Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

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09 junho 2010

um livro PARA TODOS, e MUITO mais importante do que se imagina

 
Se você pensa que esse é um livro que interessa exclusivamente à comunidade gay, se enganou. Confesso que eu mesmo nunca imaginei que encontraria aí tanto conteúdo para reflexão - pedagógica, política, antropológica - e tanto motivo de respeito e admiração.

Estou falando de Soldados Não Choram, 200 páginas que representam 1/3 dos depoimentos do ex-sargento Fernando Alcântara de Figueiredo registrados pelo jornalista Roldão Arruda, sobre sua vida e a do seu companheiro Laci Marinho de Araújo.

Sim, são os dois que saíram na capa da Época em 2008, e dias depois apareceram no programa da Luciana Giménez. Se por algum acaso a imagem que lhe ficou for a de umas bichinhas histéricas que foram dar piti na tevê por fragilidade, apague.

E vá ao livro conhecer dois meninos das periferias de Recife e de Natal, sofridos e lutadores desde o berço - um deles que chegou a enfrentar, recusando-se a chorar, o assassinato do pai a foice, e o conseqüente mergulho da mãe em anos de depressão.

Vá ainda conhecer dois cabras machos que decidiram expor seu amor-entre-iguais em público sobretudo como um lance radical em sua resistência a uma apavorante perseguição, devida não à sua homossexualidade, e sim a terem levado a instâncias superiores seu inconformismo com a grossa roubalheira com que viam representantes de interesses privados lesarem gente humilde como seus pais dentro da instituição pública. Confesso que com as poucas linhas da imprensa sobre isso, eu havia chegado a suspeitar de balela, mas a concretude do relato não deixa dúvidas.

Já está lhe surpreendendo? Pois lhes garanto que o livro vai ainda muito além!


Desde há muito avalio que a questão mais grave da teoria política seja a seguinte: mesmo a mais justa e igualitária das sociedades precisará manter uma instância capaz de fazer uso de força caso seja preciso impedir que alguém destrua essa justiça e eqüidade em algum ponto. Mas como impedir que essa instância capaz de fazer uso de força a empregue para outros fins, que não a proteção da justiça e eqüidade?
Essa é uma das questões mais sérias para toda e qualquer sociedade no alvorecer deste milênio, e o livro de Fernando oferece abundante material de reflexão sobre essa questão geral através do caso específico brasileiro.

Começa por uma descrição como nunca vi da chocante anti-pedagogia empregada em todos os níveis de sua formação, de aspirantes e recrutas a sargentos. Não duvido que haja outros relatos sobre isso na literatura brasileira - mas de uma formação que se deu de 1990 para cá? Depois da "plena redemocratização"?

Onde estarão as origens de um "sistema de treinamento" que consiste basicamente em humilhar, brutalizar, desumanizar - e em que o pouco que poderia merecer o nome de "ensino" é aplicado com espantosa incompetência?

Parece coisa remanescente do prussianismo do século 19, e em parte talvez seja - mas de outras histórias sabemos que foi de instrutores estadunidenses que o exército brasileiro recebeu, depois de 1964, instrução sistemática quanto a aplicação de certos tipos de tortura. E - pasmem - pouco antes de sua formatura como sargentos nossos jovens se vêem submetidos sem aviso a sessões reais de torturas desse tipo, inclusive com risco nada desprezível de morte.

Isso vem de onde, e desde quando? Nossa sociedade foi consultada se é isso o que ela quer como formação de seus jovens para a defesa nacional?

E que tipo de instituição se procura criar e manter através disso?

E aí voltamos ao grande drama: como um governo democrático pode conseguir transformar as forças armadas que tem teoricamente a seu serviço, se a possibilidade de empregar a força está justamente com elas? Tenho dito com freqüência que em política nada está mais longe da verdade que o famoso ditado "querer é poder": é justamente na vasta e tensa distância entre esses dois verbos que toda a política se dá!

Volto a Fernando e Laci: eles ainda têm 36 anos, então espero que a longa vida que ainda devem ter pela frente não venha a me contradizer - mas neste momento, se eu tivesse que apontar um livro a ser entregue sem hesitação na mão de adolescentes brasileiros como modelo de garra no enfrentamento da vida e - sim - da bravura moral de que nosso povo tanto precisa, eu não teria a menor dúvida em apontar esta dupla biografia de Fernando e Laci.

Mas um casal gay como exemplo para adolescentes? - muitos são capazes de exclamar chocados.

Pois digo que no conjunto total do livro como eu o apreendi, a homossexualidade é quase que circunstancial: o jovem que tiver em si uma tendência predominantemente heterossexual também irá se beneficiar desse modelo de bravura sem que isso venha a lhe alterar a orientação sexual. Quem já estudou o assunto a sério sabe muito bem disso.

Por outro lado, os não poucos jovens estruturalmente homossexuais, e os bissexuais com razões para optar por esse lado, têm aqui também um magnífico exemplo de que sua orientação sexual não tem que ser sinônimo de uma vida fútil nem covarde, mas que, pelo contrário, podem estar entre os elementos de maior valor na luta de construção de um Brasil e de um mundo mais dignos que os de hoje.

Esclarecendo melhor este último ponto, toco de leve num assunto a ser aprofundado futuramente: o psicólogo Carl G. Jung dizia acreditar numa sabedoria da natureza - e por essa mesma fé previa que "no futuro" haveria um grande aumento da taxa de homossexulidade na população. Por quê? Para ele, simplesmente porque o tamanho da população humana já estava ultrapassando o razoável em muito, e sem dúvida será necessário reduzi-la. E vínculos de afeto sem risco de procriação servem tanto a essa redução quanto à manutenção do bem-estar da sociedade, que depende precisamente de vínculos.

Conservadores fazem às vezes discursos alarmados no sentido de que a humanidade estaria em risco de extinção com o aumento da homossexualidade - o que diante da situação real não passa de uma piada de péssimo gosto. Mesmo se, digamos, 60% da humanidade optasse exclusivamente por relações sexuais não reprodutivas, por muitos séculos isso não seria um problema e sim um benefício à própria humanidade e ao conjunto do planeta. E estou falando de um número altíssimo que provavelmente jamais será atingido.

Acrescente-se a isso a descoberta feita pelos zoólogos, de que quanto mais freqüentes as relações homossexuais dentro de determinada espécie, mais pacífica é essa espécie: mais as relações de competição são substituídas pelas de colaboração, mais a violência é substituída pelo cuidado mútuo como força estruturadora da sociedade.

