Não há como negar que o desenho medieval da roupagem nos parece um tanto ridículo - mas o reconhecimento da Universidade de Coimbra não é. A propósito, este é apenas um dos mais de 40 títulos de Doutor Honoris causa que foram oferecidos a Lula ao redor do mundo (e o primeiro aceito e recebido, até onde sei). Como disse alguém, que queria ser um "ignorante" assim!!
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14 outubro 2010
por que pessoas escolhem Serra apesar do sucesso histórico de Lula & equipe, e a razão metafísica da minha opção
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Bom dia... aqui fala Ralf Rickli, brasileiro, 53 anos, que define sua atividade como "arte em ideias, palavras & educação", e peço licença de enviar a você uma única vez as razões do meu posicionamento na situação eleitoral atual. Não insistirei, mas se gostar peço que passe adiante a mensagem, ou pelo menos o link deste post.
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De um lado, me surpreendo com o apoio a Serra por parte de algumas pessoas que parecem ter consciência social e sentimento ético. Não quero duvidar de que estão falando de boa fé, mesmo se tenho razões para considerá-la mais um caso de boa fé equivocada.
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Essa me parece ser a razão 1: informação insuficiente (porque colhida unilateralmente) e, sim, ingenuidade.
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É preciso entender que não foi por acaso nem por incompetência administrava que o Brasil chegou a 2002 como um país rico porém com a pior distribuição de renda do mundo: foi, ao contrário, por muita competência... no exercício da imoralidade, no exercício da gestão em benefício da minoria-de-que-se-faz-parte em detrimento da grande maioria. E não falo do governo FHC e sim de todos os 502 anos desde o descobrimento.
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Sei que para alguns é difícil crer que uma Editora Abril, que na virada 1960-70 ajudou a iluminar o país com publicações como a mensal Realidade, e depois a Veja dos tempos iniciais, dirigida por Mino Carta (atual diretor da Carta Capital) tenha se tornado a organização mafiosa que se tornou, capaz de pagar a jornalistas mercenários sem qualquer escrúpulo para fornecerem ao país uma imagem brutalmente deturpada dos fatos, fazendo crer que os mafiosos são os outros, e isso tudo em defesa da permanência de seu grupo de interesses no poder.
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Mas vejam a vida nas periferias de São Paulo, vejam o interior do Nordeste, vejam a imagem e o papel real do Brasil na arena internacional,
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... por outro lado recordem cuidadosa e honestamente o país que tínhamos antes, em todos esses níveis, com o domínio das elites que bancam as Vejas da vida para defendê-las...
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... e aí por favor relembrem o antigo ditado É PELOS FRUTOS QUE SE IDENTIFICA A NATUREZA DA ÁRVORE.
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Mas no que acabo de dizer já está implícito que além da razão dos enganados existe a razão dos enganadores - e é aqui que a coisa se torna mais delicada, pois não há ser humano que não passe pela tentação de enganar para garantir confortos a si mesmo - inclusive se auto-enganar encontrando razões "justas" para o injusto.
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Com isso quero dizer: a razão 2 e mais decisiva para alguém escolher o Serra não é o Serra, e sim apenas afastar o PT do poder seja com o que for. E isso, por sua vez, se dá por este motivo preciso: o receio (mesmo que inconsciente, pouco consciente, ou disfarçado sob quilos de "desculpas") "quem vai trabalhar a preço de banana para mim e os meus, se essa distribuição de renda continuar?"
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Os "andares de cima" deste país foram formados por pessoas que eram zés-ninguém na Europa, e descobriram aqui o encanto de ter em quem mandar: qualquer um desses zés-ninguém logo virou sinhô, sinhá, comendador, em cima do trabalho de índios & africanos, trabalho que lá na Europa eles & os seus é que estariam fazendo.
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É esse o pânico ancestral que sobe das tripas, mesmo sem que se o entenda, quando se vê as grades da escada sendo retiradas e o pessoal do rés-do-chão começando a subir.
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Como antídoto para a informação insuficiente e/ou ingenuidade, sugiro o que eu costumo fazer: ler (quase) todos os dias um pouco dos dois lados. Pois não deixo de ler as informações da fonte Folha/UOL, e às vezes também do/da Globo, Estadão e Abril...
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... mas também leio todos os dias um pouco desse admirável exemplo de busca de equilíbrio e sensatez que é o Luis Nassif e também do Luiz Carlos Azenha, e muitas vezes olho também essa escola de pensar ético e responsável que é o o blog do Leonardo Sakamoto, e espio ainda a Agência Carta Maior. Nem sonhem, aliás, que esses sejam sites extremados de esquerda, existe coisa léguas mais à esquerda do que eles! - que também consulto às vezes, e não cabe explicar agora por que não lhes dou prioridade.
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Digo que, dessa leitura dos dois lados, qualquer pessoa que tenha buscado cultivar um certo senso-de-verdade tão isento quanto possível sai com uma impressão bastante clara de quem é que está blefando na imensa maioria das vezes.
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Já quanto à ancestral e universal tentação de ser senhor de escravos, só posso sugerir exame de consciência profundo. Ninguém é realmente isento dessa tentação, mas podemos aprender a identificá-la em nós e a nos posicionarmos contra ela por princípio - um princípio que teremos que lutar todos os dias para não esquecermos, e para não desistirmos de tentar pôr em prática, apesar de atuar na contramão do nosso próprio conforto.
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Mas por quê optar por um princípio assim incômodo?
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Porque, acreditem: o ato de um ser dominar outro em benefício próprio é o ato fundamental do mal. Todos os outros males derivam precisamente disso, e de nada mais.
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Eu também tenho essa tentação, como todos - mas decidi, como disse, que jamais a aceitarei como legítima, e enquanto tiver ainda que um fio de consciência tentarei combatê-la antes de mais nada em mim mesmo.
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Se você também considera essa tentação ilegítima, e a sua superação o objetivo maior da humanidade, prazer: somos colegas. Por mais insuficientes que ainda sejamos na nossa realização.
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Mas se você considera legítimo que alguns dominem outros em benefício próprio... não, isso não é apenas mais uma opção com a qual se pode conviver: você com isso se faz cúmplice voluntário na culpa por todos os sofrimentos da espécie humana. Você optou por ser parte do problema da humanidade, e não das tentativas de solução.
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E aí o melhor sentimento que posso ter em relação a você é torcer para que você ainda mude de atitude e de time - pois tolerância quanto a essa posição você jamais terá de mim, em nenhum tempo em que eu exista como consciência. Se busco ser parte da solução, como poderei tolerar uma parte do problema sem tentar resolvê-la, dissolvê-la?
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DEIXANDO BEM CLARO: NÃO identifico PT como "time do bem" e PSBD como "time do mal": a coisa é MUITO mais sutil que isso!! Mas neste momento em que temos que participar de uma escolha binária: ou ficará X no poder, ou ficará Y, e não existe terceira opção - está abolutamente claro que uma das opções já mostrou na prática que tem por objetivo reduzir o poder da dominação de um humano sobre outro, enquanto a outra opção mostrou que tem quando muito o objetivo de amaciar a dominação com algum creminho, mas jamais combatê-la de fato.
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E então diante dessa urna eu não tenho nenhuma dúvida do que minha consciência me manda fazer.
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Bom dia... aqui fala Ralf Rickli, brasileiro, 53 anos, que define sua atividade como "arte em ideias, palavras & educação", e peço licença de enviar a você uma única vez as razões do meu posicionamento na situação eleitoral atual. Não insistirei, mas se gostar peço que passe adiante a mensagem, ou pelo menos o link deste post.
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I
.De um lado, me surpreendo com o apoio a Serra por parte de algumas pessoas que parecem ter consciência social e sentimento ético. Não quero duvidar de que estão falando de boa fé, mesmo se tenho razões para considerá-la mais um caso de boa fé equivocada.
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Essa me parece ser a razão 1: informação insuficiente (porque colhida unilateralmente) e, sim, ingenuidade.
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É preciso entender que não foi por acaso nem por incompetência administrava que o Brasil chegou a 2002 como um país rico porém com a pior distribuição de renda do mundo: foi, ao contrário, por muita competência... no exercício da imoralidade, no exercício da gestão em benefício da minoria-de-que-se-faz-parte em detrimento da grande maioria. E não falo do governo FHC e sim de todos os 502 anos desde o descobrimento.
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Como imaginar que essas minorias beneficiadas pela má distribuição iriam deixar as coisas mudarem sem reagir?
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Nunca foram outra coisa senão sua reação, em benefício próprio, as ferozes campanhas de imprensa que, a partir de um ou outro "mosquito" (como é impossível evitar que haja em qualquer situação humana) buscam retratar o governo do PT como uma horda de dragões.
.Sei que para alguns é difícil crer que uma Editora Abril, que na virada 1960-70 ajudou a iluminar o país com publicações como a mensal Realidade, e depois a Veja dos tempos iniciais, dirigida por Mino Carta (atual diretor da Carta Capital) tenha se tornado a organização mafiosa que se tornou, capaz de pagar a jornalistas mercenários sem qualquer escrúpulo para fornecerem ao país uma imagem brutalmente deturpada dos fatos, fazendo crer que os mafiosos são os outros, e isso tudo em defesa da permanência de seu grupo de interesses no poder.
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Mas vejam a vida nas periferias de São Paulo, vejam o interior do Nordeste, vejam a imagem e o papel real do Brasil na arena internacional,
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... por outro lado recordem cuidadosa e honestamente o país que tínhamos antes, em todos esses níveis, com o domínio das elites que bancam as Vejas da vida para defendê-las...
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... e aí por favor relembrem o antigo ditado É PELOS FRUTOS QUE SE IDENTIFICA A NATUREZA DA ÁRVORE.
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II
.Mas no que acabo de dizer já está implícito que além da razão dos enganados existe a razão dos enganadores - e é aqui que a coisa se torna mais delicada, pois não há ser humano que não passe pela tentação de enganar para garantir confortos a si mesmo - inclusive se auto-enganar encontrando razões "justas" para o injusto.
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Com isso quero dizer: a razão 2 e mais decisiva para alguém escolher o Serra não é o Serra, e sim apenas afastar o PT do poder seja com o que for. E isso, por sua vez, se dá por este motivo preciso: o receio (mesmo que inconsciente, pouco consciente, ou disfarçado sob quilos de "desculpas") "quem vai trabalhar a preço de banana para mim e os meus, se essa distribuição de renda continuar?"
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Os "andares de cima" deste país foram formados por pessoas que eram zés-ninguém na Europa, e descobriram aqui o encanto de ter em quem mandar: qualquer um desses zés-ninguém logo virou sinhô, sinhá, comendador, em cima do trabalho de índios & africanos, trabalho que lá na Europa eles & os seus é que estariam fazendo.
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É esse o pânico ancestral que sobe das tripas, mesmo sem que se o entenda, quando se vê as grades da escada sendo retiradas e o pessoal do rés-do-chão começando a subir.
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CONCLUSÃO
.Como antídoto para a informação insuficiente e/ou ingenuidade, sugiro o que eu costumo fazer: ler (quase) todos os dias um pouco dos dois lados. Pois não deixo de ler as informações da fonte Folha/UOL, e às vezes também do/da Globo, Estadão e Abril...
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... mas também leio todos os dias um pouco desse admirável exemplo de busca de equilíbrio e sensatez que é o Luis Nassif e também do Luiz Carlos Azenha, e muitas vezes olho também essa escola de pensar ético e responsável que é o o blog do Leonardo Sakamoto, e espio ainda a Agência Carta Maior. Nem sonhem, aliás, que esses sejam sites extremados de esquerda, existe coisa léguas mais à esquerda do que eles! - que também consulto às vezes, e não cabe explicar agora por que não lhes dou prioridade.
