Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

10 fevereiro 2008

Liberdade de Imprensa, DEMOCRACIA e Liberdade de Expressão

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Amig@s: a realidade mostrou que meu compromisso original de postar todo sábado deve ser atualizado para postar todo DOMINGO. Pode ser que às vezes antecipe ou que faça outras postagens durante a semana, mas a garantia que pretendo dar é de que não chegue 0 h de segunda sem postagem nova.

Por outro lado, vou tentar manter o ritmo que já está existindo: pelo menos 2 postagens poéticas + 2 postagens filosóficas por mês, se possível alternadas.

Relembro que as palavras & idéias contidas aqui podem e devem ser reproduzidas, desde que claramente mencionados o autor e a fonte, com link.
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1. UMA PALAVRA SOBRE O ÂNGULO DE OBSERVAÇÃO:
O PLURALISMO RADICAL
Tenho usado este blog como um espaço de expressão tão pessoal, que talvez fique parecendo que o jogo-de-palavras embutido no nome (plural + ralf) se refira aos "3 poetas que são 1" (da postagem de 03/10), ou a coisa parecida.
E não é que não possa ser entendido também assim, mas a intenção original, que não foi abandonada, é um bocado mais ampla: é usar este espaço para falar sobre e a partir de um ponto-de-vista que eu chamo PLURALISMO RADICAL - o "nome de briga" daquilo que também usa o nome aparentemente pacato de Filosofia do Convívio.
Sob qualquer um dos nomes, trata-se de filosofia ética e ao mesmo tempo política. Aliás, dentro do seu campo-de-força essas duas palavras designam uma coisa só. E é política mesmo quando fala de... "o melhor modo de deixar prendedores de roupa no varal", ou outros detalhes do cotidiano.
Mas se quiserem uma relação com palavras mais usuais no campo político, Pluralismo Radical é democracia radical: democracia expandida até o seu limite máximo - e isso não porque alguma coisa a limite de fora, e sim porque expandida até o máximo permitido pelos próprios limites da lógica; limites matemáticos.
Mais: Pluralismo Radical é a condição de viabilidade da democracia - e o artigo que cabe aí é "a" mesmo: a condição primeira e última, em relação à qual toda e qualquer outra condição será naturalmente secundária.
Não é menos que isso a sua pretensão... - e não é por menos que o livro Filosofia do Convívio está demorando tanto a ficar pronto!
Essa uma das razões deste blog: enquanto o livro não fica pronto, vou tentando dar aqui alguns exemplos de aplicação do pensamento pluralista radical a questões várias - por exemplo, essa questão tão palpitante no momento que é a da relação entre democracia e liberdade de imprensa.
Só que para este não virar outro capítulo inacabado do livro inacabável, o que vou fazer são sobretudo afirmações (ou, em termos mais usuais no campo filosófico: registrar proposições), com poucas justificações. Com isso fica aberto o debate -
... mesmo se com certeza bem pouca gente sabe que este blog existe, e ainda menos que está aberto aqui o debate sobre a condição maior da viabilidade da democracia...
2. LIBERDADE DE IMPRENSA E DEMOCRACIA SÃO ALIADOS OU INIMIGOS?
Depende.
O que é um constituinte fundamental da democracia é a liberdade de expressão. Será "imprensa" um equivalente exato de "expressão"?
A imprensa funciona como um amplificador do alcance da expressão de um indivíduo. Faz com que as palavras e idéias de uma só pessoa consigam preencher o espaço que só seria preenchido por milhões de pessoas sem tal amplificação. Será que esse mesmo poder é compartilhado com todos os atingidos? Ou seja: será que toda pessoa que quiser contestar um artigo de jornal conseguirá fazê-lo e ser lida por todos os que o leram? Evidentemente, os casos em que isso acontece são ínfimas exceções.
Na verdade a imprensa como a conhecemos, muito ao contrário de representar meio de expressão para muitos, tem servido para fazer a voz de uns poucos escolhidos tomar o lugar da voz de muitos. E não me diga que esses muitos não teriam nada a dizer, ou pelo menos nada de útil, pois só diz isso quem não foi lá ver.
Costumo dizer que vivemos como baratas nas frestas deixadas por duas rochas gigantescas: o sistema do Estado, e o poder econômico (ou seja: o poder dos proprietários de capital). Estes costumam falar como se eles fossem ou pelo menos representassem "a sociedade civil"; apresentam o Estado como um inimigo da liberdade, e liberdade, para eles, é naturalmente a liberdade de fazer negócios - inclusive com notícias. Liberdade que naturalmente (mas isso eles não dizem) só é possível desfrutar quando também se é proprietário de capital.
Por outro lado, o Estado se apresenta como "poder público". Como é que algo "público" não é "da sociedade civil"? De onde surgiu a diferença entre "público" e "civil"? De onde surgiu a idéia de que o Estado é inimigo da sociedade, e não seu servidor?
Não é possível aprofundar esta questão agora, mas cabe dizer: historicamente o Estado tem sido mesmo, em grande parte do tempo, uma força opressora da população - mas o poder econômico não-estatal nunca foi menos.
E mediante uma invenção chamada "democracia", que até hoje não foi plenamente implementada em nenhum lugar, nós povo em geral já temos pelo menos em teoria o direito de decidir os rumos do Estado; já os rumos do capital privado, por definição não teremos nunca o direito de decidir (a não ser no dia em que decidirmos em conjunto que ele não é mais privado...)
Vale a pena ler o livro Liberalismo e Democracia, de Norberto Bobbio, para entender que esses dois termos, ao contrário de serem duas faces da mesma moeda, são no fundo conceitos antagônicos, que a muito custo foram acomodados num sistema só, que por causa disso funciona em permanente tensão e ameaça de rompimento.
Numa comparação talvez um pouco arriscada, mas creio que passável, podemos dizer que democratas tentam fazer da coletividade humana uma cooperativa, onde "um homem = um voto", independente do capital que traz, enquanto que "liberais" a entendem como uma sociedade por cotas (ou ações), em que a quantidade de votos de cada um é proporcional ao capital que colocou na sociedade.