Não é de estranhar, portanto, que os que se empenham em preservar uma cultura da violência e da opressão se sintam incomodados ao verem dois machos potentes e capazes de briga se entregarem, pelo contrário, ao amor.

Mas a despeito de qualquer oposição, nossas ruas estão cada dia mais cheias de pares de adolescentes do mesmo sexo manifestando atração e carinho um pelo outro - exatamente como Jung previu há mais de 50 anos. E os mais informados e/ou perspicazes sabem enxergar nisso não um desvio da natureza, e sim uma manifestação da sua sabedoria; não uma degeneração da humanidade, e sim um dos passos de uma evolução que visa a sua salvação.

Não pensem, porém, que eu esteja só feliz ao ver isso: também me sinto preocupado. Pois que modelos de vida estamos oferecendo a esses adolescentes? O das drag queens e o dos go-go boys e nada mais? Pois não se enganem: adolescentes sempre pensam que inventam tudo e não imitam ninguém, mas nós sabemos que é justo o contrário... E o que a sociedade vem oferecendo - e com certeza nada inocentemente - é um modelo de pura futilidade, que só encoraja o narcisismo e o consumo, e jamais a participação na luta de construção da sociedade justa e igualitária, antes de cuja realização nenhum ser humano tem direito moral de descansar mais que por instantes.

E é por isso que digo uma vez mais: não conheço nenhum outro livro que ofereça um modelo humano tão realisticamente apropriado aos jovens brasileiros de hoje - tanto homo quanto heterossexuais - como a história desses dois soldados que souberam lutar e também chorar, e também rir, cantar e se amar.

PS: o livro foi lançado em dezembro de 2008 e eu só fiquei sabendo da sua existência há poucos dias - talvez mais uma demonstração da tentativa de submersão da vida gay numa cultura da futilidade. Mas volto a insistir que esse não é um livro apenas para gays e simpatizantes: é um livro para todo brasileiro que se interessa pelo presente e pelo futuro do seu próprio povo, e da humanidade em geral.

23 março 2008

Filosofia do Convívio como o PÓS PÓS-MODERNO necessário...



Já é de novo o "fim-de-semana teórico" deste blog... e eu nada de achar tempo de escrever as respostas a vários questionamentos que foram levantados quanto a postagens anteriores...

Mas alguma coisa eu prometi que ia postar todo fim-de-semana, não é? Então vai aí, sem muita explicação, o primeiro capítulo de uma nova apresentação introdutória da Filosofia do Convívio (ou Pluralismo Radical)... sobre a qual explico mais durante a semana. Vai lá:


No final do século XX tornou-se comum dizer que havíamos entrado numa "condição pós-moderna", em que não existe mais nenhum esquema explicativo absoluto, de modo que de certa forma "vale tudo".
De modo bem simplificado, é essa a tese central do livro de 1979 do francês Jean-François Lyotard (1924-1998), chamado O pós-moderno na primeira edição e A condição pós-moderna nas seguintes.
Naturalmente muitos contestaram até que exista alguma coisa que possa ser chamada pós-modernidade, enquanto outros autores propunham também outros traços para caracterizá-la – por exemplo Jean Baudrillard (1929-2007), que apontava a vida pós-moderna como dominada por simulacros.
Olhada com seriedade, a idéia de Lyotard não é porém nenhuma bobagem. Sobretudo, apresenta uma característica interessante: quando mais for contestada, mais estará comprovada – pois afirma justamente que não existem verdades seguras e fora de contestação!
Lá por 1995 tive a oportunidade de ouvir um professor doutor da PUC-SP falando com entusiasmo dessas concepções, mostrando o patamar superior de liberdade que havíamos atingido com isso –
... e aí lhe dirigi a pergunta: "professor, se agora de certa forma vale tudo, com que base poderemos dizer que as propostas do nazismo não valem? Que critério restou para explicar por que elas, ou outras semelhantes, não devem ser aceitas? Ou então elas devem ter lugar como quaisquer outras?"
Para minha surpresa, esse experiente professor – que apesar disso tenho fortes motivos para respeitar e estimar – ficou perturbado e terminou dizendo algo como: "É, de fato, a teoria não prevê isso. É preciso pensar essa questão."
Naquele momento eu achava ­– e continuo achando – que já sabia a resposta, mas teria sido bem deselegante, anti-ético mesmo, pretender "cortar a bola" na palestra de outro professor, ainda mais não tendo nenhum dos seus títulos. E além disso seria imprudente, pois na ocasião eu ainda não tinha nada escrito e muito menos publicado sobre essa resposta, a que dou o nome de Princípio do Pluralismo Absoluto.
Tive porém muitas oportunidades, antes e depois, de apresentar publicamente essa resposta, e observei que isso costuma ter um efeito ambíguo: por um lado a resposta convence; sua lógica é auto-evidente. Por outro lado, porém, parece causar certa perplexidade, e até mesmo irritação, porque é simples demais – e nos acostumamos a só apostar no complicado.
Confesso que eu mesmo me sinto extremamente perplexo de que um ponto tão pequeno possa ter conseqüências tão vastas, mas qualquer um que se dê o trabalho de refletir seriamente sobre essas conseqüências verá que o Princípio do Pluralismo Absoluto realmente dá conta do recado de preservar a liberdade plural conquistada pela pós-modernidade (o estado de maior liberdade que o ser humano já conquistou até hoje) protegendo essa liberdade de si mesma, impedindo que ela se auto-destrua –
... e, além disso, dá conta de uma infinidade de outras questões – pois quase que sem perceber acerta na raiz de onde brotam grande parte dos galhos que afligem a humanidade.
Por isso o chamo também de Pluralismo Radical – no sentido de Marx e de Paulo Freire: porque se dirige à raiz.[1]



[1] Karl Marx (1818-1883) e Paulo Freire (1921-1997) usam a palavra "radical" em sentido positivo, reservando a palavra "sectário" para o sentido negativo que se costuma atribuir a "radical".




[1] Karl Marx (1818-1883) e Paulo Freire (1921-1997) usam a palavra "radical" em sentido positivo, reservando a palavra "sectário" para o sentido negativo que se costuma atribuir a "radical".

