Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

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08 outubro 2014

O GOLPE BRANCO EM PROJETO, O GOLPE SUJO TALVEZ EM CURSO - E O VOTO EM AÉCIO


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Fato 1: nunca houve acusação de apropriação de dinheiro por petistas. A própria acusação do mensalão foi de que o PT pagou, não que recebeu - e há provas abundantes de que até essas acusações são falsas - quer dizer: o julgamento do STF foi manipulado e condenou inocentes. (Resumo em http://www.megacidadania.com.br/mensalao-a-verdade-sob-ameaca/ ). Em resumo: pelos menos dos partidos grandes, o que tem MENOS a ver com corrupção e roubo é o PT; e os raríssimos casos têm sido punidos dentro do próprio PT.

Fato 2: por outro lado, o governo do PT tem feito investigar como nunca as roubalheiras e bandalheiras que envolvem o poder público no Brasil.

Fato 3: por toda uma variedade de canais (até o Ministério Público da Suíça), já se encontraram montanhas de provas reais contra os mais altos nomes do PSDB, incluindo FHC, Alckmin, Serra e Aécio. A grande imprensa às vezes mostra um pouco, depois silencia e volta a atacar o PT, sem provas. Além disso, as acusações e provas contra tucanos chegam ao judiciário, mas este via de regra as congela, ou numa ou noutra instância.

Conclusão lógica 1: o Brasil é dominado desde há muito por uma constelação político-criminosa (pois talvez não seja suficientemente coordenada para ser chamada de rede) espalhada por muitos partidos, porém, pelo menos nas últimas décadas, centrada especialmente no PSDB. NÃO há envolvimento do PT nessa constelação, mas tudo indica que ela esteja significativamente representada dentro de todos os níveis do poder judiciário.

Conclusão lógica 2: é MÁXIMO o interesse dessa constelação criminosa em arrancar o poder das mãos do PT, e paralisar toda e qualquer investigação que lhe diga respeito. É ela quem não para de lançar acusações contra o PT, de fazer coisas que na verdade é ELA quem faz - tanto para desviar a atenção de si, quanto para neutralizar ou mesmo se livrar de quem autoriza a sua investigação. Além disso, não há crime grande demais para ela, visto que já está atolada até as orelhas.

Observação de entremeio: se for mesmo assim, não há nada de tão surpreendente, visto que no país tido por mais importante do mundo, os EUA, o poder efetivo já é de organizações criminosas pelo menos desde a 2ª Guerra Mundial, talvez bem antes. (Ver https://dl.dropboxusercontent.com/u/32927205/Graziano_HitlerGanhouAGuerra.pdf , entre outras fontes). O que também explica o interesse dos grupos políticos que concorrem com o PT em voltar a alinhar nosso país com os EUA.

Conclusão lógica 3: não há como considerar descabida a suspeita de manipulação através do próprio TSE (órgão do poder judiciário) dos resultados da votação de 05/10/2014, que divergiram muito além de toda expectativa de TODAS as pesquisas das semanas e dias anteriores, inclusive as mais independentes. Numa medida que quem tem a mínima noção de estatística sabe que não é impossível, mas é sim altissimamente improvável.

..... Note-se que já vinham se acumulando evidências de que integrantes do poder judiciário estariam preparando contra Dilma um "golpe branco" (isto é, utilizando estritamente possibilidades contidas na lei), nesta gestão ou na possível próxima, encurralando-a na escolha entre inviabilizar o governo atendendo as exigências financeiras criminosamente exorbitantes desse poder, ou sofrer impeachment caso resistisse (ver http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/aumento-para-juizes-compromete-servicos-publicos-diz-agu/ e http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1527433-juizes-reforcam-pressao-no-congresso-por-salario-maior.shtml , entre outros). Agora surge a hipótese de JÁ estarmos sob um golpe aplicado através do mesmo poder judiciário - mas neste caso fraudulento, de modo a já não poder ser chamado "golpe branco", e sim da cor tipicamente indefinida da sujeira.

..... DESEJO ARDENTEMENTE QUE ESTA SUSPEITA DE FRAUDE NAS URNAS SEJA INFUNDADA. Pelo menos ela. Pois dos pontos anteriores, infelizmente não se pode dizer que sejam suspeitas e sim "certezas ainda não oficializadas".

CONCLUSÃO FINAL: com fraude em 5 de outubro ou não, VOTAR EM AÉCIO NÃO É UMA OPÇÃO POLÍTICA, E SIM UMA OPÇÃO DE FAZER-SE CÚMPLICE DO CRIME ORGANIZADO. Sabendo ou não.

Última observação: o artigo linkado abaixo é apenas uma de muitas ilustrações possíveis para este arrazoado.

MENSALÃO PERNAMBUCANO:
grampos da PF revelam esquema milionário com gente do PSB e PSDB
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02 setembro 2013

DAS GRACIOSAS ESTRATÉGIAS DOS QUE QUEREM VER UM MUNDO EM CHAMAS

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Com um pé no em nosso nível natural-animal, outro no nosso nível cultural, BRINCAR sempre foi exercitar simuladamente, na infância, habilidades que serão aplicadas pra valer na vida adulta, com a adolescência como uma fase de transição gradual entre a simulação e o pra valer (não importa A MÍNIMA que a adolescência só tenha começado a ser NOMEADA a partir do século tal - antes que me venham com esse tipo de clichê acadêmico europeu).

Também não me venham com aquele papo de que "se jogos violentos produzissem pessoas violentas, jogar Banco Imobiliário produziria ricos". Pois jogar Banco Imobiliário de fato pode estimular o espírito competitivo-especulativo, mas FICAR RICO É UM CRIME DE EXECUÇÃO MUITO MAIS DIFÍCIL que sair dando tiros em alguém - e é por isso que tão pouca gente consegue, mesmo que tenha jogado Banco Imobiliário.

De resto, se apenas 1% dos que jogam games violentos forem induzidos por isso a serem violentos na vida real, isso significará um estrago bárbaro na vida coletiva. Provavelmente são bem menos que 1% os que partem para violência aberta - e mesmo isso JÁ VEM fazendo um estrago bárbaro - à parte determinado tempero nas atitudes de vida mesmo daqueles que não chegam à violência aberta.

Enfim: A CHAVE DO SISTEMA DE DOMINAÇÃO do Império Mundial dos Psicopatas, dominação sob a qual vivemos, é manter todos em conflito com todos, ou a ponto de, tanto na escala microssocial (indivíduos, famílias, grupos de trabalho), quanto na meso (empresas médias, política local e regional) e na macro (grandes corporações, relações internacionais, etc).

Para eles, não importa o credo ideológico que as pessoas recitem, o importante é que estejam em conflito, incapacitadas de construírem consensos e estabelecerem laços. O avô de Bush viabilizava o acesso de Hitler ao aço e o acesso de Stálin ao petróleo, no mesmo momento em que estes guerreavam um com o outro. George Orwell identificou e exemplificou o jogo naquela peça supostamente de ficção que é "1984": QUEM CONTROLA OS DOIS LADOS DO CONFLITO CONTROLA O RESULTADO. E para isso é essencial que tudo ESTEJA sempre em conflito, pois aí as peças estão soltas, móveis, manipuláveis.

Por isso vamos, vamos meninos: vamos brincar de surto e de psicose!!  É DIVERTIDO... e, não, não, não pode ter nenhuma consequência nociva, isso é papo de careta que não entende o dinamismo e a ludicidade da vida das crianças e adolescentes de hoje...

Com vocês, então, o Lança Chamas (Flammen-werfer) disponilbilizado por essa nobre instituição educacional que é o UOL-Folha, para você brincar de DESTRUIR CIDADÃOS, e DETONAR FORÇAS POLICIAIS (neste caso representando o papel que DEVERIAM ter: protetores dos tais cidadãos) - enquanto GANHA DINHEIRO e APERFEIÇOA SUAS HABILIDADES... DE DESTRUIÇÃO,

... oh bravos jovens soldados das novas S.A. (Divisões de Assalto) que apenas não cantam mais 'Deutschland über alles' e sim "o clarão vermelho dos foguetes e as bombas estourando no ar" - visão essa que *é o atestado de que a 'bandeira decorada de estrelas' está dominando o lugar* (conforme reza a primeira estrofe do hino nacional da Matriz).
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29 julho 2013

ENTRE A DOMINAÇÃO DO IMPÉRIO E A LIVRE COOPERAÇÃO: a humanidade em sua longa encruzilhada - inclusive o Brasil (capítulo 1/6)

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ENTRE A DOMINAÇÃO DO IMPÉRIO E  A LIVRE COOPERAÇÃO: A HUMANIDADE EM SUA LONGA ENCRUZILHADA - INCLUSIVE O BRASIL (1/6)

Ralf Rickli - julho de 2013

1. PRÓLOGO:  AS FORÇAS EM JOGO DESDE QUE EXISTE GENTE

Para enfrentar o modesto propósito de resumir a história da humanidade em três páginas como introdução ao dia de hoje, “comecemos pondo de lado os fatos” (como disse um dia um certo Rousseau), ficando apenas com as estruturas que estão por trás da maior parte deles. Modestamente...