Ou de modo bem simples: para o "liberalismo", manda na sociedade quem tem mais, e "liberdade" significa que ninguém se meta nisso.
E no entanto... por razões históricas tais liberais tiveram que fazer acordo com os democratas, e deixar que o Estado funcione, pelo menos aparentemente, ao modo democrático: "um homem, um voto". O que naturalmente pode pôr em risco os seus interesses como proprietários de capital.
Mas "felizmente"... com dinheiro é fácil montar um grande sistema de "informação" que "ajude" os pobres desprovidos de capital a "formarem sua opinião" (pois é óbvio que não tendo capital também não tem miolos próprios na cabeça, não é mesmo?)
Acreditem ou não, não sou propriamente marxista... mas esse é um fato objetivo cru: a "liberdade de imprensa" do liberalismo significa a liberdade de manipular as cabeças dos desprovidos de capital para que, mesmo sendo mais numerosos, não atrapalhem os interesses dos proprietários de capital através do voto ou de outras formas de participação política - e seus apelos à "liberdade democrática" têm significado sempre: "e que ninguém se meta nisso".
3. COMO PODERIAM FICAR A LIBERDADE DE OPINIÃO
E DE EXPRESSÃO NUMA DEMOCRACIA VERDADEIRA?
Quem são, afinal, os sujeitos cujas opiniões em conjunto constituem democracias? Empresas jornalísticas podem ser? Mas então por que não, também, os supermercados, as igrejas, as empresas de aviação?
Para que "democracia" seja possível, em última análise só deveria haver um tipo de sujeito político: indivíduos humanos. Com igualdade de oportunidade de expressão.
Mas concedamos que indivíduos possam se organizar coletivamente em torno de posicionamentos políticos tidos em comum: surgiria com isso um tipo de organização cujos fins são especificamente políticos,
... sem serem ao mesmo tempo econômicos, educacionais ou quaisquer outros - pois o objetivo da política é o bem de todos, e não os interesses deste ou daquele setor de atividade, ou desta ao daquela tendência de pensamento.
É preciso detalhar isto um pouco mais:
O material básico de uma democracia são opções individuais. É claro que o indivíduo pode optar por ter um posicionamento igual a de outros, e a formar um grupo com esses outros para defender os posicionamentos que têm em comum. (Ainda aí segue não existindo propriamente uma "opinião do grupo": o que existe é uma resultante - ou soma vetorial - de opiniões de pessoas).
Então: se um tal grupo é formado em torno de opções políticas, e quer defender opções políticas coletivamente, esse grupo precisa ser identificado como partido político.
Partido político seria portanto o tipo de organização que se empenha em mostrar que determinada opinião ou conjunto de opiniões é boa para o bem de todos, e que se esforça por conseguir o apoio mais amplo possível para implementar o que essas opiniões propõem.
Toda organização que tem essa finalidade se caracteriza de fato como partido político e deveria também estar caracterizada de direito.
Pois para que a democracia não seja prejudicada, não pode haver mais de um tipo de organização dedicada à expressão grupal de opção política: só pode haver o tipo claramente identificado como tal (como grupo de atuação política) e que tenha plena responsabilidade pública como tal (- ou seja: do qual seja possível e fácil cobrar as conseqüências de sua atuação política).
 Por isso,  a constituição de partidos políticos deve ser fácil, descomplicada e ilimitada em número. Pois não se trata de restrição aos conteúdos: apenas disciplina quanto à forma.
O conteúdos das opções dos indivíduos humanos são variadíssimos, mas a forma básica do ser humano é uma só. Ninguém vai julgar opressivo que se diga que apenas seres humanos são sujeitos políticos individuais, e não também os cachorros, as cadeiras, os relógios ou as gotas de chuva. Só há um modelo de sujeito político individual, e só deve haver um modelo de sujeito político grupal; sua liberdade de constituição deve ser total, e a liberdade dos conteúdos de suas propostas quase total (limitada apenas pelo Estatuto Fundamental da Humanidade - ver a postagem de 27/01/2008). Mas a forma de constituição tem que ser uma só.
Isso significaria que nenhum grupo que não seja partido político pode manifestar opinião política como grupo - embora nada impeça que seus componentes a manifestem como indivíduos, assinando embaixo cada um com seu nome. Nenhuma igreja, nenhuma corporação profissional, nenhuma associação e sobretudo nenhuma empresa - que é organização constituída em torno de finalidades econômicas - pode manifestar opinião política -
... e igualmente, nenhum desses tipos de organização pode exigir algum tipo de alinhamento político de seus integrantes: o único tipo de grupo constituído por razões de alinhamento político tem que ser o que foi designado acima como "partido" (cuja pluralidade e liberdade e facilidade de constituição têm que estar garantidas, como também já foi dito).
Isso não é restrição à liberdade? Sim e não: é restrição apenas à liberdade de destruir liberdades - à liberdade de dominação - e portanto é garantia da máxima liberdade sustentável, que é a do equilíbrio ótimo entre o individual e o social (mais uma vez conforme o Estatuto Fundamental da Humanidade e também conforme o artigo Bendito Eixo no Bendito Caos, os dois em <www.tropis.org/biblioteca>).
4. ALGUNS ASPECTOS PRÁTICOS NO CAMPO "IMPRENSA"
É evidente que precisaria ser proscrita essa instituição clássica do jornalismo que se chama o editorial - que sempre foi uma forma de alguns indivíduos fazerem suas opiniões pessoais passarem por opiniões coletivas. Precisamente as mesmas opiniões podem estar impressas no mesmo lugar, porém assinadas com os nomes pessoais de todos os que participaram da redação - tanto os de quem emitiu opiniões quanto os de quem as escreveu, e, havendo divergências, com a identificação de quem fez o quê.
