Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

11 março 2008

Meu atraso + um pouco sobre A ÉTICA DE QUE PRECISAMOS HOJE

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O último fim-de-semana era o da teoria... mas eu não consegui postar nada, pois estava tentando recuperar forças em Santos, na beira do mar...
Recuperar forças no fim das férias? - alguns poderiam perguntar ironicamente... ao que eu posso responder: "Como no fim? Esses 3-4 dias foram as minhas férias da virada 2007-2008..."
Enfim: há perguntas e comentários a responder, como os feitos aqui no blog pelos amigos Pedro Martins e Douglas A. Alencar, e outros feitos nos recados do orkut pela amiga que assina Brisa da Noite, residente no Pará... todos interessantíssimos, que rendem muito.
Mas essa vida de autônomo... 4 dias de férias já são seguidos por dias de aperto & correria!! Não posso me permitir redigir esses comentários antes de terminar mais um capítulo de tradução, ou melhor: tradu$$ão... :-)
Mas não quero deixar a semana teórica no vazio... e então resolvi transcrever aqui um trecho do artigo O Fantasma de Aristóteles que (com razão ou não) considero uma das coisas mais significativas que já escrevi, se não a mais. 
Por quê? Leia você mesmo e avalie... Quero dizer apenas que pretendo fazer uma versão de leitura mais simples, que não seja entrecortada por tantos parênteses e notas de rodapé... mas que isso significaria um ou mais dias de trabalho, o que está fora de questão no momento.
E ainda que o artigo inteiro se encontra em www.tropis.org/biblioteca/pc12-aristoteles.doc (ou zip no lugar de doc).  Abraços a tod@s!!!

12.4.2. A ética de que precisamos hoje: resumo

No capítulo 12.3 buscamos confrontar a Ética de Aristóteles com um corpo de idéias pelas quais optamos não por gosto arbitrário, e sim por crermos que fazem parte da ética de que precisamos hoje. Antes de prosseguirmos para considerações mais específicas, cremos que será útil um resumo de suas características principais:
•     Uma ética baseada não na aplicação de regras pré-determinadas, mas no discernimento e opção do indivíduo;
-  no discernimento da (ou pelo menos na aposta [1] na) organicidade universal, e com ela, da teia das conseqüências das ações; [2]
-  na opção primeira de empregar nossa capacidade empática (com‑paixão) para informar nossas demais opções. [3]
•     Uma ética que, a partir disso, não hesite em optar por afirmar a dignidade universal do humano e em se empenhar por todos os meios em fazê-la valer [4] – o que, ao contrário da visão de Aristóteles, deve incluir:
-  uma valorização extra, compensatória, de todo trabalho tradicionalmente desprezado (como por exemplo e talvez emblema, o de faxineiros/as e lixeiros);
-  a educação do trabalhador intelectual para a humildade e responsabilidade social;
-  o poder de desfazer o véu de denegação que encobre dentro de cada um a distinção entre o necessário e o voluptuário,[5] de modo que a capacidade empática seja capaz de revelar a cada um, porém sobretudo ao próprio opressor, a indignidade do bem-estar baseado na opressão.

Cremos que é basicamente uma tal ética que pode viabilizar antes de mais nada um convívio inter-humano digno, e a partir daí o enfrentamento de quaisquer outras questões da humanidade.

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[1] No uso de Paul Ricoeur (segundo Rubem Alves), ou seja: como tradução da palavra "fé": não crença que denega a dúvida, porém ato de aposta existencial justamente quando na presença inexorável da dúvida – o que, embora talvez expresso com mais calor, não nos parece muito diferente do "como se" de Hans Vahinger (optar por agir como se tivéssemos certeza, mesmo sabendo que não temos).
[2] Que é o que nas filosofias da Índia recebe o nome de "lei da ação" ou, em sânscrito, carma. Embora também informe religiões, trata-se antes de tudo de um conceito filosófico e "com vida própria", não necessariamente vinculado a idéias como imortalidade, reencarnação etc.
[3] Escrevemos em 2001 no Manifesto do Reencantamento do Mundo (14, originalmente Rickli 2001): "Ética nascida não de regras, mas da percepção do brilho nos olhos do outro". E, relacionando isto já com o ponto seguinte, em um poema inédito de 1982; "você já olhou a luz que brilha / nos olhos daquelas mãos / que limpam a sua privada? / já? / não morreu de paixão?"
[4] Mais uma vez, isto pode partir de um sentimento de reconhecimento de algo dado, pré-existente como potencial (uma via reativa, possivelmente metafísica ou religiosa), ou não: pode partir simplesmente da decisão humana: "nós queremos que essa dignidade exista (quem sabe porque analisamos e julgamos melhor que seja assim), e se não existe vamos construí-la": via pró-ativa puramente ética – com possível recurso auxiliar à lógica mas sem submissão nem a essa: ato da vontade (opção) humana como soberana (antes de mais nada, ato de vontade inicial de se pôr em acordo pelo menos quanto a um mínimo indispensável ­– o qual porém provavelmente não brotará ou não será autêntico sem o discernimento inicial da organicidade).
[5] Na linguagem jurídica (apropriada aqui por brevidade): entre o que é a necessidade vital e o que é mero desejo. Adiantamos que em certa medida Aristóteles pode voltar a sem bem-vindo neste ponto, pela sua noção de educação das paixões.

02 março 2008

dois poemas ambíguos de um dia bissexto

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Este é o fim-de-semana poético deste blog, que se alterna com o teórico, fora as postagens ocasionais. Uma alternância POE/TEO, poderíamos dizer.