1.1   A quase totalidade dos problemas da humanidade deriva de um só, que é um detalhe estrutural do caráter humano: a vontade que cada pessoa sente de dominar outra(s) pessoa(s). Em outras palavras: a vontade de usar sua liberdade para destruir liberdades de outros.

1.2   Liberdade é a condição de poder exercer sua própria vontade (fazer o que se quer). A liberdade é individual por natureza: se refere a cada um.

1.3   Igualdade é o coletivo de liberdade. É a condição de cada integrante de um conjunto de  seres humanos poder exercer sua própria vontade, nenhum com menos possibilidades que outro. Portanto, ao contrário do que alguns pensam, a igualdade não se opõe à liberdade, e sim a leva ao máximo possível no plural (qualquer número de dois para mais).

1.4   Individualismo, entendido com honestidade, só pode significar “cada um exercer sua vontade nos limites do que é capaz sozinho: sem colaboração nem serviço de nenhum outro”. Já se provou que um ser humano dificilmente sobrevive nessas condições, e se sobrevive não realiza nada além de sobreviver. (Se chega a realizar, já não é de modo verdadeiramente individualista, pois é com capacidades que absorveu dos outros membros  de uma coletividade, ao crescer. Sem coletividade, nenhum filhote de Homo chega a se efetivar como sapiens).

1.5   Fraternidade, solidariedade ou cooperação é associar as vontades individuais para a realização coletiva de fins que beneficiem a todos os integrantes de uma coletividade. (Por brevidade, podemos admitir a palavra “desenvolvimento” para essa realização de benefícios). Isso depende de cada um ceder um pouco da sua liberdade, para harmonizá-la com as dos outros, enquanto quiser fazer parte da coletividade. Das formas possíveis de desenvolvimento, esta é a que se empenha em não se afastar da igualdade (ou afastar-se o menos possível). Importante: a neurociência mostrou que o ser humano é biologicamente capacitado para isso mediante o “circuito da empatia”.

1.5.1   Pode-se dizer que organização fraterna ou cooperativa é horizontal, pois as pessoas ficam mais ou menos em um mesmo nível de poder.

1.5.2   “Esquerda” é uma designação tradicional da busca por uma sociedade de cooperação igualitária e horizontalidade em geral. Se muitos pensam que “esquerda” se refere a uma busca de fortalecimento do poder do Estado, isso decorre da problemática que será abordada em 1.7 (a tentativa de usar o Estado em defesa da igualdade).

1.6   Tirania, ou dominação é uma pessoa usar sua liberdade para se apropriar da liberdade de outra(s). Com a dominação, a vontade de uma só pessoa passa a dispor da força de outra(s) para se realizar: em lugar de dispor de 2 braços, passa a dispor de 4 braços, ou de 40, ou mesmo de, p.ex., 400 mil. O dominador se torna como que sobre-humano às custas da sub-humanização ou desumanização de outros (pois um ser humano privado de liberdade está desumanizado).

1.6.1   Pode-se dizer que a dominação é vertical, em contraste com a horizontalidade da cooperação, mencionada em 1.5.1.

1.6.2   Cooperação entre dominadores para melhor dominar constitui oligarquia, o que (simplificando bastante) termina dividindo a coletividade em classes. Neste momento não é necessário distinguir entre os diferentes estilos e agentes históricos (p.ex. feudalismo e capitalismo, aristocracia e burguesia, etc.); o fundamento geral é que a classe dominante fica com os meios de produção (terra, máquinas, capital) e, para não sucumbirem todos à fome e outras necessidades, a classe sem meios termina cedendo sua força de trabalho para operar esses meios, formando uma sociedade intencionalmente desigual.

1.6.3   O objetivo da dominação é a própria dominação, ou seja: exercer poder sobre outro(s). Termos econômicos como “lucro” não comunicam claramente a natureza desse objetivo: o lucro só interessa por ser um meio de aumentar a reserva de poder do dominador.

1.6.3.1   Psicológica e neurologicamente, a efetivação do impulso de dominação só é possível em uma condição de psicopatia (incapacidade de sentir o que o outro sente), o que é deficiência do funcionamento do circuito da empatia referido em 1.5. (Voltaremos a isso no epílogo.)

1.6.4   A dominação é sempre imposta à força - seja força das armas, seja de trapaças econômicas que levam à necessidade, seja da difusão de crenças enganosas.

1.6.4.1   A violência inicial que institui a dominação costuma vir maquiada em termos como grandeza, nobreza, majestade. A palavra “violência” costuma ser reservada para as reações dos oprimidos contra a dominação - reações muitas vezes apontadas como “tentativa de dividir a sociedade”, quando apenas desnudam a divisão à força que fez a sociedade ser como é.

1.6.4.2   A maquiagem sistemática da dominação termina por constituir um vasto sistema de crenças que se reproduz de geração em geração, em parte automaticamente, em parte mediante ações intencionais. (Na linguagem marxista, a palavra ideologia se refere a esse sistema de crenças obscurecedoras, porém é preciso cuidado com essa palavra, pois também é usada com outros sentidos em outros sistemas de linguagem, e a maior parte das pessoas termina por usá-la com sentidos distintos em diferentes momentos).



1.6.5   O sentido original do Estado é a imposição de vontade dos tiranos através de grupos de trabalhadores cooptados e armados para isso. Nos termos tradicionais do interior do Brasil,  “os hómi do coronel”: jagunços, feitor, capataz, administrador etc.

1.6.5.1   Esse sistema de imposição de vontade costuma ser apresentado aos dominados como tendo a finalidade de protegê-los de perigos. Às vezes de fato há perigos reais que vêm de fora do conjunto, mas também pode se tratar de perigos inventados e propagandeados, ou mesmo de perigos reais criados com a finalidade específica de convencer que tal “proteção” é necessária.

1.6.5.2   O Estado raramente foi ele mesmo a cabeça do poder: geralmente é apenas meio de imposição do poder de alguma oligarquia, que normalmente nem é vista ou conhecida com clareza, pois faz o Estado se expor e se arriscar em seu lugar.

1.6.5.2.1   Portanto, a dominação se realiza sempre mediante conspiração. Onde há dominação, conspiração não é uma exceção e sim a regra. Para obscurecer esse fato, realiza-se a metaconspiração que é divulgar, por um lado, teorias de conspiração mirabolantes, irreais, e por outro, divulgar a crença de que conspirações não existem e que é ridículo dar crédito a toda e qualquer teoria de conspiração. Isso faz parte das operações da ideologia, no sentido exposto em 1.6.4.2.

1.6.6   “Direita” é uma designação tradicional de tudo o que busca a perpetuação da verticalidade, ou seja: da desigualdade e das estruturas de dominação. Muitas vezes, porém, a direita propõe a desmontagem do Estado, e aí muitos acreditam que ela está propondo liberdade e horizontalidade - quando se trata de uma forma mais refinada de dominação: ela pode (p.ex.) produzir uma relativa igualdade entre os dominados, enquanto controla as condições a partir de uma posição cada vez mais invisível e/ou maquiada por propaganda. Uma estrutura, obviamente, bem mais difícil de combater que a de uma dominação escancarada. (Comparar com “esquerda” em 1.5.2)

1.7   Onde houve tentativas de desfazer a dominação, retornando o poder à coletividade una e cooperativa, tentou-se também inverter o sentido original do Estado: um Estado Democrático seria um sistema de defesa da coletividade igualitariamente livre contra as tentativas de dominá-la e tiranizá-la. A ideia não é descabida, pois a tirania usa força: como resistir a ela sem também usar força?

1.7.1   Em relação a um Estado Democrático ideal, pode-se falar de uma verticalidade defensiva, cuja finalidade seria se contrapor à verticalidade da dominação para garantir que a coletividade possa permanecer organizada horizontalmente, ou seja: de modo fraterno.

1.7.2   Chegamos aqui ao drama central da Política, até hoje não resolvido: toda coletividade sem um sistema de defesa está de fato sujeita a ser apresada e tiranizada por forças externas. Mas a força que serve para defender é a mesma que serve para atacar. Como garantir que essa força não seja usada para tiranizar a própria coletividade que deveria defender? Ou seja: como evitar que o Estado Democrático passe a atuar como Estado Tirânico, seja a partir de si mesmo, gerando uma nova oligarquia (como aconteceu na sequência da Revolução Russa), seja associando-se às forças externas referidas acima (como em 1964 no Brasil)? (Sobre isso e a Revolução Russa, recomendo enfaticamente a seguinte fala de Noam Chomsky, por mais que isso venha a me custar pedradas de muitos: http://www.youtube.com/watch?v=zDJee4stYN0 )

1.7.3   A honestidade obriga a reconhecer que um Estado Democrático permanece como ideal: nunca foi plenamente realizado. Já houve tentativas significativas, mas poucas vezes duraram.