11 março 2008

Meu atraso + um pouco sobre A ÉTICA DE QUE PRECISAMOS HOJE

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O último fim-de-semana era o da teoria... mas eu não consegui postar nada, pois estava tentando recuperar forças em Santos, na beira do mar...
Recuperar forças no fim das férias? - alguns poderiam perguntar ironicamente... ao que eu posso responder: "Como no fim? Esses 3-4 dias foram as minhas férias da virada 2007-2008..."
Enfim: há perguntas e comentários a responder, como os feitos aqui no blog pelos amigos Pedro Martins e Douglas A. Alencar, e outros feitos nos recados do orkut pela amiga que assina Brisa da Noite, residente no Pará... todos interessantíssimos, que rendem muito.
Mas essa vida de autônomo... 4 dias de férias já são seguidos por dias de aperto & correria!! Não posso me permitir redigir esses comentários antes de terminar mais um capítulo de tradução, ou melhor: tradu$$ão... :-)
Mas não quero deixar a semana teórica no vazio... e então resolvi transcrever aqui um trecho do artigo O Fantasma de Aristóteles que (com razão ou não) considero uma das coisas mais significativas que já escrevi, se não a mais. 
Por quê? Leia você mesmo e avalie... Quero dizer apenas que pretendo fazer uma versão de leitura mais simples, que não seja entrecortada por tantos parênteses e notas de rodapé... mas que isso significaria um ou mais dias de trabalho, o que está fora de questão no momento.
E ainda que o artigo inteiro se encontra em www.tropis.org/biblioteca/pc12-aristoteles.doc (ou zip no lugar de doc).  Abraços a tod@s!!!

12.4.2. A ética de que precisamos hoje: resumo

No capítulo 12.3 buscamos confrontar a Ética de Aristóteles com um corpo de idéias pelas quais optamos não por gosto arbitrário, e sim por crermos que fazem parte da ética de que precisamos hoje. Antes de prosseguirmos para considerações mais específicas, cremos que será útil um resumo de suas características principais:
•     Uma ética baseada não na aplicação de regras pré-determinadas, mas no discernimento e opção do indivíduo;
-  no discernimento da (ou pelo menos na aposta [1] na) organicidade universal, e com ela, da teia das conseqüências das ações; [2]
-  na opção primeira de empregar nossa capacidade empática (com‑paixão) para informar nossas demais opções. [3]
•     Uma ética que, a partir disso, não hesite em optar por afirmar a dignidade universal do humano e em se empenhar por todos os meios em fazê-la valer [4] – o que, ao contrário da visão de Aristóteles, deve incluir:
-  uma valorização extra, compensatória, de todo trabalho tradicionalmente desprezado (como por exemplo e talvez emblema, o de faxineiros/as e lixeiros);
-  a educação do trabalhador intelectual para a humildade e responsabilidade social;
-  o poder de desfazer o véu de denegação que encobre dentro de cada um a distinção entre o necessário e o voluptuário,[5] de modo que a capacidade empática seja capaz de revelar a cada um, porém sobretudo ao próprio opressor, a indignidade do bem-estar baseado na opressão.

Cremos que é basicamente uma tal ética que pode viabilizar antes de mais nada um convívio inter-humano digno, e a partir daí o enfrentamento de quaisquer outras questões da humanidade.

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[1] No uso de Paul Ricoeur (segundo Rubem Alves), ou seja: como tradução da palavra "fé": não crença que denega a dúvida, porém ato de aposta existencial justamente quando na presença inexorável da dúvida – o que, embora talvez expresso com mais calor, não nos parece muito diferente do "como se" de Hans Vahinger (optar por agir como se tivéssemos certeza, mesmo sabendo que não temos).
[2] Que é o que nas filosofias da Índia recebe o nome de "lei da ação" ou, em sânscrito, carma. Embora também informe religiões, trata-se antes de tudo de um conceito filosófico e "com vida própria", não necessariamente vinculado a idéias como imortalidade, reencarnação etc.
[3] Escrevemos em 2001 no Manifesto do Reencantamento do Mundo (14, originalmente Rickli 2001): "Ética nascida não de regras, mas da percepção do brilho nos olhos do outro". E, relacionando isto já com o ponto seguinte, em um poema inédito de 1982; "você já olhou a luz que brilha / nos olhos daquelas mãos / que limpam a sua privada? / já? / não morreu de paixão?"
[4] Mais uma vez, isto pode partir de um sentimento de reconhecimento de algo dado, pré-existente como potencial (uma via reativa, possivelmente metafísica ou religiosa), ou não: pode partir simplesmente da decisão humana: "nós queremos que essa dignidade exista (quem sabe porque analisamos e julgamos melhor que seja assim), e se não existe vamos construí-la": via pró-ativa puramente ética – com possível recurso auxiliar à lógica mas sem submissão nem a essa: ato da vontade (opção) humana como soberana (antes de mais nada, ato de vontade inicial de se pôr em acordo pelo menos quanto a um mínimo indispensável ­– o qual porém provavelmente não brotará ou não será autêntico sem o discernimento inicial da organicidade).
[5] Na linguagem jurídica (apropriada aqui por brevidade): entre o que é a necessidade vital e o que é mero desejo. Adiantamos que em certa medida Aristóteles pode voltar a sem bem-vindo neste ponto, pela sua noção de educação das paixões.

