1835, como se sabe da carta de alforria conservada na família - e foi essa a razão principal de eu haver dado o nome de Túlio do Espírito Santo ao personagem principal.
 

Na época eu nem imaginava que um dia me mudaria para o estado do Espírito Santo - onde, a propósito, é bastante frequente o sobrenome "Rosa". Caprichos do destino?

Enfim: espero que apreciem!


26 maio 2012

As dificuldades de brasileiros com sua auto-imagem, por uma estudante e blogueira "lá de fora"

.
Saiu na Folha de 24.05.2012. Será que, uma estrangeira dizendo (justamente!), os portadores de Complexo de Vira-Lata se reconhecerão e se tocarão um pouquinho?

A propósito: desculpem a formatação ruim abaixo: simplesmente desistir de corrigir (como tantas outras vezes) pois o sistema "blogger" é burro demais!!!

FLORA THOMSON-DEVEAUX*
A sensibilidade dos brasileiros
 
 Por que a opinião estrangeira importa tanto? 
 
Quando a Folha pediu que eu escrevesse minhas impressões dos brasileiros, resignei-me como se estivesse diante de um déjà vu. Não era a primeira vez, e certamente não será a última, que os brasileiros perguntam o que acho deles.


Mas antes que eu abra a minha boca, a primeira coisa que me passa pela cabeça é sempre outra questão: por que vocês se importam com o que eu penso?


Ao longo do tempo que passei no Brasil, sempre que eu falava de minha pesquisa, sentia uma incompreensão mútua.


Os cariocas pareciam confusos, perguntando-se por que diabos eu viera até o Brasil para estudar a música popular do Rio dos anos 1920 e 1930 e por que alguém estudava espanhol e português numa universidade americana.


Eu sempre devolvi o ceticismo com igual vigor. Por que, afinal, todo mundo não estava estudando o Brasil? Por que as livrarias têm uma seção tão pequena de "literatura brasileira", a propósito? Nada disso fazia sentido para mim.


Achava estranha a reação dos brasileiros após elogios à sua cultura.


Quando eu dizia que amava Clarice ou que viera para pesquisar Chico Alves, eu me convertia numa fonte incomum de alegria e surpresa.


"Essa americana veio para estudar Noel Rosa!", berrou um estranho num bar em Copacabana, e uma pequena multidão se juntou para olhar e inquirir.


É como se, no fundo, as pessoas não acreditassem que o Brasil é suficientemente interessante para merecer um estudo sério.


Minha curiosidade funcionava como uma bênção vinda das alturas, lembrando que a cultura brasileira era parte do cânon universal.


"Em Princeton há aulas de literatura brasileira?" Claro que sim! Eu tomo um curso de Machado de Assis no próximo semestre.


Por outro lado, quando eu me sentia ousada o bastante para dizer que não tinha gostado de algo do Brasil, a reação podia ser desmedida.


De novo, minha opinião raramente era tomada como algo ordinário. Imediatamente, informavam-me que eu não tinha a menor ideia daquilo sobre o que estava falando, e que tampouco tinha o direito de julgar as coisas do Brasil.


Ou então as pessoas recuavam e diziam que eu estava certa, e que tal coisa ou tal pessoa eram de fato terríveis e simbolizavam exatamente o que ia mal no Brasil -e que, aliás, "precisávamos de estrangeiros que viessem aqui e nos contassem dos nossos próprios problemas".


Não sou ingênua a ponto de pensar que o que querem é meu veredito final sobre o país. Mas estranhamente essa é a sensação.


De repente, não sou uma estudante de 20 anos que tem um blog; sou uma representante inequívoca da cultura ocidental, da elite universitária americana ou algo que o valha.


Minha opinião, ainda que evidentemente subjetiva, adquire um valor que eu mesma não compreendo. Que importa se gosto de Noel ou se detesto Roberto Carlos? Minha opinião não muda nada.


Quando discuto o Brasil com os brasileiros, frequentemente tenho a sensação de que estou falando com um amigo maravilhoso, inteligente e talentoso, mas com uma misteriosa falta de autoestima.


Ele não aceita totalmente os elogios que lhe faço, e é tão sensível que é quase impossível criticá-lo sem feri-lo. Estaríamos diante do velho complexo de vira-lata?