1.7.3.1   Isso parece dar razão aos anarquistas: melhor seria ter Estado nenhum desde já - mas esse “desde já” é totalmente ilusório: retire-se totalmente o Estado de uma coletividade, e ela logo será apresada pelo Estado vigente em outra coletividade, que com isso se expande como Estado Imperialista. Ou seja: enquanto subsistir alguma oligarquia no mundo, toda tentativa de implantar anarquismo levará apenas à submissão a senhores ainda mais remotos que os anteriores.

1.7.3.2   O próprio Marx entendia isso. Ele preconizava a tomada das estruturas de poder pelas classes trabalhadoras para em seguida desmontá-las, levando a uma sociedade sem classes e sem Estado: é isso o que ele entendia como “a Revolução”. Mas ele mesmo tinha claro que tal Revolução teria que ser mundial, numa só sequência de acontecimentos. Pois uma sociedade revolucionada meramente local seria logo conquistada por forças de dominação externas - ou então teria que parar no meio do processo (antes de atingir a condição igualitária desejada) para ter meios de se defender desses ataques externos - gerando mais uma vez um Estado potencialmente tão opressor quanto aqueles a que tenta resistir. De modo que a Dominação triunfa mais uma vez: ou invadindo diretamente a área revolucionada, ou gerando nela um espelhamento de si.

1.7.3.3   Isso sugere que de momento o melhor que se pode almejar (ou o menos ruim) é lutar pelo aperfeiçoamento do Estado Democrático - justamente no sentido de que seja efetivamente Democrático, inventando-se meios de impedir que se torne Tirânico como de costume - até que um dia existam condições mundiais para a abolição de todo e qualquer sistema de dominação, de uma vez em todo mundo.

1.7.3.3.1   Mas não será pensável que já tenhamos atingido essas condições mundiais “para a abolição de todo e qualquer sistema de dominação, de uma vez em todo mundo”? Tentar lidar com essa questão em termos de reflexão genérica, como fizemos até aqui, seria uma futilidade suicida: aqui é forçoso saltar para dentro do conhecimento de fatos concretos, com localização definida no tempo e no espaço.

Próximo capítulo:
2. A REALIDADE DO IMPÉRIO: A TIRANIA MUNDIAL ATIVA
(quando eu conseguir!)
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Reflexões sobre junho-julho 2013: O NEGÓCIO DA REVOLUÇÃO, vídeo que TODOS precisam assistir!!

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Finalmente legendado em português - está aí um vídeo de 27 minutos que nenhum brasileiro pode deixar de assistir neste momento! (Só um detalhe: o original se chama THE REVOLUTION BUSINESS, e não "the business of revolution").
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Reflexões sobre junho-julho 2013: Movimento Occupy denunciou o fascismo dos Black Bloc já no início de 2012

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Esta matéria de CHRIS HEDGE, publicada nos EUA em 06/02/2012, mostra que, tanto lá como aqui, BLACK BLOCs e P2 são diferentes cepas DO MESMO VÍRUS - inoculados na sociedade por agentes DO MESMO IMPÉRIO, como VACINA ANTI-REVOLUÇÃO.

Título original: THE CANCER IN OCCUPY
http://www.truthdig.com/report/page2/the_cancer_of_occupy_20120206/
Tradução e notas entre colchetes: Ralf R.


Os anarquistas Black Bloc, que estiveram em ação nas ruas de Oakland e de outras cidades, são o câncer do movimento Occupy. A presença de anarquistas Black Bloc - chamados assim porque se vestem de preto, escondem a cara, se movem como massa unificada, buscam confrontos físicos com a polícia e destroem propriedades - é um presente do céu para o Estado da Segurança e Vigilância. Os acampamentos Occupy em várias cidades foram fechados justamente porque eram não violentos. Foram fechados porque o Estado percebeu seu amplo potencial de atração, até mesmo para os de dentro dos sistemas de poder. Foram fechados porque articularam uma verdade, sobre o nosso sistema econômico e político, que cruzava transversalmente as linhas políticas e culturais. E foram fechados porque eram locais onde mães e pais com carrinhos de bebê se sentiam seguros.

Os adeptos do Black Bloc detestam a nós que estamos na esquerda organizada, e procuram, bem conscientemente, nos arrancar nossos instrumentos de empoderamento. Confundem com revolução o que são atos de vandalismo banal e de repugnante cinismo. Os verdadeiros inimigos, eles argumentam, não são os capitalistas corporativos, e sim os seus colaboradores no meio dos sindicatos, dos movimentos de trabalhadores, dos intelectuais radicais, ativistas ambientais e movimentos populares como os zapatistas. Qualquer grupo que busca re-estruturar estruturas sociais, especialmente por meio de atos de desobediência civil não violenta ao invés de destruir fisicamente, se torna o inimigo, aos olhos dos Black Bloc. Anarquistas Black Bloc empregam a maior parte da sua fúria não contra os arquitetos do NAFTA (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio) ou da globalização, e sim contra os que reagem contra esse problema, como os zapatistas. É uma inversão de sistemas de valores grotesca.

Por não acreditarem em organização, e na verdade se oporem a todos os movimentos organizados, os anarquistas Black Bloc garantem sua própria impotência. Tudo o que eles conseguem ser é obstrucionistas. E são obstrucionistas principalmente para aqueles que resistem. John Zerzan, um dos principais ideólogos do movimento Black Bloc nos Estados Unidos, defendeu o desconexo manifesto "A sociedade industrial e o seu futuro", de Theodore Kaczynski, conhecido como Unabomber, mesmo se não endossou seus atentados. Zerzan é um feroz crítico de uma longa lista de supostos vendidos, a começar por Noam Chomsky. Anarquistas Black Bloc são um exemplo do que Theodore Roszak, em "The Making of a Counter Culture", chamava de "progressiva adolescentização" da esquerda estadunidense.

Em sua extinta revista Green Anarchy (que sobrevive como website), Zerzan publicou um artigo escrito por alguém chamado "Borboleta Venenosa” (Venomous Butterfly), que execrava o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). O artigo dizia que "os objetivos dos zapatistas não só não são anarquistas, como sequer são revolucionários. Também denunciou o movimento indígena por “linguagem nacionalista", pelo fato de defender que o povo tem direito de “alterar ou modificar sua forma de governo”, e por ter como objetivos “trabalho, terra, moradia, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz”. Tal movimento, o artigo afirmava, não seria digno de apoio pois não demandava "nada de concreto que não possa ser fornecido pelo capitalismo. "

"É claro que não se pode esperar", continuava o artigo, "que as lutas sociais dos explorados e oprimidos se adaptem a algum ideal anarquista abstrato. Essas lutas surgem em situações particulares, provocadas por eventos específicos. A questão da solidariedade revolucionária com essas lutas é, portanto, a de como intervir de um modo que sirva aos nossos próprios objetivos, de uma maneira que seja vantajosa para o nosso projeto revolucionário anarquista." [O original usa o eufemismo “one’s”, mas não há falseamento em traduzi-lo por “nosso”].

Solidariedade vem a ser então o sequestro ou destruição de movimentos concorrentes, o que é exatamente o que os contingentes Black Bloc estão tentando fazer com o movimento Occupy.

"Os Black Bloc podem dizer que estão atacando policiais, mas o que eles realmente estão fazendo é destruir o movimento Occupy", me disse o escritor e ativista ambiental Derrick Jensen quando o contatei por telefone na Califórnia. "Se o seu alvo fosse de fato a polícia, e não o movimento Occupy, os Black Bloc separariam completamente suas ações das do Occupy, em vez de efetivamente usar este último como escudo humano. Seus ataques a policiais são meramente um meio para outra finalidade, que é a de destruir um movimento que não se encaixa no seu padrão ideológico."

"Não vejo problemas no emprego de táticas de escalada [aumento gradativo de pressão que pode chegar a atos violento] para algum tipo de resistência militante, se isso for moral, estratégica e taticamente apropriado", prosseguiu Jensen. "Isso vale no caso de você levantar um cartaz, uma pedra ou uma arma. Mas você tem que ter refletido sobre isso. Os Black Bloc passam mais tempo tentando destruir movimentos que atacando quem está no poder. Eles odeiam mais a esquerda que os capitalistas."

"Seu modo de pensar não é apenas não estratégico, mas ativamente contrário à estratégia", disse Jensen, autor de vários livros, incluindo "The Culture of Make Believe" (A cultura do faz-de-conta). "Eles não estão dispostos a pensar criticamente sobre se a pessoa está agindo de forma adequada no momento. Não vejo problemas em alguém violar limites quando essa violação é a coisa mais inteligente ou apropriada a fazer - mas vejo enorme problema em pessoas que violam limites apenas para violar limites. É muito mais fácil pegar uma pedra e jogar na janela mais próxima do que organizar - ou que pelo menos descobrir em qual janela você deve jogar a pedra, se você for jogar uma pedra. Muito disso é preguiça."