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Digo que, dessa leitura dos dois lados, qualquer pessoa que tenha buscado cultivar um certo senso-de-verdade tão isento quanto possível sai com uma impressão bastante clara de quem é que está blefando na imensa maioria das vezes.
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Já quanto à ancestral e universal tentação de ser senhor de escravos, só posso sugerir exame de consciência profundo. Ninguém é realmente isento dessa tentação, mas podemos aprender a identificá-la em nós e a nos posicionarmos contra ela por princípio - um princípio que teremos que lutar todos os dias para não esquecermos, e para não desistirmos de tentar pôr em prática, apesar de atuar na contramão do nosso próprio conforto.
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Mas por quê optar por um princípio assim incômodo?
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Porque, acreditem: o ato de um ser dominar outro em benefício próprio é o ato fundamental do mal. Todos os outros males derivam precisamente disso, e de nada mais.
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Eu também tenho essa tentação, como todos - mas decidi, como disse, que jamais a aceitarei como legítima, e enquanto tiver ainda que um fio de consciência tentarei combatê-la antes de mais nada em mim mesmo.
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Se você também considera essa tentação ilegítima, e a sua superação o objetivo maior da humanidade, prazer: somos colegas. Por mais insuficientes que ainda sejamos na nossa realização.
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Mas se você considera legítimo que alguns dominem outros em benefício próprio... não, isso não é apenas mais uma opção com a qual se pode conviver: você com isso se faz cúmplice voluntário na culpa por todos os sofrimentos da espécie humana. Você optou por ser parte do problema da humanidade, e não das tentativas de solução.
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E aí o melhor sentimento que posso ter em relação a você é torcer para que você ainda mude de atitude e de time - pois tolerância quanto a essa posição você jamais terá de mim, em nenhum tempo em que eu exista como consciência. Se busco ser parte da solução, como poderei tolerar uma parte do problema sem tentar resolvê-la, dissolvê-la?
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DEIXANDO BEM CLARO: NÃO identifico PT como "time do bem" e PSBD como "time do mal": a coisa é MUITO mais sutil que isso!! Mas neste momento em que temos que participar de uma escolha binária: ou ficará X no poder, ou ficará Y, e não existe terceira opção - está abolutamente claro que uma das opções já mostrou na prática que tem por objetivo reduzir o poder da dominação de um humano sobre outro, enquanto a outra opção mostrou que tem quando muito o objetivo de amaciar a dominação com algum creminho, mas jamais combatê-la de fato.
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E então diante dessa urna eu não tenho nenhuma dúvida do que minha consciência me manda fazer.
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01 outubro 2010
o porquê dos meus votos, em poucas palavras
Compartilho com os amigos minhas opções para as eleições de 3 de outubro, com algumas poucas palavras explicando por quê.
Os de outros estados me desculpem, mas começo com a escolha mais crítica para os eleitores de São Paulo, como eu atualmente:
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MERCADANTE 13 governador
Moro no estado de SP há 23 anos, 13 deles na capital, frequentando-a intensamente nos outros 10.
Vi pessoas desesperadas tentando chegar ao trabalho sobre o teto dos ônibus ou penduradas nas portas nos tempos de Jânio Quadros, vazio tenebroso na cultura nos tempos de Maluf e Pitta, legiões de cidadãos vivendo nas calçadas sob Serra e Kassab. Mas vi o transporte, a cultura, a educação e a moradia melhorarem inacreditavelmente em prazos de 2 anos nas gestões do PT: Luiza Erundina e Marta Suplicy. O estado de São Paulo como um todo precisa ter a chance de experimentar isso - e para tanto agora só precisamos garantir que o candidato do psdb não ganhe no primeiro turno: depois temos mais um mês para virar o jogo por inteiro.
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DILMA 13 presidente
Admiro Marina Silva, vejo nela uma grandeza pessoal análoga à do Lula, e ainda quero vê-la presidente - mais adiante.
Pois o que tenho de conhecimento & entendimento me força a reconhecer Lula como um dos maiores gênios políticos da história. Sua construção da viabilidade interna do país com movimentos de escala internacional mostra-o como o primeiro líder a entender o alcance da força da globalização e a começar a inventar meios de domá-la.
Óbvio que se pode encontrar imperfeições na sua realização, pois humanos perfeito não existem, mas alguns se queixam de Lula deixar um buraco na estrada sem atentar pra que ele fez a estrada subir um Everest. E, se na reta final dessa imensa realização histórica, ele aponta Dilma como a pessoa ideal para o momento, não é agora que irei duvidar do seu tino.
(Obs.: quanto a Plínio, vejo nele o perfil de um excelente senador, jamais de um presidente).
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SARGENTO FERNANDO 4010 (PSB) deputado federal
Pela bravura de combater a corrupção, o arbítrio e a formação imbecilizante dentro do exército a ponto de pôr em risco a própria vida, e de dar visibilidade nacional à sua relação estável com outro sargento em defesa da sua causa e da vida do companheiro - mostrando a milhões de jovens como ele que sua orientação sexual não é incompatível com caráter, coragem e responsabilidade social - e naturalmente por seu belo programa de luta pela dignidade humana nas mais diferentes frentes: veja www.sargentofernando.com.br
Obs.: se pudesse dar 2 votos para esse cargo, votaria mais uma vez na brava Luiza Erundina 4021 - curiosamente, também no PSB.
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CARLOS NEDER 13999 deputado estadual
Voto nele confiando no aval do meu representante municipal, vereador Nabil Bonduki - entre outras coisas porque isso irá viabilizar a continuidade de Nabil na câmara, posição de onde já deu contribuições inestimáveis nas questões de habitação e plano diretor, além uma das maiores contribuições já feitas à cultura da cidade de São Paulo (o Programa VAI). Mas confesso que minha ligação com a região de Santos também me tenta a votar mais uma vez em Telma de Souza 13004.
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MARTA 133 e NETINHO 650 senadores
Claro que aqui eu preferia votar em Plínio de Arruda Sampaio, se este tivesse tido a grandeza maior de pôr-se a serviço, mas já que preferiu uma posição de onde pode falar o que quer sem ter que bancar, sejamos pragmáticos: precisamos de PT e aliados com força no legislativo, ou a capacidade de ação do executivo estará inviabilizada.
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EM TEMPO: na minha terra natal, Paraná, é óbvio que apoio com toda força Osmar Dias 12 pra governador, e quero ver o PT no Senado: Gleise 131. Sobre os outros cargos confesso que não estou suficientemente informado.
EM TEMPO: na minha terra natal, Paraná, é óbvio que apoio com toda força Osmar Dias 12 pra governador, e quero ver o PT no Senado: Gleise 131. Sobre os outros cargos confesso que não estou suficientemente informado.
LE MONDE sobre o Brasil: a história bonita que os anos Lula contam
Alain Frachon
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2010/10/01/brasil-os-anos-lula-contam-uma-historia-bem-bonita.jhtm
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2010/10/01/brasil-os-anos-lula-contam-uma-historia-bem-bonita.jhtm
Brasil: os anos Lula contam uma história bem bonita
Lula é o porta-estandarte da transformação do Brasil de potência virtual para potência real
O “Financial Times” o retratou como o Cristo Redentor, a estátua que, do alto do Corcovado, domina a baía do Rio de Janeiro. De braços abertos, protetor, zelando para sempre pelos brasileiros. Na premiação do Oscar 2011, o filme que representará as cores do Brasil é um longa-metragem que conta sua vida: “Lula, o filho do Brasil”. Até esse dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já terá deixado o poder – quase santificado, herói nacional, com um índice de popularidade recorde. A eleição presidencial acontecerá neste semestre.
Dilma Rousseff, 62, a candidata consagrada por Lula, está sendo dada como vencedora: levada pelo apoio do “grande homem”, ela poderá ganhar logo no primeiro turno, no dia 3 de outubro. Ela assumirá o cargo em janeiro. Será o fim dos “anos Lula”, os dois mandatos exercidos à frente do Estado pelo líder do Partido dos Trabalhadores, ex-líder do sindicato dos metalúrgicos, oitavo filho de uma família humilde, que deixou a escola aos 12 anos para se tornar engraxate de sapatos, vendedor de amendoins e depois torneiro mecânico na indústria automobilística aos 14 anos. Dessa adolescência passada em fábrica, o presidente Lula guarda a marca: um dedo amputado – não muito frequente na profissão.
Foi tudo isso que criou o mito. Mas não só isso. Se os anos da presidência Lula, 2002-2010, são celebrados desenfreadamente, é porque o homem está encarnando um momento-chave na história do país: o acesso do Brasil ao status de grande potência emergente. Juntamente com a China, a Índia e alguns outros, o Brasil é um dos Estados que estão modificando o mapa da distribuição do poder nesse início de século 21. Lula é o porta-estandarte dessa transformação, a passagem da potência virtual – “o Brasil, esse país do futuro e que continuará o sendo por muito tempo”, diziam no início do século passado – para potência real.
Primeiramente, é um sucesso econômico. O ex-líder do sindicato dos metalúrgicos “teve inteligência para aproveitar a onda da política conduzida por seu antecessor”, explica Alfredo Valladão, professor no Instituto Sciences Po e coordenador do centro de estudos União Europeia-Brasil. Lula aperfeiçoou a obra do presidente Fernando Henrique Cardoso, o homem da estabilização do real, a moeda nacional: ortodoxia monetária, privatizações, estabelecimento do país na globalização. Realista, mas fiel a seus compromissos, Lula somou a isso sua marca social: aumento do salário mínimo, bolsa de auxílio às famílias mais pobres.
Oitava economia mundial, o Brasil – 190 milhões de habitantes – acumula uma lista de trunfos impressionantes: riquezas naturais infinitas, indústria diversificada e, nesse país que tem 15 vezes o tamanho da França, um aproveitamento de terras que faz dele a principal potência agrícola mundial.
Em 16 anos – os mandatos FHC e Lula - , a classe média, já central, ganhou 35 milhões de pessoas. A economia se apoia em uma forte demanda interna e consegue resistir aos choques externos. Ela é levada por uma confiança no futuro apontada por todas as pesquisas de opinião. Os brasileiros estão otimistas em relação ao seu país; ao contrário dos europeus ou até mesmo dos americanos, eles estão certos de que seus filhos viverão melhor do que eles. Essa confiança também tem Lula, falastrão, de sorriso jovial, ombros de lenhador, charme para dar e vender.
Lula prevê: “o Brasil não ficará de fora do século 21, como foi o caso no século 20”. Fortalecido pelo peso de sua economia, o Brasil, assim como seus companheiros do topo das potências emergentes, a China e a Índia, quer sua parte de poder político na arena internacional. Ele briga por uma vaga de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU; por mais direitos no Fundo Monetário Internacional (FMI); pelo fim do G8, que reúne as potências mais antigas, as do Norte, em benefício da perpetuação do G20,onde países como o Brasil, a Turquia e a Indonésia exercem um papel à altura de sua importância econômica.
O Brasil quer ter peso sobre as questões do mundo. Mas em que sentido? Aqui, sem ingenuidade: por mais justificada que seja, essa ambição não deve ser interpretada como particularmente altruísta ou generosa. A diplomacia de Lula é a de uma potência que defende primeiramente seus interesses. É o perfeito reflexo do comportamento dos emergentes no cenário internacional. Os emergentes são, na maioria das vezes, adeptos do livre-comércio: na Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil quer uma nova rodada de liberalização do comércio e protesta contra o protecionismo agrícola da Europa. Os emergentes são soberanistas: nada é mais estranho a países como o Brasil ou a China do que a ideia de um direito de ingerência – ainda que humanitário – que passaria por cima do princípio da soberania dos Estados. E dessa posição advém outra: os emergentes não são adeptos dos direitos humanos, no sentido em que a defesa de certos princípios justificaria se não transgredir aquele da soberania dos Estados, pelo menos ser prudente na escolha de suas amizades.