E desta vez, em lugar de buscar alguma coisa já "envelhecida nos barris", resolvo compartilhar duas doses de vinho extra-verde - aliás, talvez um vinho e uma cachacinha... -, brotadas justamente na manhã de 29 de fevereiro, como interrupção a uma pouco frutífera tentativa de produzir algo que pagasse as contas da virada do mês (um capítulo de tradução).

Irresponsabilidade, compartilhar trabalhos ainda por amadurecer? Provavelmente. Mas deu vontade... e lá vai:

MAIS UM ENSAIO (EM OBRAS)
SOBRE UMA LENDA PESSOAL

Trabalhando, deparo com as palavras: "local
de moradia". Tudo pára -
e me torno, inteiro, uma pergunta:
"onde
é a casa da minha alma, enfim?"

O farol da Rural Willys
de repente ilumina um alargamento da estrada;
espaço quase plano, arredondado feito um abraço;
uma terra solta e granulosa, gostosa de brincar.
A estradinha em meio ao mato
vinha sufocada de escuridão.
É aqui! É aqui!
Uma cerca de madeira
sugere casas e vidas por trás.
Uma tábua deitada sobre dois cepos:
lugar de repouso e conversa junto ao largo da estrada,
e duas árvores frondosas,
domésticas, amigas dos humanos,
diferente das que reinam prepotentes
ao longo da estrada sem fim.

É aqui! É aqui!
Aqui minha alma está em casa,
aqui eu quero ficar.
Aqui tem cama fofa que exala a alfazema
colhida ali no jardim.
Aqui tem fogão com chapa sempre quente
e o cheiro do café
nunca abandona ar.
Aqui alguns grandes conversam por perto
enquanto, por entre frutas mordidas,
a gente reina com empenho
sobre uma cidade de areia e pedrinhas brilhantes,
outra de toquinhos de madeira,
e outra, e ainda outras
que pra existir
nem carecem de materiais.
Qualquer coisa,
tem os grandes ali pra dar um jeito,
nossos serviçais.

E no entanto o carro não pára.
Prossegue em solavancos, frio e desalento
cruzando a treva que faz caras monstruosas
até um tope, uma curva, e mais estrada,
outra curva, outro tope, e mais estrada,
uma estrada de nunca, nunca,
nunca chegar.



UMA LETRA DE SAMBA
Pois é, amor...
acabou o café, amor...
samba de Serginho Cachaça
/ Gunnar Vargas, 2007
pois é, amor, eu sei
é o aluguel, é a mãe, o irmão doente,
é a prestação, é o pão, é sei lá o quê
eu sei que quem trabalha
vive sempre no tormento
mas assim já é demais:
você trocou o nosso amor
                por um aumento

pois é, amor, eu sei
você tentou, quem não deixou foi o gerente
de repente tão bonzinho com você
e eu te esperando sempre
paciente feito um jumento -
mas agora foi demais (, meu bem) :
você trocou o nosso amor
                por um aumento
 .

26 fevereiro 2008

uma pequena cosmologia físico-poética
política & amorosa

1.
A física e astronomia falam hoje de dois impulsos principais no Universo:
... o de expansão (que, segundo a teoria predominante, teria vindo do big bang), pelo qual tudo tende a se separar e a se espalhar pelo universo – até quem sabe sumir de tão rarefeito na infinitude do infinito...
... e o gravitacional, pelo qual as coisas tendem a se unir... se apertar umas nas outras... até que fiquem tão apertadas que toda diferenciação seja esmagada, e tão presas umas nas outras que nem a luz escape mais desse lugar: o buraco negro, que, ao contrário do que o nome sugere, é um lugar de excesso e não de falta.
E no entanto existem galáxias, sóis, planetas, vida...
Um pouquinho mais de gravidade, e tudo se acabava numa união tão densa que nenhum ser teria chance de existir.
Um pouquinho mais de expansão e, tudo se afastaria tanto que só restaria um vazio...
E se expansão e gravidade estivessem equilibradas com exatidão?... Então não teríamos um mundo equilibrado: teríamos nada.
2.
Existir é gingar permanentemente entre duas possibilidades de desequilíbrio.
Existimos enquanto dura a dança. Somos a dança.
Mas a dança só existe se houver dois impulsos opostos brincando de acabar um com o outro, e nunca acabando de fato.
Não estou falando "do bem e do mal". Nenhum deles é o bem. De cada um deles sozinho se pode dizer que é mau: um destrói a vida e a existência em vazio e abandono. A outro a sufoca em excesso de união e de substância.
E a união dos dois deixando de lado suas diferenças seria o suicídio universal.
Convívio de diferentes enquanto diferentes – sem se afastarem demais um do outro, sem se unirem ao ponto de anular as diferenças. Convívio inclusive dessas duas possibilidades de mal... pois a supressão de qualquer uma delas seria a efetivação do outro mal. O bem não está nunca em uma parte nem em outra: o bem está no convívio.
http://www.tropis.org/imagens/polaridadefundamental2.jpg
3.
O amor une ou separa? O amor prende ou liberta?
Lá onde se sufocam as diferenças até tudo "se empedrar" e mergulhar em escuridão – pode-se aí falar de amor?
Lá onde tudo se perde no vazio, no frio e no abandono – pode-se aí falar de amor?
Os planetas não são corpos abandonados no vazio: têm um sol em torno do qual dançar, e em condições especiais até vemos um deles fecundado pela energia do sol, dando nascimento à vida... Mas não se unem ao sol. Unir-se seria o fim de toda graça. Fim de jogo. Ir embora cada um pro seu lado também.
Entre o aprisionamento e o abandono irresponsável, entre a dependência excessiva do outro e uma independência unilateral sem coração... lá talvez exista uma faixa em que o impulso de união e o de liberdade dançam juntos, sem se separar e sem se anular. Numa dança que é provavelmente o que mais merece o nome de amor.
Na China: a existência como a dança perpétua do impulso yang e do impulso yin, os dois gestos do Tao (a realidade última além da nossa compreensão);
Na Índia: o Universo como a dança que a divindade faz existir a cada instante com seus dois pés em movimento;
No cristianismo: Deus é amor. Ou "a condição pela qual tudo existe é Amor".
4.
E nós?
A cada momento cada um de nós é tentado a dominar. Mas se de fato ama, não quererá ver o outro destituído da sua dignidade humana, dignidade que vem toda do poder de escolher por si. (A menos que esteja na verdade à procura de um animal de estimação).
A cada momento cada um de nós é tentado a abandonar. Mas enquanto o amor está em nós, está também a responsabilidade voluntária pelo que se fez – marca de todo ser que cresceu e já não só recebe, mas se tornou capaz de gerar.
(Afinal, o amor é ou não é capacidade de gerar?)
A cada momento uma escolha. Para lá do mero impulso espontâneo, animal, que vem e que passa, o amor é a cada instante um ato de decisão.
Não faz sentido falar de amor a não ser quando se exerce a capacidade de escolha: liberdade.
Não se verdadeiramente cria se não por amor, e não se verdadeiramente cria senão por decisão interna livre do nosso ser. Sem liberdade fazem-se coisas. Mas não se cria.
5.
Liberdade e amor são duas capacidades de uma coisa só: daquilo em nós que é capaz de criar.
Daquilo que é capaz de criar.
Daquele que é capaz de criar, seja em nós, seja onde for.
Mas nada existe se não tiver primeiro se feito dois. Dois que dançam um com o outro, sem voltar a ser um, e sem deixar de ser um: um par.
Não existe existir sozinho: só existe existir com.
6.
Com-viver.
Não existe apenas viver, sem "com"; todo viver depende de que também vivam outros, que vivem com. Rede.
Não aceitar o com é investir em que a existência se extinga.
E por que não? Existir é difícil...
Mas... será mais fácil o desistir?
Tentar desistir: Arrastar consigo um mundo moribundo, eras a fio... todas as partes em sofrimento... porque não queremos mais existir – mas, querendo ou não, enquanto ainda existimos, existimos-com.
Por que, afinal, algo veio a existir?
Não, não me responda. Não será verdade. É mais.
E se ficarmos esperando a resposta, não vamos com isso deixar de existir: vamos seguir existindo em sofrimento-com –
... por não estamos nos doando o suficiente pra que existir seja dança. E seja prazer. Dança-com-e-prazer-com.
Aceitar existir, apesar de todas as dificuldades, talvez seja o princípio do fim das dificuldades.
Desde que se entenda que existir é existir-com.
7.
Mesmo com todas as dificuldades, fazer com que algo exista mediante aceitar o "com": esse é o ato do amor.
E sem ele nada do que foi feito se fez. *
 