Grupos de manifestantes Black Bloc, por exemplo, moeram as janelas de um café de propriedade local e o saquearam, em novembro, em Oakland. Não era, como Jensen aponta, um ato estratégico, moral ou tático. Foi feito por fazer. Atos de violência, saques e vandalismo são justificados, no jargão do movimento, como componentes de insurreição "selvagem" (feral) ou "espontânea." O movimento defende que atos desse tipo nunca podem ser organizados. Organização, no pensamento do movimento, implica hierarquia, que deveria ser combatida sempre. Não poderia haver restrições a atos de insurreição “selvagens” ou "espontâneos". Quem se machucar se machucou. O que for destruído se destruiu, não importa o quê.

Há um adjetivo para isso: "criminoso".

O movimento Black Bloc está infectado com uma hipermasculinidade profundamente perturbadora. Essa hipermasculinidade, tenho a impressão, é o seu apelo básico. Ela cutuca a volúpia de destruir que se esconde dentro de nós - destruir não apenas coisas, mas também seres humanos. Ela oferece o poder como de deuses que vem com a violência da turba. Marchar como massa uniforme, todos vestidos de preto para se tornarem parte de um bloco anônimo com rostos cobertos, isso supera temporariamente a alienação, os sentimentos de inadequação, impotência e solidão. Confere aos participantes da massa um sentimento de camaradagem. Permite que uma raiva indefinida seja descarregada em qualquer alvo. Piedade, compaixão e delicadeza são banidos pela intoxicação do poder. É a mesma doença que alimenta os enxames de policiais que jogam spray de pimenta e espancam manifestantes pacíficos. É a doença dos soldados em guerra. Transforma seres humanos em feras.

Erich Maria Remarque escreveu em "Nada de novo no front ocidental": "nós íamos em frente, sobrepujados por essa onda que nos carrega, que nos enche de ferocidade, nos transforma em bandidos, em assassinos, em só Deus sabe o que diabos: essa onda que multiplica a nossa força pelo medo e loucura e gana de viver, buscando e lutando por nada além de sair dali” [for our deliverance: impossível determinar, fora de contexto, se se trata de “libertação” ou de “dispensa” no sentido militar].

O estado corporativo [corporate state: neste contexto, o estado dirigido por interesses privados associados para seu bem comum] entende e aplaude a linguagem da força. As táticas do Black Bloc de confronto e destruição de propriedades, o estado corporativo as pode usar para justificar formas de controle draconianas e para incutir medo de apoiar o movimento Occupy nas camadas mais amplas da população. Uma vez o movimento Occupy seja pintado como uma multidão que queima bandeiras e joga pedras, estamos acabados. Se ficamos isolados podemos ser esmagados. A prisão de mais de 400 manifestantes em Oakland na semana passada, alguns dos quais haviam jogado pedras, carregado escudos caseiros e feito barricadas, são uma indicação da dimensão da escalada de repressão, e do nosso fracasso em permanecermos uma oposição unificada e não violenta. A polícia atirou gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e disparos "menos letais" para o meio das multidões. Uma vez na prisão, foram negados medicamentos cruciais aos manifestantes, os quais foram mantidos em celas superlotadas e tocados de um lugar para outro. Uma marcha em Nova York, chamada em solidariedade aos manifestantes de Oakland, viu alguns manifestantes imitarem as táticas dos Black Bloc em Oakland, inclusive jogando garrafas contra a polícia e despejando de lixo na rua. Eles gritavam "foda-se a polícia" e “racist, sexist, anti-gay / NYPD go away" (racista, sexista, anti-gay / cai fora, polícia de Nova York).

Esta é uma luta para conquistar os corações e mentes de um público amplo, bem como daqueles que estão dentro das estruturas de poder e são dotados de uma consciência (incluindo a polícia). Não é uma guerra. Movimentos não violentos de certa forma recebem a brutalidade policial com abraços. A tentativa continuada do Estado de esmagar manifestantes pacíficos, que reivindicam meros atos de justiça, deslegitima a elite do poder. Isso incita uma população passiva a reagir, traz alguns de dentro das estruturas de poder para o nosso lado, e cria divisões internas que produzem paralisia na rede dos canais de autoridade. Martin Luther King promoveu marchas em Birmingham repetidamente porque sabia que o Comissário de Segurança Pública "Bull" Connor era um vilão que iria se exceder na reação.

O clichê da "diversidade de táticas", alegado pelos Black Bloc para acabar com a reflexão, termina por abrir caminho para que centenas ou milhares de manifestantes pacíficos sejam desacreditados por um punhado de arruaceiros. O Estado não poderia ficar mais feliz. É aposta segura, que entre os grupos Black Bloc em cidades como Oakland se encontram agentes provocadores instigando-os a fazer mais confusão. Mas, com ou sem infiltração policial, o Black Bloc está servindo aos interesses do um por cento. Esses anarquistas representam a ninguém além de si mesmos. Os que agiram em Oakland, embora em sua maioria fossem brancos, e muitos de fora da cidade, repudiaram arrogantemente as lideranças afroamericanas de Oakland, que, junto com outros organizadores comunitários locais, deveriam ter determinado as formas de resistência.

O crescimento explosivo do movimento Occupy Wall Street se deu quando algumas mulheres que ficaram encurraladas atrás de um isolamento de malha laranja foram atacadas com spray de pimenta pelo vice-inspetor Anthony Bologna, da Polícia de Nova York. A violência e a crueldade do Estado foram expostos. E o movimento Occupy, por meio de sua firme recusa em responder à provocação da polícia, repercutiu em todo o país. Perder essa autoridade moral, esta capacidade de mostrar através de protesto não-violento a corrupção e a decadência do estado corporativo, mutilaria o movimento. Seria reduzir-nos à degradação moral dos nossos opressores. E é isso o que nossos opressores querem.

O movimento Black Bloc tem a rigidez e dogmatismo de todas as seitas absolutistas. Só os seus adeptos possuem a verdade. Só eles entendem. Só eles se arrogam o direito - porque eles são iluminados e não somos - de repudiar e ignorar pontos de vista concorrentes como infantis e irrelevantes. Eles ouvem apenas as suas próprias vozes, dão atenção apenas a seus próprios pensamentos. Acreditam apenas em seus próprios clichês. E isso os faz não só profundamente intolerantes, mas também estúpidos.

"Se você é hostil à organização e ao pensamento estratégico, a única coisa que lhe resta é a pureza do seu estilo de vida", disse Jensen. “O ’estilismo de vida’ suplantou a organização em grande parte do pensamento ambientalista predominante [mainstream]. Em vez de se opor ao estado corporativista, o ‘estilismo de vida’ sustenta que devemos usar menos papel higiênico e fazer compostagem dos detritos. Este tipo de atitude é inefetivo. Se você abre mão de organizar, ou é hostil a organizar, tudo o que lhe resta é essa hiperpureza, que acaba se tornando dogma rígido. Você acaba atacando pessoas por usarem telefone, por exemplo. Isso vale para os vegans e as questões de alimentação. Vale para as atitudes dos ativistas anti-carro em relação a quem usa carro. Acontece o mesmo com os anarquistas. Quando eu liguei para a polícia depois de ter recebido ameaças de morte, para os anarquistas Black Bloc eu virei 'amante dos porcos’."

Jensen prosseguiu:"Se você vive no território Ogoni e você vê que Ken Saro-Wiwa foi assassinado por causa dos seus atos de resistência não violenta, e você vê que a sua terra continua sendo destruída, então você pode pensar em partir para uma escalada. Eu não tenho dificuldades com isso. Mas a gente tem que ter passado pelo processo de tentar atuar junto ao sistema e ter ‘se ferrado’. É só aí que cabe ‘avançar o sinal’. Não podemos dar curto-circuito no processo. Há um processo de maturação que a gente precisa ser atravessar, enquanto indivíduos e enquanto movimento. A gente não pode simplesmente dizer: 'Ei, vou jogar um vaso num policial porque eu acho legal."

11 fevereiro 2013

Você já tem sua aposta quanto ao próximo papa? EU TENHO...


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Não estranhem nem se entusiasmem se escolherem um brasileiro, outro latinoamericano ou um africano como próximo papa.

Em 1978 Karol Wojtyla foi cuidadosamente escolhido pelo Vaticano em conjunto com a CIA, como uma espécie de cavalo de Troia para o leste europeu - e cumpriu muito bem o seu mandato, aproveitando para praticamente anular a então pujante esquerda eclesiástica lationoamericana.

O que mais interessa ao império aniquilar atualmente, senão a incipiente autonomia dos países emergentes, baseada na solidariedade sul-sul e liderada pelos BRICS?

