Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

03 fevereiro 2008

20 POEMAS DE 3 POETAS QUE SÃO 1

Duas semanas atrás eu falei aqui da intenção de começar a publicar na net o meu "estoque" de poesia com sistema...
... e de lá pra cá trabalhei um tanto sobre quê sistema seria mais adequado.
E aí me dei conta de que, na verdade, a poesia que eu tenho estocada parece ser de no mínimo três autores diferentes, e não de um só.
Ora, direis :-) ... Fernando Pessoa já fez isso... mas não!, não se trata de um "projeto de produção literária" ou algo assim - e tenho certeza de que também em Fernando Pessoa não se tratava: ele foi é um sujeito com percepção da complexidade do ser humano, e usou a si mesmo como exemplo de como essa complexidade é. Todo mundo, caso se conhecesse a fundo, acabaria sendo tentado a dar nomes diferentes (= heterônimos) aos diferentes aspectos de si...
Sem muita teoria mais, passo a contar então que identifiquei basicamente "três autores" por trás dessas páginas arquivadas:
(1) Um sujeito que gosta de brincar - com palavras & com os fatos da vida: trocadilhos, tiradas, poemas curtos, uma dose considerável de rima e outra de auto-ironia...  Esse sujeito se sentiu estimulado e à vontade na espécie de trans-concretismo que predominou nos anos 80, como o do conterrâneo Paulo Leminski.
E desconfio que pra esse sujeito cabe bem o nome Ralf, com que eu fui registrado... - mas não porque esse seja "o eu verdadeiro", e os outros sejam personagens - pelo contrário! Eu me identifico bem mais com o Zé... Afinal, Ralf é o nome que me deram, não que eu escolhi - e portanto tão ou mais heterônimo quanto os outros!
Quem disse, aliás, que Fernando Pessoa foi "mais ele mesmo" nos poemas que registrou sob esse nome mesmo? (E além disso: quem diz que o nome oficial é "o certo"? A tal designação "ortônimo", quem vem sendo usada para contrastar com "heterônimo", NUM TÁ CUM NADA NÃO!!)
E afinal - honestamente, gente - pra um sujeito nascido no Brasil em 1957, e cujo último ancestral nascido na Europa viveu de 1835 a 1921... darem o nome Ralf só pode ser algum tipo de piada, né?
Um exemplo típico desta poesia? O "Bom dia, Coisa" publicado aqui em 19/01. Mas quem sabe também o...
DRAMA ADOLESCENTE
eu queria tanto ser tudo mas mamãe não deixa
1987
(2) O Zé, ao contrário, não é um sujeito exatamente divertido.
Afinal, não é moleza nenhuma ser um Zé.
O Zé é aquele que escolheu observar com consciência o que é ser um qualquer, no Brasil e no mundo em geral... e se encheu de amargura - pelo descompasso entre isso e a dignidade divina que ele entrevê em todo ser humano.
No Zé coincidem uma atitude de enlevo perante a grandeza & beleza do universo e a crítica à forma amesquinhante de convívio humano a que se deu o nome de "sociedade" - não uma crítica meramente cerebral, mas asco mesmo. Visceral.
É para essa coincidência do místico com o político (e não para o suposto dom de adivinhar o futuro) que os teólogos usam a palavra "profético". O Zé se sente compelido a falar nesse tom profético -- aliás, se não me engano seu verdadeiro nome é Isaías José Lobo, algo assim... -- e aí soa muitas vezes ranzinza, queixoso, acusador...
... o que no fundo é um puro debater-se em um amor desesperado com sua própria impotência diante do sofrimento que vê afligindo a maioria dos seres em seu mero existir.
Um exemplo de fala típica do Zé:
 você já olhou a luz que brilha
nos olhos daquelas mãos
que limpam a tua privada?
   
já?
e não morreu de paixão?
1982
(3) E aí tem o autor de poemas que puxam para o erótico - ou talvez melhor: que falam, de modo mais explícito ou menos, do mundo do desejo e do sexo - às vezes de modo seguro de si e atrevido, às vezes lamentoso pela ausência, pelo não correspondido, etc. Para esse foi adotado já faz algum tempo - por razões que eu conto outro dia - o nome Valdo Valente.
Sobre os poemas do Valdo cabem duas observações: uma, que embora muitos deles possam ser lidos em referência a qualquer variante de Eros, o Valdo pensou a maior parte em relação à variante que lhe ressoa mais fundo, a homoerótica - e muitos dos poemas deixam isso explícito.
Algum problema? Ué, se 129 dos 154 sonetos de Shakespeare falam explicitamente de amor entre dois homens, por que é que eu e o Valdo também não podemos falar? - E se há alguma dúvida entre a propriedade de me comparar a Shakespeare, olha aí se eu não posso...

(A foto é de 1981. A da esquerda... ­- Mas, brincadeiras à parte, quem não quiser respeitar o Valdo por causa disso, jogue fora junto, além de Shakespeare, todo García Lorca, Mário de Andrade, o próprio Pessoa, Verlaine, Rimbaud, Michelangelo, a filosofia e literatura dos gregos inteira etc etc etc...)
A segunda observação é que só em parte desses poemas é que o Valdo merece seu sobrenome Valente - aquele que vai à luta e até mesmo celebra conquistas. Alguns outros expressam uma espera tão desesperançada e lamentosa que eu desconfio que são do irmão gêmeo do Valdo: o Covaldo.
Tá, mas chega de prosa. Coloco a seguir mais algumas amostras dos três, inclusive do Valdo e do Covaldo de quem ainda não mostrei... coisa nenhuma. Ah, TODOS OS POEMAS PODEM SER REPRODUZIDOS, DESDE QUE COM O NOME CORRETO DO AUTOR E LINK DA FONTE!
E por hoje é isso aí!