 * Do Evangelho de João (1:2). "Deus é amor" se encontra em I João 4:16.
   

23 fevereiro 2008

"Parentes" da TEORIA CONVIVIAL - importância do vínculo com a Vertente do Pacífico

Dia desses (18.02) fiz uma apresentação introdutória da Filosofia do Convívio para a equipe da Fábrica de Criatividade, e achei interessante mencionar de passagem o nome de alguns pensadores ou correntes de pensamento com os quais sinto que a Teoria Convivial tem afinidades notáveis, mesmo se geralmente parciais – e mesmo que muitos, muitos outros também pudessem se incluídos:

Dimensão filosófica:  pensamento taoísta e zen; pensamento ameríndio; Heráclito;  Nicolau de Cusa; Goethe; "trimembração social" de Rudolf Steiner; Lupasco; Edgar Morin (pensamento da complexidade).

Dimensão psicológica: Wilhelm Reich; R.D. Laing (anti-psiquiatria); Winnicott; Wallon; Vygotsky; Jung; Carl Rogers.

Dimensão pedagógica: Sócrates; Epicuro; Rudolf Steiner (Pedagogia Waldorf); A.S. Neill (Summerhill); Janusz Korczak; Ivan Illich; Paulo Freire.

Sendo incomum a referência a contribuições de fora da tradição eurocêntrica, achei importante detalhar um pouco mais o que chamo a "vertente de pensamento do Pacífico": o pensamento taoísta e o zen (da China e Japão) e (ainda mais raramente mencionado) o ameríndio - ou seja: dos povos indígenas das Américas.

Não se trata de uma junção disparatada nem arbitrária, como pode parecer à primeira vista. De acordo com a pesquisa genética, a população que se encontrava nas Américas antes de Colombo descende quase integralmente de povos da Sibéria – e é também no pensamento xamânico siberiano que vamos encontrar a raiz do taoísmo, o qual mais tarde se juntou ao budismo procedente da Índia, resultando no zen.[1]

É preciso estar consciente, "para não falar besteira", dos intervalos de tempo envolvidos. Os índios se encontram aqui há pelo menos 15 mil anos, e provavelmente há mais. O taoísmo tem uns 2500 anos de história, mais talvez uns 1000 de pré-história, e o zen tem "apenas" uns 1500 anos.

É preciso mencionar, aliás, que a arqueóloga Niède Guidon provou que os vestígios de presença humana no Piauí têm não menos que 50 mil anos – mas com isso se torna praticamente impossível que esses primeiros habitantes fossem do tipo siberiano de que estamos falando; há, pelo contrário, razões para imaginar que tenham vindo diretamente da África.

Em última análise teriam sido esses os "descobridores da América" – mas para nossa história cultural importa bem mais o estrato (camada) que veio da Ásia – uma gente para a qual esta terra foi o Extremo Oriente, e não o Extremo Ocidente como para os africanos e os europeus – dado em que podemos encontrar ricas implicações simbólicas.