De modo que não me espantarei nem um pouquinho se dentro de um mês tivermos um papa brasileiro ou africano - mas desta vez não terei a ingenuidade de comemorar, como tive na primeira eleição de Mr Obama.
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Foto: cardeal Fracis Arinze, nigeriano,
já considerado papável na última eleição, em 2005
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07 fevereiro 2013

Fundamental para entender a atualidade: resenha do livro HITLER GANHOU A GUERRA

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O texto abaixo é integralmente uma tradução do publicado originalmente em espanhol em  http://elproyectomatriz.wordpress.com/2007/06/12/hitler-gano-la-guerra/ , inclusive os links finais. Posteriormente conseguimos um PDF com o texto completo desse livro em português, o qual está disponível em tr.im/grazianohitlerganhou   (Ralf)
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Não é à toa que sempre insistimos em pedir a sua cooperação no fornecimento de comentários e recomendações, seja qual for o post. Graças à contribuição de Carlos topamos com essa peça interessantíssima: "Hitler Ganó la Guerra" [Hitler Ganhou a Guerra], de Walter Graziano (2004). Apesar de não ter lido na íntegra, o pouco que eu pesquisei sobre o livro e o autor promete, e acreditamos que vai se tornar uma peça-chave para "ligar os pontos".

Comecemos por apreciar a biografia do autor, que, pelo que diz o Taringa!, não poderia ser melhor: uma pessoa que sabe o que está falando, e ao mesmo tempo comprometida:

"Walter Graziano nasceu em 1960, na Argentina. Graduou-se em Economia na Universidade de Buenos Aires. Até 1988 foi funcionário do Banco Central, tendo recebido bolsas governo italiano e do Fundo Monetário Internacional para estudar em Nápoles e em Washington.

Desde 1988, tem colaborado na mídia impressa e audiovisual argentina, ao lado de sua atividade profissional de consultoria econômica. Em 1990, publicou "Historia de 2 hiperinflaciones" e, em 2001, "Las siete plagas de Argentina", livro que previu a derrocada econômica e política de seu país. Desde 2001 Graziano se dedica em tempo integral aos temas desta obra, o seu contexto histórico e questões colaterais."

Quanto ao conteúdo do livro:

"Ao falar deste livro, é preciso começar por uma advertência aos potenciais leitores: não se deixem guiar pela capa nem pelo título, nem em termos de atração nem de repulsa. O autor não é um neo-nazista que alucina uma imagem triunfal do Führer, ou algo assim. Este é um daqueles livros cujo conteúdo pode ser altamente polêmico, mas qualquer que seja a posição que o leitor a tomar, sem dúvida vai ser seduzido a fazer algumas reflexões acerca da política internacional.

Quem pensa que muitos dos enormes problemas do mundo começariam a ser resolvidos trocando o presidente dos Estados Unidos, está seriamente equivocado. O atual presidente não é mais que "a ponta do iceberg" de uma complicada estrutura de poder, urdida cuidadosamente ao longo de muito tempo por uma pequena elite de clãs familiares muito ricos, os verdadeiros proprietários, "nas sombras", do petróleo, do sistema bancário, dos laboratórios, das empresas de armas, universidades e meios de comunicação mais importantes do mundo, entre outros setores. 

Trata-se de nada menos que os mesmos que antes e durante a Segunda Guerra Mundial financiaram Hitler para que tomasse o poder e se armasse, proveram o Terceiro Reich de materiais básicos, fomentaram o ideário racista do Führer e propiciaram a escalada da máquina nazista na Alemanha. 

Neste volume, o leitor poderá se inteirar de como essa poderosa elite, em cujo núcleo se escondem antigas sociedades secretas, já há muitíssimos anos coloca os presidentes dos Estados Unidos como marionetes e corrompem até os alicerces a base dos partidos Republicano e Democrata. 

O leitor também verá como tal elite manipula as democracias do mundo, se utiliza das melhores universidades estadunidenses e de seus intelectuais gerando a ilusão de progresso científico através de pura falsidade ideológica, e manipula os meios de comunicação para que as massas e as classes médias não fiquem sabendo do que realmente ocorre. Sob esta nova luz até os ataques de 11 de setembro de 2001 ganham uma leitura diferente. 

Assustador, revelador, solidamente fundamentado, "Hitler Ganhou a Guerra" levará seus leitores a descobrirem conexões antes impensadas entre fatos ​​do passado ou do presente."

* Para mais informações:
http://www.solesdigital.com.ar/libros/graziano.html
http://biblioteca.alamedianoche.com/?p=124

http://www.taringa.net/posts/downloads/89084/W_Graziano–Hitler-gano-la-guerra.html

* Para baixar a versão digital en emule (copiar e colar):
ed2k://|file|Graziano,%20Walter%20-%20Hitler%20gan%C3%B3%20la%20guerra.pdf|4445902|7B2F086E42B9014F799CBDF4A4FC9F97|/

* Para mais livros interessantes consultem nossa compilação:
http://elproyectomatriz.wordpress.com/about/


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PÓS-ESCRITO DE RALF: 
Sugiro que agora se leia à luz das informações acima o sombrio artigo lincado a seguir. Voltarei a comentar esse conjunto de coisas em breve.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-invasao-real-da-africa-por-john-pilger
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20 novembro 2012

As (até agora) 29 resoluções da ONU sobre Israel, 27 das quais descumpridas

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Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5364865-EI308,00-Resolucoes+adotadas+pela+ONU+no+conflito+palestinoisraelense.html


Desde que a Palestina foi dividida pelas Nações Unidas em dois Estados em 1947, um judeu e o outro palestino, a ONU adotou as seguintes resoluções sobre este conflito.
(1) 29 de novembro 1947- Resolução 181 (Assembleia Geral).- Aceita, apesar da oposição da Liga Árabe e dos palestinos, a criação de dois Estados, um judeu e um árabe, no antigo protetorado britânico da Palestina, com Jerusalém sob mandato internacional.
(2) 11 de dezembro 1948.- Resolução 194 (Assembleia Geral).- Estabelece que os refugiados têm direito a retornar a suas casas, agora em território de Israel, ou a receber uma indenização caso não desejarem voltar.
(3) 11 de maio 1949.- Resolução 273 (Assembleia Geral).- Israel é admitido como membro da ONU.
(4) 9 de dezembro 1949- Resolução 303.- "Jerusalém será administrada pelas Nações Unidas sob um regime internacional".
(5) 22 de novembro 1967.- Resolução 242 (Conselho de Segurança). Pede a retirada de Israel dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias e "o reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de todos os Estados da região e seu direito a viver em paz".
(6) 19 de dezembro 1968.- Resolução 2443 (Assembleia Geral). Exige que Israel "desista de destruir casas de civis" nas áreas ocupadas e expressa sua preocupação "pela violação dos direitos humanos".
(7) 22 de outubro 1973.- Resolução 338 (Conselho de Segurança) .- Pede o cessar-fogo aos participantes da Guerra do Yom Kippur (quando Síria e Egito atacaram Israel) e o cumprimento da Resolução 242 do Conselho de Segurança.
(8) 10 de novembro 1975.- Resolução 3379 (Assembleia Geral).- "O sionismo é uma forma de racismo e de discriminação racial". Foi cancelada em 17 de dezembro de 1991.
(9) 22 de março 1979.- Resolução 446 (Conselho de Segurança).- A política israelense de promover "assentamentos nos territórios palestinos e árabes ocupados não tem validade legal e constitui um sério obstáculo" para a paz no Oriente Médio.
(10) 5 de junho 1980.- Resolução 471 (Conselho de Segurança).- Condena o atentado contra os prefeitos de Nablus, Ramala e Al-Bireh e solicita a imediata prisão dos assassinos.
(11) 7 de janeiro 1992.- Resolução 726 (Conselho de Segurança).- Condena a deportação de 12 palestinos por Israel.
(12) 18 de dezembro 1992.- Resolução 799 (Conselho de Segurança).- Condena a deportação de centenas de civis palestinos e exige seu "imediato retorno".
(13) 19 de março 1994.- Resolução 904 (Conselho de Segurança).- Condena o massacre de 29 palestinos na mesquita de Hebron e exige presença internacional na Cisjordânia e em Gaza para proteger os palestinos.
(14) 13 de março 1997.- Resolução 51/223 (Assembleia Geral). Aconselha Israel a não construir assentamentos nos territórios ocupados, especialmente em Jerusalém.
(15) 9 de fevereiro 1999.- Resolução 10/6 (Assembleia Geral).- Condena o descumprimento das resoluções da ONU por Israel e pede a interrupção dos assentamentos.
(16) 12 de março 2002 .- Resolução 1397 (Conselho de Segurança).- Apoia "o conceito de uma região em que dois Estados, Israel e Palestina, vivam um ao lado do outro dentro de fronteiras seguras e reconhecidas" e exige o fim da violência.
(17) 30 de março 2002.- Resolução 1402 (Conselho de Segurança).- Pede a Israel a retirada das cidades palestinas, incluindo Ramala, onde os escritórios de Arafat estão sendo bombardeados.
(18) 24 de setembro 2002.- Resolução 1435 (Conselho de Segurança). Exige que Israel acabe com o cerco a Arafat e que se retire às posições anteriores à Segunda Intifada (28 setembro 2000).
(19) 3 de dezembro 2002.- A Assembleia Geral aprova seis resoluções: três referentes a organismos criados pela ONU para amenizar a situação dos palestinos, uma sobre Jerusalém, outra sobre as Colinas de Golã e uma última sobre a solução pacífica do conflito.
(20) 15 de abril 2003.- A Comissão dos Direitos Humanos da ONU condena Israel por violar os direitos humanos nos territórios ocupados e pela "restrição dos movimentos" de Arafat.
(21) 19 de setembro 2003.- Resolução 10/12 (Assembleia Geral). Exige o fim da violência e que Israel não deporte ou ameace a integridade de Arafat.
(22) 21 de outubro 2003.- Resolução 10/13 (Assembleia Geral). Pede a Israel a eliminação do muro que constrói em território palestino.
(23) 19 de maio 2004.- Resolução 1544 (Conselho de Segurança).- Condena Israel pelos massacres dos últimos dias em Gaza.
(24) 21 de julho 2004 .- Resolução 10/15 (Assembleia Geral).- Exige que Israel cumpra a sentença que declara o muro ilegal.
(25) 9 de janeiro 2009.- Resolução 1860 (Conselho de Segurança).- Pede a Israel e ao Hamas o cessar-fogo em Gaza, a retirada israelense e a entrada sem impedimentos de ajuda humanitária no território palestino.
(26) 16 de outubro 2009.- O Conselho de Direitos Humanos condena Israel e o Hamas por crimes de guerra durante a ofensiva de dezembro de 2008 e janeiro de 2009 em Gaza.
(27) 26 de fevereiro 2010.- A Assembleia Geral pede a Israel e aos palestinos que investiguem possíveis crimes de guerra em Gaza, denunciados em 2009 pelo relatório Goldstone.
(28) 24 de março 2010.- O Conselho de Direitos Humanos condena os assentamentos israelenses, defende a autodeterminação palestina e denuncia Israel por violação de direitos humanos nos territórios ocupados e nas Colinas de Golã.
(29) 2 de junho 2010.- O Conselho de Direitos Humanos condena Israel pelo ataque contra uma pequena frota humanitária que se dirigia a Gaza.
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21 agosto 2011