Algumas amostras do RALF

*  *  *

você não conhece a Rose Feijão?
não?!
a mulher do Povo Brasileiro?!
1986

(batendo palmas)

a língua portuguesa
já entrou na menopausa:
não tem mais regras!
não tem mais regras!
1986
*  *  *
é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso.
    a curva e a reta
    o arco e a seta
e principalmente
o gozo.

é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso!
    o pão, o leite
    o leito, a alta
mas principalmente
a falta.
1993
"em parceria com o Valdo"

A FORÇA QUE DOMINOU O MUNDO
EUROPEIDOS
1997 rev.2008

ERROS QUE SÃO ACERTOS
restou a esperança
ou a espernaça?
1997 rev.2008
*  *  *
problemas da juventude?
não acho que a solução seja escó-la
1997 rev.2008
*  *  *
in
    te
        lec
             tu
                 alma
1997

VENTOS DA LIBERDADE
cabelos do oriente
fustigaram meu rosto
ao passar do trem
2006
Da serie Paulistanas,
iniciada em 1982
*  *  *
qual das realidades é a real? qual
dentre as imagens
                           a original?
e sobretudo:
entre todos
                  - qual de mins sou eu?
1985



Algumas amostras do ZÉ
(O primeiro texto é o que deu nascimento ao personagem em 1982. Pretendia ser a introdução a um poema maior, comentando o desaparecimento das Sete Quedas sob as águas da represa de Itaipu, mas foi deixado de lado no ponto em que o próprio Zé ia começar a falar...)

                assim falava zé, filho de mané - embora pouco lhe importando isso, pois todos os humanos de alguém são filhos, e não lhe interessava distinguir-se das mulheres e homens todos desse mundo -
                assim falava zé, cheio de tristeza pelo pouco sol que agora lhe atingia e de ânsias de uma vez mais voar, acima dos obstáculos do corpo da terra, pra melhor vê-la e melhor apaixonar-se,
                cheio de vontade de voar para oeste, sobrevoar cidades onde ‑ sabia ‑ em cada uma haveria um punhado ou pitada ou um só como ele, sempre sonhando vencer o peso do mundo que nos agrilhoa o corpo, sonhando-se tão leves que pudessem entregar de si até a última fibra
                ao amor da terra e de sua pele belíssima, à potência dos raios do irmão-mais-velho, à dança dos sóis e planetas, ao abraço noturno e interior do céu-matriz ou pai que nos unifica,
                e ao amor assim de cada humano, cada um e todos dos humanos, que trazem cada um dentro de si a terra, os astros e o céu também dançando, cada-um pequeno-mundo,
                pois só assim ao se entregar até o seu último terão alguma chance de ganhar-se ou descobrir-se, e de afinar sua dança interna com a dança dos mundos de fora,
                o que permitiria um vento morno atravessar suas almas trazendo aromas macios e coloridos, algo assim que sugerisse mesmo até o que fosse ou que pudesse talvez ser o ser feliz.
(ser feliz...                                ser feliiiiz...)
- dizia o gato -
a senhora já pensou em ser feliz? )
1982


*  *  *
ser vencedor, pra quê?
se já contemplei até
a sombra dos grãos de pó!
1986
um "haikóide"

XPT1

e de Ti, que falarei? e com que nome
que não haja
de sangue sido manchado?

roubaram teu nome, meu mestre,
e como escrever-te um poema
                                  de pura luz?
1986
*  *  *
Grão Cavaleiro da Sagrada Ordem
dos Desordenados
em cidades muradas meu coração não se encaixa
e chácaras cercadas não dão campo a seu galope
ébrio de se escancarar
pra ver as coisas como são.

Rebelde? Bobagem!
Rebelde só se é frente a um padrão
– e quem diz
que é padrão ser prisioneiro?
Rebelde é na verdade quem tem medo
de seguir o Grande Mandamento
que é ser si mesmo
o seu padrão.

Bárbaro,
a esses castigarei brutalmente:
lançarei seus arreios na fogueira
condenando-os a chocante liberdade
sem rótulos nas rotas nem roteiros nas mãos.

Vinde,
vinde tentar me tosquiar,
e saireis aturdidos
com vossas próprias lãs!

2006
Assinado: ZÉ. Profissão:
robinhoodismo filosófico-pedagógico
selvageria intelectual


Amostras do VALDO
*  *  *
    no meu travesseiro
depois de uma viagem
procuro estalagem
encontro teu cheiro.
    meu coração salta
de encontro a teu peito
- ó encontro perfeito
do pleno co'a falta!
    pressinto tuas partes,
tua pele, teus pelos,
parece-me vê-los,
senti-los, tocar-te...
    mas vai-se ligeiro
o estúpido engano:
num corpo de pano,
da alma - nem cheiro!
1987