É urgente, portanto, que paremos de pensar que a nossa história, no Brasil, começa com a chegada dos portugueses em 1500 –

... inclusive a história cultural e intelectual. Pois há mais elementos do que pensamos para identificar algo como "uma forma ameríndia de pensar". Há, inclusive, muito mais textos produzidos por índios do que costumamos imaginar.[2]

Outro dado de grande interesse nesse sentido são as teorias que sugerem que a própria democracia moderna deve mais aos índios que aos gregos, a quem a costumamos vincular. Por quê razão, enfim, o impulso democrático grego teria ressurgido na Europa depois de uns dois mil anos de abandono – dois mil anos em que a história e filosofia dos gregos não deixaram de ser conhecidas no Ocidente a não ser por alguns momentos? Por outro lado, foi depois da "descoberta" européia das Américas que esse impulso começou a se fazer sentir entre os próprios europeus.

Há pelo menos duas trajetórias pelas quais essa influência parece ter se dado: por um lado, os ensaios do francês Michel de Montaigne (1533-1592), ainda sob o impacto dos relatos dos navegadores – os quais foram lidos dois séculos mais tarde influenciaram as teorias do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), uma das principais fontes do impulso democrático na época iluminista. Por outro lado, o estatuto da Liga das Nações Iroquesas teria tido forte influência sobre outra dessas grandes fontes, que foram a Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos. [3]

As razões que me levam a vincular a Filosofia do Convívio à Vertente do Pacífico são portanto não só de afinidade metodológica e teórica (como veremos adiante), mas também razões políticas: a intenção de desenvolver um pensamento que se vincule não só à cultura que está nestas terras há 500 anos, mas também, e mais profundamente, àquela que está aqui a 15 mil anos, ou mais – e que, reconheçamos ou não, é a raiz genética e cultural mais profunda do povo brasileiro.
 


[1] Ver Bloise, Paulo V. O Tao e a psicologia. São Paulo: Angra, 2000.

[2] Não cabe aqui uma relação ampla nesse sentido. Sugiro apenas que se preste atenção às publicações recentes, no Brasil, de Daniel Munduruku, Kaká Werá Jekupé e Olívio Jekupé – bem como a qualquer escrito ou entrevista de Aílton Krenak. Também são notáveis os estudos do casal francês Pierre e Hélène Clastres sobre a visão-de-mundo guarani, entre muitos outros. Em relação à América do Norte costumo me referir a McLuhan, T.C. Touch the earth: a self-portrait of Indian existence. Londres: Abacus, 1980.

[3] Sobre este ponto: Johansen, Bruce E. Forgotten founders: Benjamin Franklin, the Iroquois and the rationale for the American revolution. Ipswich MA: Gambit, 1982. Consultado em http://www.ratical.com/many_worlds/6Nations/

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22 fevereiro 2008

Tropeiros acontecem: artigo da Ana Estrella na Viração

Estou circulando uma informação rápida sob o título "TROPEIROS ACONTECEM".

Com esse título ou outro, seria ótimo que os egressos da experiência Trópis, ou ainda participantes de um certo movimento Trópis, auto-documentassem o que fazem acontecer por aí, colocando na lista Teletropis, na comunidade Trópis no orkut, nos seus blogs e no meu, etc etc.

Tropeiros acontecem: artigo da Ana Estrella sobre a Expedición donde miras na Revista Viração
http://www.revistaviracao.org.br/artigo.php?id=1465

17 fevereiro 2008

Relatos Sacros de um Tempo Profano qualquer

Bom...  este é o fim-de-semana da postagem poética - mas vocês já devem ter percebido que nem mesmo poesia eu gosto de apresentar sem um pouco de prosa...
Só que há várias coisas competindo pela minha palavra & presença neste momento - entre elas o planejamento das oficinas
A Arte de Escrever e de Ler Com-Vida, que darei na
Fábrica de Criatividade nos próximos meses (veja a postagem
http://pluralf.blogspot.com/2008/02/oficinas-curso-gratis-na-fbrica-de.html ),
... a preparação de uma Introdução à Filosofia do Convívio a ser dada amanhã no Curso de Formação da equipe da mesma Fábrica...
... e - sem dúvida tão ou mais sério que qualquer trabalho, por sério que seja:
... curtir o Yan,
que já está com 1 ano e eu acabo de conhecer - filhote dos tropeiros Carlinhos Amaro & Thais, que se conheceram nos nossos tempos no galpão de Praia Grande (conheça o galpão e sua história em www.tropis.org/foto-historia4.html - e quanto ao Yan,
acham que porque é pequeno é de pouca importância?
Ele tem até comunidade no orkut, http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=29257847 !),
... e comemorar os 7 anos da minha Flor nheengatu,
Potyra da Paz Rickli... minha neta.
Com tanto a fazer, como escrever pro blog? Quem sabe então o jeito seja combinar as coisas... e mandar uma pequena (e brincalhona) peça de prosa poética.
Qual é a dessa prosa... podemos conversar depois, se vocês quiserem.  - Sugiro que façam comentários aqui mesmo no blog: eu também recebo por e-mail, e a conversa fica mais democrática, menos exclusora!...
Em tempo: um beija-flor verde-metálico dança alucinadamente em frente à minha janela enquanto escrevo isto.
Um colibri como o acima, que o próprio Carlinhos fotografou em 2004 perto de Curitiba, no sítio do Mário Barbariolli - o cérebro e mão inicial da obra em Praia Grande, e que há poucos dias hospedou em seu sítio do último dia da Expedición Donde Miras - http://expediciondondemiras.blogspot.com .
O beija-flor pousa no fio de luz. Estes dias espantou desse mesmo fio uma rolinha bem maior que ele. Deve ter ovos ou filhotes na mata que deixamos se formar na faixa de terra de 70 cm junto ao muro, em plena São Paulo. 
Penso: até seres tão doutro mundo como os colibris vivem os ritos todos do pôr filhotes no mundo, e de cuidá-los.
E um dia, então, também têm netos... Como é extraordinário mesmo, este mais ordinário dos mundos!
(E não é que acabou rolando prosa?... 
Mas por agora fui!)