Zizek e H.Villela: 2 textos ótimos sobre o momento histórico mundial (deu no Azenha)

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Não tenham preguiça de ler o texto um pouco longo de Slavoj Zizek: é a primeira análise profunda e abrangente que encontro do conjunto de diferentes levantes de 2011; a primeira que faz jus à complexidade da realidade. (O quanto eu gostaria que tudo fosse mais simples!, mas o fato é que não é: quem fala de qualquer coisa real como se não fosse complexa, ou está enganado ou está enganando!)

O breve artigo de Heloísa Villela faz um excelente contraponto ao de Zizek por trazer uma imagem da situação estadunidense, enquanto este trata basicamente da Europa e espaço islâmico.

Deixo claro que não acho que as populações do mundo estejam acordando com seu levante enquanto a do Brasil continua passiva e adormecida; primeiro porque, como mostra Zizek, esses levantes são justificadíssimos porém definitivamente lhes falta consciência (dos seus próprios contextos - tanto o próximo quanto o mais amplo - bem como de si mesmos); segundo, porque repetir aqui o mesmo tipo de levante seria uma inconsciência ainda maior: é claro que há milhares de questões graves a enfrentar no Brasil - mas na maior parte do resto do mundo há dezenas de milhares.

E quando a secretária-geral da CSI - maior central sindical do mundo - vem ao Brasil "pedir ajuda a Dilma para defender os pontos de vista trabalhistas" num mundo que se tornou hoje "um lugar muito perigoso para os trabalhadores", pois acredita que "o Brasil e sua presidenta colocam as pessoas no centro das políticas nacionais” e "possuem liderança global" (*), fica ainda mais evidente o quanto aqui e agora é um tiro no pé qualquer protesto que não identifique com a maior clareza, objetividade e detalhamento quais são suas metas concretas e quem são seus inimigos, e que não veja nosso executivo federal atual como um aliado a quem fortalecer com sugestões e reivindicações, mas jamais a combater e enfraquecer.

Ou seja: em nenhum lugar do mundo hoje o momento é tão outro quanto no Brasil, e querer transferir para cá atitudes geradas por outro tipo de contexto seria mais uma vez um exemplo de "ideias fora do lugar", ou seja: da subserviência mental do complexo de vira-lata que fantasia que o mundo de verdade é lá fora e somos sempre nós que estamos atrasados ou atravessando o passo, enquanto que neste momento o mundo inteiro olha para nós justamente como os que estão com o passo menos inadequado.

(*) http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18274

Obs.: TODO CRÉDITO AO LUIZ CARLOS AZENHA, E AO COLETIVO DA VILA VUDU QUE TRADUZIU O TEXTO DE ZIZEK, E AINDA À AGÊNCIA CARTA MAIOR, POR COLOCAREM ESTES MATERIAIS EM CIRCULAÇÃO NO BRASIL. Estou aqui apenas ajudando a ecoar, reproduzindo no meu próprio blog apenas para possibilitar uma determinada recombinação desses materiais.




ASSALTANTES DE LOJINHAS DO MUNDO, UNI-VOS...

19/8/2011

por Slavoj Zižek, London Review of Books, vol. 33, n, 16
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/assaltantes-de-lojinhas-do-mundo-uni-vos.html
Tradução do Coletivo da Vila Vudu

A repetição, segundo Hegel, tem papel crucial na história: se alguma coisa acontece uma única vez, pode ser descartada como acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido conduzida de modo diferente; mas quando um mesmo evento repete-se, é sinal de que está em curso um processo histórico mais profundo. Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig em 1813, pareceu má sorte; quando foi derrotado outra vez em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara. Vale o mesmo para a continuada crise financeira. Setembro de 2008 foi apresentado como anomalia que podia ser corrigida com melhores regulações e controles; hoje se acumulam sinais de quebradeira nas finanças e já é evidente que estamos lidando com fenômeno estrutural.

Dizem e repetem e repetem que atravessamos uma crise da dívida e que todos temos de partilhar a carga e apertar os cintos. Todos, exceto os (muito) ricos. Aumentar impostos sobre muito ricos é tabu: se se fizer isso, diz o mesmo argumento, os ricos não terão incentivo para investir, haverá menos empregos e todos sofreremos mais. A única salvação, nesses tempos duros, é os pobres ficarem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O que devem fazer os pobres? O que podem fazer?

Embora os tumultos de rua na Grã-Bretanha tenham sido desencadeados pela morte de Mark Duggan, todos concordam que manifestam mal-estar mais profundo – mas que tipo de mal-estar? Como quando se queimaram carros nos subúrbios de Paris em 2005, os agitadores de rua na Grã-Bretanha não tinham mensagem alguma a comunicar. (Há aí claro contraste com as manifestações massivas de estudantes em novembro de 2010, que também geraram violência. Os estudantes deixaram bem claro que rejeitavam as propostas de reformas na educação superior.) Por isso é difícil pensar sobre os agitadores de rua britânicos em termos marxistas, como uma instância da emergência do sujeito revolucionário; encaixam-se muito mais facilmente na noção hegeliana de “ralé”, “escória” [orig. ‘rabble’], espaços marginais organizados, que manifestam o próprio descontentamento mediante explosões ‘irracionais’ de violência destrutiva – que Hegel chamava de “negatividade abstrata”.

Há uma velha história sobre um operário suspeito de roubo: todas as tardes, ao sair da fábrica, o carrinho-de-mão que ele empurra é cuidadosamente revistado. Os guardas nada encontram; o carrinho está sempre limpo. Até que a ficha cai: o operário roubava um carrinho-de-mão por dia. Os guardas não viam a mais visível verdade, exatamente como os jornalistas e especialistas e autoridades que comentaram os tumultos de rua. Dizem-nos que a desintegração dos regimes comunistas no início dos anos 1990s marcaram o fim da ideologia: o tempo dos projetos ideológicos em grande escala que culminaram em catástrofe totalitária está acabado; teríamos entrado numa nova era de política racional, pragmática. Se o lugar-comum de que vivemos numa era pós-ideológica é correto em algum sentido, pode-se ver nas recentes explosões de violência. Foi protesto de grau-zero, ação violenta sem demandas. Em sua tentativa desesperada para encontrar algum sentido nos tumultos, sociólogos e jornalistas deixaram passar sem qualquer registro o enigma que os tumultos nos impuseram.