26 fevereiro 2008

uma pequena cosmologia físico-poética
política & amorosa

1.
A física e astronomia falam hoje de dois impulsos principais no Universo:
... o de expansão (que, segundo a teoria predominante, teria vindo do big bang), pelo qual tudo tende a se separar e a se espalhar pelo universo – até quem sabe sumir de tão rarefeito na infinitude do infinito...
... e o gravitacional, pelo qual as coisas tendem a se unir... se apertar umas nas outras... até que fiquem tão apertadas que toda diferenciação seja esmagada, e tão presas umas nas outras que nem a luz escape mais desse lugar: o buraco negro, que, ao contrário do que o nome sugere, é um lugar de excesso e não de falta.
E no entanto existem galáxias, sóis, planetas, vida...
Um pouquinho mais de gravidade, e tudo se acabava numa união tão densa que nenhum ser teria chance de existir.
Um pouquinho mais de expansão e, tudo se afastaria tanto que só restaria um vazio...
E se expansão e gravidade estivessem equilibradas com exatidão?... Então não teríamos um mundo equilibrado: teríamos nada.
2.
Existir é gingar permanentemente entre duas possibilidades de desequilíbrio.
Existimos enquanto dura a dança. Somos a dança.
Mas a dança só existe se houver dois impulsos opostos brincando de acabar um com o outro, e nunca acabando de fato.
Não estou falando "do bem e do mal". Nenhum deles é o bem. De cada um deles sozinho se pode dizer que é mau: um destrói a vida e a existência em vazio e abandono. A outro a sufoca em excesso de união e de substância.
E a união dos dois deixando de lado suas diferenças seria o suicídio universal.
Convívio de diferentes enquanto diferentes – sem se afastarem demais um do outro, sem se unirem ao ponto de anular as diferenças. Convívio inclusive dessas duas possibilidades de mal... pois a supressão de qualquer uma delas seria a efetivação do outro mal. O bem não está nunca em uma parte nem em outra: o bem está no convívio.
http://www.tropis.org/imagens/polaridadefundamental2.jpg
3.
O amor une ou separa? O amor prende ou liberta?
Lá onde se sufocam as diferenças até tudo "se empedrar" e mergulhar em escuridão – pode-se aí falar de amor?
Lá onde tudo se perde no vazio, no frio e no abandono – pode-se aí falar de amor?
Os planetas não são corpos abandonados no vazio: têm um sol em torno do qual dançar, e em condições especiais até vemos um deles fecundado pela energia do sol, dando nascimento à vida... Mas não se unem ao sol. Unir-se seria o fim de toda graça. Fim de jogo. Ir embora cada um pro seu lado também.
Entre o aprisionamento e o abandono irresponsável, entre a dependência excessiva do outro e uma independência unilateral sem coração... lá talvez exista uma faixa em que o impulso de união e o de liberdade dançam juntos, sem se separar e sem se anular. Numa dança que é provavelmente o que mais merece o nome de amor.
Na China: a existência como a dança perpétua do impulso yang e do impulso yin, os dois gestos do Tao (a realidade última além da nossa compreensão);
Na Índia: o Universo como a dança que a divindade faz existir a cada instante com seus dois pés em movimento;
No cristianismo: Deus é amor. Ou "a condição pela qual tudo existe é Amor".
4.
E nós?
A cada momento cada um de nós é tentado a dominar. Mas se de fato ama, não quererá ver o outro destituído da sua dignidade humana, dignidade que vem toda do poder de escolher por si. (A menos que esteja na verdade à procura de um animal de estimação).
A cada momento cada um de nós é tentado a abandonar. Mas enquanto o amor está em nós, está também a responsabilidade voluntária pelo que se fez – marca de todo ser que cresceu e já não só recebe, mas se tornou capaz de gerar.
(Afinal, o amor é ou não é capacidade de gerar?)
A cada momento uma escolha. Para lá do mero impulso espontâneo, animal, que vem e que passa, o amor é a cada instante um ato de decisão.
Não faz sentido falar de amor a não ser quando se exerce a capacidade de escolha: liberdade.
Não se verdadeiramente cria se não por amor, e não se verdadeiramente cria senão por decisão interna livre do nosso ser. Sem liberdade fazem-se coisas. Mas não se cria.
5.
Liberdade e amor são duas capacidades de uma coisa só: daquilo em nós que é capaz de criar.
Daquilo que é capaz de criar.
Daquele que é capaz de criar, seja em nós, seja onde for.
Mas nada existe se não tiver primeiro se feito dois. Dois que dançam um com o outro, sem voltar a ser um, e sem deixar de ser um: um par.
Não existe existir sozinho: só existe existir com.
6.
Com-viver.
Não existe apenas viver, sem "com"; todo viver depende de que também vivam outros, que vivem com. Rede.
Não aceitar o com é investir em que a existência se extinga.
E por que não? Existir é difícil...
Mas... será mais fácil o desistir?
Tentar desistir: Arrastar consigo um mundo moribundo, eras a fio... todas as partes em sofrimento... porque não queremos mais existir – mas, querendo ou não, enquanto ainda existimos, existimos-com.
Por que, afinal, algo veio a existir?
Não, não me responda. Não será verdade. É mais.
E se ficarmos esperando a resposta, não vamos com isso deixar de existir: vamos seguir existindo em sofrimento-com –
... por não estamos nos doando o suficiente pra que existir seja dança. E seja prazer. Dança-com-e-prazer-com.
Aceitar existir, apesar de todas as dificuldades, talvez seja o princípio do fim das dificuldades.
Desde que se entenda que existir é existir-com.
7.
Mesmo com todas as dificuldades, fazer com que algo exista mediante aceitar o "com": esse é o ato do amor.
E sem ele nada do que foi feito se fez. *
 



 * Do Evangelho de João (1:2). "Deus é amor" se encontra em I João 4:16.
   

10 fevereiro 2008

Liberdade de Imprensa, DEMOCRACIA e Liberdade de Expressão

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Amig@s: a realidade mostrou que meu compromisso original de postar todo sábado deve ser atualizado para postar todo DOMINGO. Pode ser que às vezes antecipe ou que faça outras postagens durante a semana, mas a garantia que pretendo dar é de que não chegue 0 h de segunda sem postagem nova.

Por outro lado, vou tentar manter o ritmo que já está existindo: pelo menos 2 postagens poéticas + 2 postagens filosóficas por mês, se possível alternadas.