*  *  *
queria agora alguma coisa apaixonada
como um beijo em tua boca desdentada
1985
*  *  *
Quanto mais me calo, mais
te amo
estou dizendo –
e mais desejo
tua ilusória entrega:
sem entrega
e no entanto assim entregue,
intensa,
e, sem paixão embora,
apaixonada mais
que a de apaixonados tantos.
não, não te chamarei,
pois, se importuno,
não seria amor condigno.
então me calarei.
e assim calando
é que te chamo –
pois quanto mais me calo
mais te amo.
1997 -
esse é possivelmente
do CoVALDO
*  *  *
e se tuas mãos me deslizassem peito abaixo
enquanto eu me elevo
e me ancorassem
a ti
– gêmeas colunas,
mistérios gêmeos –
então
de mim se estenderiam asas
de infinito
e ao, das alturas,
contemplar teu peito aberto
em mergulho de águia
eu
te romperia o invólucro
e dentro em teu coração explodiria
repousado
enfim
em ti
em mim
.

sustenta-me, ah!
sustenta meu vôo
e eu te farei
voar
.
1995

POEMA DA FIDELIDADE MAIS ALTA

te quero companheiro de aventuras!
mas
se te pretendes
resposta final e suficiente
a todos os anseios meus -
que aventura restaria no universo, a perseguir?

ver novos lugares, novas tardes, novos grãos de areia?
mas que podem eles, quando cada humano,
cada um,
é em si um universo inteiro?
cada um com seus pássaros, seus grãos de areia,
seus pores de sol?

te quero um companheiro investigador de universos! e depois -
depois, cansados e ricos do que vimos e provamos,
cada um na sua expedição,
cairmos rindo nos braços um do outro
e em puro gozo
compartilhar o mais que nos tornamos
(... tanto enquanto dois
como enquanto o um que também somos)

vai, vai para o mundo, meu amor, e vive mais!                      
mas volta! pra que eu também possa viver mais
em ti,
e em mim,
e em-ti-em-mim-e-em-mim-em-ti!

vai, vai, meu amor!
e vem.
2007
*  *  *

02 fevereiro 2008

P.S. à postagem de poesia deste fim de semana

Pessoas, desculpem!
Esses programas de edição de blogs ainda deixam muito a desejar!
A poesia tem um componente visual forte - e aqui, por mais que eu me bata, a formatação NUNCA fica 100% como deve ser.
Isso quer dizer que isto aqui fica sendo, sempre, apenas trailer - e que a verdadeira publicação (mesmo que na net) ainda vai sair em outro lugar, com recursos melhores.
Mas desde já, se lhe interessar, eu posso mandar um arquivo doc ou pdf com um ou outro poema em formatação mais garantida, ok?
Abraços a tod@s!

27 janeiro 2008

da Filosofia do Convivio para Fórum Social Mundial 2008

:
UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

E nossa Filosofia do Convívio
é uma contribuição para a viabilização
de um outro mundo que não seja apenas outro...
mas de fato BOM e digno de se desejar.

TRÓPIS iniciativas sócio-culturais  

26 de janeiro - um dias de ações múltiplas e descentralizadas em todo o mundo, as quais constituem em conjunto a Edição 2008 do Fórum Social Mundial.

Estamos dizendo "presente" com a publicação de um texto nuclear da FILOSOFIA DO CONVÍVIO - sua célula germinativa, de onde todo o resto decorre - apesar de a obra de que faz parte ainda não estar pronta para publicação:

PARA UM ESTATUTO FUNDAMENTAL DA HUMANIDADE
aqui no blog http://pluralf.blogspot.com
e ampliado com seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca

Resultado de 38 anos de reflexão, essas linhas que podem parecer ingênuas apontam a postura humana que, entre todas as possíveis, é já por razões lógicas aquela capaz de gerar as maiores transformações a partir das intervenções menores e mais simples.

Não temos a ilusão de que sua aceitação seja fácil - pois ao lado de fazer diferença imediata no convívio micro-social, inclusive nas relações humanas dois a dois, tal postura põe em cheque a alavanca mesma do sistema capitalista e a de todos os sistemas de opressão, manipulação e/ou desumanização.

Trata-se, enfim, de um objeto oferecido ao mundo para que se comecem a explorar suas possibilidades, propor aperfeiçoamentos, etc. - sobretudo por parte dos que forem capazes de perceber todo o seu alcance potencial por trás da já referida aparência ingênua.

OBS.: na noite de 25 para 26 foi publicada uma versão experimental com os capítulos em ordem diferente. A presente versão tem os capítulos na ordem correta e um artigo adicional (3.2.3.1), entre outras pequenas correções.

Para um Estatuto Fundamental
da Humanidade
Fragmento do livro em preparação
A chave de tudo mais:
apontamentos para uma
Filosofia do Convívio
disponível com formatação aperfeiçoada e seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca
Ralf Rickli
rr@tropis.org


1.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo

1.1.             Nada pode ser imposto por nenhum indivíduo ou grupo humano a nenhum outro indivíduo ou grupo humano.
1.2.             A única exceção a essa regra é ela mesma, que pode e deve ser imposta sempre que necessário. Isso equivale a dizer que impedir que alguma coisa seja imposta (por qualquer indivíduo ou grupo humano a qualquer indivíduo ou grupo humano) é ao mesmo tempo um direito e o único dever permanente de todos.
1.3.             Deve ser sempre buscada a forma mais branda possível para realizar a imposição da não-imposição que vem prescrita acima.

2.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo em forma de deveres
2.0.            Pelo bem de cada pessoa e da humanidade inteira, todos são convidados a concordar em que os seguintes três deveres são permanentes e universais para todos os indivíduos e todos os grupos humanos:
2.1.             o dever de não impor nada a nenhum outro indivíduo ou grupo humano;
2.2.             o dever de impedir que qualquer indivíduo ou grupo humano imponha alguma coisa a qualquer outro indivíduo ou grupo humano (inclusive um grupo aos seus próprios membros);
2.3.             o dever de buscar sempre a forma mais branda possível para exercer o segundo dever.