RELATOS SACROS
DE UM TEMPO PROFANO QUALQUER
(Botucatu, 1991)
Nos dias em que havia uma abelha morta sobre a pia, levantou-se Miau, o Gato, do sítio que ocupava nas bandas do ocidente, e passou a fustigar os Gafanhotos, que desde a última lua haviam penetrado na região da Casa do Pão, assim chamada porque há muito se deixara um pedaço de pão sobre a mesa.
Ora, quando o corpo da abelha já começava a perder suas feições, levantou-se Zé, por ordem do senhor, e a removeu da pia que desde há tempos ocupava, e deu início a um novo tempo. Este, porém, não foi respeitado por Miau, o Gato, pois que os Gafanhotos igualmente ignoravam as ordens do senhor e continuavam a viver segundo a concupiscência de suas verdes carnes.
Então se enfureceu o senhor sobremaneira e ordenou que a Casa do Pão fosse derribada. Ao ser informado disso, terminou Zé de rasgar suas já puídas vestes, lançou-se ao chão e, rastejando entre os vermes, implorou ao senhor que abrandasse o seu coração.
E eis que o senhor se compadeceu e enviou uma aranha, a qual desenrolou sua teia por sobre a porta do banheiro, e uma vez estendida a teia sobre a porta do banheiro, o senhor se pronunciou, e disse: enquanto durar a teia ora estendida sobre a porta do banheiro, se estenderá um Novo Tempo de Caça aos Gafanhotos, e não mais punirei quem lhes der caça, pois eis que Eu declarei este tempo o Segundo Tempo de Caça aos Gafanhotos, e minha palavra será vossa lei.
E enquanto durou a teia, Miau, o Gato, caçou, e toda sua tribo, e juntos caçaram e se refestelaram, e já os Gafanhotos escasseavam quando o senhor enviou o Sabiá, que deu início a um outro tempo, de cujos fatos darei conta porém no Livro Quinto.
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14 fevereiro 2008

Exposição JOÃO BONETTI na Fábrica de Criatividade com coquetel e debate - ENTRADA FRANCA

João Bonetti não só é um amigo de longa data, como também um artista absolutamente incomum que é preciso conhecer!
Estou muito feliz que venha expor na Fábrica de Criatividade, que é em si uma construção capaz de estabelecer diálogo com os trabalhos do João.

Mais uma confirmação, além de tudo, da vitalidade cultural da Periferia Sul de São Paulo... cada vez mais CENTRO, como previmos em meados da década de 90 ao lançar o mote
A PERIFERIA É O CENTRO.

Pega aí meu convite: VENHA E FAÇA PARTE dessa
renovação histórica!"
 
Coquetel na fábrica!
 

11 fevereiro 2008

oficinas-curso GRATIS na Fábrica de Criatividade / repassem

Amig@s - inscrevam-se ou ajudem a divulgar
 
 
Este semestre estou coordenando a nova área de ARTES DA PALAVRA,
na Fábrica de Criatividade - próxima ao metrô Capão Redondo (Linha Lilás, Zona Sul SP)
 
Dentro dessa área, estamos oferecendo as oficinas continuadas
LITERATURA EM AÇÃO   (com Alisson da Paz, aluno-colega na Trópis desde 1999)  e
A ARTE DE ESCREVER E DE LER COM-VIDA  (comigo, Ralf Rickli)
 
 
Há vagas em todas as seguintes áreas e cursos,
com inscrições até 22 de fevereiro:
 
ARTES DA PALAVRA
• literatura em ação
(aparece na ficha "ação literária")
• a arte de escrever e de ler com-vida (aparece na ficha "leitura e elaboração de textos")
 
ARTES DO CORPO
• break
• capoeira
• dança contemporânea
• dança de salão
• teatro adulto
• teatro infantil
 
CRIAÇÃO
• construção e manipulação de bonecos
• robótica
• produção cultural
 
ARTES VISUAIS
• desenho
• pintura a óleo
• história em quadrinhos
• grafite
 
MÚSICA
• bateria
• canto
• cavaquinho
• contrabaixo elétrico
• guitarra
• metais
• percussão
• piano erudito
• piano popular
• saxofone
• teclados
• violão erudito
• violão clássico
• introdução à cultura hip hop
 
INSCRIÇÕES (candidatura às vagas) até 22 de fevereiro
 
Além da Fábrica, você pode pegar a FICHA DE INSCRIÇÃO nos seguintes locais
Bar do Binho - Rua Avelino Lemos Jr 60 - Campo Limpo
Bar do Zé Batidão (Cooperifa) - Rua Bartolomeu dos Santos 797 - Chácara Santana
Condomínio Santo Amaro G - Rua Ilha de Maiorca bloco 12 - Jd. Guarujá
Projeto Vida Nova - Rua Pr. Jerônimo Granero Garcia 7 - Jd. Amália
 
FÁBRICA DE CRIATIVIDADE - Rua Dr Luís da Fonseca Galvão 248 (Pq. Maria Helena, Capão Redondo)
  
contato@fabicadecriatividade.com.br - www.fabricadecriatividade.com.br - 5511-0055

10 fevereiro 2008

Liberdade de Imprensa, DEMOCRACIA e Liberdade de Expressão

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Amig@s: a realidade mostrou que meu compromisso original de postar todo sábado deve ser atualizado para postar todo DOMINGO. Pode ser que às vezes antecipe ou que faça outras postagens durante a semana, mas a garantia que pretendo dar é de que não chegue 0 h de segunda sem postagem nova.

