Acredite nos que buscam a verdade... Duvide dos que encontraram! (A.Gide)

Mostrando postagens com marcador CONVIVIAL - Filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONVIVIAL - Filosofia. Mostrar todas as postagens

17 julho 2010

Os anos-sem-lembrança da infância como porta invisível do Outro Mundo Possível

 
Os sete pontos a seguir, desdobrados em 31 sub-pontos, delineiam o que pode ser chamado a tese principal da nossa monografia Aos que podem salvar o mundo.
 
Sua leitura não chega a ser extremamente difícil, mas também não se pode dizer que seja fácil. Ainda assim, convido todos os meus amigos a conhecerem, pois se houver algo de importante no que eu produzi até hoje, este texto e a Minuta para um Estatuto Fundamental da Humanidade são sem dúvida o mais importante de tudo.
  
Para facilitar o contato inicial, apresento-o aqui sem notas de rodapé nem referências bibliográficas. Para quem quiser conhecer este texto no contexto da monografia original (onde ele é a seção 0.3), ela está disponível na íntegra em www.tropis.org/biblioteca (onde se encontra também o Estatuto Fundamental da Humanidade). 
 
Aviso, porém, que considero toda essa monografia ainda um mero tatear na direção indicada por estes pontos: a superação do que alguns autores já chamaram de o batismo do mal (explicado sobretudo no ponto 5 e seus sub-pontos), sem a qual o ser humano continuará não implementando as soluções possíveis para os seus problemas maiores, muitas das quais já encontradas, simplesmente porque tal "batismo" o torna psicologicamente incapaz de ser solidário na medida necessária.



*   *   *

1. Na formação do ser humano a experiência se torna estrutura: aquilo pelo que eu passo, isso passa a me constituir.
 

1.1 Tanto efeitos diretos da experiência podem se fixar em nós, e usualmente se fixam, quanto reações do nosso organismo físico e/ou psíquico a esses efeitos.
 

1.1.1 Na linguagem da ciência atual, tudo isso pode ser expresso em termos de informação: “informar”, “entrada de informação”, “registro da informação”, “conteúdo informacional armazenado” etc.
 

1.2 Embora essas duas dimensões estejam tão intimamente relacionadas que dificilmente se pode falar de uma sem encontrar implicações na outra, ainda assim se pode falar de informações cujo efeito é primordialmente físico, e de outras cujo conteúdo mais relevante é de natureza psíquica. As duas são significativas para a vida psíquica (p.ex., o efeito físico de substâncias tóxicas recebidas durante a gestação pode ter efeitos limitantes na vida psíquica futura), mas as presentes considerações serão centradas no que causa impressões sobre a vida psíquica (sendo portanto capaz de provocar respostas como, por exemplo, medo, confiança, alegria, tristeza etc).
 

1.2.1 Ainda assim, será conveniente recordar sempre que a dimensão física não está excluída destas considerações; apenas não é por ela que segue o seu fio condutor.
 

1.3 Quanto a sua origem, as informações recebidas podem serem tanto casuais quanto sistemáticas, caso em que podem proceder de fonte ambiental, de fonte humana individual (p.ex. a mãe), da dimensão micro-cultural (os procedimentos usuais de um grupo, p.ex. a família), da macro-cultural (os costumes de todo um país) etc.
 

2. Os efeitos estruturantes da experiência são máximos justamente no período da amnésia infantil (os anos iniciais de que temos pouquíssima ou nenhuma lembrança).
 

2.1 Há diversas hipóteses e provavelmente diversas causas simultâneas para a amnésia infantil: nosso interesse aqui é por uma delas em especial, cuja realidade parece mais que suficientemente atestada (sem que isso diga nada em contra nem em favor de outras possíveis causas): a experiência dos anos iniciais é inteiramente “devorada” pela constituição de estrutura. Usando como analogia a linguagem dos computadores, seu conjunto de dados passa a atuar como um programa, e deixa de ser acessível como documento.
 

2.1.1 As experiências provavelmente só passam a ser disponíveis como lembranças na medida em que sejam redundantes; isto é: que a estrutura que iriam constituir já estiver formada.
 