Relembro que as palavras & idéias contidas aqui podem e devem ser reproduzidas, desde que claramente mencionados o autor e a fonte, com link.
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1. UMA PALAVRA SOBRE O ÂNGULO DE OBSERVAÇÃO:
O PLURALISMO RADICAL
Tenho usado este blog como um espaço de expressão tão pessoal, que talvez fique parecendo que o jogo-de-palavras embutido no nome (plural + ralf) se refira aos "3 poetas que são 1" (da postagem de 03/10), ou a coisa parecida.
E não é que não possa ser entendido também assim, mas a intenção original, que não foi abandonada, é um bocado mais ampla: é usar este espaço para falar sobre e a partir de um ponto-de-vista que eu chamo PLURALISMO RADICAL - o "nome de briga" daquilo que também usa o nome aparentemente pacato de Filosofia do Convívio.
Sob qualquer um dos nomes, trata-se de filosofia ética e ao mesmo tempo política. Aliás, dentro do seu campo-de-força essas duas palavras designam uma coisa só. E é política mesmo quando fala de... "o melhor modo de deixar prendedores de roupa no varal", ou outros detalhes do cotidiano.
Mas se quiserem uma relação com palavras mais usuais no campo político, Pluralismo Radical é democracia radical: democracia expandida até o seu limite máximo - e isso não porque alguma coisa a limite de fora, e sim porque expandida até o máximo permitido pelos próprios limites da lógica; limites matemáticos.
Mais: Pluralismo Radical é a condição de viabilidade da democracia - e o artigo que cabe aí é "a" mesmo: a condição primeira e última, em relação à qual toda e qualquer outra condição será naturalmente secundária.
Não é menos que isso a sua pretensão... - e não é por menos que o livro Filosofia do Convívio está demorando tanto a ficar pronto!
Essa uma das razões deste blog: enquanto o livro não fica pronto, vou tentando dar aqui alguns exemplos de aplicação do pensamento pluralista radical a questões várias - por exemplo, essa questão tão palpitante no momento que é a da relação entre democracia e liberdade de imprensa.
Só que para este não virar outro capítulo inacabado do livro inacabável, o que vou fazer são sobretudo afirmações (ou, em termos mais usuais no campo filosófico: registrar proposições), com poucas justificações. Com isso fica aberto o debate -
... mesmo se com certeza bem pouca gente sabe que este blog existe, e ainda menos que está aberto aqui o debate sobre a condição maior da viabilidade da democracia...
2. LIBERDADE DE IMPRENSA E DEMOCRACIA SÃO ALIADOS OU INIMIGOS?
Depende.
O que é um constituinte fundamental da democracia é a liberdade de expressão. Será "imprensa" um equivalente exato de "expressão"?
A imprensa funciona como um amplificador do alcance da expressão de um indivíduo. Faz com que as palavras e idéias de uma só pessoa consigam preencher o espaço que só seria preenchido por milhões de pessoas sem tal amplificação. Será que esse mesmo poder é compartilhado com todos os atingidos? Ou seja: será que toda pessoa que quiser contestar um artigo de jornal conseguirá fazê-lo e ser lida por todos os que o leram? Evidentemente, os casos em que isso acontece são ínfimas exceções.
Na verdade a imprensa como a conhecemos, muito ao contrário de representar meio de expressão para muitos, tem servido para fazer a voz de uns poucos escolhidos tomar o lugar da voz de muitos. E não me diga que esses muitos não teriam nada a dizer, ou pelo menos nada de útil, pois só diz isso quem não foi lá ver.
Costumo dizer que vivemos como baratas nas frestas deixadas por duas rochas gigantescas: o sistema do Estado, e o poder econômico (ou seja: o poder dos proprietários de capital). Estes costumam falar como se eles fossem ou pelo menos representassem "a sociedade civil"; apresentam o Estado como um inimigo da liberdade, e liberdade, para eles, é naturalmente a liberdade de fazer negócios - inclusive com notícias. Liberdade que naturalmente (mas isso eles não dizem) só é possível desfrutar quando também se é proprietário de capital.
Por outro lado, o Estado se apresenta como "poder público". Como é que algo "público" não é "da sociedade civil"? De onde surgiu a diferença entre "público" e "civil"? De onde surgiu a idéia de que o Estado é inimigo da sociedade, e não seu servidor?
Não é possível aprofundar esta questão agora, mas cabe dizer: historicamente o Estado tem sido mesmo, em grande parte do tempo, uma força opressora da população - mas o poder econômico não-estatal nunca foi menos.
E mediante uma invenção chamada "democracia", que até hoje não foi plenamente implementada em nenhum lugar, nós povo em geral já temos pelo menos em teoria o direito de decidir os rumos do Estado; já os rumos do capital privado, por definição não teremos nunca o direito de decidir (a não ser no dia em que decidirmos em conjunto que ele não é mais privado...)
Vale a pena ler o livro Liberalismo e Democracia, de Norberto Bobbio, para entender que esses dois termos, ao contrário de serem duas faces da mesma moeda, são no fundo conceitos antagônicos, que a muito custo foram acomodados num sistema só, que por causa disso funciona em permanente tensão e ameaça de rompimento.
Numa comparação talvez um pouco arriscada, mas creio que passável, podemos dizer que democratas tentam fazer da coletividade humana uma cooperativa, onde "um homem = um voto", independente do capital que traz, enquanto que "liberais" a entendem como uma sociedade por cotas (ou ações), em que a quantidade de votos de cada um é proporcional ao capital que colocou na sociedade.
Ou de modo bem simples: para o "liberalismo", manda na sociedade quem tem mais, e "liberdade" significa que ninguém se meta nisso.
E no entanto... por razões históricas tais liberais tiveram que fazer acordo com os democratas, e deixar que o Estado funcione, pelo menos aparentemente, ao modo democrático: "um homem, um voto". O que naturalmente pode pôr em risco os seus interesses como proprietários de capital.
Mas "felizmente"... com dinheiro é fácil montar um grande sistema de "informação" que "ajude" os pobres desprovidos de capital a "formarem sua opinião" (pois é óbvio que não tendo capital também não tem miolos próprios na cabeça, não é mesmo?)
Acreditem ou não, não sou propriamente marxista... mas esse é um fato objetivo cru: a "liberdade de imprensa" do liberalismo significa a liberdade de manipular as cabeças dos desprovidos de capital para que, mesmo sendo mais numerosos, não atrapalhem os interesses dos proprietários de capital através do voto ou de outras formas de participação política - e seus apelos à "liberdade democrática" têm significado sempre: "e que ninguém se meta nisso".
3. COMO PODERIAM FICAR A LIBERDADE DE OPINIÃO
E DE EXPRESSÃO NUMA DEMOCRACIA VERDADEIRA?
Quem são, afinal, os sujeitos cujas opiniões em conjunto constituem democracias? Empresas jornalísticas podem ser? Mas então por que não, também, os supermercados, as igrejas, as empresas de aviação?
Para que "democracia" seja possível, em última análise só deveria haver um tipo de sujeito político: indivíduos humanos. Com igualdade de oportunidade de expressão.
Mas concedamos que indivíduos possam se organizar coletivamente em torno de posicionamentos políticos tidos em comum: surgiria com isso um tipo de organização cujos fins são especificamente políticos,
... sem serem ao mesmo tempo econômicos, educacionais ou quaisquer outros - pois o objetivo da política é o bem de todos, e não os interesses deste ou daquele setor de atividade, ou desta ao daquela tendência de pensamento.
É preciso detalhar isto um pouco mais:
O material básico de uma democracia são opções individuais. É claro que o indivíduo pode optar por ter um posicionamento igual a de outros, e a formar um grupo com esses outros para defender os posicionamentos que têm em comum. (Ainda aí segue não existindo propriamente uma "opinião do grupo": o que existe é uma resultante - ou soma vetorial - de opiniões de pessoas).
Então: se um tal grupo é formado em torno de opções políticas, e quer defender opções políticas coletivamente, esse grupo precisa ser identificado como partido político.
Partido político seria portanto o tipo de organização que se empenha em mostrar que determinada opinião ou conjunto de opiniões é boa para o bem de todos, e que se esforça por conseguir o apoio mais amplo possível para implementar o que essas opiniões propõem.
Toda organização que tem essa finalidade se caracteriza de fato como partido político e deveria também estar caracterizada de direito.