Liberdade de expressão não é só a de dizer, mas também a de não dizer: entre outras coisas, que ninguém jamais tenha que escrever opinião de outro porque foi pago para isso! Se o fizer, deve estar registrado o nome do autor da opinião, o nome do redator, e as divergências que o redator porventura tenha com as opiniões que teve que escrever.
O uso de ghost writers deve ser tipificado como crime, salvo nas condições explicitadas acima - pois configura claramente, na relação com o redator, uma expropriação da humanidade do outro (isto é, de seu direito de opção) mediante a exploração de sua necessidade de subsistência,
... e, na relação com o leitor ou ouvinte, uma tentativa de manipulação pela simulação de qualidades que não se tem, mas que podem ser fingidas mediante o poder econômico de que se dispõe.
Duas formas graves, portanto, de abuso do poder econômico.
Chamar a si mesmo de "formador de opinião" equivale à confissão de um crime contra a democracia. Somente o indivíduo pode formar sua própria opinião.
No entanto, a mera modulação de "formador" para "informador" é capaz de inverter tal sentido, passando a designar um serviço não apenas útil como também indispensável à democracia: afinal, o indivíduo precisa ter informações à sua disposição para que possa formar sua opinião própria.
A atividade dos informadores de opinião deve porém estar sujeita à lei da pluralidade e à da igualdade de oportunidades.
A principal razão disso é o fato de não existir descrição de fatos que seja puramente objetiva: alguma medida de opinião está sempre embutida já no modo como vemos as coisas (selecionamos inconscientemente os detalhes que vemos e os que deixamos de ver), e obviamente também no modo como repassamos a informação.
Por isso ninguém deve ser exposto a informação proveniente de uma fonte sem que no mesmo ato lhe seja oferecido acesso a informações provenientes de outras fontes. Órgãos de imprensa complexos deveriam buscar oferecer diversas versões já em cada notícia, e tratar de não privilegiar nenhuma dessas versões no processo de edição -
... além de reservarem espaço para a publicação de todas as informações que lhes sejam enviadas posteriormente em contestação a essas versões. (Isto é, não é necessário que se publique o texto integral de todas as manifestações, mas que se registre quantas vezes uma determinada informação ou posição foi manifesta, e que sejam identificados e arrolados os detalhes diferenciais nas diferentes manifestações).
5. O CAMPO ONDE A OPINIÃO É LEGÍTIMA
Resta lembrar aqui que aos indivíduos e aos partidos políticos a manifestação de opinião é totalmente livre (unicamente com a ressalva prevista no Estatuto Fundamental da Humanidade, ou seja: que não se possa advogar a destruição da própria liberdade) –
... e uma das (não muitas mas fundamentais) funções que deveriam caber a um Estado democrático (ou a alguma formação melhor que "Estado" que lhe venha a fazer as vezes no futuro) é justamente a de garantir que nenhum cidadão tenha menos oportunidade de fazer suas opiniões circularem do que qualquer outro.
Na nossa época isso começa a ser tecnicamente factível pela primeira vez mediante a internet (olha nosso blog aqui!) - e mesmo que a internet não tenha sido uma iniciativa do Estado, sua importância para uma verdadeira democracia é tão grande que cabe sim ao Estado ajudar a preservá-la, de dois modos: (1) não atrapalhando; (2) impedindo que poderes econômicos tentem restringir a universalidade do seu uso.
Por outro lado, já disse que fundar partidos políticos deveria ser extremamente fácil - e mesmo assim o Estado deveria garantir a todos eles condições equivalentes de divulgar suas idéias, não só oferecendo recursos aos pequenos, mas também sendo a única fonte de financiamento dos grandes.
E aqui há um detalhe importante: é um absoluto contra-senso lógico que partidos recebam dinheiro e/ou tempo de divulgação proporcionais às conquistas já realizadas (p.ex., número de cadeiras já conquistadas no legislativo - se é que cabe manter esse modelo de representação). É um contra-senso pois se trata de um sistema de feed-back positivo, o que qualquer pessoa com noções rudimentares do funcionamento dos sistemas sabe que leva a distorções sempre crescentes  e finalmente à destruição do sistema. No caso político, tal "dar a quem já tem" é uma forma escandalosa de garantir que o presente seja sempre governado pelo passado, ou de evitar qualquer verdadeira renovação.
Se parece extravagante que o Estado gaste para que um pequeno partido de, digamos, vegetarianos, tenha a mesma oportunidade de divulgação de suas idéias que qualquer outro partido tradicional, devemos pensar que se trata de investimento na manutenção e aperfeiçoamento de um dos maiores bens que a humanidade já conquistou: a democracia.
E por outro lado, aqueles que considerarem que as propostas acima são restrições inaceitáveis à liberdade de expressão, esses estarão confessando com isso que seus apelos ao nome "democracia" são hipócritas: que o que querem é seguir dominando e manipulando por fora das regras de qualquer jogo que seja efetivamente democrático.
São esses, afinal, os que voltam sempre com a cantilena de que "o povão" não tem condições de decidir, por esta ou por aquela razão – enquanto eles supostamente teriam essas condições, de decidir por si e pelos outros. Tenho certeza absoluta, porém, de que no momento em que houver circulação livre, igualitária e abundante de toda pluralidade de informações, as fantásticas qualidades matemáticas dos grandes números farão do conjunto de todos os Zés, Manés e donas Marias um colegiado infinitamente mais sábio em suas decisões do que o conjunto de proprietários de órgãos de imprensa, mesmo se acrescido de todos os doutores em Ciência Política do país.
Ou, se não mais sábio, pelo menos - devido a fragmentação e à neutralização mútua dos interesses - muito menos imoral.