Os que protestavam, oprimidos e socialmente excluídos de facto, não vivem risco de morrer de fome. Gente que sobrevive em condições materiais muito piores, sem falar das condições de opressão física e ideológica, têm conseguido organizar-se em forças políticas com agendas políticas claras. O fato de os agitadores não terem programa é, portanto, ele mesmo, fato que exige interpretação: diz muito sobre nossa pregação político-ideológica e sobre o tipo de sociedade em que vivemos – uma sociedade que celebra a escolha, mas na qual a única escolha possível é um consenso democrático obrigatório praticado como repetição sem pensamento [ing. a blind acting out].

Nenhuma oposição ao sistema consegue articular-se como alternativa realista, sequer como projeto utópico, e só consegue assumir a forma de explosão sem meta ou significado. O que significaria nossa tão celebrada liberdade para escolher, se a única escolha possível é jogar pelas regras ou a violência (auto)destrutiva?

Alain Badiou argumentou que vivemos num espaço social que cada dia mais é experienciado como “sem mundo” [orig, ‘worldless’]: nesse espaço, a única forma que o protesto pode assumir é a violência sem sentido.

Talvez aí esteja um dos principais perigos do capitalismo: embora, porque é global, o capitalismo inclua todo o mundo, ele mantém uma constelação ideológica “sem mundo”, na qual as pessoas são privadas dos meios conhecidos para localizar o significado. A lição principal da globalização é que o capitalismo pode acomodar-se a todas as civilizações, cristã, hindu ou budista, do Ocidente e do Oriente: não há qualquer ‘visão de mundo capitalista’, nenhuma ‘civilização capitalista’ propriamente dita. A dimensão global do capitalismo manifesta a verdade sem significado.

A primeira conclusão a ser extraída dos tumultos de rua, portanto, é que nenhuma das reações aos tumultos, seja a conservadora seja a liberal, é adequada.

A reação conservadora era previsível: não há o que justifique tal vandalismo; é preciso usar os meios necessários para restaurar a ordem; para evitar que explosões como aquelas se repitam no futuro, precisamos, não de mais tolerância e ajuda social, mas de mais disciplina, mais trabalho duro e senso de responsabilidade.

O que há de errado nessa narrativa não é só que ela ignora a situação social de desespero que empurra os jovens para explosões de violência mas, e talvez mais importanre, que ela ignora o modo como essas explosões são eco das próprias premissas ocultas da ideologia conservadora. Quando, nos anos 1990s, os Conservadores lançaram sua campanha de “de volta ao básico”, o complemento obseno que aí havia foi bem claramente revelado por Norman Tebbitt: “O homem não é só animal social, também é animal territorial; é indispensável incluir em nossa agenda a necessidade de satisfazer esses instintos humanos básicos de tribalismo e de territorialidade.” Porque aquela “volta ao básico” tratava, realmente, disso: de soltar os bárbaros que vegetam por baixo de nossa sociedade burguesa aparentemente civilizada, satisfazendo os “instintos básicos” dos bárbaros.

Nos anos 1960s, Herbert Marcuse introduziu o conceito de “dessublimação repressiva”, para explicar a “revolução sexual”: os impulsos humanos podem ser dessublimados, ganhar rédea solta, e, mesmo assim, permanecer submetidos aos controle capitalista – vide a indústria pornográfica [e as novelas e programas humorísticos da televisão brasileira (NTs)]. Nas ruas britânicas, durante os tumultos, o que se viu não foram homens reduzidos a ‘bestas’, mas a forma nua da ‘besta’ produzida pela ideologia capitalista.

Por sua vez, os liberais de esquerda, não menos previsíveis, agarraram-se ao seu mantra sobre programas sociais e iniciativas de integração, as quais, negligenciadas, teriam privado a segunda e terceira gerações dos imigrantes de suas possibilidades econômicas e sociais: explosões de violência seriam o único meio que ainda têm para articular a insatisfação. Em vez de nos permitir embarcar indulgentemente em fantasias de vingança, devemos nos esforçar para entender as causas profundas dos atos de violência. Saberíamos nós o que significa ser jovem em área pobre racialmente ‘complexa’, ser considerado suspeito a priori nas batidas policiais, sempre agredidos por policiais, não só desempregado mas, muitas vezes, inimpregável, sem esperanças de futuro? A implicação é que as próprias condições em que essas pessoas encontram-se tornariam inevitável que tomassem as ruas.

O problema dessa narrativa é que só lista as condições objetivas dos tumultos. ‘Agitar’, ‘tumultuar’ seria fazer uma declaração subjetiva, declarar implicitamente como alguém se relaciona com as próprias condições objetivas de vida.

Vivemos tempos cínicos. Não é difícil imaginar um agitador que, apanhado quando saqueava e incendiava uma loja e interrogado sobre suas razões, responda usando a linguagem dos sociólogos e assistentes sociais: que fale de menor mobilidade social, insegurança crescente, desintegração da autoridade paterna, carência de atenção materna na infância. Ele sabe portanto o que faz, mas mesmo assim faz.

É perda de tempo ponderar qual dessas duas reações, a conservadora ou a liberal, é a pior: como Stálin diria, as duas são piores, e isso inclui o alerta que os dois lados dão, de que o real perigo dessas explosões está na previsível reação racista da “maioria silenciosa”.

Uma das formas que essa reação assumiu em Londres foi a atividade ‘tribal’ de comunidades locais (turcos, caribenhos, sikhs), que rapidamente organizaram unidades por ‘tribos’ para vigiar suas propriedades. Os donos de lojas seriam uma pequena burguesia que defende sua propriedade contra um genuíno, embora violento, protesto contra o sistema? Ou seriam representantes da classe trabalhadora combatendo contra forças da desintegração social? Também nesse caso, deve-se rejeitar a ordem para escolher um dos lados.

A verdade é que o conflito aconteceu entre dois pólos de oprimidos: os que tiveram sucesso e conseguiram operar dentro do sistema versus os frustrados demais para continuar tentando. A violência dos agitadores foi dirigida quase exclusivamente contra seus respectivos grupos. Os carros queimados e as lojas saqueadas não foram queimados e saqueadas em bairros ricos, mas nos próprios bairros onde vivem os incendiadores e saqueadores. Não há conflito entre diferentes partes da sociedade; o conflito é, no seu aspecto mais radical, entre sociedade e sociedade, entre os que têm tudo e os que nada têm, a perder; os que nada apostaram na própria comunidade e os que fizeram as mais altas apostas.

Zygmunt Bauman caracterizou os tumultos como “atos de consumidores defeituosos e não qualificados”: sobretudo, foram manifestação de um desejo consumista atuado [orig. enacted] quando incapaz de realizar-se do modo ‘certo’ – mediante um ato de compra. Nessa medida, os tumultos também contêm um momento de protesto genuíno, sob a forma de resposta irônica à ideologia do consumo: “Vocês nos convocam para consumir e, simultaneamente, nos negam os meios para consumir do jeito ‘certo’. – Estamos consumido, do único modo possível para nós!”

Os tumultos são demonstração da força material da ideologia – excessiva, talvez, em tempos de ‘sociedade pós-ideológica’. De um ponto de vista ideológico, o problema dos tumultos não está na violência como tal, mas no fato de que a violência não é verdadeiramente autoafirmativa. É raiva e desespero impotentes mascarados como exibição de força: é inveja travestida de carnaval triunfante.

Os tumultos devem ser situados também em relação a outro tipo de violência que a maioria liberal percebe hoje como ameaça ao nosso modo de vida: os ataques terroristas e os suicidas-bomba. Nas duas instâncias, violência e contraviolência são apanhadas num círculo vicioso, as duas gerando as mesmas forças que tentam derrotar. Nos dois casos, estamos lidando com passages à l’acte [fr. no original] cegas, nas quais a violência é admissão implícita de impotência. A diferença é que, ao contrário dos tumultos na Grã-Bretanha ou em Paris, os ataques terroristas são postos a serviço de um significado – o Significado absoluto que a religião assegura.

Mas os levantes árabes não foram ato coletivo de resistência que rejeitaram a falsa alternativa entre violência autodestrutiva e fundamentalismo religioso? Infelizmente, o verão egípcio de 2011 será lembrado como o fim da revolução, quando seu potencial emancipatório foi sufocado. Os coveiros são o exército e os islâmicos. Os contornos do pacto entre o exército (que é o exército de Mubarak) e os islâmicos (que foram marginalizados durante os primeiros meses do levante, mas agora estão ganhando terreno) são cada dia mais claros: os islâmicos tolerarão os privilégios materiais do exército e, em troca, garantirão a hegemonia ideológica. Os perdedores serão os liberais pró-ocidente, fracos demais – apesar do dinheiro da CIA – para ‘promover a democracia’; e os verdadeiros agentes dos levantes da primavera, uma emergente esquerda secular que tentava montar uma rede de organizações da sociedade civil, a partir dos sindicatos e das feministas.