Pois para que a democracia não seja prejudicada, não pode haver mais de um tipo de organização dedicada à expressão grupal de opção política: só pode haver o tipo claramente identificado como tal (como grupo de atuação política) e que tenha plena responsabilidade pública como tal (- ou seja: do qual seja possível e fácil cobrar as conseqüências de sua atuação política).
 Por isso,  a constituição de partidos políticos deve ser fácil, descomplicada e ilimitada em número. Pois não se trata de restrição aos conteúdos: apenas disciplina quanto à forma.
O conteúdos das opções dos indivíduos humanos são variadíssimos, mas a forma básica do ser humano é uma só. Ninguém vai julgar opressivo que se diga que apenas seres humanos são sujeitos políticos individuais, e não também os cachorros, as cadeiras, os relógios ou as gotas de chuva. Só há um modelo de sujeito político individual, e só deve haver um modelo de sujeito político grupal; sua liberdade de constituição deve ser total, e a liberdade dos conteúdos de suas propostas quase total (limitada apenas pelo Estatuto Fundamental da Humanidade - ver a postagem de 27/01/2008). Mas a forma de constituição tem que ser uma só.
Isso significaria que nenhum grupo que não seja partido político pode manifestar opinião política como grupo - embora nada impeça que seus componentes a manifestem como indivíduos, assinando embaixo cada um com seu nome. Nenhuma igreja, nenhuma corporação profissional, nenhuma associação e sobretudo nenhuma empresa - que é organização constituída em torno de finalidades econômicas - pode manifestar opinião política -
... e igualmente, nenhum desses tipos de organização pode exigir algum tipo de alinhamento político de seus integrantes: o único tipo de grupo constituído por razões de alinhamento político tem que ser o que foi designado acima como "partido" (cuja pluralidade e liberdade e facilidade de constituição têm que estar garantidas, como também já foi dito).
Isso não é restrição à liberdade? Sim e não: é restrição apenas à liberdade de destruir liberdades - à liberdade de dominação - e portanto é garantia da máxima liberdade sustentável, que é a do equilíbrio ótimo entre o individual e o social (mais uma vez conforme o Estatuto Fundamental da Humanidade e também conforme o artigo Bendito Eixo no Bendito Caos, os dois em <www.tropis.org/biblioteca>).
4. ALGUNS ASPECTOS PRÁTICOS NO CAMPO "IMPRENSA"
É evidente que precisaria ser proscrita essa instituição clássica do jornalismo que se chama o editorial - que sempre foi uma forma de alguns indivíduos fazerem suas opiniões pessoais passarem por opiniões coletivas. Precisamente as mesmas opiniões podem estar impressas no mesmo lugar, porém assinadas com os nomes pessoais de todos os que participaram da redação - tanto os de quem emitiu opiniões quanto os de quem as escreveu, e, havendo divergências, com a identificação de quem fez o quê.
Liberdade de expressão não é só a de dizer, mas também a de não dizer: entre outras coisas, que ninguém jamais tenha que escrever opinião de outro porque foi pago para isso! Se o fizer, deve estar registrado o nome do autor da opinião, o nome do redator, e as divergências que o redator porventura tenha com as opiniões que teve que escrever.
O uso de ghost writers deve ser tipificado como crime, salvo nas condições explicitadas acima - pois configura claramente, na relação com o redator, uma expropriação da humanidade do outro (isto é, de seu direito de opção) mediante a exploração de sua necessidade de subsistência,
... e, na relação com o leitor ou ouvinte, uma tentativa de manipulação pela simulação de qualidades que não se tem, mas que podem ser fingidas mediante o poder econômico de que se dispõe.
Duas formas graves, portanto, de abuso do poder econômico.
Chamar a si mesmo de "formador de opinião" equivale à confissão de um crime contra a democracia. Somente o indivíduo pode formar sua própria opinião.
No entanto, a mera modulação de "formador" para "informador" é capaz de inverter tal sentido, passando a designar um serviço não apenas útil como também indispensável à democracia: afinal, o indivíduo precisa ter informações à sua disposição para que possa formar sua opinião própria.
A atividade dos informadores de opinião deve porém estar sujeita à lei da pluralidade e à da igualdade de oportunidades.
A principal razão disso é o fato de não existir descrição de fatos que seja puramente objetiva: alguma medida de opinião está sempre embutida já no modo como vemos as coisas (selecionamos inconscientemente os detalhes que vemos e os que deixamos de ver), e obviamente também no modo como repassamos a informação.
Por isso ninguém deve ser exposto a informação proveniente de uma fonte sem que no mesmo ato lhe seja oferecido acesso a informações provenientes de outras fontes. Órgãos de imprensa complexos deveriam buscar oferecer diversas versões já em cada notícia, e tratar de não privilegiar nenhuma dessas versões no processo de edição -
... além de reservarem espaço para a publicação de todas as informações que lhes sejam enviadas posteriormente em contestação a essas versões. (Isto é, não é necessário que se publique o texto integral de todas as manifestações, mas que se registre quantas vezes uma determinada informação ou posição foi manifesta, e que sejam identificados e arrolados os detalhes diferenciais nas diferentes manifestações).
5. O CAMPO ONDE A OPINIÃO É LEGÍTIMA
Resta lembrar aqui que aos indivíduos e aos partidos políticos a manifestação de opinião é totalmente livre (unicamente com a ressalva prevista no Estatuto Fundamental da Humanidade, ou seja: que não se possa advogar a destruição da própria liberdade) –
... e uma das (não muitas mas fundamentais) funções que deveriam caber a um Estado democrático (ou a alguma formação melhor que "Estado" que lhe venha a fazer as vezes no futuro) é justamente a de garantir que nenhum cidadão tenha menos oportunidade de fazer suas opiniões circularem do que qualquer outro.
Na nossa época isso começa a ser tecnicamente factível pela primeira vez mediante a internet (olha nosso blog aqui!) - e mesmo que a internet não tenha sido uma iniciativa do Estado, sua importância para uma verdadeira democracia é tão grande que cabe sim ao Estado ajudar a preservá-la, de dois modos: (1) não atrapalhando; (2) impedindo que poderes econômicos tentem restringir a universalidade do seu uso.
Por outro lado, já disse que fundar partidos políticos deveria ser extremamente fácil - e mesmo assim o Estado deveria garantir a todos eles condições equivalentes de divulgar suas idéias, não só oferecendo recursos aos pequenos, mas também sendo a única fonte de financiamento dos grandes.
E aqui há um detalhe importante: é um absoluto contra-senso lógico que partidos recebam dinheiro e/ou tempo de divulgação proporcionais às conquistas já realizadas (p.ex., número de cadeiras já conquistadas no legislativo - se é que cabe manter esse modelo de representação). É um contra-senso pois se trata de um sistema de feed-back positivo, o que qualquer pessoa com noções rudimentares do funcionamento dos sistemas sabe que leva a distorções sempre crescentes  e finalmente à destruição do sistema. No caso político, tal "dar a quem já tem" é uma forma escandalosa de garantir que o presente seja sempre governado pelo passado, ou de evitar qualquer verdadeira renovação.
Se parece extravagante que o Estado gaste para que um pequeno partido de, digamos, vegetarianos, tenha a mesma oportunidade de divulgação de suas idéias que qualquer outro partido tradicional, devemos pensar que se trata de investimento na manutenção e aperfeiçoamento de um dos maiores bens que a humanidade já conquistou: a democracia.
E por outro lado, aqueles que considerarem que as propostas acima são restrições inaceitáveis à liberdade de expressão, esses estarão confessando com isso que seus apelos ao nome "democracia" são hipócritas: que o que querem é seguir dominando e manipulando por fora das regras de qualquer jogo que seja efetivamente democrático.
São esses, afinal, os que voltam sempre com a cantilena de que "o povão" não tem condições de decidir, por esta ou por aquela razão – enquanto eles supostamente teriam essas condições, de decidir por si e pelos outros. Tenho certeza absoluta, porém, de que no momento em que houver circulação livre, igualitária e abundante de toda pluralidade de informações, as fantásticas qualidades matemáticas dos grandes números farão do conjunto de todos os Zés, Manés e donas Marias um colegiado infinitamente mais sábio em suas decisões do que o conjunto de proprietários de órgãos de imprensa, mesmo se acrescido de todos os doutores em Ciência Política do país.
Ou, se não mais sábio, pelo menos - devido a fragmentação e à neutralização mútua dos interesses - muito menos imoral.