É o lado sombrio dos anos Lula. Em nome de uma solidariedade Sul-Sul, ele mantém com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad uma relação de camaradagem além do que uma política real exigiria; no dia seguinte às eleições fraudadas, na verdade transformadas em golpe militar pelo mesmo Ahmadinejad, ele esbravejou, peremptório, que não havia ocorrido fraude em Teerã; em visita a Cuba, de braços dados com outro barbudo, ele fez pouco da greve de fome mantida pelos prisioneiros políticos do regime castrista – ele que, preso por um tempo pela ditadura militar brasileira, também fez greve de fome...
É uma lição. Mesmo presidida por Lula, uma potência emergente continua sendo um Estado; ela não é uma ONG.
(Esta crônica foi inspirada vergonhosamente na série especial do Le Monde, “Brasil, um gigante se impõe” (98 páginas, 7,50 euros), à venda até novembro, e que deve muito a Martine Jacot e a nosso correspondente no Rio de Janeiro, Jean-Pierre Langellier.)
Tradução: Lana Lim
02 julho 2010
14 junho 2010
Israel, a paz enganosa e o Estado Tupinambá do século 35
Dedico este artigo a todos os judeus de hoje que vêm honrando a tradição dos grandes profetas do seu povo e se colocando contra os crimes do movimento sionista e do Estado de Israel
Tenho recebido algumas tentativas de defender Israel no caso da flotilha que rumava para Gaza, em forma de denúncia de que eles “não eram na verdade pacifistas”. Entre elas se destaca a mensagem de uma médica brasileiro-israelense (ah, essas duplicidades a que nós comuns dos mortais não temos direito...) que teria “visto com os próprios olhos” provas das más intenções da flotilha.
Sua mensagem parece de boa-fé, mas é engraçado como contrasta com as vigorosas denúncias da posição de Israel como indefensável por parte de intelectuais e políticos judeus que constituem uma espécie de elite moral do seu povo - um deles o grande lingüista Noam Chomsky, um judeu que foi proibido de entrar e palestrar em Israel há poucas semanas. Outro, o jornalista e ex-parlamentar israelense Uri Avnery, que elencou 81 perguntas incômodas sobre o caso (link 1 no fim do post).
Sua mensagem parece de boa-fé, mas é engraçado como contrasta com as vigorosas denúncias da posição de Israel como indefensável por parte de intelectuais e políticos judeus que constituem uma espécie de elite moral do seu povo - um deles o grande lingüista Noam Chomsky, um judeu que foi proibido de entrar e palestrar em Israel há poucas semanas. Outro, o jornalista e ex-parlamentar israelense Uri Avnery, que elencou 81 perguntas incômodas sobre o caso (link 1 no fim do post).
Quero acreditar que essa médica seja uma pessoa boa porém ingênua, que nunca ouviu falar em evidências plantadas - risco que qualquer jovem brasileiro de periferia sabe que corre quando a polícia o manda parar.
Mas quero falar mesmo é de outra coisa: de o quanto pode ser enganosa a palavra “paz”.
Que eu lembre, em nenhum momento o pessoal da flotilha disse que era pacifista. Humanitário e pacifista não são sinônimos. Gandhi (o evidente modelo da ação da flotilha) nunca se disse pacifista, ele falava de luta não-violenta, de emprego da força da verdade (satyagraha).
Soa meio chocante, mas em política "paz" e "pacifista" são via de regra palavras ou de trouxa, ou de trapaceiro.
A chave pra entender isso é: o conceito "paz" só é real entre partes que estejam em igualdade de condições. Onde existem diferenças de poder ou de oportunidade, a palavra "paz" se torna sinônima de "não-perturbação da opressão". Como opressão é violência solidificada, onde há desigualdade a palavra "paz" sozinha já é uma mentira, um disfarce do seu contrário.
(Com “violência solidificada” quero dizer: transformada de ato momentâneo em estrutura duradoura. Para ajudar a entender: "receber um impacto de 10 toneladas" nos parece algo violento, mas não costumamos pensar o mesmo de "ter que suportar continuamente 10 toneladas nas costas" - o que é na verdade pior).
Já Santo Agostinho se referia a isso com a expressão "paz é fruto da justiça". Evito um pouco essa expressão porque a própria definição de "justiça" costumar gerar briga... Mas falei acima de "igualdade", e sei que essa palavra também arrepia a maior parte dos conservadores. Acaba exigindo explicações de que não estamos negando as diferenças naturais entre os indivíduos, apenas questionando as diferenças não-naturais, criadas e mantidas por ações humanas (quer individuais, quer coletivas; quer conscientes, quer inconscientes).
Aí as vezes vale lembrar, sobretudo pra conhecedores da Bíblia, que é precisamente o par igualdade/desigualdade que em linguagem mais antiga se dizia eqüidade/iniqüidade...
E por falar em Bíblia, temos visto que justamente quem recebeu uma educação cristã e/ou bíblica tende facilmente a procurar desculpas para o lado de Israel. E, olhando bem, descobrimos aí uma razão puramente emocional: os judeus são nossos conhecidos. Ouvimos os nomes e histórias deles desde o berço. Em contraste, na nossa mente "árabes" ou "persas" são apenas vultos sem rosto e sem história.
Mas partindo de um conhecimento desigual dos dois lados, nosso julgamento só pode terminar sendo iníquo - mesmo que por ingenuidade, como a de uma criança que não quer que prendam o Papai Noel que é na verdade um ladrão disfarçado.
Com conhecimento equitativo dos fatos reais relativos aos dois lados, presentes e passados, a mera existência do atual Estado de Israel se mostra como uma barbaridade injustificável. Os dados que vou mencionar a seguir provêm de historiadores e jornalistas judeus, não árabes; apenas que de judeus moralmente responsáveis: para começar, os judeus que criaram o Estado de Israel não descendem do povo judeu dos tempos bíblicos, e sim de integrantes de outros povos convertidos ao judaísmo em tempos pós-bíblicos (ver o link 2, para texto de um historiador da Universidade de Tel-Aviv).
Esses neo-judeus da Europa já haviam convencido e financiado os cristãos a fazerem guerras de conquista daquela região no século 12 (as cruzadas). E de certa forma repetiram a dose entre a 1.ª e a 2.ª guerras mundiais, quando praticamente obrigaram os ingleses a apoiá-los na invasão da região - inclusive chantageando-os com atos de terrorismo (é isso mesmo o que eu disse: terrorismo de judeus contra ingleses).
Não vou entrar agora no histórico de barbaridades e massacres que vem sendo perpetrado há um século por esses neo-judeus contra os povos que viviam há mais de dois mil anos na região cobiçada, ainda falando em grande parte a língua que Jesus falava: o aramaico. Vou só destacar que há mais sangue de judeus dos tempos bíblicos no povo palestino que nos judeus que saíram da Europa pra implantar o Estado de Israel.
Não foram reconhecidos como tais porque a palavra “judeu” não se refere a um povo e sim a uma religião, e boa parte daqueles judeus originais havia se convertido ao cristianismo, e outra parte ao islamismo - o qual havia surgido como uma espécie de retorno ao monoteísmo “linha-dura” dos tempos do Velho Testamento, enquanto o judaísmo medieval tinha virado na prática um festival de recurso a seres espirituais intermediários, aliás bastante parecido com a umbanda.
O ESTADO TUPINAMBÁ. Acho que a situação atual da Palestina fica mais clara com uma comparação imaginária - que, não me entendam mal!, não traz nenhuma acusação aos tupinambás verdadeiros, e nem qualquer desculpa para o terrível genocídio praticado nas Américas pelos invasores europeus de que em parte descendemos. Mas vamos lá:
Imaginem que uns poucos descendentes de índios tupinambás espalhados pelo mundo fossem pouco a pouco convencendo pequenos grupos, aqui e ali, a adotar elementos da antiga religião e costumes dos tupinambás, e a se identificarem com esse nome.
Então, por volta do futuro ano de 3400, esses grupos escolhem um nome histórico como símbolo, se organizam como "movimento pindoramista" e começam a invadir a costa e a primeira faixa dos planaltos brasileiros do Maranhão até São Paulo, e a exigir a soberania da região, com a submissão de todo o povo que se formou aí nesse meio tempo (que neste exercício podemos imaginar como o que somos hoje, embora não saibamos como vai ser daqui a 1400-1500 anos).
Conseguem apoio internacional para uma partilha que deixa umas pequenas faixas descontínuas fora da sua soberania, mas depois não cumprem o acordo e começam a invadir também o resto, pois "historicamente lhes pertence".
Aí, quando algum de nossos tatatatataranetos, desesperado de ver seus amigos e parentes reduzidos à miséria e opressão, cometer algum ato contra eles, será acusado de "não querer a paz".
E ali pelo ano 3450 um líder pindoramista proclamará: "devemos matar cem ou mil brasileiros para cada tupinambá que eles matam".
Essa frase foi pronunciada a semana passada pelo sionista Ron Torossian, organizador da manifestação “Estamos com Israel” em frente à missão da Turquia na ONU: “devemos matar cem ou mil árabes por cada judeu que eles matam”.
Mas isso não é uma reação a violências recentes: ele está apenas dando continuidade ao programa definido já na década de 1920 pelo ideólogo do "sionismo revisionista" Zeev Jabotinsky: “a única maneira de impor o Estado judeu será esmagando os árabes” (v. link 3).
Esse árabes que de lá para cá só deram provas de que merecem mesmo ser esmagados, e precisamente pelo crime de não se deixarem esmagar sem reagir: "queríamos poder roubá-los e pisá-los sem derramamento de sangue, mas eles são perversos: não sabemos por quê, não nos deixam fazer isso em paz."
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Link 1: Uri Avnery (jornalista e ex-parlamentar israelense),
“O que o governo e os militares israelenses tentam esconder”
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/uri-avnery-o-que-o-governo-e-os-militares-israelenses-tentam-esconder.html
“O que o governo e os militares israelenses tentam esconder”
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/uri-avnery-o-que-o-governo-e-os-militares-israelenses-tentam-esconder.html
Link 2: Schlomo Sand (historiador e professor da Universidade de Tel Aviv),
“Como surgiu o povo de Israel?”
http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1147
“Como surgiu o povo de Israel?”
http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1147
Link 3: Juan Gelman (escritor judeu argentino), “Inexplicável?”
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16672
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16672
Outra recomendação importante sobre os métodos do Estado de Israel:
o filme “Munique”, do judeu Steven Spielberg.
12 junho 2010
Discurso-denúncia de veterano do Iraq - no youtube, legendado
Um amigo acaba de mandar o link. É triste, mas também bonito ver que tem gente falando assim nos USA.Comentei no meu orkut:
"Os verdadeiros terroristas éramos nós" - "São bilionários pondo pobres para lutar contra pobres" e muito mais. Dolorido, mas IMPRESCINDÍVEL. Neste momento uma das melhoes coisas que poderiam acontecer PELO MUNDO seriam mil, cem mil desses falando em todas as cidadezinhas dos EUA.
E respondi ao meu amigo: "Se é verdade que ele apareceu morto dois dias depois, não sabemos, mas isso não afeta a enorme verdade do discurso. O sistema é grande o suficiente pra agüentar contestações como essas... mas também perverso o suficiente pra às vezes matar como exemplo... Os EUA precisavam de uma nova onda de resistência jovem como houve contra a guerra do Vietnã... mas infelizmente parece que neste momento vem sendo bem o contrário, que são os fascistas e conservadores que estão crescendo lá... Por isso, ver esse discurso é acalentador. Realmente espero que não seja verdade que apagaram o moço... mas se for, que seja uma semente que faça brotar mil no lugar!