O outro extremo -o patriotismo cheio de si que tantos americanos acham a coisa mais natural do mundo quando se trata de seu próprio país- é igualmente desagradável. Mas não haverá meio-termo?


Sinceramente, eu gostaria de poder discutir o Brasil sem que metade do bar comece a brigar em torno de mim.

* FLORA THOMSON-DEVEAUX, 20 anos, estuda português e espanhol na Universidade de Princeton. Passou seis meses no Rio estudando música carioca e escrevendo o blog "Questões Estrangeiras" para a revista "Piauí"


De http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/44647-a-sensibilidade-dos-brasileiros.shtml 

22 abril 2012

RELIGIÕES E INTOLERÂNCIA: o texto antológico de Drauzio Varella

.
Às vezes concordo com Drauzio Varella, às vezes não - mas com este texto ele conseguiu ir além dessa dicotomia: dizer que concordo é pouco. Nele, Drauzio conseguiu condensar praticamente tudo o que é relevante num assunto espinhoso, com excepcional clareza e equilíbrio, mostrando que sabe compreender as mais diversas posições, bem como o sentido antropológico das religiões, apesar de não sentir necessidade delas.

Vejo aqui um texto antológico, de arquivar para referência mas a ser também compartilhado o mais possível. Por essa razão vou imitar blogueiros como o Juca Kfouri e o Milton Ribeiro, e provavelmente muitos outros, e disponibilizar aqui no meu próprio blog. Espero que vocês também apreciem!  (Ralf.R) 



Intolerância religiosa
por DRAUZIO VARELLA
Publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 21.04.2012
SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade - quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.
.

16 abril 2012

MONSTROS? Eles apenas tomaram as falas das religiões realmente a sério!


.
Eles acreditaram que "mal" e "bem" são "coisas" com existência objetiva em si, em lugar de serem qualidades potenciais de cada ato que qualquer pessoa pode executar a qualquer momento.

Acreditaram que certas pessoas são intrinsecamente ligadas ao mal, e outras não são. Também Calvino, cuja teologia embasa a ideologia dominante nos países de fala inglesa, afirmava que Deus cria certas pessoas para a salvação, e outras (a maioria) para a perdição eterna, sem que estas possam fazer nada para modificar o fato - havendo ainda sinais para denunciar se uma pessoa é de um tipo ou de outro.

Eles acharam que eliminar pessoas do mal é uma forma de fazer o bem. Afinal, a Bíblia não está cheia de exemplos de supostas ordens de Deus para "bons" eliminarem "maus" trucidando-os a espada ou de outras formas? (Coisas do Velho Testamento, dizem alguns - mas o livro de Atos, no Novo Testamento, relata que Deus teria feito cair mortos Ananias e Safira por mentirem que haviam entregue a totalidade de certo dinheiro quando haviam retido uma parte).

As pessoas de que estou falando buscavam eliminar o mal e realizavam atos que entendiam como rituais de purificação. Nada mais razoável, digno, correto, não?

E no entanto... estou falando das três pessoas que foram presas há poucos dias em Pernambuco por assassinatos e canibalismo - um homem e uma mulher de 51 anos, mais uma mulher de 25.

O homem escreveu e registrou em cartório um relato detalhado de sua vida e das razões porque realizava esses atos, levando outros a os realizarem voluntariamente com ele, há pelo menos quatro anos.


Antes de mais nada, havia vozes interiores que apontavam onde estava o mal e o que se devia fazer contra ele.

Ora, esse fenômeno está na origem remota da maior parte das religiões, além de continuar ativo no presente de muitas. Foi uma voz interior (identificada como "de Deus" ou "do Senhor") que mandou Abrão sair da sua terra e tratar de ocupar uma outra para deixá-la à sua descendência - sem levar em conta de que a terra apontada já era uma das povoadas há mais tempo na história humana. E também que lhe ordenou que matasse seu único filho a faca, suspendendo a ordem no último instante, satisfeita de ver a fidelidade de seu dominado. Contássemos a história sem mencionar a origem nem o nome dos personagens, psicólogos e psiquiatras apontariam uma perigosa psicose, espíritas não hesitariam em falar de uma entidade obsessora - e no entanto essa mesma história continua sendo relatada a crianças como exemplo positivo de fé.