Por outro lado, vou tentar manter o ritmo que já está existindo: pelo menos 2 postagens poéticas + 2 postagens filosóficas por mês, se possível alternadas.

Relembro que as palavras & idéias contidas aqui podem e devem ser reproduzidas, desde que claramente mencionados o autor e a fonte, com link.
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1. UMA PALAVRA SOBRE O ÂNGULO DE OBSERVAÇÃO:
O PLURALISMO RADICAL
Tenho usado este blog como um espaço de expressão tão pessoal, que talvez fique parecendo que o jogo-de-palavras embutido no nome (plural + ralf) se refira aos "3 poetas que são 1" (da postagem de 03/10), ou a coisa parecida.
E não é que não possa ser entendido também assim, mas a intenção original, que não foi abandonada, é um bocado mais ampla: é usar este espaço para falar sobre e a partir de um ponto-de-vista que eu chamo PLURALISMO RADICAL - o "nome de briga" daquilo que também usa o nome aparentemente pacato de Filosofia do Convívio.
Sob qualquer um dos nomes, trata-se de filosofia ética e ao mesmo tempo política. Aliás, dentro do seu campo-de-força essas duas palavras designam uma coisa só. E é política mesmo quando fala de... "o melhor modo de deixar prendedores de roupa no varal", ou outros detalhes do cotidiano.
Mas se quiserem uma relação com palavras mais usuais no campo político, Pluralismo Radical é democracia radical: democracia expandida até o seu limite máximo - e isso não porque alguma coisa a limite de fora, e sim porque expandida até o máximo permitido pelos próprios limites da lógica; limites matemáticos.
Mais: Pluralismo Radical é a condição de viabilidade da democracia - e o artigo que cabe aí é "a" mesmo: a condição primeira e última, em relação à qual toda e qualquer outra condição será naturalmente secundária.
Não é menos que isso a sua pretensão... - e não é por menos que o livro Filosofia do Convívio está demorando tanto a ficar pronto!
Essa uma das razões deste blog: enquanto o livro não fica pronto, vou tentando dar aqui alguns exemplos de aplicação do pensamento pluralista radical a questões várias - por exemplo, essa questão tão palpitante no momento que é a da relação entre democracia e liberdade de imprensa.
Só que para este não virar outro capítulo inacabado do livro inacabável, o que vou fazer são sobretudo afirmações (ou, em termos mais usuais no campo filosófico: registrar proposições), com poucas justificações. Com isso fica aberto o debate -
... mesmo se com certeza bem pouca gente sabe que este blog existe, e ainda menos que está aberto aqui o debate sobre a condição maior da viabilidade da democracia...
2. LIBERDADE DE IMPRENSA E DEMOCRACIA SÃO ALIADOS OU INIMIGOS?
Depende.
O que é um constituinte fundamental da democracia é a liberdade de expressão. Será "imprensa" um equivalente exato de "expressão"?
A imprensa funciona como um amplificador do alcance da expressão de um indivíduo. Faz com que as palavras e idéias de uma só pessoa consigam preencher o espaço que só seria preenchido por milhões de pessoas sem tal amplificação. Será que esse mesmo poder é compartilhado com todos os atingidos? Ou seja: será que toda pessoa que quiser contestar um artigo de jornal conseguirá fazê-lo e ser lida por todos os que o leram? Evidentemente, os casos em que isso acontece são ínfimas exceções.
Na verdade a imprensa como a conhecemos, muito ao contrário de representar meio de expressão para muitos, tem servido para fazer a voz de uns poucos escolhidos tomar o lugar da voz de muitos. E não me diga que esses muitos não teriam nada a dizer, ou pelo menos nada de útil, pois só diz isso quem não foi lá ver.
Costumo dizer que vivemos como baratas nas frestas deixadas por duas rochas gigantescas: o sistema do Estado, e o poder econômico (ou seja: o poder dos proprietários de capital). Estes costumam falar como se eles fossem ou pelo menos representassem "a sociedade civil"; apresentam o Estado como um inimigo da liberdade, e liberdade, para eles, é naturalmente a liberdade de fazer negócios - inclusive com notícias. Liberdade que naturalmente (mas isso eles não dizem) só é possível desfrutar quando também se é proprietário de capital.
Por outro lado, o Estado se apresenta como "poder público". Como é que algo "público" não é "da sociedade civil"? De onde surgiu a diferença entre "público" e "civil"? De onde surgiu a idéia de que o Estado é inimigo da sociedade, e não seu servidor?
Não é possível aprofundar esta questão agora, mas cabe dizer: historicamente o Estado tem sido mesmo, em grande parte do tempo, uma força opressora da população - mas o poder econômico não-estatal nunca foi menos.
E mediante uma invenção chamada "democracia", que até hoje não foi plenamente implementada em nenhum lugar, nós povo em geral já temos pelo menos em teoria o direito de decidir os rumos do Estado; já os rumos do capital privado, por definição não teremos nunca o direito de decidir (a não ser no dia em que decidirmos em conjunto que ele não é mais privado...)
Vale a pena ler o livro Liberalismo e Democracia, de Norberto Bobbio, para entender que esses dois termos, ao contrário de serem duas faces da mesma moeda, são no fundo conceitos antagônicos, que a muito custo foram acomodados num sistema só, que por causa disso funciona em permanente tensão e ameaça de rompimento.
Numa comparação talvez um pouco arriscada, mas creio que passável, podemos dizer que democratas tentam fazer da coletividade humana uma cooperativa, onde "um homem = um voto", independente do capital que traz, enquanto que "liberais" a entendem como uma sociedade por cotas (ou ações), em que a quantidade de votos de cada um é proporcional ao capital que colocou na sociedade.
Ou de modo bem simples: para o "liberalismo", manda na sociedade quem tem mais, e "liberdade" significa que ninguém se meta nisso.