COPYLEFT
As palavras & idéias contidas aqui podem e devem ser reproduzidas, desde que claramente mencionados o autor e a fonte, com link.

27 janeiro 2008

da Filosofia do Convivio para Fórum Social Mundial 2008

:
UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

E nossa Filosofia do Convívio
é uma contribuição para a viabilização
de um outro mundo que não seja apenas outro...
mas de fato BOM e digno de se desejar.

TRÓPIS iniciativas sócio-culturais  

26 de janeiro - um dias de ações múltiplas e descentralizadas em todo o mundo, as quais constituem em conjunto a Edição 2008 do Fórum Social Mundial.

Estamos dizendo "presente" com a publicação de um texto nuclear da FILOSOFIA DO CONVÍVIO - sua célula germinativa, de onde todo o resto decorre - apesar de a obra de que faz parte ainda não estar pronta para publicação:

PARA UM ESTATUTO FUNDAMENTAL DA HUMANIDADE
aqui no blog http://pluralf.blogspot.com
e ampliado com seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca

Resultado de 38 anos de reflexão, essas linhas que podem parecer ingênuas apontam a postura humana que, entre todas as possíveis, é já por razões lógicas aquela capaz de gerar as maiores transformações a partir das intervenções menores e mais simples.

Não temos a ilusão de que sua aceitação seja fácil - pois ao lado de fazer diferença imediata no convívio micro-social, inclusive nas relações humanas dois a dois, tal postura põe em cheque a alavanca mesma do sistema capitalista e a de todos os sistemas de opressão, manipulação e/ou desumanização.

Trata-se, enfim, de um objeto oferecido ao mundo para que se comecem a explorar suas possibilidades, propor aperfeiçoamentos, etc. - sobretudo por parte dos que forem capazes de perceber todo o seu alcance potencial por trás da já referida aparência ingênua.

OBS.: na noite de 25 para 26 foi publicada uma versão experimental com os capítulos em ordem diferente. A presente versão tem os capítulos na ordem correta e um artigo adicional (3.2.3.1), entre outras pequenas correções.

Para um Estatuto Fundamental
da Humanidade
Fragmento do livro em preparação
A chave de tudo mais:
apontamentos para uma
Filosofia do Convívio
disponível com formatação aperfeiçoada e seção introdutória em
www.tropis.org/biblioteca
Ralf Rickli
rr@tropis.org


1.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo

1.1.             Nada pode ser imposto por nenhum indivíduo ou grupo humano a nenhum outro indivíduo ou grupo humano.
1.2.             A única exceção a essa regra é ela mesma, que pode e deve ser imposta sempre que necessário. Isso equivale a dizer que impedir que alguma coisa seja imposta (por qualquer indivíduo ou grupo humano a qualquer indivíduo ou grupo humano) é ao mesmo tempo um direito e o único dever permanente de todos.
1.3.             Deve ser sempre buscada a forma mais branda possível para realizar a imposição da não-imposição que vem prescrita acima.

2.            Estatuto da Dignidade
e do Convívio Humanos
- núcleo central mínimo em forma de deveres
2.0.            Pelo bem de cada pessoa e da humanidade inteira, todos são convidados a concordar em que os seguintes três deveres são permanentes e universais para todos os indivíduos e todos os grupos humanos:
2.1.             o dever de não impor nada a nenhum outro indivíduo ou grupo humano;
2.2.             o dever de impedir que qualquer indivíduo ou grupo humano imponha alguma coisa a qualquer outro indivíduo ou grupo humano (inclusive um grupo aos seus próprios membros);
2.3.             o dever de buscar sempre a forma mais branda possível para exercer o segundo dever.