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As palavras & idéias contidas aqui podem e devem ser reproduzidas, desde que claramente mencionados o autor e a fonte, com link.

03 fevereiro 2008

20 POEMAS DE 3 POETAS QUE SÃO 1

Duas semanas atrás eu falei aqui da intenção de começar a publicar na net o meu "estoque" de poesia com sistema...
... e de lá pra cá trabalhei um tanto sobre quê sistema seria mais adequado.
E aí me dei conta de que, na verdade, a poesia que eu tenho estocada parece ser de no mínimo três autores diferentes, e não de um só.
Ora, direis :-) ... Fernando Pessoa já fez isso... mas não!, não se trata de um "projeto de produção literária" ou algo assim - e tenho certeza de que também em Fernando Pessoa não se tratava: ele foi é um sujeito com percepção da complexidade do ser humano, e usou a si mesmo como exemplo de como essa complexidade é. Todo mundo, caso se conhecesse a fundo, acabaria sendo tentado a dar nomes diferentes (= heterônimos) aos diferentes aspectos de si...
Sem muita teoria mais, passo a contar então que identifiquei basicamente "três autores" por trás dessas páginas arquivadas:
(1) Um sujeito que gosta de brincar - com palavras & com os fatos da vida: trocadilhos, tiradas, poemas curtos, uma dose considerável de rima e outra de auto-ironia...  Esse sujeito se sentiu estimulado e à vontade na espécie de trans-concretismo que predominou nos anos 80, como o do conterrâneo Paulo Leminski.
E desconfio que pra esse sujeito cabe bem o nome Ralf, com que eu fui registrado... - mas não porque esse seja "o eu verdadeiro", e os outros sejam personagens - pelo contrário! Eu me identifico bem mais com o Zé... Afinal, Ralf é o nome que me deram, não que eu escolhi - e portanto tão ou mais heterônimo quanto os outros!
Quem disse, aliás, que Fernando Pessoa foi "mais ele mesmo" nos poemas que registrou sob esse nome mesmo? (E além disso: quem diz que o nome oficial é "o certo"? A tal designação "ortônimo", quem vem sendo usada para contrastar com "heterônimo", NUM TÁ CUM NADA NÃO!!)
E afinal - honestamente, gente - pra um sujeito nascido no Brasil em 1957, e cujo último ancestral nascido na Europa viveu de 1835 a 1921... darem o nome Ralf só pode ser algum tipo de piada, né?
Um exemplo típico desta poesia? O "Bom dia, Coisa" publicado aqui em 19/01. Mas quem sabe também o...
DRAMA ADOLESCENTE
eu queria tanto ser tudo mas mamãe não deixa
1987
(2) O Zé, ao contrário, não é um sujeito exatamente divertido.
Afinal, não é moleza nenhuma ser um Zé.
O Zé é aquele que escolheu observar com consciência o que é ser um qualquer, no Brasil e no mundo em geral... e se encheu de amargura - pelo descompasso entre isso e a dignidade divina que ele entrevê em todo ser humano.
No Zé coincidem uma atitude de enlevo perante a grandeza & beleza do universo e a crítica à forma amesquinhante de convívio humano a que se deu o nome de "sociedade" - não uma crítica meramente cerebral, mas asco mesmo. Visceral.
É para essa coincidência do místico com o político (e não para o suposto dom de adivinhar o futuro) que os teólogos usam a palavra "profético". O Zé se sente compelido a falar nesse tom profético -- aliás, se não me engano seu verdadeiro nome é Isaías José Lobo, algo assim... -- e aí soa muitas vezes ranzinza, queixoso, acusador...
... o que no fundo é um puro debater-se em um amor desesperado com sua própria impotência diante do sofrimento que vê afligindo a maioria dos seres em seu mero existir.
Um exemplo de fala típica do Zé:
 você já olhou a luz que brilha
nos olhos daquelas mãos
que limpam a tua privada?
   