03 junho 2010
o 'impulso de Manu' e a Flotilha da Liberdade
O 'impulso de Manu'
e a Flotilha da Liberdade
- compartilhando um [pre]sentimento pessoal -
Neste artigo se optou por dizer as coisas com a linguagem antroposófica - derivada da obra de Rudolf Steiner. Toda linguagem é um sistema de símbolos. As coisas mais relevantes têm uma realidade para lá dos símbolos, e portanto também poderiam ser ditas com outras linguagens, totalmente diversas. Há razões para termos escolhido esta, neste caso. Quais, seria uma discussão à parte, mas de relevância quase nula em comparação com a do que se quer dizer. Que toda atenção fique, portanto, com o que se quer dizer, não com o 'como'.
Não faz muito tempo tive a oportunidade de fazer a revisão e editoração da tradução que o amigo Gerard Bannwart fez do último livro de Bernard Lievegoed, "O Salvamento da Alma" - agora disponível no catálogo das Edições Micael, de Aracaju.
Não faz muito tempo tive a oportunidade de fazer a revisão e editoração da tradução que o amigo Gerard Bannwart fez do último livro de Bernard Lievegoed, "O Salvamento da Alma" - agora disponível no catálogo das Edições Micael, de Aracaju.
Consistindo de memórias e reflexões expressas oralmente quando o autor, literamente, já se encontrava mais próximo do além que do cotidiano terrestre atual, era inevitável que ele abandonasse aí a reserva quanto às dimensões esotéricas do seu pensamento - reserva de que fez uso em trabalhos como "Fases da Vida" ou "Desvendando o Crescimento", em que falava basicamente como um médico ou psicólogo "que sabe um pouco mais".
O tema principal de "O Salvamento da Alma" são as três correntes espirituais cuja atuação o autor vê como como decisivas no mundo de hoje, e ao mesmo tempo como componentes indispensáveis do movimento antroposófico, mutuamente complementares, se for para este chegar a efetivamente cumprir suas missões perante a humanidade. (Nunca é demais a ênfase em que essas correntes pertencem ao mundo, não a um movimento; um movimento pode ser melhor ou pior instrumento das atuações de correntes assim, ou até mesmo deixar de ser deixar, mas nunca contê-las).
Uma dessas correntes teria por missão tratar especialmente das questões do conhecer, da (auto)consciência do espirito - e seria liderada (digamos assim) pela individualidade espiritual que se manifestou em Rudolf Steiner. Outra tem a ver sobretudo com a elaboração da matéria pelo espírito, envolvendo p.ex. - entre outras áreas - a farmacologia e a agricultura, e seria liderada pela individualidade conhecida como Christian Rosenkreuz.
Como se vê, em termos antroposóficos temos aí caminhos ligados prioritária e respectivamente ao Pensar e ao Querer. E o caminho do Sentir? Lievegoed o vincula à individualidade de Manu/Menes/Mani, da qual Rudolf Steiner teria dito possuir um grau espiritual de longe superior ao dele próprio e ao de Christian Rosenkreuz. Isso é bem compreensível pelo fato de esse caminho - o do Coração - ser responsável não só por si mesmo como também pela integração do conjunto dos três. (Parêntesis meu: o que foi expresso em termos de Filosofia, de modo independente, como "a Lógica do Terceiro Incluído", pelo filósofo rumeno Stéphane Lupasco, nas décadas de 30 a 60 do século passado).
A atuação principal da corrente de Manu seria a restauração, manutenção e desenvolvimento da capacidade de vínculo, solidadriedade e cooperação, sem a qual os seres que somos permanecem no nível do animal; sequer se efetivam como humanos. (Idem: outra percepção de Rudolf Steiner que foi amplamente reafirmada por pensadores e pesquisadores do século XX, entre eles o russo Vygotsky e o brasileiro Paulo Freire, e mais recentemente pela neurociência).
O impulso de Manu estaria presente em todas iniciativas das pessoas comuns de se ajudarem mutuamente, sem esperar soluções do Estado e sem interesses comerciais - mas não me cabe desenvolver isso em detalhes aqui: para tanto é melhor ir direto ao livro de Lievegoed.
Daqui para frente saio dos parênteses e assumo a frente do discurso pessoalmente: Neste momento o organismo-humanidade inteiro vem sofrendo direta e indiretamente (no sentido do agravamento de riscos) as conseqüências da defesa inadequada de uma causa inicialmente justa, porém que enveredou pelo pecado de considerar que alguns humanos são mais humanos que os outros.
Há poucos dias entrei em contato pela primeira vez com as reflexões de Gandhi (um óbvio representante da corrente de Manu) sobre a problemática judaica - e é impressionante como já nos anos 30 ele apontava que o encaminhamento dado à questão pelo movimento sionista estava levando a atos "que não podem ser justificados por nenhum código de conduta moral", a "crimes contra a humanidade", a "afundar em brutalidade". (Alguns trechos estão disponíveis em português, em tradução minha, em http://bit.ly/c6aEet ; a coletânea de todos esses textos em inglês se encontra em http://bit.ly/dw9PuG ).
Mas ainda hoje quem se limita ao que vê na grande imprensa, sem se dar o trabalho de pesquisar em fontes suficientemente sérias e isentas, dificilmente imagina que seja tamanha a lista de atrocidades cometidas pelos governos de Israel desde a criação do país - e ainda antes pelos ativistas sionistas -, e que o grau de violência empregado, e o número de vítimas tanto fatais quanto 'meramente' reduzidas à miséria, é da ordem de dezenas de vezes tudo o que os vizinhos árabes já tenham feito contra Israel ou contra judeus, se não de centenas. (E, por favor, não diga que não antes de pesquisar!)
Somente mais algumas linhas de contextualização para o que vou dizer depois: atualmente 1 milhão e meio de pessoas vivem na faixa de Gaza em condições de campo de concentração. Conseguiu-se reconstruir, e precariamente, no máximo 1/4 do que foi destruído pelos bombardeios de 2008 - e que havia sido quase tudo . Israel não deixa entrar cimento - nem lâmpadas, velas, fósforos, livros, instrumentos musicais, giz de cera (!), roupas, sapatos, colchões, lençóis, cobertores, chá, café, chocolate, xampu. Comida e medicamentos básicos são de longe insuficientes. Assistência médica depende de conseguir um lugar na cota fixa dos que se deixa sair para isso, e muitos morrem sem conseguir.
A ONU já emitiu incontáveis ordens de levantar o bloqueio e é sumariamente ignorada. E 'razões de Estado' pareceram impedir até agora que qualquer governo se atreva a tomar medidas enérgicas contra essa e inúmeras outra violações dos acordos internacionais em vigor - se é que isso não se deve ao simples fato de Israel ter construído entre 100 e 200 bombas nucleares enquanto insistia em que ninguém mais pode tê-las.
A ONU já emitiu incontáveis ordens de levantar o bloqueio e é sumariamente ignorada. E 'razões de Estado' pareceram impedir até agora que qualquer governo se atreva a tomar medidas enérgicas contra essa e inúmeras outra violações dos acordos internacionais em vigor - se é que isso não se deve ao simples fato de Israel ter construído entre 100 e 200 bombas nucleares enquanto insistia em que ninguém mais pode tê-las.
No meio disso, 750 civis enchem seis navios com comida, medicamentos, cimento, roupas, e até brinquedos, e partem desarmados para Gaza.
Nem preciso relatar aqui que os barcos foram invadidos na escuridão das 4 e meia da manhã em águas internacionais, e seus tripulantes levados à força para Israel - país a que nem pretendiam chegar, pois Gaza oficialmente não faz parte dele.
Porém o que mais me impressionou em toda a seqüência dos fatos foi a recepção que os integrantes da flotilha tiveram depois, nos locais para onde foram "deportados" do país para onde tinham sido levados à força: na fronteira da Jordânia uma multidão começou a se formar dez horas antes da chegada dos ônibus; quando estes chegaram, seus passageiros foram recebidos entre festas e cantos e aclamados como heróis. Coisas semelhantes - mesmo se com ar menos 'interiorano' - se deram nos aeroportos da Turquia e da Grécia.
Motivado por sentimentos anti-Israel ou anti-judeus?
Não: olhem as fotos, olhem as caras: pelo menos nesses momentos, não existe um só rosto anti nada, só pró: pró uns aos outros, pró humanidade, pró restauração na crença de que podemos agir movidos pela compaixão e solidariedade até o nível do heroísmo, a despeito das razões de Estado e dos interesses econômicos. Um momento de emocionanete reencontro da humanidade com o melhor de si mesma, cujo impulso precisa ser percebido, captado, haurido, amplificado dentro de nós e devolvido ao mundo multiplicado milhares, milhões de vezes. Pois dificilmente se encontrará resposta melhor aos ataques tanto do poder-por-interesse-em-vantagens-concretas (Áriman) quanto do poder-pelo-gosto-do-poder (Lúcifer).
Estarei fantasiando quanto à nobreza de sentimentos de palestinos e jordanianos? Dou a palavra a Hedy Eppstein, 85 anos, judia cuja família toda pereceu em Auschwitz e que escapou da Alemanha nazista por pouco - e militante pela causa palestina desde 1982. Hedy já esteve cinco vezes na Cisordânia desde 2003 "para ver de perto o que estava acontecendo". "Muitos me diziam para ter cuidado, que como judia corria riscos nos territórios palestinos, mas a verdade é que os palestinos abriram suas casas e seus corações para mim, e até me protegeram do perigo, o qual veio do outro lado: o governo israelense."
Hedy está em sua terceira tentativa de chegar a Gaza, inclusive participando de uma caminhada através do deserto. Tentou embarcar na Flotilha da Liberdade em Chipre; como não conseguiu, pretende se juntar ao barco irlandês que, apesar de todo o acontecido, segue neste momento o mesmo trajeto da Flotilha da Liberdade, levando entre outros a Nobel da Paz Mairead Maguire. Consta, aliás, que diversos outros barcos estão se preparando para fazer o mesmo.
As fotos no início do artigo são de Hedy Eppstein, sobre a qual se encontram algumas informações adicionais em http://bit.ly/bS2Rt6 , e de Iara Lee, documentarista brasileira filha de coreanos e radicada em Nova York, que resolveu participar da Flotilha da Liberdade pelas razões que expôs em http://bit.ly/bTjJd4 . Seu relato depois do acontecido se encontra em http://bit.ly/dtONsA .
E agora deixo o assunto com vocês!
São Paulo, dia de Corpus Christi de 2010
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Ralf Rickli • arte em idéias, palavras & educação
http://ralf.r.tropis.org • (11) 8552-4506 • S.Paulo
Ralf Rickli • arte em idéias, palavras & educação
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Ralf R só-a-consciência-no-ato-salva!
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28 maio 2010
22 março 2010
Reflexões informadas e maduras sobre a indefensabilidade de um Estado criminoso: Israel
Longo, porém fundamental. Trata-se de uma das questões nucleares da História Mundial ao longo de milênios, e está integralmente ativa. Não dá pra estar-no-mundo com a consciência sem acompanhar este assunto - infelizmente! (Zé Ralf)
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/finkelstein-em-gaza-israel-foi-longe-demais.html
22 de março de 2010 às 16:24
Finkelstein: Em Gaza, Israel foi longe demais
3/3/2010 - “A devastação de Gaza pelos israelenses, contra uma população civil cercada – e usando bombas, dinheiro e cobertura diplomática dos EUA – foi tão brutal e horrenda que mudou para sempre o modo como o mundo vê o conflito no Oriente Médio” [Glenn Greenwald, blogueiro de Salon.com, durante a guerra de Gaza].por Norman Finkelstein, em Counterpunch
A indignação mundial gerada pela invasão de Gaza não nasceu do nada nem foi repentina. De fato, foi a culminação de uma curva que há muito tempo marcava o crescente declínio do apoio a Israel em todo o mundo. Como mostram dados de pesquisas recolhidos nos EUA e Europa, todos os públicos, de judeus e não-judeus, foram-se tornando cada vez mais críticos das políticas israelenses ao longo de toda a última década. As imagens horrendas de morte e destruição mostradas pela televisão em todo o mundo durante a invasão de Gaza aceleraram aquele processo. “A frequência brutal e sempre crescente de guerra naquela região volátil fez mudar a tendência da opinião internacional” – escreveu o British Financial Times em editorial, um ano depois da invasão de Gaza –, “fazendo lembrar que Israel não está acima da lei. Israel não pode continuar a di tar os termos dessa discussão.”