A situação econômica em rápida deterioração, logo, mais cedo ou mais tarde, levará os pobres, grandes ausentes dos levantes da primavera árabe, às ruas. É bem provável que haja nova explosão, e a pergunta difícil para os sujeitos políticos egípcios é: quem dirigirá, com sucesso, a ira dos pobres? Quem traduzirá essa ira em termos de programa político: a nova esquerda secular ou os islâmicos?

A reação predominante na opinião pública ocidental ao pacto entre islâmicos e o exército no Egito será, sem dúvida, um show de cinismo: nos dirão que, como o caso do Irã (não árabe) mostrou claramente, levantes populares em países árabes sempre terminam em islamismo militante. Mubarak aparecerá como diabo muito menos perigoso – melhor ficar com diabo conhecido que lidar com forças de emancipação. Contra tal cinismo, é preciso permanecer incondicionalmente aliado ao núcleo radical-emancipatório do levante egípcio.

Mas é preciso evitar também o narcisismo da causa perdida: é muito fácil admirar a beleza sublime dos levantes condenados ao fracasso.

Hoje, a esquerda enfrenta o problema da ‘negação determinada’ [orig. ‘determinate negation’]: que nova ordem deve substituir a velha ordem, depois do levante, quando houver passado o sublime entusiasmo do primeiro momento? Nesse contexto, o manifesto dos Indignados da Espanha, lançado depois das manifestações em maio, é revelador. O primeiro traço que chama a atenção é o decidido tom apolítico: “Uns de nós consideram-se progressistas, outros conservadores. Uns são religiosos crentes, outros não. Uns têm ideologias claramente definidas, outros são apolíticos, mas todos estamos preocupados e zangados com o quadro político, econômico e social que vemos à nossa volta: corrupção de políticos, empresários, banqueiros, que nos deixam indefesos, sem voz.” Protestam em nome de “verdades inalienáveis que não vemos respeitadas em nossa sociedade: o direito a moradia, emprego, cultura, saúde, participação política, livre desenvolvimento pessoal, direitos do consumidor e a uma vida saudável e feliz”. Rejeitando a violência, clamam por uma “revolução ética. Em vez de pôr o dinheiro acima dos seres humanos, devemos pô-lo a nosso serviço. Somos pessoas, não produtos. Não sou o que compro, porque compro ou de quem compro.”

Quem serão os agentes dessa revolução? Os Indignados espanhóis descartam todos os políticos, a esquerda e a direita, como corruptos e controlados pela ganância e pela sede de poder. Mesmo assim, o manifesto apresenta várias demandas, mas… dirigidas a quem? Não a eles mesmos: os Indignados (ainda) não declaram que ninguém mais fará por eles, que eles mesmo têm de ser a mudança que querem ver.

E aí está a fragilidade fatal dos recentes protestos: manifestam uma raiva autêncica que não consegue transformar-se em programa de ação positiva para mudança sociopolítica. Manifestam um espírito de revolta, sem revolução.

A situação na Grécia parece mais promissora, provavelmente devido a uma tradição mais persistente de auto-organização progressista (que desapareceu na Espanha depois da queda do regime de Franco). Mas mesmo na Grécia o movimento de protesto padece das limitações da auto-organização: os que protestam estão mantendo um espaço de liberdade igualitária sem autoridade central, um espaço público no qual todos têm o mesmo tempo para falar etc. Quando os manifestantes começaram a discutir o passo seguinte, como avançar além dos simples protestos, a maioria concluiu que não se precisava de novo partido e que não era o caso de tentar tomar o poder do estado; que o movimento faria pressão sobre os partidos políticos. Evidentemente, é muito pouco para forçar uma reorganização de toda a vida social. Para chegar lá, é indispensável um corpo forte, competente para tomar decisões rápidas e implementá-las com todo o rigor necessário.



A SOCIEDADE [ESTADUNIDENSE] PARECE ANESTESIADA

por Heloisa Villela, de Washington - 09/08/2001
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/heloisa-villela-a-sociedade-parece-anestesiada.html


Até quando?

É a pergunta que não me sai da cabeça. Existe um ponto a partir do qual tudo vai pelos ares?

O povo toma as ruas, grita, cobra… Londres está pegando fogo. Em Israel, muita gente partiu para o acampamento nas ruas e praças do pais. E aqui nos Estados Unidos, para uma parcela cada vez maior da população, motivo também não falta para exigir mudança. Mas as ruas continuam silenciosas. Verdadeiros túmulos.

Abro o computador e a primeira notícia que aparece, aqui no meu bairro: psiquiatra mata o filho e se mata em seguida. No bilhete que deixou prá trás, a mulher diz que não aguentava mais tentar driblar as dívidas e o preço da mensalidade escolar já que o filho, portador de uma doença mental, não acompanhava o ritmo da escola pública. Foi um ato de desespero. Dar cabo da própria vida seria cruel com o menino, que dependia dela para tantas coisas. Ela preferiu acabar com tudo.

Sei que existem alguns casos dramáticos pelo país afora. Não deveria me surpreender já que a situação de tantas pessoas é mesmo desesperadora e a rede de amparo social é cada vez menor. E vai diminuir ainda mais.

Aqui nos Estados Unidos, a classe média, base da economia do país, está cada vez mais pobre. E os afro-americanos e latinos, então, mais pobres ainda. Segundo a Pew Reseach Center, a distância entre as minorias e os brancos bateu recorde histórico. Entre 2005 e 2009, a renda média das famílias hispânicas, nos Estados Unidos, caiu 66%. A renda das famílias afro-americanas sofreu uma queda de 53% enquanto a renda média das famílias brancas caiu 16%.

O sonho da segurança do teto próprio se desfaz. As dívidas aumentam. Os empregos somem. Um índice de desemprego de 9,1% não é exatamente o fim do mundo. Mas todo mundo sabe que esse índice é uma piada. Uma ginástica estatística aperfeiçoada no governo Bill Clinton, que exclui da pesquisa as pessoas que passaram bom tempo procurando emprego e, por falta de resultado, simplesmente desistiram de tentar achar algo.

A mesma Secretaria do Trabalho que divulga este número desprovido de significado real também publica, discretamente, o índice de pessoas em idade produtiva que estão trabalhando em empregos de horário integral. Ou seja, nada de juntar aqui os que têm um bico de meio expediente ou de algumas horas por semana. Esse índice mostra que apenas 58,1% da mão de obra empregável do país está na ativa. E os outros 42%, estão fazendo o que?

Perto da minha casa, é comum, hoje, ver pessoas homens e mulheres de todo tipo, cor e credo pedindo ajuda com cartazes. Andando entre os carros quando o sinal fecha. Isso não existia. Em visita recente a Nova York, passei pela Tompkins Square, uma praça no lado leste da cidade. Deparei-me com uma fila que dava volta no quarteirão. “É a sopa”, me refrescou a memória uma amiga que morou naquele lugar durante anos. E o que mais chamou nossa atenção: não eram apenas drogados, bêbados, mendigos, como antigamente. Vi famílias inteiras, com carrinho de bebê, criança pequena pela mão, esperando a hora de receber a comida de graça.

E aí me volta a pergunta: até quando essa gente aguenta tudo calada? Ficou muito óbvio, na recente discussão do teto da dívida americana, que nem um partido nem outro tem compromisso com causa alguma. Roderick Harrison, economista e professor da Universidade Howard, aqui em Washington, me disse que está preocupado. Os próximos meses serão ainda mais difíceis, com mais demissões e consumidores assustados, sem dinheiro prá comprar.

Ele tentou responder a minha pergunta. Ou melhor, explicar o atual estado de coisas:

– Faz tempo que estamos caminhando para a ingovernabilidade…

Pior, diz ele, é a falta de organização da sociedade civil. Os partidos, afirmou, já não representam diferentes camadas da população. E a guinada para a direita é visível. Segundo o professor, somente o povo organizado, na rua, cobrando, vai empurrar o partido democrata, e o governo do presidente Barraca Obama, na direção de soluções para os problemas centrais dos país: desemprego e moradia.

Mas a sociedade parece anestesiada. Os únicos que ainda se mexem e vão prá rua são os seguidores do Tea Party, a ala mais radical e direitista do Partido Republicano. Cadê a raiva, a revolta, a indignação?
Por enquanto, vi isso vir à tona somente neste comentário do jornalista Keith Olbermann, que hoje trabalha na Current TV, do ex-vice-presidente Al Gore. Cáustico e sem meias palavras, ele diz o que eu imaginaria que muitos americanos poderiam estar gritando por aí, se soubessem gritar…

http://www.huffingtonpost.com/2011/08/02/olbermann-debt-ceiling-special-comment-protests-obama_n_915957.html
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