3.            Estatuto Fundamental
da Dignidade e do Convívio Humanos
-  forma extensa
3.0.            Em benefício de cada um e de todos nós, optamos por concordar com os seguintes quatro artigos como Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos, que pode igualmente ser chamado de Estatuto da Liberdade; outros pontos de concórdia serão sempre bem-vindos, mas reconhecemos que nenhum tem tanta urgência e prioridade quanto estes quatro:
3.1.            O que caracteriza cada um de nós como indivíduo humano é o fato de ser uma unidade decisória livre: a unidade mínima capaz de escolher o que quer e o que faz, mesmo se nem sempre fizer uso dessa capacidade.
3.1.1.          Qualquer ser humano que se encontre impedido de fazer uso de sua capacidade de decisão por razões externas a si se encontra sob um estado de opressão.
3.2.            Com uma única exceção, nenhum de nós seres humanos tem direito de colocar outro sob opressão, ou seja: de criar situações que expropriem outro ser humano do gozo da sua capacidade de decisão, quer obrigando-o a, quer impedindo-o de seja o que for; quer excluindo-o, quer incluindo-o contra a sua vontade seja no que for.
3.2.1.          O estado de opressão é indigno para todo e qualquer ser humano, e faz parte da dignidade de todo ser humano não aceitar esse estado nem para si mesmo, nem para qualquer outro.
3.2.2.         Cada ser humano têm o direito de delegar a outro ser humano parte de seu direito de decisão, para fins específicos e por tempo limitado, porém conserva sempre o direito de revogar essa delegação a qualquer tempo.
3.2.3.         Se algum ser humano se mostra temporária ou permanentemente incapaz de exercer a sua própria capacidade de decisão de modo a preservar-se em vida digna, e isso por razões próprias (ou seja, sem que seja impedido ou compelido por nenhum outro), a coletividade humana como um todo é responsável por conservar esse ser humano em estado digno, tomando em seu lugar decisões compatíveis com as que ele tomaria para si caso estivesse em pleno gozo de sua capacidade.
3.2.3.1.      Os períodos de infância e de adolescência são casos especiais de grande importância e complexidade, e devem ser objeto de estatutos específicos, os quais não devem deixar de levar em conta que nas crianças a capacidade de decisão se encontra em permanente construção e crescimento, de modo que são necessárias abordagens diferentes para cada ano de idade, ou pelo menos para cada grupo de poucos anos, e tampouco que a capacidade de decisão e/ou de participação em decisões se desenvolve muito mais rapidamente que a capacidade de automanutenção, e portanto as duas não devem ser tratadas como uma coisa só.
3.2.4.         Nos casos em que, mesmo apoiado para isso, se mostrar impossível que um determinado ser humano recupere sua plena capacidade de decisão autônoma, a coletividade é responsável por tomar cuidados para que esse fato não venha a prejudicar a capacidade de decisão autônoma dos seus descendentes ou de outros eventuais dependentes.
3.3.            A única exceção ao artigo 3.2 (conjunto) é a que o protege de si mesmo, ou seja: todo ser humano tem não apenas o direito mas também o dever de impedir, sempre pelo meio mais brando que ainda seja eficiente, que um segundo ser humano faça uso da sua vontade livre para expropriar a vontade livre quer do primeiro quer de terceiros.
3.3.1.          A coletividade deve buscar desenvolver meios tão seguros e tão pouco traumáticos quanto possível para proteger cada um de seus integrantes de quaisquer tentativas de expropriação de sua liberdade.
3.3.2.         As medidas de proteção da liberdade geral podem ser exclusivamente de duas naturezas:
3.3.2.1.      de tentativa de conscientização e persuasão do infrator no sentido do respeito à liberdade alheia;
3.3.2.2.      ou, sendo insuficiente a primeira medida, de restrição à sua liberdade de convívio, em diferentes graus e se necessário até mesmo em caráter permanente - isso porém apenas como proteção à liberdade dos outros, e nunca com caráter punitivo.
3.3.2.2.1.   Nenhum ser humano, ainda que em posição de autoridade, tem o direito de aplicar a nenhum outro ser humano nenhuma medida com caráter de punição, sobretudo medidas que atentem contra a integridade física e/ou psíquica do outro.
3.4.            Todas as demais leis e instituições da humanidade devem ser gradualmente repensadas e rearticuladas entre si, de modo a porem-se a serviço deste estatuto fundamental, subordinando-se a ele como critério maior, e tomando-o como ponto de partida para quaisquer novas regulamentações que se façam necessárias.
3.4.1.          As leis são tão mais fortes quanto menos numerosas, e devemos tentar evitar por todos os modos a introdução de toda e qualquer regulamentação que possa ser evitada.