Alguns, não tendo como negar que a Bíblia endossou muitos massacres e assassinatos como sendo "do bem", podem pretender colocar toda a diferença no elemento "canibalismo", dizendo não existir precedente bíblico para isso. Eu mesmo não me lembro de ter lido nada sobre isso em muitos anos de manuseio da Bíblia - nem no sentido da recomendação, nem no da interdição - mas nem considero necessário pesquisar isso agora, pois não estou falando apenas do judeo-cristianismo e sim de religiões em geral (ressalvando que é um equívoco classificar como "religiões" as escolas de filosofia aplicada do Extremo Oriente: taoismo, confucionismo e zen).

Mas mesmo se nos restringíssemos ao cristianismo, como ficaríamos depois de lembrar que de acordo com a doutrina católica oficial toda missa é um ato de canibalismo? Pois essa doutrina afirma que a hóstia e o vinho não são símbolos mas se convertem literalmente em carne e sangue de Jesus. Gerações e gerações têm sido "educadas" ouvindo histórias de alguém que cravou a faca ou meteu o calcanhar da bota na hóstia, e "até hoje está guardada em tal lugar para quem quiser ver" uma tábua com a marca de sangue resultante. (Tive uma infância protestante, mas ouvi essas histórias mencionadas muitas vezes por colegas de escola que as teriam ouvido de suas professoras de catecismo, nos anos 60).

Além disso, os canibais de Pernambuco têm recorrido a palavras da Bíblia para justificar que a carne sacrificada não devesse ser desperdiçada, e sim ingerida (como se lê nesta matéria, entre outras). É verdade que esses trechos não se referiam originalmente a carne humana - mas por que não poderia ser, se Deus teria pedido um sacrifício humano de Abraão, e se Jefté ofereceu outro em troca da vitória numa peleja, sem chocar ninguém com isso? (Juízes 11:30-40)


Mas o que me parece mais interessante no caso de Garanhuns é que os autores sequer visavam poder: entendiam sua ação como altruísta, visando a livrar o mundo de males; matavam e comiam com o objetivo da purificação! 

Purificação! Confesso que estremeço quando ouço alguém usar essa palavra para qualquer coisa além de ar e água, sobretudo para a vida humana - sentimento que também Gilberto Gil mostrou ter na instigante letra de Lar Hospitalar. Pois na vida as coisas frescas e úteis ("puras") e as coisas já usadas, desagradáveis e nocivas (merda, suor) estão sempre em convívio próximo; vão sendo separadas e descartadas mas ao mesmo tempo recriadas, sem parar. Toda limpeza é parcial e provisória, e certa medida de "sujo" é parte intrínseca da vida. Hoje sabemos que pessoas criadas em ambiente excessivamente limpos são mais suscetíveis a doenças, e geralmente alérgicas, ou seja: seu corpo não sabe como lidar com a "impureza", reage de modo inadequado e ineficiente; são biologicamente pouco competentes para o mundo real que gerou e mantém a vida há milhões de anos.


E aqui cabe lembrar que também o autor do Massacre de Realengo, o jovem de 24 anos que matou doze adolescentes a tiros dentro de uma escola em 2011, era obcecado por pureza, e impregnado de falas características do discurso religioso - como se pode ler em sua carta de despedida. Ao que parece, um indivíduo da mesma estirpe do personagem do conto Gladius Dei ("Espada de Deus"), escrito por Thomas Mann em 1902. E, como esses, poderíamos passar dias e dias coletando exemplos, tanto individuais quanto grupais.

A esta altura sei que muitos podem me acusar de estar atribuindo à própria religião o que não passaria de leituras equivocadas da religião, feitas por mentes doentias. 

E o que tenho a responder é o seguinte: sem dúvida as mentes são doentias - mas as leituras que fazem não são equivocadas: pelo contrário, só mentes doentias têm coragem de levar às últimas consequências o que os textos e inspirações religiosas de fato dizem.