Pesquisa feita nos EUA logo depois do ataque israelense a Gaza mostrou que o número de eleitores norte-americanos que se autodefiniam como apoiadores de Israel havia caído de 69% antes do ataque, para 49% em junho de 2009; e o número de eleitores que acreditavam que os EUA deveriam continuar a apoiar Israel, caiu de 69% para 44%.
Consumida pelo ódio, cheia de arrogância e confiante de que poderia controlar ou intimidar toda a opinião pública, Israel atacou Gaza com fúria de assassino que confia que jamais será apanhado, mesmo que promova assassinatos em massa à luz do dia. Mas, embora o apoio oficial a Israel não se tenha alterado no ocidente, a carnificina fez crescer uma onda sem precedentes de indignação popular em todo o mundo. Seja porque o ataque contra Gaza veio depois da devastação que Israel provocou no Líbano, ou por causa da incansável perseguição contra o povo de Gaza, ou seja, porque o ataque a Gaza foi ataque covarde, fato é que o ataque a Gaza em dez.-jan. 2009, parece ter marcado um ponto de virada na opinião pública em relação a Israel. O mesmo tipo de mudança aconteceu também depois do massacre de negros em Sharpeville, em 1960, na África do Sul.
Nas organizações oficiais da diáspora judaica, que têm laços antigos com Israel, o apoio continuou como sempre, cego. Ao mesmo tempo, contudo, organizações de judeus progressistas começaram a afastar-se de Israel, umas mais, outra menos. Enquanto, antes, todos os judeus mais conhecidos no mundo sempre apoiaram as guerras de Israel, muitos, dessa vez, mostraram-se ambivalentes durante a invasão, com uma maioria mais idosa e declinante que saiu em defesa de Israel e uma minoria crescente, mais jovem, que declaradamente fez oposição à invasão de Gaza. Entre o crescente incômodo dos mais jovens em face do belicismo israelense e as muitas vacilações ante a tarefa de apoiar Israel, o massacre de Gaza marcou uma primeira grande fissura no, antes, irrestrito apoio dos judeus a todas as guerras de Israel. Muitos constataram que, ao mesmo tempo em que em todo o ocidente as manifestações contra os ataques a Gaza foram sempre multiétnicas (com a presença de muitos judeus), as demonstrações ‘pró’ Israel sempre reuniram quase exclusivamente judeus.
A evidência de que a oposição ativa à política de Israel – por exemplo, nas universidades – já extrapolou os limites do mundo árabe-muçulmano e já alcançou públicos aos quais antes não chegava, ao mesmo tempo em que encolheu o apoio ativo a Israel, já confinado a uma fração do núcleo mais conservador dos judeus étnicos, é importante indicador da direção para a qual as coisas estão andando. A era da “bela” Israel já passou, parece que para sempre; foi substituída por uma Israel desfigurada que, nos últimos tempos ocupa a consciência pública e provoca embaraço cada dia maior. Não se trata apenas de Israel agir ainda mais mal do que antes, mas, sobretudo, de as ações de Israel terem ultrapassado o limite do que as consciências toleram.
Já não é possível negar ou desqualificar o que todos veem. A documentação do conflito árabe-israelense estabelecida por historiadores conhecidos conflita com versões popularizadas por livros como Êxodo de Leon Uris. Há evidências de inúmeras violações por Israel dos direitos humanos básicos dos palestinos, todas documentadas por organizações conhecidas; essas evidências não confirmam os discursos israelenses e o muito alardeado compromisso com “a Pureza das Armas” [heb. Tohar HaNeshek; ing. Morality in Warfare; é o código ético do Exército de Israel: “moralidade/pureza na guerra”]. As deliberações de corpos políticos e jurídicos respeitados ma nifestam graves dúvidas quanto ao alardeado compromisso de Israel com a resolução pacífica de conflitos. Por muitos anos, os ‘apoiadores’ de Israel conseguiram evitar o impacto da documentação que se foi acumulando; na maioria dos casos, ocultaram-se por trás de duas espadas gêmeas sempre em riste: o Holocausto e um “novo antissemitismo”.
Houve quem dissesse que os judeus não poderiam ser avaliados pelos padrões morais/legais comuns, depois do inexcedível sofrimento pelo qual passaram durante a II Guerra Mundial e que toda e qualquer crítica às políticas de Israel seriam sempre motivadas por um jamais extinto ódio aos judeus. Quanto a isso, além do desgaste que sofrem todos os argumentos excessivamente usados, esse argumento perdeu muito da eficácia que algum dia teve quando as críticas às políticas de Israel chegaram, afinal, às correntes mais amplas da opinião pública. Incapazes de responder àquelas críticas, os apologistas de Israel conjuram hoje as mais bizarras teorias para explicar o ostracismo ao qual se condenaram. Para George Gilder, guru ‘econômico’ do governo Reagan, o sistema de livre mercado teria modo específico para desencadear os potenciais humanos; e que portanto, sob sistemas de livre mercado, os judeus d everiam “estar sempre representados não proporcionalmente nos escalões superiores”, porque seriam seres humanos naturalmente mais bem dotados que outros. Inversamente, se os judeus não estiverem no comando, comprovar-se-ia que o sistema econômico não alcançou a perfeição.
O antissemitismo brotaria do ressentimento provocado pela “superioridade e excelência dos judeus” e pela “manifesta supremacia dos judeus sobre todos os demais grupos étnicos”; e o ódio contra Israel, do fato de Israel ter evoluído (sob a inspirada tutela de Benjamin Netanyahu) num perfeito sistema de livre mercado que “concentra o gênio dos judeus,” fazendo de Israel “uma das potências capitalistas mundiais líderes” e inveja do mundo: “Israel é odiada sobretudo por suas virtudes.”
Se há judeus que criticam Israel, tratar-se-ia de pura inveja: “os judeus destacam-se tanto e tão rapidamente nos campos intelectuais, que deslocam e derrotam todos os rivais antissemitas.” O ocidente deve tratar, isso sim, de proteger Israel e os israelenses contra “as quimeras mundiais de soma-zero e as fantasias de vingança e morte dos jihadistas”, e contra “as massas bárbaras”, porque foram os talentos e dotes dos judeus que levaram a humanidade “a crescer e prosperar”; em conclusão, porque os judeus são “decisivos para a raça humana”.
E prossegue: “se Israel for destruída, toda a Europa capitalista morrerá; e os EUA, epítome do capitalismo criativo e produtivo empurrado pelos judeus, estará sob grave risco”; “Israel é a vanguarda da próxima geração de tecnologia; está na linha de defesa de uma nova guerra racial contra o capitalismo, contra a individualidade e o gênio judeu”; “Assim como o livre mercado é necessário à sobrevivência das populações humanas sobre a face da Terra, a sobrevivência dos judeus é necessária para garantir o triunfo das economias livres. Se Israel for calada ou destruída, todos sucumbiremos ante as forças que hoje combatem o capitalismo e a liberdade em todo o mundo.”
Do outro lado do Atlântico, Robin Shepherd, diretor de assuntos internacionais da Henry Jackson Society, sediada em Londres, garante que Israel foi alvo de críticas fortes pelo ocidente, não porque seja campeã da defesa dos direitos humanos, mas porque é Estado capitalista democrático obrigado a lutar na linha de frente, ao lado dos EUA, contra o islã radical que seria “ameaça civilizacional”: “Israel tornou-se inimiga não por algo que tenha feito”, mas “porque estava do lado errado das barricadas”. A “principal plataforma de energização no ocidente” para essa “maré incontrolável de histeria, mistificação e distorções contra o Estado judeu” são “os marxistas totalitários e a esquerda liberal, viajantes que, desapontados pelo proletariado ocidental e desiludidos das lutas de libertação do Terceiro Mundo, uniram-se em causa comum com “o islã militante” para destruir a ordem mundial liberal-capitalista. Embora esses críticos de Israel não seja antissemitas no tradicional sentido “subjetivo” de desprezar os judeus por serem judeus, são agentes de um antissemitismo “objetivo”, porque Israel tornou-se fator central da identidade dos judeus no mundo contemporâneo.
Mas a oposição a Israel também emanaria dos ‘sangue-azul’ do antigo regime que sonham com restaurar as hierarquias do velho mundo, devolvendo-as ao ponto em que teriam sido rompidas pelos arrivistas judeus. Essa conspiração neoantissemita reuniria “quase todos” os que acusam Israel de ter cometido crimes de guerra e de outras violações das leis internacionais. Evidentemente, deve-se entender que, por trás da condenação de Israel pela Anistia Internacional e pela Corte Internacional de Justiça, Jimmy Carter e Mairead Corrigan Maguire ganhadores do Prêmio Nobel, o Financial Times e a BBC, age a mão oculta da gangue dos radicais esquerdistas fanáticos aristocratas islâmicos. Para os que queiram saber mais, Shepherd recomenda “fortemente” que leiam The Case for Israel, de Alan M. Dershowitz.
Embora falte credibilidade a essas explicações para o isolamento de Israel, não há dúvidas de que as ações de Israel entraram em queda livre. Embora Israel tenha conquistado muitos simpatizantes ocidentais depois de fulgurante vitória de junho de 1967, a verdade é que, nos anos mais recentes, já está reduzida a Estado pária, sobretudo entre os europeus. Pesquisa de 2003 feita pela União Europeia, classificou Israel como principal ameaça à paz do mundo. Em 2008, pesquisa de opinião pública global classificou Israel como o principal obstáculo à paz no conflito Israel-Palestina. Em pesquisa do BBC World Service, feita imediatamente depois da invasão de Gaza, 19 dos 21 países pesquisados manifestaram opinião negativa sobre Israel.
Simultaneamente, sob o título “Second Thoughts about the Promised Land” [“Pensando melhor sobre a Terra Prometida”][1], a revista The Economist reporta em 2007 que “embora a maioria dos judeus da diáspora ainda apóiem Israel, aumentaram as dúvidas e a ambivalência.” Vozes de judeus discordantes começam a fazer-se ouvir na Grã-Bretanha, na Alemanha e em outros países, desafiando a hegemonia das organizaçõe s judias oficiais que repetem como papagaios a propaganda israelense. Nos EUA as tendências ainda não são muito claras, mas nem por isso menos significativas. Avaliando-se pelos dados de pesquisa, pode-se dizer que os norte-americanos sempre tenderam consistentemente mais a favor de Israel que dos palestinos. Mas os norte-americanos cada vez mais claramente também apóiam que os EUA trabalhem para mediar o conflito; mais recentemente, já há pesquisas que mostram “níveis equivalentes de simpatia” pelos dois lados, e minoria já substancial opinou que as políticas dos EUA favorecem (ou favorecem muito) Israel; uma robusta maioria de norte-americanos “opinaram que Israel não está fazendo bem a parte que lhe cabe de esforços para resolver o conflito”; e já há muitos norte-americanos que pregam o uso de sanções para conter Israel.