4.            Estatuto complementar
do Convívio Universal
4.               Em benefício de cada um e de todos nós, concordamos igualmente com os seguintes dois artigos que buscam estender ao convívio com outros tipos de seres, na medida do possível, a atitude que reconhecemos como obrigatória no convívio humano mediante o Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos.
4.1.            Todos os diferentes seres em existência, humanos ou não, devem ser tratados com respeito.
4.1.1.          Exemplos de seres não-humanos são não apenas os seres vivos em sentido estrito (animais e plantas), mas também os sistemas vivos em sentido mais amplo (ecossistemas) inclusive com seus elementos ditos abióticos (p.ex. cursos d'água, ventos, estruturas rochosas), e ainda as entidades de natureza cultural: tradições, línguas, mitos, realizações artísticas, valores e idéias.
4.2.            Nós seres humanos assumimos como nossa tarefa o esforço no sentido de que a existência de um ser não fira, ou fira apenas o menos possível, a existência de outro ser.
4.2.1.          Nos casos de conflito de interesses entre seres humanos e não-humanos, esgotadas até última instância as possibilidade de contornar o conflito, nós seres humanos devemos não só reservar-nos o direito como também assumirmos como dever dar prioridade aos seres de nossa própria espécie - mas devemos continuar nos esforçando para que o prejuízo aos demais seres seja o menor possível.
4.2.2.         Para os fins do parágrafo 4.2.1 acima, podemos classificar os seres nos seguintes cinco graus, com os quais nosso compromisso de preservação deve ser crescente:
4.2.2.1.      O existente em geral, incluindo seres culturais (idéias, tradições, etc).
4.2.2.2.      O existente em forma corpórea.
4.2.2.3.      O vivo (ou organizado organicamente).
4.2.2.4.      A humanidade.
4.2.2.4.1.   Em princípio, nosso compromisso deve ser com a humanidade inteira, e nunca com uma parte dela em detrimento da outra; sendo porém absolutamente indispensável uma opção, cabe priorizar aqueles que respeitam estes estatutos, ou seja: os que buscam ao máximo meios não-opressivos de lidar com as divergências inter-humanas.
4.2.2.4.2.   Ao contrário do caso acima, não se justifica a tomada de posição em favor do grupo a que pertencemos, apenas por ser o nosso grupo, em detrimento do restante da humanidade.


COPYLEFT RESPONSÁVEL:
Este texto pode e deve ser reproduzido em parte ou em todo, desde que:
(1) mencionado o título e nome do autor
(2) mencionada a fonte e modo de acesso: www.tropis.org/biblioteca
(3) sem nenhuma alteração (inclusive na pontuação, grifo, omissão de trechos etc.)
que não seja claramente indicada e com identificação do responsável
(p.ex. "grifo de Fulano", "adaptado por Cicrano" etc.)

19 janeiro 2008

Balançando entre a Filosofia & a Poesia

Já faz algum tempo que me propus a ressuscitar este blog, passando a escrever nele todo sábado.
Só que... aí eu inventei que a primeira nova postagem seria o comunicado de estar publicando de uma vez dois pequenos mas pretensiosíssimos textos filosóficos:
  • Desplantes Filosóficos I:
    Para um Estatuto Fundamental da Humanidade

  • Desplantes Filosóficos II:
    Energia, Informação, Intencionalidade, Consciência:
    elementos para uma onto(cosmo-psico)logia contemporânea
E aí comecei uma revisãozinha no segundo desses artigos... e com mais de um mês de trabalho intenso... parece que estou cada vez mais longe do fim. AAAAAAAaaaaaaaaargh!!!!!!  Tanta outra coisa que eu queria estar escrevendo, publicando, e fazendo aqui fora na vida física!...
Uma delas, por exemplo, era começar a publicar POESIA na net: como ando cada vez mais descrente de publicar as coisas em forma de livro (porque termina sendo um objeto de propriedade do editor dono do capital, e não do autor...), pensei: vou começar a botar pouco a pouco na net as mais de 400 páginas de poesia que eu acho que tenho por publicar (além das cento e poucas que já publiquei em outros lugares).
Só que não quero me permitir começar esse novo empreendimento antes de publicar os referidos Desplantes!
MAS HOJE EU DISSE: TÁ, CHEGA.
Os Desplantes Filosóficos vão pro ar quando estiverem prontos, não importa quando, mas eu quero começar JÁ minha rotina de publicar no blog aos sábados. E vou começar com um pouco de Poesia, que ando morrendo de saudades dessa menina (a própria Poesia, bem entendido!). Depois, uma hora eu passo do blog pro endereço definitivo.
Tá, mas começar com o quê?... Olha, juro que deu vontade de ser com alguma coisa assim mais pro lado erótico (ainda que o meu acabe sendo sempre um erótico pra lá de estilizado, quando não filosófico... MAS QUEM DISSE QUE IDÉIAS NÃO DÃO TESÃO??) -
... mas aí resolvi começar mais de leve: 4 coisas ou coisinhas relativamente recentes, a última delas quase um texto filosófico-teológico-existencialista (pra não ficar devendo muito ao plano original...), as outras mais light.
E vai lá:

        * * *
Bom dia, Coisa!
Pensa que eu não sei
que você me espia?
Que você também
quer falar comigo
enquanto eu olho aqui
para o meu umbigo?

Bom dia, Coisa! Parece
que só resta você!
Humanos já mal se olham,
sempre têm o que fazer! -
e os bichos - tão meus iguais! -
seguido me cansam
de tão animais!

Bom dia, Coisa, bom dia...
mas fique aí no lugar!
Cada dia mais viva, mais móvel...
pra mim, o que vai restar?
Mai.05


        * * *
- olhe, que coisa mais linda!
- o quê? não estou vendo nada.
- ali, ali, no canteiro!
- ah, é apenas o sol poente   batendo de lado nas folhas...
- apenas? mas é um hino de glória!
  você por acaso   é surdo dos olhos?
Jun.05

 

        * * *
quanto mais te conheço
menos te sei:
mais e mais te me tornas
um quase eu:
um universo
em que estou dentro demais
pra que pudesse entender
Jul.97/Mar.98


        * * *

Deus me mandou tentar viver sem Deus. 
Sem nada do que nos acostumamos a pensar como sendo Deus, e como sendo o que Deus pede de nós.