2.1.2 Mesmo nesse caso, as experiências provavelmente não deixam de interagir com as estruturas com que têm afinidade, quer reforçando-as, quer de algum outro modo.
 

2.2 Embora haja diferenças, também são de grande importância – e igualmente não recordadas – as experiências do ser humano em gestação, razão pela qual, salvo indicação explícita em contrário, neste trabalho considera-se o período de gestação sempre incluído nas referências ao período da amnésia infantil.
 

3. O ser humano adulto deve enorme parte de seu modo usual de ser e agir à forma como foi estruturado pelas experiências vivenciadas na época da amnésia infantil.
 

3.1 De todos os aspectos do ser humano, estes são evidentemente os mais difíceis de modificar, assim como seria extremamente difícil intervir nas fundações enterradas de um edifício.
 

4. O próprio fato de não ter lembranças da fase da amnésia infantil faz com que a maior parte dos adultos mostre escassa ou nenhuma compreensão frente aos sentimentos e outras vivências das crianças que estão atravessando essa fase.
 

4.1 Essa usual incompreensão dos adultos pelo que as crianças sentem inclui a incompreensão dos efeitos que seus atos têm ou podem ter nessas crianças.
 

4.1.1 Na verdade a incompreensão parece ser especialmente forte diante disso, sugerindo que haja outros componentes envolvidos além da incapacidade biológica de lembrar – mas não é preciso deter-se nisso para os presentes fins.
 

4.2 Como visto nos pontos 1 e 2, as crianças em questão serão inevitavelmente marcadas por esses atos realizados sem compreensão pelos adultos, e marcadas em suas estruturas psíquicas mais profundas e perenes; e como visto no ponto 3, essas marcas se expressarão no modo predominante de ser e agir dos novos adultos que essas crianças se tornarão.
 

5 À parte outras marcas possíveis, o que uma criança nessa fase vê fazerem diante dela, ouve fazerem perto dela e, sobretudo, sente fazerem a ela, tudo isso permanece inscrito em sua estrutura não como uma informação qualquer, e sim como modelo ou receita de como se deve agir em situações semelhantes. Esse modelo não atua apenas como uma aparência exterior vaga, mas é incorporado como um conjunto de instruções de procedimento detalhadas.
 

5.1 É evidente, portanto, que os atos nocivos cometidos por um pai ou mãe no trato com seus filhos, sobretudo os de até cerca de três anos de idade, têm alta probabilidade de serem repetidos por esses filhos quando adultos, no trato com seus próprios filhos – e igualmente evidente que isso tende a se repetir em não só uma nova geração, e sim ao longo de muitas gerações, tornando-se forma-padrão de agir de vastas redes familiares, quiçá de todo um povo.
 

5.2 É compreensível, portanto, que grande parte das formas de agir humanas tenha caráter nocivo mas resista às tentativas de modificá-la a partir da análise racional – até mesmo das tentativas empreendidas voluntariamente pelo próprio indivíduo – pois é expressão de erros cometidos em tempos imemoriais que vêm se reproduzindo como que automaticamente de geração em geração.
 

6 Apesar disso, é possível modificar o próprio modo de ser e agir mediante um empenho intensivo e continuado da consciência.
 

6.1 Por outro lado, não é possível a alguém modificar o comportamento de outros indivíduos já constituídos como sujeitos sem que isso constitua um ato de violência. O que é possível é sugerir ao outro que modifique seu comportamento, sugestão essa que ele tem o direito de aceitar e implementar, ou de rejeitar.
 

6.1.1 Isso significa que, haja ou não outros fatores em questão, no mínimo devido à resistência das configurações estruturais de cada indivíduo as coletividades humanas só podem apresentar enorme resistência à mudança dos comportamentos que predominam nelas – pois a mudança num sentido consciente depende de: (a) a opção inicial de cada indivíduo entre querer ou não querer conscientizar-se de que seria interessante mudar; (b) sua disposição de, em conseqüência da primeira opção, ingressar em um período de aprendizado sobre a mudança desejável; (c) uma vez relativamente avançado nesse aprendizado, enfrentar processos muitas vezes difíceis e dolorosos de enfrentamento dos traços nocivos preservados na sua configuração estrutural; (d) a vitória nesse enfrentamento não é garantida.
 