Significativamente, a maioria dos norte-americanos também apoiaram um acordo de dois Estados sobre as fronteiras demarcadas em junho de 1967, com total retirada dos israelenses dos territórios ocupados na guerra de junho. “Sim, as pesquisas mostram forte apoio a Israel,” observou em 2007 M. J. Rosenberg, diretor de análises políticas do Israel Policy Forum, a respeito das tendências de então; contudo “esse apoio a Israel, como mostram as pesquisas, é amplo mas não é muito profundo.” Esse fenômeno observa-se quase todos os dias nas “Cartas do Leitor”. Cada vez que aparece alguma coluna sobre Israel, sobretudo se critica Israel, aparecem várias cartas de leitor. A maioria apoia a posição israelense. E quase sem exceção as cartas são assinadas por judeus. A vasta maioria [de não judeus norte-americanos] que se supõe que sejam também favoráveis às posições de Israel não escrevem. Conforme pesquisa de 2007 feita pela Liga Antidifamação [ing. Anti-Defamation League (ADL)] a opinião de norte-americanos a favor de Israel é acentuadamente menos favorável do que suas opiniões favoráveis pró Grã-Bretanha e Japão; e é praticamente tão favorável quanto as opiniões pró Índia ou México. Quase a metade dos respondentes entendem que os EUA devem trabalhar aliados a Estados árabes “moderados”, “mesmo que isso contrarie Israel”.
Metade ou mais dos norte-americanos pesquisados culpam igualmente Israel e o Hizbollah pela guerra do Líbano, no verão de 2006, e apoiaram uma posição (mais) neutra dos EUA. Além disso, em anos recentes, vários grupos religiosos, como a Igreja Presbiteriana dos EUA, o Conselho das Igrejas, a Igreja Unida de Cristo e a Igreja Metodista Unida têm apoiado iniciativas, inclusive a favor do desinvestimento em corporações, para forçar o fim da ocupação da Palestina. Em pesquisa de 2005, feita por Steven M. Cohen, judeu, constatou-se que “a ligação dos judeus norte-americanos com Israel enfraqueceu de modo mensurável nos últimos dois anos, (…) seguindo tendência que se observava há muito tempo.” Menos respondentes, em relação a pesquisas anteriores, declararam prontamente seu apoio a Israel, que conversavam sobre Israel ou que participavam de atividades de apoio a Israel.
Significativamente, não houve declínio semelhante em outras mensurações de identificação com os judeus, incluindo práticas religiosas, observação de preceitos religiosos ou afiliação comunitária. A pesquisa mostrou 26% que se declaram “muito” emocionalmente ligados a Israel, menos que os 31% que se viram em pesquisa de 2002. Cerca de 2/3, 65%, declararam que acompanham de perto o noticiário sobre Israel, menos que os 74% da pesquisa de 2002; e 39% disseram que conversam regularmente com amigos judeus; menos que os 53% de 2002.
Israel também caiu nas pesquisas como componente da identidade judaica pessoal dos respondentes. Quando lhes eram mostrados vários fatores, entre os quais religião, justiça social e comunidade, ao lado de “preocupação com o destino de Israel”, e perguntados “quanto, de cada um desses fatores, pesa no seu sentimento de ser judeu?”, 48% responderam que Israel pesa “muito”; em 2002, foram 58%. Apenas 57% afirmaram que “a preocupação com o destino de Israel é parte muito importante do meu sentimento de ser judeu”; em pesquisa idêntica, de 1989, foram 73%. Pesquisa de 2007, feita pelo Comitê Judeu Norte-americano [ing. American Jewish Committee] mostrou que 30% dos judeus sentiam-se “distantes” ou “muito distantes” de Israel. “No longo prazo”, prevê Cohen, haverá uma “polarização nos judeus norte-americanos: um grupo cada vez menor de judeus mais fortemente religiosos cada vez mais ligados a Israel; e um grupo maior, que se afastará do grupo menor.”
Pesquisa de 2006 mostrou que, entre os judeus norte-americanos de menos de 40 anos, 1/3 declarou-se “distante” e “muito distante” de Israel; pesquisa de 2007 mostrou que, entre os judeus de menos de 35 anos, 40% declarou “fraca ligação” com Israel (apenas 20% declararam “forte ligação”). Surpreendentemente, menos da metade dos respondentes responderam “sim; a destruição de Israel seria vivenciada como tragédia pessoal.” O ex-presidente da Agência Judaica [ing. Jewish Agency] fez soar sinal de alarme, ao divulgar que “menos de 24% dos judeus norte-americanos jovens participam de organizações judaicas. Menos de 50% dos judeus norte-americanos com menos de 35 anos sentem-se profundamente ligados ao povo judeu. Menos de 25% dos judeus norte-americanos com menos de 35 anos autodefinem-se como sionistas.”
Nas universidades norte-americanas, observa-se a queda no apoio a Israel não só entre os alunos judeus em geral, mas também, e principalmente, entre os sionistas reunidos nos Hillels [ing. Hillel Foundation for Jewish Campus Life][2]. “Alunos universitários judeus são claramente menos ligados a Israel hoje do que em gerações anteriores”, dizem vários relatórios de orga nizações de propaganda pró-Israel. “Israel está perdendo a disputa pelos corações e mentes dos judeus.” De fato, dos cerca de meio milhão de alunos judeus que frequentam instituições de ensino superior, “apenas 5% mantêm qualquer conexão com a comunidade de judeus.”
Observa-se a conversão da ambivalência em aberta oposição em relação a Israel também em outros setores influentes da sociedade norte-americana, mesmo entre as vacas-madrinhas da vida intelectual nos EUA e no público de leitores. Pesquisa recente descobriu que uma maioria de líderes de opinião nos EUA apóiam Israel “movidos sobretudo por insatisfação com os rumos dos EUA” em todo o mundo. Em ensaio publicado em 2003 na New York Review of Books, o historiador judeu Tony Judt escreveu que “a Israel de hoje não é boa para os judeus” e pôs em dúvida tanto a viabilidade quanto a desejabilidade de um Estado judeu. John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago e Stephen M. Walt da Harvard Kennedy School são co-autores de um importante ensaio, de 2006, no qual atacam a imagem idealizada da história de Israel e afirmam que Israel está convertida em “risco estratégico” para os EUA. Livro do ex-presidente Jimmy Carter, provocativamente intitulado Palestine: Peace Not Apartheid, lamenta a política de Israel para os Territórios Palestinos Ocupado e culpa integralmente Israel pela deterioração do processo de paz.
Apesar dos contra-ataques vitriólicos que o lobby pró-Israel lançou contra aquelas intervenções – o discurso usual que acusa todos de serem negadores do Holocausto e antissemitas –, dessa vez os contra-ataques não foram eficazes.
Quando em 2006 as pressões do lobby levaram ao cancelamento de uma das palestras já agendadas de Tony Judt, o caso tornou-se imediatamente cause célèbre nos círculos intelectuais dos EUA. Críticos de Judt, como Abraham H. Foxman da ADL, foram descritos como “gente que se esconde atrás de acusações sem sentido de antissemitismo” e como “anacrônicos”. Carter, por sua vez, foi acusado de plagiador, de haver sido subornado por xeiques árabes, de ser antissemita, de fazer apologia do terror, de simpatizante dos nazistas, e pouco faltou para ser acusado de negar o Holocausto.
Mesmo assim, o livro de Carter chegou rapidamente à lista dos mais vendidos do New York Times e lá permaneceu durante vários meses, tendo vendido mais de 300 mil cópias encadernadas. Embora duramente criticado pelo presidente da Universidade Brandeis, o ex-presidente Carter foi recebido pelos estudantes com uma retumbante ovação, ao chegar para falar naquela universidade judaica tradicional. (E metade da plateia levantou-se e saiu quando Alan M. Dershowitz, professor de Direito de Harvard, levantou-se para discursar em resposta à palestra de Carter.) Mearsheimer e Walt contrataram a publicação de seu livro com a editora Farrar, Straus and Giroux, e seu livro, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, também esteve por muito tempo na lista dos mais vendidos do Times.
Demonstração extra de que a sorte de Israel está um dando é que, durante o mandato do primeiro-ministro Ehud Olmert, nem Foxman nem Elie Wiesel, perene apoiador de Israel responderam publicamente à evidência de que Israel não se dedicava suficientemente em busca da paz. A crescente insatisfação pública em relação à política de Israel nos últimos anos chegou a ponto de ebulição e converteu-se em indignação manifesta durante a invasão de Gaza. Apesar da cuidadosamente orquestrada blitz de propaganda israelense; apesar de a cobertura jornalística ter sido, como sempre, marcadamente tendenciosa pró-Israel, sobretudo nos primeiros dias do ataque; e apesar do apoio oficial do ocidente ao ataque contra Gaza – apesar de tudo isso, houve enormes manifestações de rua por toda a Europa Ocidental (na Espanha, Itália, França e Grã-Bretanha), tão gran des que encobriram as pequenas manifestações de apoio a Israel.
Estudantes ocuparam universidades por toda a Grã-Bretanha, inclusive nas universidades de Oxford, Cambridge, Manchester, Birmingham, na London School of Economics, na School of Oriental and Asian Studies, Warwick, King’s, Sussex e Cardiff. Mesmo em tradicionais bastiões de apoio a Israel, como no Canadá, onde é particularmente intenso o viés de apoio a Israel da extrema direita e do establishment político e da mídia, os mais diferentes grupos de opinião pública manifestaram-se contra o ataque a Gaza; e o Sindicato Canadense de Servidores Públicos [ing. Canadian Union of Public Employees] aprovou moção em que pede um boicote acadêmico contra Israel.
Declarando depois do cessar-fogo que “os eventos em Gaza nos chocaram profundamente”, um grupo dos 16 juízes e investigadores mais experientes do mundo – entre os quais Antonio Cassese (Primeiro Presidente e Juiz do Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia e Chefe da Comissão de Investigação da ONU para o Darfur) e Richard Goldstone (Promotor-chefe do Tribunal Criminal Internacional da Comissão de Investigação da ONU para o Kosovo) – pediram que se instalasse “investigação internacional que examine as graves violações da legislação internacional de guerra cometidas pelos dois lados no conflito de Gaza.”
Como sempre, invariavelmente, os apologistas de Israel atribuíram ao crescimento do antissemitismo a crescente indignação contra a ação israelense em Gaza. Deve-se registrar que, como regra geral, quanto mais profundamente violenta é a conduta criminosa de Israel, mais aumentam, em decibéis, as ‘denúncias’ de antissemitismo. Os judeus estariam enfrentando “uma epidemia, uma pandemia de antissemitismo”, declarou Abraham H. Foxman. “É a pior, a mais intensa, a mais global onda de antissemitismo que nossa memória registra.” Não que esse tipo de diagnóstico seja novidade para Foxman que, em 2003, não se cansava de repetir que “a ameaça à segurança do povo judeu é tão grande hoje quanto foi nos anos 30s.”
Como no passado, sempre aparecem dados de pesquisa que confirmam esses exageros, chamados “indicadores” das “mais perniciosas noções de antissemitismo”; por exemplo, uma pesquisa que descobriu que “grandes porções da opinião pública europeia continua a achar que os judeus falam demais sobre o que lhes aconteceu no Holocausto.” Segundo um “filósofo” midiático francês, Bernard-Henri Lévy, qualquer um que ponha em dúvida que o holocausto nazista “foi um ponto de virada irreversível da história da humanidade” deve ser considerado antissemita. Na Europa, poucas das manifestações ditas antissemitas foram além de manifestações covardes ou apenas desagradáveis, como emails ou graffiti, porque o antissemitismo europeu, por mais que se deixe ver vez ou outra, empalidece completamente se compa rado à islamofobia no continente. (Observou-se de fato, recentemente, oposição crescente a judeus e muçulmanos – as duas curvas parecem estar correlacionadas –, resultado provável do ressurgimento do etnocentrismo entre os europeus mais velhos, menos letrados e de orientação política mais conservadora.)