já?
e não morreu de paixão?
1982
(3) E aí tem o autor de poemas que puxam para o erótico - ou talvez melhor: que falam, de modo mais explícito ou menos, do mundo do desejo e do sexo - às vezes de modo seguro de si e atrevido, às vezes lamentoso pela ausência, pelo não correspondido, etc. Para esse foi adotado já faz algum tempo - por razões que eu conto outro dia - o nome Valdo Valente.
Sobre os poemas do Valdo cabem duas observações: uma, que embora muitos deles possam ser lidos em referência a qualquer variante de Eros, o Valdo pensou a maior parte em relação à variante que lhe ressoa mais fundo, a homoerótica - e muitos dos poemas deixam isso explícito.
Algum problema? Ué, se 129 dos 154 sonetos de Shakespeare falam explicitamente de amor entre dois homens, por que é que eu e o Valdo também não podemos falar? - E se há alguma dúvida entre a propriedade de me comparar a Shakespeare, olha aí se eu não posso...

(A foto é de 1981. A da esquerda... ­- Mas, brincadeiras à parte, quem não quiser respeitar o Valdo por causa disso, jogue fora junto, além de Shakespeare, todo García Lorca, Mário de Andrade, o próprio Pessoa, Verlaine, Rimbaud, Michelangelo, a filosofia e literatura dos gregos inteira etc etc etc...)
A segunda observação é que só em parte desses poemas é que o Valdo merece seu sobrenome Valente - aquele que vai à luta e até mesmo celebra conquistas. Alguns outros expressam uma espera tão desesperançada e lamentosa que eu desconfio que são do irmão gêmeo do Valdo: o Covaldo.
Tá, mas chega de prosa. Coloco a seguir mais algumas amostras dos três, inclusive do Valdo e do Covaldo de quem ainda não mostrei... coisa nenhuma. Ah, TODOS OS POEMAS PODEM SER REPRODUZIDOS, DESDE QUE COM O NOME CORRETO DO AUTOR E LINK DA FONTE!
E por hoje é isso aí!





Algumas amostras do RALF

*  *  *

você não conhece a Rose Feijão?
não?!
a mulher do Povo Brasileiro?!
1986

(batendo palmas)

a língua portuguesa
já entrou na menopausa:
não tem mais regras!
não tem mais regras!
1986
*  *  *
é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso.
    a curva e a reta
    o arco e a seta
e principalmente
o gozo.

é perigoso, meu pai,
tudo é perigoso!
tudo neste mundo é perigoso!
    o pão, o leite
    o leito, a alta
mas principalmente
a falta.
1993
"em parceria com o Valdo"

A FORÇA QUE DOMINOU O MUNDO
EUROPEIDOS
1997 rev.2008

ERROS QUE SÃO ACERTOS
restou a esperança
ou a espernaça?
1997 rev.2008
*  *  *
problemas da juventude?
não acho que a solução seja escó-la
1997 rev.2008
*  *  *
in
    te
        lec
             tu
                 alma
1997

VENTOS DA LIBERDADE
cabelos do oriente
fustigaram meu rosto
ao passar do trem
2006
Da serie Paulistanas,
iniciada em 1982
*  *  *
qual das realidades é a real? qual
dentre as imagens
                           a original?
e sobretudo:
entre todos
                  - qual de mins sou eu?
1985



Algumas amostras do ZÉ
(O primeiro texto é o que deu nascimento ao personagem em 1982. Pretendia ser a introdução a um poema maior, comentando o desaparecimento das Sete Quedas sob as águas da represa de Itaipu, mas foi deixado de lado no ponto em que o próprio Zé ia começar a falar...)

                assim falava zé, filho de mané - embora pouco lhe importando isso, pois todos os humanos de alguém são filhos, e não lhe interessava distinguir-se das mulheres e homens todos desse mundo -
                assim falava zé, cheio de tristeza pelo pouco sol que agora lhe atingia e de ânsias de uma vez mais voar, acima dos obstáculos do corpo da terra, pra melhor vê-la e melhor apaixonar-se,
                cheio de vontade de voar para oeste, sobrevoar cidades onde ‑ sabia ‑ em cada uma haveria um punhado ou pitada ou um só como ele, sempre sonhando vencer o peso do mundo que nos agrilhoa o corpo, sonhando-se tão leves que pudessem entregar de si até a última fibra
                ao amor da terra e de sua pele belíssima, à potência dos raios do irmão-mais-velho, à dança dos sóis e planetas, ao abraço noturno e interior do céu-matriz ou pai que nos unifica,
                e ao amor assim de cada humano, cada um e todos dos humanos, que trazem cada um dentro de si a terra, os astros e o céu também dançando, cada-um pequeno-mundo,
                pois só assim ao se entregar até o seu último terão alguma chance de ganhar-se ou descobrir-se, e de afinar sua dança interna com a dança dos mundos de fora,
                o que permitiria um vento morno atravessar suas almas trazendo aromas macios e coloridos, algo assim que sugerisse mesmo até o que fosse ou que pudesse talvez ser o ser feliz.
(ser feliz...                                ser feliiiiz...)
- dizia o gato -
a senhora já pensou em ser feliz? )
1982