6.1.2 É possível induzir pessoas e grupos a mudanças de comportamento sem esse processo de conscientização e enfrentamento estrutural individual, porém isso significa manipulação, e tanto é moralmente indefensável quanto termina sendo inefetivo no médio e longo prazos, pois a regência das estruturas profundas tende a retornar. Baste como exemplo (ainda que se encontrem dezenas de outros) a intensidade com que a xenofobia e outros comportamentos anti-sociais têm emergido nos lugares que haviam antes sido tornados “justos e fraternos por decreto” pelos regimes ditos comunistas.
 


6.2 Em conseqüência de tudo o que foi visto, revela-se a lei de que mudanças de comportamento conquistadas por um indivíduo permanecem lábeis se não forem transmitidas para a geração seguinte. Em outras palavras, não se generalizam como conquista grupal pelo menos relativamente estável na mesma geração do indivíduo, mas somente se chegarem a ser transmitidas para pelo menos mais uma geração.
 

6.2.1 Naturalmente, esse efeito se dá com a máxima intensidade se a mudança conquistada pelo indivíduo envolve o trato desse indivíduo com seus filhos na primeira infância, influindo assim na configuração estrutural profunda do psiquismo desses filhos.
 

6.2.2 Isso não significa que na geração seguinte a mudança se expresse necessariamente em forma idêntica à conquistada pelo pai: se o trato com os filhos se aproximou do adequado, esses deixarão de ser vítimas de estruturas aprisionantes ou paralisadoras, e terão reconquistado a mutabilidade, flexibilidade e disponibilidade para a evolução que temos razões de considerar próprias do ser humano saudável.
 

6.2.3 Esse ato significa, portanto, abrir mão da prepotência doentia que é considerar a si mesmo um modelo suficientemente acabado para que seja desejável tê-lo reproduzido geração após geração.
 

6.3 Por meras razões matemáticas, mudanças de comportamento conscientes só podem chegar a ser significativas na escala coletiva (ou dimensão social) se chegar a haver uma certa massa crítica de pais e mães dispostos a reconfigurar seu modo de agir com os filhos.
 

6.3.1 Atualmente é corriqueiro o discurso sobre massa crítica na mudança de comportamento coletiva, mas essa perspectiva será sempre ilusória caso não envolva a atuação sobre o ponto nodal de maior alcance que há na humanidade, que é a constituição do sujeito entre a concepção e aproximadamente os três anos de idade.
 

7. Esta tese é ao mesmo tempo justificativa de um programa de Educação para a Paternidade e o conteúdo central, organizador dos demais, a ser ensinado num tal programa.

*   *   *

[Tendo sido elimindadas as referências bibliográficas, não quero deixar  de mencionar que esta 'tese' deve bastante aos psicanalistas Ferenczi e Winnicott, a alguns psicólogos que trabalham a partir de idéias de Rudolf Steiner (como Henriette Dekkers) e à recente descoberta dos neurônios-espelho por Giacomo Rizzolatti. Além disso, mesmo sem ter partido dessa escola, apresenta alguma afinidade com idéias da Gestalt. Não deve passar despecebido, ainda, que a expressão "Outro Mundo Possível" deriva do lema do Fórum Social Mundial.]

20 junho 2010

Um jorro salutar de momentâneas catedrais [variações sobre um fenômeno chamado samba]

 
O samba é pai do prazer
o samba é filho da dor
o grande poder transforma-dor

Gilberto Gil & Caetano Veloso, 1993

Desde há muito me passou a parecer que a alegria é mais preciosa,
mais difícil e mais bela que a tristeza. E assim que fiz essa descoberta,
por certo a mais importante que se possa fazer ao longo desta vida,
a alegria se tornou para mim não apenas uma necessidade natural
- o que já era - mas até mesmo uma obrigação moral.

André Gide, 1935


I. Quem será mais revolucionário, a dor ou o prazer?

Começo estas notas num domingo à noite, chegando de uma espécie de missa corpórea e revigorante: um samba.