Apesar de tudo, parece ser verdade que a execução, por um autoproclamado Estado judeu, de vários ataques assassinos no Líbano e em Gaza, e o apoio que esses ataques receberam de organizações oficiais de judeus em todo o mundo, determinaram um muito lamentável – embora absolutamente previsível – efeito de “respingamento” sobre todos os judeus, que parecem estar começando a ser, todos, considerados culpados. Se, como o Fórum Israelense de Coordenação da Luta contra o Antissemitismo [ing. Israeli Coordination Forum for Countering Anti-Semitism] afirmou “houve claro aumento no número e na intensidade de incidentes antissemitas” durante o massacre de Gaza; e se “com o cessar-fogo, houve marcado declínio no número e na intensidade dos incidentes antissemitas”; e “outro ataque semelhante à operação em Gaza determinará novo surto de ativ idade antissemita contra comunidades em todo o mundo”, então, método eficaz de combater o antissemitismo parece ser conseguir que Israel suspenda a prática de massacres.
Também é verdade que o crescente fosso entre apoio oficial aos belicistas israelenses e a rejeição popular aos mesmos belicistas parece estar servindo de combustível a mais teorias antissemitas conspiratórias. Na Alemanha, por exemplo, o establishment político e a mídia dominante não dão espaço a qualquer crítica contra Israel por causa do “relacionamento especial”, ideia que cresce na Alemanha, a partir do que se entende que seja “a responsabilidade histórica” da Alemanha. A chanceler Angela Merkel antecipou-se a outros líderes europeus na defesa de Israel durante a invasão de Gaza. Mesmo assim, pesquisas recentes mostraram que 60% dos alemães rejeitam a ideia de que os alemães tenham qualquer especial obrigação com Israel (entre os jovens, a porcentagem chega a 70%); 50% veem Israel como país agressivo; e para 60% Israel persegue seus i nteresses mediante métodos cruéis.
Em termos mais gerais, Gideon Levy lembrou “a cena surreal, no auge do brutal ataque contra Gaza, quando chefes de Estado da União Europeia vieram a Israel e jantaram com o primeiro-ministro, em manifestação de apoio unilateral ao lado que promovia matança e destruição.” E embora tenha sido Israel a quebrar o acordo de cessar-fogo e lançar a invasão, os líderes europeus fizeram coro aos EUA (e ao Canadá) e pregaram o desarmamento, não dos assassinos, mas das vítimas. É questão de tempo, e os europeus começarão a preocupar-se – se já não começaram – com os interesses que se escondem por trás das políticas internacionais de seus respectivos governos.
A acusação de antissemitismo contra os não-judeus que se indignaram contra o massacre de Gaza parece cada dia mais sem sentido e mais mal-intencionada, face à indignação crescente e claramente manifesta também entre os judeus. Ao mesmo tempo em que organizações oficiais de judeus lançavam manifestos de apoio a Israel na invasão de Gaza, por todos os lados surgiam manifestações contra o massacre de Gaza, e assinadas também por organizações de judeus.
Muitos judeus de alto prestígio na vida das comunidades judaicas criticaram também Israel, embora nem sempre essas falas tenham sido muito claras ou muito divulgadas. Quando Israel passou à ofensiva por terra, depois de uma semana de ataques aéreos, um grupo dos mais destacados judeus britânicos, que se autoapresentaram como “apoiadores profundos e apaixonados” de Israel, manifestaram-se “horrorizados” ante o crescente número de mortos dos dois lados” e conclamaram Israel a cessar imediatamente qualquer operação militar em Gaza. Em tom muito mais contundente, o deputado e ex-ministro de relações estrangeiras do “Shadow Cabinet” Gerald Kaufman declarou em debate na Casa dos Comuns sobre Gaza: “Minha avó estava de cama, doente, quando os nazistas chegaram à cidade dela, Staszow. Um soldado alemão matou-a a tiros, na cama. Minha avó não morreu para dar cobertura a soldados israelenses que assassinem avós palestinas em Gaza.” E acusou o governo de Israel de “explorar cruel e cinicamente o sentimento de culpa dos não-judeus pelo massacre de judeus no Holocausto, como justificação para o massacre de palestinos.”
Quase ao mesmo tempo, na França, Jean-Moïse Braitberg, escritor judeu muito popular exigiu que o presidente de Israel removesse o nome de seu avô do memorial no Yad Vashem dedicado às vítimas do holocausto nazista, “para que o nome do meu avô não continue a ser usado para justificar o horror praticado contra os palestinos.”
Na Alemanha, Evelyn Hecht-Galinski, filha de um ex-presidente do Conselho Geral dos Judeus na Alemanha, escreveu “Não o governo eleito do Hamás, mas o brutal exército ocupante (…) deve ser levado às barras do tribunal internacional de Haia”, ao mesmo tempo em que a seção alemã da organização Judeus Europeus a Favor de uma Paz Justa lançou manifesto em que se lia: “Os judeus alemães dizem NÃO à matança praticada pelo exército de Israel.
No Canadá, oito mulheres judias que ocupavam o consulado de Israel conclamaram “todos os judeus a manifestar-se contra esse massacre”. E Anton Kuerti, aclamado pianista canadense declarou que “Os inacreditáveis crimes de guerra que Israel está cometendo em Gaza (…) fazem-me sentir vergonha de ser judeu.” Na Austrália, dois romancistas premiados e um ex-deputado assinaram declaração em que, como judeus, condenam “o ataque tão violentamente desproporcional de Israel contra Gaza”.
O governo Bush e o Congresso dos EUA deram absoluto apoio a Israel durante a invasão. Resolução culpando integralmente o Hamás por todas as mortes e pela destruição de Gaza foi aprovada unanimemente no Senado e por 390 votos a favor e 5 contra, na Câmara de Deputados. Praticamente toda a mídia corporativa nos EUA também ofereceu, sem qualquer pejo, total apoio a Israel. “No Dia de Ano-Novo, o esquadrão de louvação a Israel ocupou todas as páginas de colunas assinadas de todos os principais jornais nos EUA, como se fossem quintal seu”, observou o jornalista Max Blumenthal. “De todas as colunas assinadas publicadas no Washington Post, no Wall Street Journal e no New York Times desde o início da guerra contra Gaza, apenas uma coluna manifestava alguma dúvida quanto à correção e justeza do assalto.”
O máximo em matéria de ouvir os dois lados, para o New York Times, consistiu em publicar, lado a lado, os delírios de Jeffrey Goldberg sobre o mal absoluto representado pelo Hamás, e os conselhos de Thomas Friedman, para que Israel infligisse “pesadas dores à população de Gaza”. O rival novaiorquino do Times, o New York Daily News publicou coluna assinada pelo rabino Marvin Hier que conclamava os líderes mundiais a “nunca mais reconstruir Gaza”, apesar do sofrimento de “muitos civis”, porque “terroristas e gente que apóia terroristas não merecem qualquer mercê por sua desumanidade, crimes e cumplicidade.” Hier é fundador e líder do Centro Simon Wiesenthal e do Museu da Tolerância. Na névoa desse esquadrão de linchamento, até organizações de defesa dos direitos humanos dedicaram-se a con denar pesadamente o Hamás.
Apesar dessas doses massivas de veneno, pesquisas de opinião pública mostraram que, embora a maioria criticasse sempre muito pesadamente o Hamás, apenas 40% dos norte-americanos aprovavam o ataque israelense; e entre os eleitores do Partido Democrata (onde há grande número de judeus), a aprovação caía a 30%. Numa dramática manifestação de independência, que fez lembrar Jimmy Carter ao publicar seu Palestine Peace Not Apartheid, um ícone liberal, Bill Moyers, criticou Israel em seu programa de grande audiência, “Bill Moyers Journal”: “Ao matar indiscriminadamente idosos, crianças, famílias inteiras, ao destruir escolas e hospitais, Israel fez exatamente o que fazem os terroristas.”
Como Carter, Moyers imediatamente se tornou também alvo preferencial de Abraham H. Foxman, que o acusou de “racismo, revisionismo histórico e complacência com terroristas”; e do professor de Direito em Harvard, Alan M. Dershowitz, que escreveu sobre a “falsa equivalência moral” que Moyers teria construído entre o terrorismo do Hamás e o exército de Israel que “inadvertidamente matou alguns poucos civis palestinos usados como escudos humanos pelo Hamás.” Mas, outra vez como Carter, Moyers não cedeu e, depois que vários outros liberais saíram em sua defesa, conseguiu emergir sem arranhões, dessa fuzilaria de críticas e calúnias.
Enquanto avançava a invasão de Gaza, e as imagens de uma carnificina chocante transmitidas ao vivo pela rede Al-Jazeera já não podiam ser ignoradas, começaram a surgir fissuras na corrente dos apoiadores de Israel ditos ‘moderados’. Sob o título de “A Solução dos Dois Estados perdeu a hora e a vez?” o programa “60 Minutos”, dos mais vistos nos EUA, levou ao ar matéria sobre colonos judeus na Cisjordânia, em que se viam “residências de famílias árabes ocupadas por soldados do exército de Israel”. A página dos editoriais do Wall Street Journal, tradicionalmente de direita, publicou artigo assinado pelo professor de Direito George E. Bisharat sob a manchete “Israel comete crimes de guerra.” Roger Cohen, colunista do New York Times e incansável defensor de Israel, confessou em várias colunas que “estou envergonhado de ver as ações de Israel”. Noutra coluna, Cohen especulava: “a continuada expansão das colônias, o bloqueio contra Gaza, o muro de separação na Cisjordânia e o recurso à tecnologia de guerra” parecem ter sido planejadas precisamente para “humilhar os palestinos, quebrar-lhes a resistência e a autoestima, até que desistam de lutar por seus sonhos legítimos de alcançar um Estado, cidadania e dignidade.”
Para Andrew Sullivan, ex-editor de New Republic e autor conservador, o ataque dos israelenses contra Gaza “está longe do que se pode considerar atitude moral (…), nessa guerra que parece ser guerra de um lado só”. E chamou de “bárbaros” os judeus de direita que defendiam “a terrível carnificina que Israel pratica hoje (financiada em parte pelos EUA).” Philip Slater, autor de The Pursuit of Loneliness, estudo sociológico, declarou que “A Faixa de Gaza é pouco diferente de um grande campo de concentração comandado por israelenses, nos quais os palestinos são perseguidos e atacados, morrem de fome, não têm nem gasolina, nem água, nem energia elétrica – não encontram nem materiais de primeiros socorros. (…) Difícil, isso sim, seria respeitar os pales tinos se não reagissem, pelo menos, com alguns foguetes de fabricação caseira.
Enquanto isso, o Conselho Municipal de Cambridge, Massachusetts, enclave liberal, que abriga a Universidade de Harvard, adotou resolução “condenando os ataques contra e a invasão de Gaza pelo exército de Israel e os ataques com rojões de fabricação caseira lançados contra a população de Israel”; e um grupo de professores universitários nos EUA lançou campanha nacional conclamando ao boicote acadêmico e cultura contra Israel. Pesquisa feita pela organização American Jews descobriu que 47% dos entrevistavam apoiavam fortemente o ataque israelense, mas – em violento contraste com a ideia de que haveria massiva solidariedade a Israel – 53% dos entrevistados mostraram-se ambivalentes: 44% aprovavam ou desaprovavam “com reservas”; e 9% declararam-se “absolutamente contrários”.