E no entanto... por razões históricas tais liberais tiveram que fazer acordo com os democratas, e deixar que o Estado funcione, pelo menos aparentemente, ao modo democrático: "um homem, um voto". O que naturalmente pode pôr em risco os seus interesses como proprietários de capital.
Mas "felizmente"... com dinheiro é fácil montar um grande sistema de "informação" que "ajude" os pobres desprovidos de capital a "formarem sua opinião" (pois é óbvio que não tendo capital também não tem miolos próprios na cabeça, não é mesmo?)
Acreditem ou não, não sou propriamente marxista... mas esse é um fato objetivo cru: a "liberdade de imprensa" do liberalismo significa a liberdade de manipular as cabeças dos desprovidos de capital para que, mesmo sendo mais numerosos, não atrapalhem os interesses dos proprietários de capital através do voto ou de outras formas de participação política - e seus apelos à "liberdade democrática" têm significado sempre: "e que ninguém se meta nisso".
3. COMO PODERIAM FICAR A LIBERDADE DE OPINIÃO
E DE EXPRESSÃO NUMA DEMOCRACIA VERDADEIRA?
Quem são, afinal, os sujeitos cujas opiniões em conjunto constituem democracias? Empresas jornalísticas podem ser? Mas então por que não, também, os supermercados, as igrejas, as empresas de aviação?
Para que "democracia" seja possível, em última análise só deveria haver um tipo de sujeito político: indivíduos humanos. Com igualdade de oportunidade de expressão.
Mas concedamos que indivíduos possam se organizar coletivamente em torno de posicionamentos políticos tidos em comum: surgiria com isso um tipo de organização cujos fins são especificamente políticos,
... sem serem ao mesmo tempo econômicos, educacionais ou quaisquer outros - pois o objetivo da política é o bem de todos, e não os interesses deste ou daquele setor de atividade, ou desta ao daquela tendência de pensamento.
É preciso detalhar isto um pouco mais:
O material básico de uma democracia são opções individuais. É claro que o indivíduo pode optar por ter um posicionamento igual a de outros, e a formar um grupo com esses outros para defender os posicionamentos que têm em comum. (Ainda aí segue não existindo propriamente uma "opinião do grupo": o que existe é uma resultante - ou soma vetorial - de opiniões de pessoas).
Então: se um tal grupo é formado em torno de opções políticas, e quer defender opções políticas coletivamente, esse grupo precisa ser identificado como partido político.
Partido político seria portanto o tipo de organização que se empenha em mostrar que determinada opinião ou conjunto de opiniões é boa para o bem de todos, e que se esforça por conseguir o apoio mais amplo possível para implementar o que essas opiniões propõem.
Toda organização que tem essa finalidade se caracteriza de fato como partido político e deveria também estar caracterizada de direito.
Pois para que a democracia não seja prejudicada, não pode haver mais de um tipo de organização dedicada à expressão grupal de opção política: só pode haver o tipo claramente identificado como tal (como grupo de atuação política) e que tenha plena responsabilidade pública como tal (- ou seja: do qual seja possível e fácil cobrar as conseqüências de sua atuação política).
 Por isso,  a constituição de partidos políticos deve ser fácil, descomplicada e ilimitada em número. Pois não se trata de restrição aos conteúdos: apenas disciplina quanto à forma.
O conteúdos das opções dos indivíduos humanos são variadíssimos, mas a forma básica do ser humano é uma só. Ninguém vai julgar opressivo que se diga que apenas seres humanos são sujeitos políticos individuais, e não também os cachorros, as cadeiras, os relógios ou as gotas de chuva. Só há um modelo de sujeito político individual, e só deve haver um modelo de sujeito político grupal; sua liberdade de constituição deve ser total, e a liberdade dos conteúdos de suas propostas quase total (limitada apenas pelo Estatuto Fundamental da Humanidade - ver a postagem de 27/01/2008). Mas a forma de constituição tem que ser uma só.
Isso significaria que nenhum grupo que não seja partido político pode manifestar opinião política como grupo - embora nada impeça que seus componentes a manifestem como indivíduos, assinando embaixo cada um com seu nome. Nenhuma igreja, nenhuma corporação profissional, nenhuma associação e sobretudo nenhuma empresa - que é organização constituída em torno de finalidades econômicas - pode manifestar opinião política -
... e igualmente, nenhum desses tipos de organização pode exigir algum tipo de alinhamento político de seus integrantes: o único tipo de grupo constituído por razões de alinhamento político tem que ser o que foi designado acima como "partido" (cuja pluralidade e liberdade e facilidade de constituição têm que estar garantidas, como também já foi dito).
Isso não é restrição à liberdade? Sim e não: é restrição apenas à liberdade de destruir liberdades - à liberdade de dominação - e portanto é garantia da máxima liberdade sustentável, que é a do equilíbrio ótimo entre o individual e o social (mais uma vez conforme o Estatuto Fundamental da Humanidade e também conforme o artigo Bendito Eixo no Bendito Caos, os dois em <www.tropis.org/biblioteca>).
4. ALGUNS ASPECTOS PRÁTICOS NO CAMPO "IMPRENSA"
É evidente que precisaria ser proscrita essa instituição clássica do jornalismo que se chama o editorial - que sempre foi uma forma de alguns indivíduos fazerem suas opiniões pessoais passarem por opiniões coletivas. Precisamente as mesmas opiniões podem estar impressas no mesmo lugar, porém assinadas com os nomes pessoais de todos os que participaram da redação - tanto os de quem emitiu opiniões quanto os de quem as escreveu, e, havendo divergências, com a identificação de quem fez o quê.