Há correntes teológicas, ditas "liberais", que encaram os textos sagrados como totalmente simbólicos, úteis como base para reflexões porém sem nenhum compromisso de crença em seu sentido literal, e muito menos em sua integralidade como sistema coerente. Em outras palavras: posso usar uma história bíblica como ilustração ou inspiração do mesmo modo como posso usar uma da mitologia grega, ou da iorubá, celta, tupi, o que for - sem nenhuma obrigação de tomar Zeus senão como representação simbólica de certo conjunto de qualidades humanas e/ou naturais.

Mas a teologia liberal é minoritária na cristandade, e em geral francamente atacada como falsa e "desviada" pelos que se pretendem guardiães da "verdadeira" religião ('ortodoxos' em sentido amplo, fundamentalistas, "avivados" etc).

Digo então que a maioria das pessoas que se entregam a religiões só é salva de cometer atos bárbaros por sua razão - mas essa mesma razão é apontada pelo sistema a que servem como fraqueza, covardia, insuficiência de fé. Torna-se uma razão sitiada pela desrazão, dentro da própria pessoa. A razão ainda predomina, na maior parte dos casos, mas às custas de consideráveis conflitos interiores - pois justamente onde esse ser humano está sendo razoável e bom, com frequência ele se sente culpado ou é abertamente acusado pelos pares de ser "morno" ou "frio".

E aí muitas vezes cede ao assédio no sentido de se deixar "avivar" - e uma vez "avivado" passa a ser um agente tóxico para a saúde mental individual e coletiva. Passa a atuar no mesmo sentido que os "monstros" apontados acima, mesmo que em grau menos intenso e explícito - como uma pequena dose de arsênico a cada dia, que leva anos para matar a vítima por "causas desconhecidas", mas não deixou de atuar no mesmo sentido da dose grande que mata em poucas horas.

Assim são os religiosos que não matam pessoas diretamente, mas vêm destruindo o que havia de cordial, alegre e tolerante na cultura brasileira, semeando dissenso e mentiras para impedir a aprovação de leis que visam a reduzir a violência e outra formas de sofrimento, etc. etc.

Diante disso é preciso ter claro que o país vem sendo intoxicado pelas mesmas forças que, em estado puro, assumem formas como a do atirador de Realengo e a dos canibais de Pernambuco.

Ressalvo, para terminar, que acredito que os conceitos "bem" e "mal" não são vazios, nem sou propriamente ateu (deixando claro que vejo aí dois fatos paralelos, e não decorrentes um do outro). Acho notável que o escritor que foi identificado com o evangelista João tenha afirmado, mostrando que havia aprendido lições da filosofia grega, que no princípio de tudo estava "o lógos" - e que, portanto, o mundo é de natureza lógica. Percebe-se que via em seu mestre Jesus uma manifestação da razão libertadora contra as malhas opressoras da superstição religiosa. Infelizmente o ramo do cristianismo que se desenvolveu a partir dessa compreensão foi suplantando por outros ramos que se fizeram, ao contrário, apenas uma renovação das malhas de superstição. Os que apostavam no caminho do conhecimento (os gnósticos originais - não os que dizem sê-lo hoje) foram declarados heréticos e perseguidos. Restaram na Bíblia e no cristianismo apenas fragmentos atestando que houve princípios de uma compreensão mais luminosa disso tudo.

Não tenho a pretensão de explicar agora como poderia ser uma (digamos assim) religiosidade, ou capacidade de devoção, orientada pela razão (ou, significando a mesma coisa: pelo dom do lógos). Talvez Goethe estivesse na pista ao escrever "Quem tem ciência e tem arte, esse já tem religião. Quem essas duas não tem, que tenha religião" - o que eu me atrevi a tentar ampliar para "Quem tem ciência, tem arte e tem fraternidade, esse já tem religião. A quem não tem essas três, só lhe resta a alienação".

Sei é que, por amor das gerações que nos continuarão, temos que almejar com todas as forças que nunca mais venha a prevalecer a religiosidade supersticiosa que diz combater "as trevas" enquanto consiste ela mesma de escuridão!
.

07 abril 2012

HOMOEROTISMO, 'EVANGÉLICOS' E A CONJUNTURA MUNDIAL ATUAL - um rápido olhar


Cientistas já constataram que quanto mais frequentes as relações homoeróticas em determinada espécie animal, mais pacífica é essa espécie em comparação com outras (como no contraste clássico entre os pacíficos bonobos e os internamente violentos chimpanzés).