3.            Estatuto Fundamental
da Dignidade e do Convívio Humanos
-  forma extensa
3.0.            Em benefício de cada um e de todos nós, optamos por concordar com os seguintes quatro artigos como Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos, que pode igualmente ser chamado de Estatuto da Liberdade; outros pontos de concórdia serão sempre bem-vindos, mas reconhecemos que nenhum tem tanta urgência e prioridade quanto estes quatro:
3.1.            O que caracteriza cada um de nós como indivíduo humano é o fato de ser uma unidade decisória livre: a unidade mínima capaz de escolher o que quer e o que faz, mesmo se nem sempre fizer uso dessa capacidade.
3.1.1.          Qualquer ser humano que se encontre impedido de fazer uso de sua capacidade de decisão por razões externas a si se encontra sob um estado de opressão.
3.2.            Com uma única exceção, nenhum de nós seres humanos tem direito de colocar outro sob opressão, ou seja: de criar situações que expropriem outro ser humano do gozo da sua capacidade de decisão, quer obrigando-o a, quer impedindo-o de seja o que for; quer excluindo-o, quer incluindo-o contra a sua vontade seja no que for.
3.2.1.          O estado de opressão é indigno para todo e qualquer ser humano, e faz parte da dignidade de todo ser humano não aceitar esse estado nem para si mesmo, nem para qualquer outro.
3.2.2.         Cada ser humano têm o direito de delegar a outro ser humano parte de seu direito de decisão, para fins específicos e por tempo limitado, porém conserva sempre o direito de revogar essa delegação a qualquer tempo.
3.2.3.         Se algum ser humano se mostra temporária ou permanentemente incapaz de exercer a sua própria capacidade de decisão de modo a preservar-se em vida digna, e isso por razões próprias (ou seja, sem que seja impedido ou compelido por nenhum outro), a coletividade humana como um todo é responsável por conservar esse ser humano em estado digno, tomando em seu lugar decisões compatíveis com as que ele tomaria para si caso estivesse em pleno gozo de sua capacidade.
3.2.3.1.      Os períodos de infância e de adolescência são casos especiais de grande importância e complexidade, e devem ser objeto de estatutos específicos, os quais não devem deixar de levar em conta que nas crianças a capacidade de decisão se encontra em permanente construção e crescimento, de modo que são necessárias abordagens diferentes para cada ano de idade, ou pelo menos para cada grupo de poucos anos, e tampouco que a capacidade de decisão e/ou de participação em decisões se desenvolve muito mais rapidamente que a capacidade de automanutenção, e portanto as duas não devem ser tratadas como uma coisa só.
3.2.4.         Nos casos em que, mesmo apoiado para isso, se mostrar impossível que um determinado ser humano recupere sua plena capacidade de decisão autônoma, a coletividade é responsável por tomar cuidados para que esse fato não venha a prejudicar a capacidade de decisão autônoma dos seus descendentes ou de outros eventuais dependentes.
3.3.            A única exceção ao artigo 3.2 (conjunto) é a que o protege de si mesmo, ou seja: todo ser humano tem não apenas o direito mas também o dever de impedir, sempre pelo meio mais brando que ainda seja eficiente, que um segundo ser humano faça uso da sua vontade livre para expropriar a vontade livre quer do primeiro quer de terceiros.
3.3.1.          A coletividade deve buscar desenvolver meios tão seguros e tão pouco traumáticos quanto possível para proteger cada um de seus integrantes de quaisquer tentativas de expropriação de sua liberdade.
3.3.2.         As medidas de proteção da liberdade geral podem ser exclusivamente de duas naturezas:
3.3.2.1.      de tentativa de conscientização e persuasão do infrator no sentido do respeito à liberdade alheia;
3.3.2.2.      ou, sendo insuficiente a primeira medida, de restrição à sua liberdade de convívio, em diferentes graus e se necessário até mesmo em caráter permanente - isso porém apenas como proteção à liberdade dos outros, e nunca com caráter punitivo.
3.3.2.2.1.   Nenhum ser humano, ainda que em posição de autoridade, tem o direito de aplicar a nenhum outro ser humano nenhuma medida com caráter de punição, sobretudo medidas que atentem contra a integridade física e/ou psíquica do outro.
3.4.            Todas as demais leis e instituições da humanidade devem ser gradualmente repensadas e rearticuladas entre si, de modo a porem-se a serviço deste estatuto fundamental, subordinando-se a ele como critério maior, e tomando-o como ponto de partida para quaisquer novas regulamentações que se façam necessárias.
3.4.1.          As leis são tão mais fortes quanto menos numerosas, e devemos tentar evitar por todos os modos a introdução de toda e qualquer regulamentação que possa ser evitada.

4.            Estatuto complementar
do Convívio Universal
4.               Em benefício de cada um e de todos nós, concordamos igualmente com os seguintes dois artigos que buscam estender ao convívio com outros tipos de seres, na medida do possível, a atitude que reconhecemos como obrigatória no convívio humano mediante o Estatuto Fundamental da Dignidade e do Convívio Humanos.
4.1.            Todos os diferentes seres em existência, humanos ou não, devem ser tratados com respeito.
4.1.1.          Exemplos de seres não-humanos são não apenas os seres vivos em sentido estrito (animais e plantas), mas também os sistemas vivos em sentido mais amplo (ecossistemas) inclusive com seus elementos ditos abióticos (p.ex. cursos d'água, ventos, estruturas rochosas), e ainda as entidades de natureza cultural: tradições, línguas, mitos, realizações artísticas, valores e idéias.
4.2.            Nós seres humanos assumimos como nossa tarefa o esforço no sentido de que a existência de um ser não fira, ou fira apenas o menos possível, a existência de outro ser.
4.2.1.          Nos casos de conflito de interesses entre seres humanos e não-humanos, esgotadas até última instância as possibilidade de contornar o conflito, nós seres humanos devemos não só reservar-nos o direito como também assumirmos como dever dar prioridade aos seres de nossa própria espécie - mas devemos continuar nos esforçando para que o prejuízo aos demais seres seja o menor possível.
4.2.2.         Para os fins do parágrafo 4.2.1 acima, podemos classificar os seres nos seguintes cinco graus, com os quais nosso compromisso de preservação deve ser crescente:
4.2.2.1.      O existente em geral, incluindo seres culturais (idéias, tradições, etc).
4.2.2.2.      O existente em forma corpórea.
4.2.2.3.      O vivo (ou organizado organicamente).
4.2.2.4.      A humanidade.
4.2.2.4.1.   Em princípio, nosso compromisso deve ser com a humanidade inteira, e nunca com uma parte dela em detrimento da outra; sendo porém absolutamente indispensável uma opção, cabe priorizar aqueles que respeitam estes estatutos, ou seja: os que buscam ao máximo meios não-opressivos de lidar com as divergências inter-humanas.
4.2.2.4.2.   Ao contrário do caso acima, não se justifica a tomada de posição em favor do grupo a que pertencemos, apenas por ser o nosso grupo, em detrimento do restante da humanidade.


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Este texto pode e deve ser reproduzido em parte ou em todo, desde que:
(1) mencionado o título e nome do autor
(2) mencionada a fonte e modo de acesso: www.tropis.org/biblioteca
(3) sem nenhuma alteração (inclusive na pontuação, grifo, omissão de trechos etc.)
que não seja claramente indicada e com identificação do responsável
(p.ex. "grifo de Fulano", "adaptado por Cicrano" etc.)