Liberdade de expressão não é só a de dizer, mas também a de não dizer: entre outras coisas, que ninguém jamais tenha que escrever opinião de outro porque foi pago para isso! Se o fizer, deve estar registrado o nome do autor da opinião, o nome do redator, e as divergências que o redator porventura tenha com as opiniões que teve que escrever.
O uso de ghost writers deve ser tipificado como crime, salvo nas condições explicitadas acima - pois configura claramente, na relação com o redator, uma expropriação da humanidade do outro (isto é, de seu direito de opção) mediante a exploração de sua necessidade de subsistência,
... e, na relação com o leitor ou ouvinte, uma tentativa de manipulação pela simulação de qualidades que não se tem, mas que podem ser fingidas mediante o poder econômico de que se dispõe.
Duas formas graves, portanto, de abuso do poder econômico.
Chamar a si mesmo de "formador de opinião" equivale à confissão de um crime contra a democracia. Somente o indivíduo pode formar sua própria opinião.
No entanto, a mera modulação de "formador" para "informador" é capaz de inverter tal sentido, passando a designar um serviço não apenas útil como também indispensável à democracia: afinal, o indivíduo precisa ter informações à sua disposição para que possa formar sua opinião própria.
A atividade dos informadores de opinião deve porém estar sujeita à lei da pluralidade e à da igualdade de oportunidades.
A principal razão disso é o fato de não existir descrição de fatos que seja puramente objetiva: alguma medida de opinião está sempre embutida já no modo como vemos as coisas (selecionamos inconscientemente os detalhes que vemos e os que deixamos de ver), e obviamente também no modo como repassamos a informação.
Por isso ninguém deve ser exposto a informação proveniente de uma fonte sem que no mesmo ato lhe seja oferecido acesso a informações provenientes de outras fontes. Órgãos de imprensa complexos deveriam buscar oferecer diversas versões já em cada notícia, e tratar de não privilegiar nenhuma dessas versões no processo de edição -
... além de reservarem espaço para a publicação de todas as informações que lhes sejam enviadas posteriormente em contestação a essas versões. (Isto é, não é necessário que se publique o texto integral de todas as manifestações, mas que se registre quantas vezes uma determinada informação ou posição foi manifesta, e que sejam identificados e arrolados os detalhes diferenciais nas diferentes manifestações).
5. O CAMPO ONDE A OPINIÃO É LEGÍTIMA
Resta lembrar aqui que aos indivíduos e aos partidos políticos a manifestação de opinião é totalmente livre (unicamente com a ressalva prevista no Estatuto Fundamental da Humanidade, ou seja: que não se possa advogar a destruição da própria liberdade) –
... e uma das (não muitas mas fundamentais) funções que deveriam caber a um Estado democrático (ou a alguma formação melhor que "Estado" que lhe venha a fazer as vezes no futuro) é justamente a de garantir que nenhum cidadão tenha menos oportunidade de fazer suas opiniões circularem do que qualquer outro.
Na nossa época isso começa a ser tecnicamente factível pela primeira vez mediante a internet (olha nosso blog aqui!) - e mesmo que a internet não tenha sido uma iniciativa do Estado, sua importância para uma verdadeira democracia é tão grande que cabe sim ao Estado ajudar a preservá-la, de dois modos: (1) não atrapalhando; (2) impedindo que poderes econômicos tentem restringir a universalidade do seu uso.
Por outro lado, já disse que fundar partidos políticos deveria ser extremamente fácil - e mesmo assim o Estado deveria garantir a todos eles condições equivalentes de divulgar suas idéias, não só oferecendo recursos aos pequenos, mas também sendo a única fonte de financiamento dos grandes.
E aqui há um detalhe importante: é um absoluto contra-senso lógico que partidos recebam dinheiro e/ou tempo de divulgação proporcionais às conquistas já realizadas (p.ex., número de cadeiras já conquistadas no legislativo - se é que cabe manter esse modelo de representação). É um contra-senso pois se trata de um sistema de feed-back positivo, o que qualquer pessoa com noções rudimentares do funcionamento dos sistemas sabe que leva a distorções sempre crescentes  e finalmente à destruição do sistema. No caso político, tal "dar a quem já tem" é uma forma escandalosa de garantir que o presente seja sempre governado pelo passado, ou de evitar qualquer verdadeira renovação.
Se parece extravagante que o Estado gaste para que um pequeno partido de, digamos, vegetarianos, tenha a mesma oportunidade de divulgação de suas idéias que qualquer outro partido tradicional, devemos pensar que se trata de investimento na manutenção e aperfeiçoamento de um dos maiores bens que a humanidade já conquistou: a democracia.
E por outro lado, aqueles que considerarem que as propostas acima são restrições inaceitáveis à liberdade de expressão, esses estarão confessando com isso que seus apelos ao nome "democracia" são hipócritas: que o que querem é seguir dominando e manipulando por fora das regras de qualquer jogo que seja efetivamente democrático.
São esses, afinal, os que voltam sempre com a cantilena de que "o povão" não tem condições de decidir, por esta ou por aquela razão – enquanto eles supostamente teriam essas condições, de decidir por si e pelos outros. Tenho certeza absoluta, porém, de que no momento em que houver circulação livre, igualitária e abundante de toda pluralidade de informações, as fantásticas qualidades matemáticas dos grandes números farão do conjunto de todos os Zés, Manés e donas Marias um colegiado infinitamente mais sábio em suas decisões do que o conjunto de proprietários de órgãos de imprensa, mesmo se acrescido de todos os doutores em Ciência Política do país.
Ou, se não mais sábio, pelo menos - devido a fragmentação e à neutralização mútua dos interesses - muito menos imoral.

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