Por que, então, o atual movimento evangélico faz ponto de honra da rejeição homossexualidade? Afinal, o cristianismo não almeja a paz?

Bom... aí depende de qual cristianismo, independente de qualquer palavra que Jesus tenha dito. Inclusive, na maior parte da história as vertentes pacifistas do cristianismo foram minoritárias, e frequentemente perseguidas.

No caso dos que atualmente chamam atenção no Brasil sob o nome “evangélicos”, é preciso antes de mais nada apontar que suas igrejas ou têm origem direta nos Estados Unidos, ou são aplicações nativas de programas teológicos estadunidenses.

E há algo que poucos sabem "do lado de fora": na maior parte dessas igrejas prega-se abertamente que é preciso que venha uma grande batalha física entre Israel e as demais nações. Para eles já está decidido que Israel vencerá, pois quando a batalha parecer perdida Jesus aparecerá nas nuvens, Israel admitirá que ele era o messias esperado, e aí Jesus garantirá a vitória, assumindo o poder do mundo como rei de um Israel cristianizado, e “regendo as nações com mão de ferro” (segundo palavras da Bíblia).

O objetivo maior dessas igrejas não é, portanto, a salvação da alma ou coisas afins, e sim apressar o estabelecimento do império terrestre de Jesus como rei de Israel da linhagem de Davi - este último de tanta importância simbólica por ter sido o primeiro e penúltimo rei a reunir os hebreus sob um poder único, estabelecido fisicamente sobre o Monte Sião, na então já multimilenar cidade de Jerusalém que ele acabara de conquistar pelas armas.

Nem é preciso dizer que essa crença agrada muitíssimo aos judeus sionistas, que com isso capitalizam o apoio da maioria evangélica estadunidense, e sabem muito bem que não precisam mencionar que depositam muito mais esperança nos poderes do átomo que no de um tal messias ressurreto.

E as duas crenças agradam muitíssimo às mais altas elites do capitalismo, que sabem que dependem da existência de grandes aparatos bélicos (armas e exércitos) para manter as multidões do mundo em estado de escravidão, ou no mínimo quietas quando não são necessárias.

De modo que esses missionários “evangélicos” que vêm se fazendo tão visíveis no Brasil, tanto na mídia convencional quanto na internet, são todos ou cúmplices ou inocentes úteis nas mãos dos poderes de sombra que hoje governam dos bastidores os EUA e um bocado mais do mundo

... poderes esses que dependem fundamentalmente de que o mundo esteja num estado de guerra permanente, visível como ou não tal.

E isso a ver com a homossexualidade?

Bom, não começamos por dizer que cientistas têm constatado que, no mundo animal, quanto mais frequente o erotismo homossexual mais pacífica a espécie?

Ou... sejamos mais precisos: quanto maior o papel do erotismo em geral na espécie - o qual, quanto mais livremente se manifesta, menos restringe sua face homossexual - mais inclinada a espécie é a encontrar soluções não violentas para seus conflitos. 

Ou quem sabe possamos dizer: essas já perceberam que o prazer concedido mutuamente relativiza as diferenças, e que afinal uma boa trepada é bem mais agradável que uma briga.

Daí que a esquerda gay italiana dos anos 70 talvez não delirasse tanto quando marchava ao som das palavras de ordem il coito / anale / abbatte il capitale (“o coito / anal / derruba o capital”) - embora eu pessoalmente nem ache que esse dom seja exclusivo dessa forma específica do erotismo!

Mas sobretudo dá para entender que qualquer coisa que apresente um bom potencial de pacificação seja execrada pelos ideólogos da guerra e seus servidores conscientes ou inconscientes -

... servidores da guerra que podem até ser judeo-cristãos (ou seja: idealizadores de um ungido da tribo de Judá, seja ele qual for), mas jamais seguidores do Jesus que transparece no que se considera sua mais longa fala preservada, o Sermão da Montanha, no qual se lê, entre outras coisas:

  • Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus;
  • Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados;
  • Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.