Analistas experientes da comunidade dos judeus norte-americanos já detectam “mudanças pós-Gaza”. À parte “o segmento dos mais conservadores da comunidade pró-Israel”, observou M. J. Rosenberg do Fórum Israel Policy, “poucos manifestam abertamente apoio àquela guerra. Em New York, cidade na qual, no passado, se reuniram multidões de 250 mil pessoas em manifestações de ‘solidariedade’ a Israel, apenas 8 mil foram a Manhattan para uma manifestação “de judeus” num domingo de sol. Em confronto público com a liderança tradicional da comunidade, organizações de judeus consideradas hegemônicas, embora menos conhecidas, como a J Street, ficaram a meio caminho e “reconhecem que nem os israelenses nem os palestinos têm qualquer monopólio dos certos e errados”; e recomendaram “que se evitem as posições estreitas de ‘nós contra eles’, em todas as questões do Oriente Médio. ”
Fundada em 2008, a organização J Street aspira a ser um contraponto liberal ao American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). É cedo demais para saber se J Street – que trabalha atualmente numa agenda vagamente progressista, embora também se defina como “mais próxima” do Kadima, partido político israelense liderado por Tzipi Livni – chegará a firmar-se como “oposição leal” ou se aprofundará o teor das críticas contra a política israelense à medida que se aprofundar o fosso que separa os judeus norte-americanos e o atual governo de Israel.
Por sua vez, o grupo American Jews for a Just Peace divulgou manifesto conclamando os soldados israelenses “a porem fim à prática de crimes de guerra”. Outro grupo (“Judeus dizem não!”) reuniram-se em manifestação em frente da sede da Organização Sionista Mundial e dos escritórios da Agência Judia. E o grupo “Judeus contra a ocupação” distribuíram panfletos no West Side em New York, em que se lia “”Israel, saiam de Gaza, AGORA!” Nos círculos intelectuais judeus liberais, só os apoiadores perpétuos de Israel, a maioria dos quais foram arregimentados depois da guerra de junho e já passam hoje dos 70 anos, ousaram manifestar-se em defesa da invasão de Gaza.
Para Michael Walzer, filósofo, pareceu óbvio que Israel exaurira todas as alternativas não violentas antes de atacar; e culpa do Hamás, se morreram civis. Para Walzer, a única “questão relevante” seria se Israel fez tudo que poderia ter feito para diminuir o número de baixas entre os civis.
Como sempre, para Alan M. Dershowitz, Israel “empreendeu seus melhores esforços para não matar civis”, estratégia que falhou porque o Hamas investiu na “estratégia de matar bebês”, para forçar Israel a matar crianças palestinas e, assim, conquistar a simpatia da comunidade internacional.
Também como sempre, para Martin Peretz, editor de New Republic, que examinou os sapatos dos palestinos, o bloqueio de Gaza seria benigno: “É preciso examinar os pés dos palestinos, para ver que usam tênis novos e, evidentemente, caros.”
Paul Berman entendeu como óbvia “uma possibilidade” de que o Hamás algum dia venha a promover o genocídio de judeus, “se se permitir que o Hamás continue a prosperar, e se seus aliados do Hezbollah e do governo iraniano conseguirem prosseguir com seus planos para construir bombas atômicas”. Sendo isso óbvio, Berman conclui que Israel, sim, tem todo o direito de atacar os palestinos, como medida de prevenção. (…)
Mas houve um influente contingente de intelectuais públicos liberais judeus que não se calou: a nova geração de bloggers judeus liberais e colaboradores regulares dos websites liberal-Democratas (p. ex., Salon.com e Huffington Post). Quase todos, são editores, anunciantes, patrocinadores, animadores de redes sociais, todos judeus, mas que falam por uma geração que, em larga medida amadureceu em mundo no qual a mitologia sionista já havia sido deslocada e superada por pesquisa histórica sóbria. O establishment político israelense é hoje magro e reacionário. As práticas de Israel no quesito Direitos Humanos já foram acuradamente analisadas pelos especialistas em direitos humanos.
A paranóia induzida pelo Holocausto e o ‘argumento’ do antissemitismo colidiram contra a realidade quotidiana de uma triunfante assimilação dos judeus em toda parte, da Ivy League a Wall Street, de Hollywood to Washington, do clube de campo ao altar de casamento. Profissionalmente, mentalmente e emocionalmente emancipada dos antolhos do passado, esse judeus íntimos da Internet partiram para a ofensiva contra a invasão de Gaza desde o primeiro momento.
Há aí um simbolismo que não se pode ignorar. Onde os apologistas mais linha-dura a favor de Israel, como Walzer, Dershowitz e Peretz embarcam ainda no barco dos sionistas, os mais jovens, uma geração de intelectuais públicos judeus que hoje fazem nome e currículos na Internet já saltaram dele. “Tenho pena deles, que desprezam sua herança”, sibilou Peretz. “São fedelhos barulhentos.”
Aqui estão alguns dos fedelhos barulhentos, representados por mensagens redigidas por eles.
Ezra Klein (25 anos; blogueiro da página American Prospect), em msg postada no 2º dia da invasão de Gaza: “Os rojões lançados pelos palestinos com certeza “perturbam profundamente” os israelenses. Os postos de controle, os bloqueios nas estradas, a restrição ao direito de ir e vir, a desesperante falta de empregos, a opressão cada dia mais cruel, as humilhações diárias, as colônias ilegais – desculpem, “os assentamentos” – tudo isso perturba muito mais profundamente os palestinos; e são agressão muito mais grave. E os 300 palestinos mortos, esses, então, nos deveriam perturbar mais profundamente, a todos.”
Adam Horowitz (35 anos; blogueiro de Mondoweiss) escreveu, no 4º dia da invasão, em resposta à coluna de Benny Morris no New York Times: “É evidente que ele só vê as reações, não a causa. Lista respostas a Israel e a ininterrupta colonização da Palestina histórica, sem mencionar que há um elefante na sala; que, se Israel está encurralada, foi Israel quem buscou essa situação.”
Matthew Yglesias (28 anos; blogueiro de Think Progress) escreveu, no 6º dia: “Enquanto Israel diz que quer deixar os palestinos em paz em seu enclave minúsculo, superpovoado, economicamente inviável, o ‘desengajamento’ de Gaza [em 2005] jamais significou que os palestinos passariam a controlar suas fronteiras ou exercer qualquer soberania significativa sobre a área. A proposta, de fato, foi clara: os palestinos abdicam da violência armada contra Israel e, em troca, a Faixa de Gaza será tratada como reserva de índios.”
Dana Goldstein (24 anos; blogueira de American Prospect) escreveu, no 12º dia: “Quero ainda acreditar que a experiência histórica, coletiva do judaísmo e do sionismo pode levar a alguma coisa melhor – algo mais humano – do que o que vi no Oriente Médio semana passada!”.
Glenn Greenwald (42 anos; blogueiro de Salon.com) escreveu no 13º dia: “Não é uma guerra. É o massacre de um lado pelo outro”. E depois, dia 30/1/2010: “É simplesmente impossível fazer progresso real nos objetivos domésticos de restaurar a Constituição e reverter as expansões militares e de espionagem dos israelenses, se, simultaneamente, continuarmos a apoiar cegamente as muitas guerras de Israel (porque acabamos nos afundando, nós mesmos, naquelas guerras).”
Dia 20/2/2009, Greenwald respondeu insinuação de Jeffrey Goldberg de que ele seria “odiador de judeus”, “carrasco de Israel”: “Pessoas como Jeffrey Goldberg” (…) respondeu Greenwald, “já abusaram, manipularam, exploraram tanto as acusações de “odiador de judeus”, “carrasco de Israel” e acusações de ‘antissemitismo’, sempre para fins desavergonhadamente pessoais, sempre impróprios, que, hoje, aquelas expressões já nada significam, perderam todo o conteúdo crítico, foram trivializadas até se converterem em caricaturas. (…). De fato, gente como Goldberg vão-se tornando cada vez mais ácidos, mais rançosos, mais agressivos naquela sua retórica, precisamente porque sabem que seus aparelhos de sevícia e tortura retóricas já não servem para nada.” (…) “Há mudança definitiva e importante nos debates políticos nos EUA sobre Israel”, concluiu Greenwald. “Eles já não conseguem semear cada vez mais discórdia com suas táticas de intimidação; e já sabem disso; por isso é que subiram o vol ume dos seus ataques e dos palavrões e chingamentos. A devastação de Gaza pelos israelenses, contra uma população civil cercada – e usando bombas, dinheiro e cobertura diplomática dos EUA – foi tão brutal e horrenda que mudou para sempre o modo como o mundo vê o conflito no Oriente Médio”. (…)
A metamorfose geracional em relação a Israel é ainda mais evidente nos campi universitários. “Em alguns campi universitários houve mudança profunda em direção a sentimentos mais claramente pró-palestinos ou anti-Israel”, lia-se no Inside Higher Ed, que continua: “Essa mudança foi provocada, em parte, pela guerra do último inverno em Gaza”. Anfiteatros lotados para assistir palestras de comentaristas que se opunham firmemente ao massacre dos habitantes de Gaza. Os grupos ‘pró’-Israel manifestavam dentro dos anfiteatros ou à entrada, sempre grupos pequenos, muitos dos quais nem foram vistos.
Alunos da Cornell University atapetaram as trilhas do campus com 1.300 bandeiras negras, uma para cada palestino morto em Gaza. (Depois, a instalação foi depredada.). Nas universidades de Rochester, de Massachusetts, de New York, na Columbia University, no Haverford College, no Bryn Mawr College e no Hampshire College, os alunos organizaram abaixo-assinados, manifestações e ocupações [ing. sit-ins] exigindo que se oferecessem bolsas de estudo para alunos palestinos e ações de desinvestimento em indústrias fabricantes de armas e empresas que negociassem com as colônias ilegais exclusivas para judeus. No Hampshire College, os alunos conseguiram que os acionistas e patrocinadores da escola se manifestassem a favor de desinvestir em corporações norte-americanas que auferissem lucros diretamente da ocupação da Palestina
Embora as organizações ‘pró’-Israel tenham repetido que “colégios e universidades (…) tornaram-se caldo de cultura para o crescimento de uma nova cepa de antissemitismo”, em praticamente todas as principais instituições os alunos judeus participaram ativamente das manifestações pró-palestinos, em comitês locais de “Estudantes pela Justiça para a Palestina” e de “Anarquistas na luta contra o Muro” [ing. Anarchists Against the Wall, além de participações individuais, como de Anna Baltzer, autora de “Testemunha na Palestina”, que visitou várias escolas, para falar pessoalmente do que vira acontecendo na Palestina.
Os laços de solidariedade que se criaram entre jovens judeus e jovens muçulmanos que se opõem à ocupação – em várias universidades, os grupos mais militantes reúnem radicais judeus não-religiosos e mulheres muçulmanas – permitem ter esperança de que será possível construir uma paz duradoura.
Depois de uma palestra que fiz numa universidade canadense, sobre o massacre de Gaza, recebi de presente dos organizadores um broche em que se lia “I ♥ GAZA.” Prendi o broche na minha mochila e parti para a aeroporto. Na fila para o embarque, um passageiro atrás de mim disse-me baixinho “Gosto do seu broche”. Vejam só, pensei eu, the times they are a-changing, como cantou Bob Dylan. Horas depois, pedi um copo d’água ao comissário de bordo. Ao me servir a água, o rapaz curvou-se e disse “Gosto do seu broche”. Hmm, pensei comigo, alguma coisa já está acontecendo por aqui.
_____________________________________________________________
* Nota dos editores:
Esse artigo é excerto de um capítulo do novo livro de Norman Finkelstein sobre o conflito de Gaza, This Time We Went Too Far – Truth and Consequences of the Gaza Invasion, publicado esse mês pela editora OR Books. Para comprar o livro, visite http://www.orbooks.com/. O livro não está à venda em livrarias nem em distribuidores de livros por internet.
[1] Em http://www.acbp.net/About/PDF/ARTICLE-Second%20thoughts%20about%20the%20Promised%20Land.pdf
[2] Organização de judeus, ativa em todos os campus universitários em todo o mundo; para conhecer, por exemplo, o Hillel de São Paulo, ver http://www.hillel.org/about/news/2003/20030520_new.htm
O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui. Tradução de Caia Fittipaldi
Postado por
Ralf R só-a-consciência-no-ato-salva!
às
17:01
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