Ele me disse:
se Eu existo, e Sou o que Eu Sou,
Eu estarei em você sem você se preocupar com isso.

Apenas viva buscando ser bom
porque é bom
e não porque isso tenha o carimbo "de Deus"
e não fique tentando me abranger com a sua consciência
pois isso seria garantia de você terminar sendo guiado
por uma imagem menor de mim
que não é o que Eu Sou.

Se você me ama mesmo
apenas me deixe estar em você
como a água está no peixe
(em volta e dentro e dentro e em volta)
e esqueça os nomes que me dão.
Ocupe-se em ser quem você é
enfrentando as situações que estiverem diante de você
sem delirar que o rio secaria
se você não dissesse o tempo todo
                   "ó Água, ó Água, ó Água!..."

Se você me ama mesmo,
veja se CALA meu nome
e os discursos sobre minha existência e importância
pois não há nada mais insuportável
que um bando de peixes que não param de falar.

Jul.07

27 dezembro 2007

Uma [teoria da] CASA, de presente para Ana Estrella no seu aniversário

Olá Ana Estrella,

você me pergunta como foi mesmo que eu defini "casa" na nossa conversa de ontem - mas eu não costumo gravar conversas de msn, então aquelas palavras exatas nunca mais... A idéia, de qualquer modo, era a seguinte:

A casa não é meramente um lugar onde você abriga o corpo, mas é um pedacinho do mundo exterior que você impregna com a sua alma. É um pouco do seu interior, exteriorizado. Faz parte ao mesmo tempo do mundo exterior, e de você: foi você que escolheu as coisas, pôs do seu jeito, impregnou até com o seu cheiro.

Por isso (e isto eu não disse ontem) a gente SE reconhece na nossa casa, seus detalhes e objetos. É um pouco como um espelho, mas de maneira ainda mais rica, pois não reflete apenas aquele mesmo instante e estado de alma (como faz a imagem do espelho - com a qual continuamos solitários, convivendo com uma imagem que apenas reafirma o mesmo tom que estamos emitindo a cada momento, perpétuo samba-de-uma-nota-só): na casa eu como que me reencontro em diferentes momentos e aspectos de mim, projetados em diferentes detalhes e aspectos da casa - detalhes e aspectos que vêm carregados da memória do momento em que foram adquiridos e de todos os momentos que já passaram conosco...

Desse modo a casa ajuda a tornar meu interior visível, não só aos outros a quem recebo nela como se fosse um pouco dentro de mim, mas visível também a mim mesmo - e me ajuda portanto a ordenar e a integrar diferentes partes de mim.

Fazemos isso sabendo ou não sabendo - mas saber pode ter uma grande utilidade: afinal nem sempre podemos estar em casa, e se eu sei que o que me acolhe em casa é menos a sua matéria que os aspectos de mim mesmo que estão projetados e impregnados naquela matéria... então sei que a essência da minha casa está comigo em qualquer lugar onde eu estiver. Assim como me reconheci no exterior, posso agora me voltar para dentro de mim e reconhecer minha casa no meu interior.

Talvez como o clarão da Terra que ilumina a Lua, e de lá ilumina mais uma vez a Terra: quando vemos a Lua quase-nova, geralmente não sabemos que a sutil luz azulada que vem da sua parte quase-escura é nossa própria luz.

Mas se eu souber que o calor que me vem da minha casa é meu próprio calor, então posso reduzir a sensação de estar sem lar e desamparado quando estiver longe dela: sei que a carrego dentro de mim onde eu estiver.

Pois na verdade la maison c'est moi (ou, tornando o francês mais correto e o trocadilho ainda mais infame: chez moi c'est moi): minha casa sou eu.

PS: o blog da Ana Estrella desta conversa é http://anaestrella.blogspot.com/
Hoje, 27/12, é aniversário dela... e então mando ESTA CASA de presente!

(Aliás, coitada... quem mandou ter pai metido a filosofador: ganha de presente UMA TEORIA DE CASA... Se eu tivesse me dedicado a ser capitalista, alto executivo ou outro tipo qualquer de ladrão, poderia dar uma casa de verdade... :(

Mas aí me pergunto: será que a tal casa, construída com trabalho alheio expropriado,
conseguiria ter esse calor de que falamos aqui? )

08 novembro 2007

Semana da Arte na Periferia - NA EFERVESCÊNCIA DO LANCE

Desculpem falar assim, mas...
é melhor e mais importante do que qualquer coisa que "vocês pra lá da ponte"
(na suposta não-periferia)
estão conseguindo pensar a respeito. 
Sem VER não vão ter idéia  m e s m o . . .

Compartilho abaixo:
(1) o endereço da EXPOSIÇÃO, que CONTINUA ABERTA até o fim de semana e que é um pecado perder!
(2) a parte performática da programação que ainda falta acontecer; 

(3) a excepcionalmente bem informada e não distorcedora matéria de Eleilson Leite no Le Monde Diplomatique Brasil (O biscoito fino das quebtradas);

(4) a programação que já rolou.
E tchau que eu vou correndo pra lá agora...  (Ralf Rickli / da Trópis / Zé Ralf)

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SEMANA DE ARTE MODERNA - ANTROPOFAGIA PERIFÉRICA

(1) Exposição coletiva com artistas da periferia
Expositores: Ricardo Akemi, Boicote, Ganu, Jair Guilherme Filho, Marcus Vinicius,
Michel Onguer, a trajetória vivida na periferia

Local: SACOLÃO DAS ARTES
End: Av. Cândido José Xavier 577 – Parque Santo Antonio
Obs.: o mesmo Parque que os Racionais MC cantaram como c* do mundo onde não acontecia nada de bom...