(Casualmente ou não, escrito na Páscoa de 2012)

'AQUILO QUE TEM QUE SER DITO': o poema 'escandaloso' de Günter Grass sobre o perigo nuclear israelense, em nova tradução

.
Não fiquei muito satisfeito com nenhuma das traduções deste poema em português a que tive acesso e resolvi tentar a minha. Me desculpo de antemão: traduzir alemão é uma das coisas que merecem o rótulo "missão impossível", então também estou longe de prometer que esta versão vai satisfazer mais que as outras. É apenas a minha tentativa, mais uma, e espero que de algum modo possa pelo menos complementar as outras.

Detalhe interessante: na primeira leitura também achei que era um mero "artigo disfarçado de poema" pelo velho Grass (84 anos), como alguém sugeriu - mas ao trabalhar com o texto descobri a densidade de uma decisiva textura poética por baixo da superfície aparentemente tão prosaica!

Quanto ao tema, sinto que se torna a cada dia mais premente, e pretendo voltar a ele pelos ângulos mais diversos - e por isso mesmo acho bom advertir desde já: "antissemita" jamais, pois isso seria crime contra a humanidade; "antissionista", definitiva e decididamente - pois aqui se trata apenas de ser contra outro crime contra a humanidade. Pois pela humanidade só se pode ser a favor dela inteira: tudo o que for a favor de partes em detrimento de outras é contra.   (Ralf R. - Páscoa de 2012)



Aquilo que tem que ser dito
Günter Grass, 84 anos, Prêmio Nobel de Literatura, em 04/04/2012.
1º ensaio de tradução por Ralf Rickli, 07/05/2012



Por que tenho me calado, me calado por tempo demais
sobre o que é patente e já vem sendo ensaiado
em simulações ao fim das quais nós, como sobreviventes,
somos no máximo umas notas de rodapé?
É o alegado direito de ataque preventivo
que poderia extinguir aquele povo
subjugado por um fanfarrão
e empurrado ao júbilo organizado (o iraniano),
porque se suspeita da construção
de uma bomba atômica em seus domínios.
Por que, no entanto, eu me proíbo
de chamar pelo nome aquele outro país
no qual se dispõe há anos - ainda que em segredo -
de um potencial nuclear crescente
e sem controle, pois não se dá acesso
a nenhuma inspeção?
A generalizada omissão desse fato,
à qual se subordina o meu calar,
eu a sinto como incriminadora mentira
e coerção com promessa de punição:
assim que desobedecida,
o veredito “antissemitismo” está em toda parte.
Agora, porém, porque o meu país,
- que por seus crimes próprios,
que estão além de comparação,
é volta e meia chamando às falas ­-
deve entregar a Israel
(por razões puramente comerciais,
embora declarado
com lábios ligeiros
que se trata de reparação)
mais um submarino, cuja especialidade
é ser capaz de direcionar ogivas
de destruição total a um lugar
onde não foi comprovada a
existência
de uma bomba atômica sequer, e no entanto
com o fim de atemorizar se pretende
que existam provas conclusivas -
por isso agora eu vou dizer
o que precisa ser dito.
Por que, no entanto, até agora eu me calei?
Porque eu pensava que a minha origem,
marcada com mácula nunca extinguível,
proibia declarar tais fatos como verdadeiros
em relação ao país Israel, com o qual tenho laços
e quero continuar a ter.
Por que é que eu digo somente agora,
envelhecido e com o fim da minha tinta,
que o poder atômico de Israel põe em risco
a paz mundial, já frágil sem isso?
Porque precisa ser dito
o que amanhã pode ser muito tarde;
e também porque nós
- como alemães já o suficiente incriminados -
podemos vir a ser fornecedores para um crime previsível,
com o que nenhuma das usuais desculpas
teria o poder de redimir
nossa participação na culpa.
E admito: não mais me calo
porque estou farto da hipocrisia do Ocidente,
e tenho esperança que com isso
possam se libertar muitos desse calar-se
e conclamar o causador do reconhecível perigo
a abrir mão de violência, e igualmente
a que seja permitido pelos governos dos dois países
um controle permanente e desimpedido
do potencial atômico israelense
e das instalações atômicas iranianas
por uma instância internacional.
Somente assim será possível ajudar
a todos, israelenses e palestinos,
e mais: a todos os seres humanos
que nessa região ocupada pelo delírio
vivem apertados em inimizade - e afinal
a nós mesmos
também.
.