*  *  *
ser vencedor, pra quê?
se já contemplei até
a sombra dos grãos de pó!
1986
um "haikóide"

XPT1

e de Ti, que falarei? e com que nome
que não haja
de sangue sido manchado?

roubaram teu nome, meu mestre,
e como escrever-te um poema
                                  de pura luz?
1986
*  *  *
Grão Cavaleiro da Sagrada Ordem
dos Desordenados
em cidades muradas meu coração não se encaixa
e chácaras cercadas não dão campo a seu galope
ébrio de se escancarar
pra ver as coisas como são.

Rebelde? Bobagem!
Rebelde só se é frente a um padrão
– e quem diz
que é padrão ser prisioneiro?
Rebelde é na verdade quem tem medo
de seguir o Grande Mandamento
que é ser si mesmo
o seu padrão.

Bárbaro,
a esses castigarei brutalmente:
lançarei seus arreios na fogueira
condenando-os a chocante liberdade
sem rótulos nas rotas nem roteiros nas mãos.

Vinde,
vinde tentar me tosquiar,
e saireis aturdidos
com vossas próprias lãs!

2006
Assinado: ZÉ. Profissão:
robinhoodismo filosófico-pedagógico
selvageria intelectual


Amostras do VALDO
*  *  *
    no meu travesseiro
depois de uma viagem
procuro estalagem
encontro teu cheiro.
    meu coração salta
de encontro a teu peito
- ó encontro perfeito
do pleno co'a falta!
    pressinto tuas partes,
tua pele, teus pelos,
parece-me vê-los,
senti-los, tocar-te...
    mas vai-se ligeiro
o estúpido engano:
num corpo de pano,
da alma - nem cheiro!
1987

*  *  *
queria agora alguma coisa apaixonada
como um beijo em tua boca desdentada
1985
*  *  *
Quanto mais me calo, mais
te amo
estou dizendo –
e mais desejo
tua ilusória entrega:
sem entrega
e no entanto assim entregue,
intensa,
e, sem paixão embora,
apaixonada mais
que a de apaixonados tantos.
não, não te chamarei,
pois, se importuno,
não seria amor condigno.
então me calarei.
e assim calando
é que te chamo –
pois quanto mais me calo
mais te amo.
1997 -
esse é possivelmente
do CoVALDO
*  *  *
e se tuas mãos me deslizassem peito abaixo
enquanto eu me elevo
e me ancorassem
a ti
– gêmeas colunas,
mistérios gêmeos –
então
de mim se estenderiam asas
de infinito
e ao, das alturas,
contemplar teu peito aberto
em mergulho de águia
eu
te romperia o invólucro
e dentro em teu coração explodiria
repousado
enfim
em ti
em mim
.

sustenta-me, ah!
sustenta meu vôo
e eu te farei
voar
.
1995

POEMA DA FIDELIDADE MAIS ALTA

te quero companheiro de aventuras!
mas
se te pretendes
resposta final e suficiente
a todos os anseios meus -
que aventura restaria no universo, a perseguir?

ver novos lugares, novas tardes, novos grãos de areia?
mas que podem eles, quando cada humano,
cada um,
é em si um universo inteiro?
cada um com seus pássaros, seus grãos de areia,
seus pores de sol?

te quero um companheiro investigador de universos! e depois -
depois, cansados e ricos do que vimos e provamos,
cada um na sua expedição,
cairmos rindo nos braços um do outro
e em puro gozo
compartilhar o mais que nos tornamos
(... tanto enquanto dois
como enquanto o um que também somos)

vai, vai para o mundo, meu amor, e vive mais!                      
mas volta! pra que eu também possa viver mais
em ti,
e em mim,
e em-ti-em-mim-e-em-mim-em-ti!

vai, vai, meu amor!
e vem.
2007
*  *  *

02 fevereiro 2008

P.S. à postagem de poesia deste fim de semana

Pessoas, desculpem!
Esses programas de edição de blogs ainda deixam muito a desejar!
A poesia tem um componente visual forte - e aqui, por mais que eu me bata, a formatação NUNCA fica 100% como deve ser.
Isso quer dizer que isto aqui fica sendo, sempre, apenas trailer - e que a verdadeira publicação (mesmo que na net) ainda vai sair em outro lugar, com recursos melhores.
Mas desde já, se lhe interessar, eu posso mandar um arquivo doc ou pdf com um ou outro poema em formatação mais garantida, ok?
Abraços a tod@s!