( 2) PROGRAMAÇÃO AINDA ACONTECENDO OU POR ACONTECER

QUINTA – 08/11 – C I N E M A

16h00 - Dança das Cabaças - Exu no Brasil - 54´
17h15 - Poeira - 5´
O Último da Fila - 10'
A Viagem – 12´
Paralelo: Espasmos de Realidade - 16'
18h15 - Defina-se - 4´
Nhanhoma Paulista - 2'
Cosmolho - 3'
19h15 - Onomatomania - 2´
2 Meses e 23 Minutos - 23'
Panorama: Arte na Periferia - 50´
20h30 – CONVERSA ENTRE CONVIDADOS E PÚBLICO
19h00 – Exibição de vídeos no Terminal Capelinha

Local: CEU CASA BLANCA
R. João Damasceno, 85 – Vila das Belezas

SEXTA: 09/11 – T E A T R O

08h30 - Café da manhã e colóquio com coletivos teatrais
11h00 - Band'doido apresenta "... Não é contar piada!".
14h00 - Cia. Diarte Teatral apresenta "Fragmentos de um poeta"
16h00 - UMOJA apresenta demonstração de processo do espetáculo "Quem me pariu?"
17h30 - Capulanas apresenta performance "Negra Poesia"
18h00 - Ação e Arte apresenta performance com trecho do seu novo espetáculo "X"
19h30 - Brava Companhia apresenta "A BRAVA"

Local: CENTRO CULTURAL MONTE AZUL
Av. Tomás de Souza, 552 – Jardim Monte Azul

SÁBADO: 10/11 – M Ú S I C A

Show com os grupos:

16h00 - Trio Porão
16h45 - Chapinha do Samba da Vela e Pagode da 27
17h30 - Wesley Noog
18h10 - B Valente
18h55 - Os Mamelucos
19h50 - Banda A
20h40 - Periafricania
21h35 - Preto Soul
11h05 - Versão Popular

Local: CASA POPULAR DE CULTURA M'BOI MIRIM
Av. Inácio Dias da Silva, s/nº - Piraporinha

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O biscoito fino das quebradas

Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

Eleilson Leite

Chegou a hora. A hora e a vez da cultura de periferia. Começa, neste domingo, 4 de novembro, a Semana de Arte Moderna da Periferia , evento realizado pela Cooperifa – Cooperativa dos Artistas da Periferia, junto com mais de 40 grupos culturais. Às 11 horas, tem início uma caminhada que parte da Ponte do Socorro com destino à Casa de Cultura do M'Boi Mirim. Os cerca de três quilômetros serão percorridos por intrépidas trupes, malabares, poetas engajados e outros apaixonados. Atrizes e atores celebrarão a retomada das ruas e praças como palco. Músicos tocarão tambores, violões, atabaques, numa exaltação à Periferia. Será um levante do povo trabalhador em nome do amor, da cor e da paz.

Na segunda-feira, dia 5, as atenções estarão voltadas para as artes plásticas. Oficinas acontecerão no Sacolão das Artes durante o dia. À noite, rola um vernissage de exposição coletiva com diversos artistas. Destaque para o trabalho de grafite em tela. A rapaziada que maneja os sprays está se aperfeiçoando cada vez mais na transposição de suas obras do muro para as telas. Mas também tem instalações, esculturas e pinturas em diferentes suportes.

Terça-feira (6/11) é o dia da dança. Certamente foi difícil para os organizadores fechar essa programação, tamanho o número de artistas que se dedicam à arte do corpo. Nesse dia, teremos uma bem concebida interação de linguagens artísticas. Poetas da Cooperifa farão intervenções e cineastas exibirão vídeos sobre o tema do dia. E, claro, vai ter muita dança. Destaco o Grupo Espírito de Zumbi, que faz dança afro de altíssima qualidade. Vale a pena. Todas as atividades deste dia acontecerão no CEU Campo Limpo.

Quarta-feira (7/11) é dia de Sarau da Cooperifa. É também o dia da literatura. Essa vai ser a noite da glória. "Nesta noite, os anjos e os espíritos têm licença do Senhor para descer com seus decretos", já dizia o poeta Gaspar do Z'África Brasil. E o grande destaque do dia será mesmo o Sarau. Para lá vão convergir todos os artistas de todas as quebradas. O Bar do Zé Batidão ficará pequeno. Então chegue cedo. Aliás, chegue às 17h na Casa de Cultura do M'Boi Mirim, onde o poeta Sergio Vaz coordenará um debate sobre produção literária da Periferia. Na mesa, a presença de Alessandro Buzo, Sacolinha, Elizandra Souza e deste que escreve essas mal traçadas linhas.

Derrubar o mito piedoso da pobreza em sofrimento permanente

O Cinema na Semana de Arte Moderna terá lugar na quinta-feira (8/11). E a programação é de perder o fôlego. São cerca de 15 produções, todas de cineastas periféricos. Começa as 16h com o belíssimo "Dança das Cabaças: Exu no Brasil", de Kiko Dinucci (média metragem), e termina com outro documentário, absolutamente fundamental para se entender a cultura suburbana: "Panorama: Arte da Periferia", de David Vidad, Anabela Gonçalves e Daniela Embóm. Mas não deixe de ver o filme "Vaguei nos Livros e me Sujei com a M... Toda", de Akins Kinte, Mateus Subverso e Allan da Rosa. Esse documentário fala de literatura e negritude, com depoimentos de escritores e escritoras que encontraram nas letras a afirmação de sua identidade de raça, de classe e de gênero. O CEU Casablanca será o endereço do cinema periférico.