27 janeiro 2008

da Filosofia do Convivio para Fórum Social Mundial 2008

:
UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

E nossa Filosofia do Convívio
é uma contribuição para a viabilização
de um outro mundo que não seja apenas outro...
mas de fato BOM e digno de se desejar.

TRÓPIS iniciativas sócio-culturais  

26 de janeiro - um dias de ações múltiplas e descentralizadas em todo o mundo, as quais constituem em conjunto a Edição 2008 do Fórum Social Mundial.

Estamos dizendo "presente" com a publicação de um texto nuclear da FILOSOFIA DO CONVÍVIO - sua célula germinativa, de onde todo o resto decorre - apesar de a obra de que faz parte ainda não estar pronta para publicação:

PARA UM ESTATUTO FUNDAMENTAL DA HUMANIDADE
aqui no blog http://pluralf.blogspot.com
e ampliado com seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca

Resultado de 38 anos de reflexão, essas linhas que podem parecer ingênuas apontam a postura humana que, entre todas as possíveis, é já por razões lógicas aquela capaz de gerar as maiores transformações a partir das intervenções menores e mais simples.

Não temos a ilusão de que sua aceitação seja fácil - pois ao lado de fazer diferença imediata no convívio micro-social, inclusive nas relações humanas dois a dois, tal postura põe em cheque a alavanca mesma do sistema capitalista e a de todos os sistemas de opressão, manipulação e/ou desumanização.

Trata-se, enfim, de um objeto oferecido ao mundo para que se comecem a explorar suas possibilidades, propor aperfeiçoamentos, etc. - sobretudo por parte dos que forem capazes de perceber todo o seu alcance potencial por trás da já referida aparência ingênua.

OBS.: na noite de 25 para 26 foi publicada uma versão experimental com os capítulos em ordem diferente. A presente versão tem os capítulos na ordem correta e um artigo adicional (3.2.3.1), entre outras pequenas correções.

Para um Estatuto Fundamental
da Humanidade
Fragmento do livro em preparação
A chave de tudo mais:
apontamentos para uma
Filosofia do Convívio
disponível com formatação aperfeiçoada e seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca
Ralf Rickli
rr@tropis.org


1.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo

1.1.             Nada pode ser imposto por nenhum indivíduo ou grupo humano a nenhum outro indivíduo ou grupo humano.
1.2.             A única exceção a essa regra é ela mesma, que pode e deve ser imposta sempre que necessário. Isso equivale a dizer que impedir que alguma coisa seja imposta (por qualquer indivíduo ou grupo humano a qualquer indivíduo ou grupo humano) é ao mesmo tempo um direito e o único dever permanente de todos.
1.3.             Deve ser sempre buscada a forma mais branda possível para realizar a imposição da não-imposição que vem prescrita acima.

2.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo em forma de deveres
2.0.            Pelo bem de cada pessoa e da humanidade inteira, todos são convidados a concordar em que os seguintes três deveres são permanentes e universais para todos os indivíduos e todos os grupos humanos:
2.1.             o dever de não impor nada a nenhum outro indivíduo ou grupo humano;
2.2.             o dever de impedir que qualquer indivíduo ou grupo humano imponha alguma coisa a qualquer outro indivíduo ou grupo humano (inclusive um grupo aos seus próprios membros);
2.3.             o dever de buscar sempre a forma mais branda possível para exercer o segundo dever.