Na sexta-feira, o teatro entra em cena. O dia começa com um café da manhã. As 8h30, diversos coletivos teatrais da periferia farão um colóquio regado a pingado e pão com manteiga. Às 11h, começa a jornada cênica que vai até às 20h30. Serão oito apresentações. Destaque para o grupo UMOJA que vai demonstrar o processo do espetáculo "Quem me pariu". Tudo no Centro Cultural Monte Azul.

Sabadão chegou e a música vai tomar conta no encerramento da Semana de Arte Moderna da Periferia. O palco da Casa de Cultura do M'Boi Mirim vai ferver ao som do Trio Porão, Chapinha, do Samba da Vela que vai tocar com a rapaziada do Pagode da 27. Wesley Nóog apresentará seu samba-rock super swingado. Os mamelucos, B Valente e Banda A entram na seqüência. Às 20h40, quando a chapa já estiver em alta temperatura, sobe ao palco o Periafricania. Depois o grupo Preto Soul apresentará uma black music de primeira. A noite termina com o grupo Versão Popular. Ninguém vai ficar parado.

A Semana de Arte da Periferia mostrará que na favela a vida é bela, apesar da mazela. Os arrabaldes das metrópoles também têm seus encantos. Talvez seja desnecessário eu fazer essa ressalva. O leitor sabe disso. Mas o estereótipo é implacável. Quem não tem contato com o subúrbio acaba incorporando involuntariamente o imaginário segundo o qual os habitantes dos fundões das cidades são gente condenada à desgraça do mundo. Famélicos que não vivem, apenas agüentam, como disse o cantor popular. E é a graça de viver na periferia que será celebrada neste evento histórico. Mas não será algo ingênuo, despolitizado. Ao contrário. Ele expressará a crítica com a contundência que muitas vezes o discurso militante não consegue ter. O poeta toca a alma de quem o escuta. Então, vá lá ver, sentir e escutar. Será um evento único. Não tem outra edição programada. Talvez numa outra efeméride (90 anos, 100 anos... ) se faça um novo levante cultural antropofágico. Por isso, caro leitor, não perca. Confira a programação completa e participe.

Mais

Veja aqui a programação completa da Semana de Arte Moderna da Periferia

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edição anterior da coluna:

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica

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(4) JÁ (MEMORAVELMENTE) ACONTECIDO

DOMINGO: 04/11 às 11h00 – C A M I N H A D A C U L T U R A L


Trajeto entre o Largo do Socorro e Casa de Cultura M'Boi Mirim (Lgo de Piraporinha)

SEGUNDA: 05/11 – A R T E S P L Á S T I C A S

11h00 – Oficinas de artes plásticas
19h00 – Exposição coletiva com artistas da periferia.
Expositores: Ricardo Akemi, Boicote, Ganu, Jair Guilherme Filho, Marcus Vinicius,
Michel Onguer, a trajetória vivida na periferia.

Local: SACOLÃO DAS ARTES
End: Av. Cândido José Xavier, 577 – Parque Santo Antonio

TERÇA: 06/11 – D A N Ç A

TARDE:
14h00 - MOSTRA DE VIDEO
14h30 - PALESTRA / DEBATE
15h30 - WORKSHOP / DANÇAS
-intervenções poéticas (em todos os intervalos)
NOITE:
18h00 - MARANA CAPOEIRA
Roda de capoeira: Angola / Regional.
18h30 - FLOR DE LIS (grupo da melhor idade)
Coreografia: Dança Indígena
19h30 - PROJETO DIVERSIDANÇA
Coreografia: Danças da Peneira (Flor de lis)
20h00 – CIA. SANSACROMA (afro contemporâneo)
20h30 – ESPÍRITO DE ZUMBI (Afro Brasileiro)

Local: CEU CAMPO LIMPO
Av. Carlos Lacerda, 678 – Campo Limpo

QUARTA: 07/11 – L I T E R A T U R A

17h00 – DEBATE: "A produção literária na periferia",
Debatedores: Debatedores: Alessandro Buzo – Sacolinha
Elizandra Souza - Antonio Eleilson. Mediação: Sérgio Vaz

Local: CASA POPULAR DE CULTURA M'BOI MIRIM
Av. Inácio Dias da Silva, s/nº - Piraporinha.

20h00 – SARAU DA COOPERIFA

Local: BAR DO ZÉ BATIDÃO
R. Bartolomeu dos Santos, 797 – Chácara Santana

Informações: (11) 9342-8687 / 8358-5965cooperifa@gmail.com

04 novembro 2007

RETORNO

As intenções deste blog sempre foram amplas,
mas por várias razões só cheguei a usá-lo na campanha eleitoral de 2006
- situação evidentemente polêmica...

De lá para cá, precisei me mudar mais uma vez para São Paulo, depois de 5 anos e meio no litoral...
e o remanejamento das minhas atividades faz que seja pra lá de oportuno reativar o blog!

Hoje é um momento apenas de reorganização do espaço... mas em breve haverá bem mais.
Espero mesmo que este blog possa ser o ponto de encontro que pode e que deve ser!!!

Abraços a tod@s!!!