3.            Estatuto Fundamental
da Dignidade e do Convívio Humanos
-  forma extensa
3.0.            Em benefício de cada um e de todos nós, optamos por concordar com os seguintes quatro artigos como Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos, que pode igualmente ser chamado de Estatuto da Liberdade; outros pontos de concórdia serão sempre bem-vindos, mas reconhecemos que nenhum tem tanta urgência e prioridade quanto estes quatro:
3.1.            O que caracteriza cada um de nós como indivíduo humano é o fato de ser uma unidade decisória livre: a unidade mínima capaz de escolher o que quer e o que faz, mesmo se nem sempre fizer uso dessa capacidade.
3.1.1.          Qualquer ser humano que se encontre impedido de fazer uso de sua capacidade de decisão por razões externas a si se encontra sob um estado de opressão.
3.2.            Com uma única exceção, nenhum de nós seres humanos tem direito de colocar outro sob opressão, ou seja: de criar situações que expropriem outro ser humano do gozo da sua capacidade de decisão, quer obrigando-o a, quer impedindo-o de seja o que for; quer excluindo-o, quer incluindo-o contra a sua vontade seja no que for.
3.2.1.          O estado de opressão é indigno para todo e qualquer ser humano, e faz parte da dignidade de todo ser humano não aceitar esse estado nem para si mesmo, nem para qualquer outro.
3.2.2.         Cada ser humano têm o direito de delegar a outro ser humano parte de seu direito de decisão, para fins específicos e por tempo limitado, porém conserva sempre o direito de revogar essa delegação a qualquer tempo.
3.2.3.         Se algum ser humano se mostra temporária ou permanentemente incapaz de exercer a sua própria capacidade de decisão de modo a preservar-se em vida digna, e isso por razões próprias (ou seja, sem que seja impedido ou compelido por nenhum outro), a coletividade humana como um todo é responsável por conservar esse ser humano em estado digno, tomando em seu lugar decisões compatíveis com as que ele tomaria para si caso estivesse em pleno gozo de sua capacidade.
3.2.3.1.      Os períodos de infância e de adolescência são casos especiais de grande importância e complexidade, e devem ser objeto de estatutos específicos, os quais não devem deixar de levar em conta que nas crianças a capacidade de decisão se encontra em permanente construção e crescimento, de modo que são necessárias abordagens diferentes para cada ano de idade, ou pelo menos para cada grupo de poucos anos, e tampouco que a capacidade de decisão e/ou de participação em decisões se desenvolve muito mais rapidamente que a capacidade de automanutenção, e portanto as duas não devem ser tratadas como uma coisa só.
3.2.4.         Nos casos em que, mesmo apoiado para isso, se mostrar impossível que um determinado ser humano recupere sua plena capacidade de decisão autônoma, a coletividade é responsável por tomar cuidados para que esse fato não venha a prejudicar a capacidade de decisão autônoma dos seus descendentes ou de outros eventuais dependentes.
3.3.            A única exceção ao artigo 3.2 (conjunto) é a que o protege de si mesmo, ou seja: todo ser humano tem não apenas o direito mas também o dever de impedir, sempre pelo meio mais brando que ainda seja eficiente, que um segundo ser humano faça uso da sua vontade livre para expropriar a vontade livre quer do primeiro quer de terceiros.
3.3.1.          A coletividade deve buscar desenvolver meios tão seguros e tão pouco traumáticos quanto possível para proteger cada um de seus integrantes de quaisquer tentativas de expropriação de sua liberdade.
3.3.2.         As medidas de proteção da liberdade geral podem ser exclusivamente de duas naturezas:
3.3.2.1.      de tentativa de conscientização e persuasão do infrator no sentido do respeito à liberdade alheia;
3.3.2.2.      ou, sendo insuficiente a primeira medida, de restrição à sua liberdade de convívio, em diferentes graus e se necessário até mesmo em caráter permanente - isso porém apenas como proteção à liberdade dos outros, e nunca com caráter punitivo.
3.3.2.2.1.   Nenhum ser humano, ainda que em posição de autoridade, tem o direito de aplicar a nenhum outro ser humano nenhuma medida com caráter de punição, sobretudo medidas que atentem contra a integridade física e/ou psíquica do outro.
3.4.            Todas as demais leis e instituições da humanidade devem ser gradualmente repensadas e rearticuladas entre si, de modo a porem-se a serviço deste estatuto fundamental, subordinando-se a ele como critério maior, e tomando-o como ponto de partida para quaisquer novas regulamentações que se façam necessárias.
3.4.1.          As leis são tão mais fortes quanto menos numerosas, e devemos tentar evitar por todos os modos a introdução de toda e qualquer regulamentação que possa ser evitada.

4.            Estatuto complementar
do Convívio Universal
4.               Em benefício de cada um e de todos nós, concordamos igualmente com os seguintes dois artigos que buscam estender ao convívio com outros tipos de seres, na medida do possível, a atitude que reconhecemos como obrigatória no convívio humano mediante o Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos.
4.1.            Todos os diferentes seres em existência, humanos ou não, devem ser tratados com respeito.
4.1.1.          Exemplos de seres não-humanos são não apenas os seres vivos em sentido estrito (animais e plantas), mas também os sistemas vivos em sentido mais amplo (ecossistemas) inclusive com seus elementos ditos abióticos (p.ex. cursos d'água, ventos, estruturas rochosas), e ainda as entidades de natureza cultural: tradições, línguas, mitos, realizações artísticas, valores e idéias.
4.2.            Nós seres humanos assumimos como nossa tarefa o esforço no sentido de que a existência de um ser não fira, ou fira apenas o menos possível, a existência de outro ser.
4.2.1.          Nos casos de conflito de interesses entre seres humanos e não-humanos, esgotadas até última instância as possibilidade de contornar o conflito, nós seres humanos devemos não só reservar-nos o direito como também assumirmos como dever dar prioridade aos seres de nossa própria espécie - mas devemos continuar nos esforçando para que o prejuízo aos demais seres seja o menor possível.
4.2.2.         Para os fins do parágrafo 4.2.1 acima, podemos classificar os seres nos seguintes cinco graus, com os quais nosso compromisso de preservação deve ser crescente:
4.2.2.1.      O existente em geral, incluindo seres culturais (idéias, tradições, etc).
4.2.2.2.      O existente em forma corpórea.
4.2.2.3.      O vivo (ou organizado organicamente).
4.2.2.4.      A humanidade.
4.2.2.4.1.   Em princípio, nosso compromisso deve ser com a humanidade inteira, e nunca com uma parte dela em detrimento da outra; sendo porém absolutamente indispensável uma opção, cabe priorizar aqueles que respeitam estes estatutos, ou seja: os que buscam ao máximo meios não-opressivos de lidar com as divergências inter-humanas.
4.2.2.4.2.   Ao contrário do caso acima, não se justifica a tomada de posição em favor do grupo a que pertencemos, apenas por ser o nosso grupo, em detrimento do restante da humanidade.


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