Um samba popular, robusto - mas não “simples”, porque “samba simples” não é possível, seria uma contradição em termos. Se algum ouvinte achar que um verdadeiro samba é simples, simples é o ouvinte, incapaz de reconhecer sua complexidade.

Mas ao dizer que é complexo não estou dizendo difícil nem penoso! Estudada bioquimicamente, a fotossíntese é de uma complexidade absurda - e no entanto as plantas estão aí, despejando vida no mundo sem parar... como se fosse simples!

Bom, mas então eu estava no Samba do Monte, no espaço da Associação Comunitária Monte Azul, e a cada mês o Samba do Monte homenageia um ou uma grande sambista: já foi Clara Nunes, Noel Rosa... e hoje era Chico Buarque. O lado sambista do Chico.

Chico veio da classe média? Ora, Noel também. E nenhum sambista ousaria dizer que o Chico não tem sambas tão sambas quanto os de um sambista oriundo de favelas ou cortiços. É samba sim!

É sim. Sim. Mas mesmo assim...

... não houve como negar: no meio dos sambas do povo local, o samba do Chico soou intelectualizado: soou cheio de intenções não brotadas da própria vitalidade, mas acrescentadas ao samba pela cabeça.

Ora, nós sabemos que a intenção do Chico é a de conscientizar o ser humano das suas dores pra que se revolte contra elas e tente superá-las com uma ruptura chamada revolução.

E não é agora que pretendo discutir se a revolução é mesmo o melhor caminho para a humanidade, ou qual modelo de revolução; o que me interessa agora é o fato de que o samba do povo não parece estar ali para estimular anseios por um gozo futuro, e sim para ser um gozo presente. (Reparem nos três pares contrastantes: o de verbos, o de substantivos, o de adjetivos).

Não que o samba ignore a dor, nem a necessidade de soluções no longo prazo - de modo nenhum! Mas sabe que inclusive pra poder lutar pelas soluções de longo prazo precisamos estar bem alimentados agora, tanto de alimento-substância quanto de alimento-prazer.

Também não entendam que eu esteja menosprezando a música do Chico! Vejam: não pude deixar de me arrepiar dos pés à cabeça, como sempre, ao ouvir “quero ver a Mangueira / derradeira estação...” preparando e dando sentido à frase musical seguinte, a das palavras: “quero ouvir sua ba---tucada, ai, ai” - que para mim atinge de repente a pungência das árias das Paixões de Bach, nada menos. É tanta beleza, que ouço pouco pra não gastar - mas é uma beleza, sabe-se lá como, feita ainda em substância de dor. Não se trata de “dor transformada”, mas de dor-ainda-dor ajeitada de modo a gerar um prazer-de-beleza ao doer...

... enquanto que no samba do povo tenho a impressão de que se pegou a dor como quem pega garrafas pet vazias e faz outra coisa com elas: corta em tiras, faz luminárias, tranças, bolsas, sei lá o quê. Na hora do uso aquilo é tudo menos garrafa.

E o sambista pode ter pego a dor como matéria prima, mas o que ele nos serve na hora de sambar é tudo menos dor. O prazer estético acontece aí na vivência não de dor mas de saúde.

Pois o samba nos traz um reforço justamente aos ritmos da vida no sentido biológico mesmo - e aí de repente esses ritmos se animam, começam a saltar, se expandem para além dos limites do corpo...

... isso porém sem jamais deixar seu enraizamento no corpo, enraizamento no fundo dos ossos e das fibras dos músculos, como quem diz: “vejam, levado a este equilíbrio e intensidade, viver é bom - e portanto a vida pode ser boa, pode ser prazer: você está experimentando que pode”.

E, não sei, algo me diz que talvez essa vivência motive mais a buscar meios de superar a dor de modo duradouro (revolução) do que é capaz aquela outra arte que é vivência estetizada da própria dor.

Afinal, quem não conhece o “revolucionarismo” romântico que consiste em levar vida desregrada para adoecer e morrer jovem, em lugar de participar das tarefas concretas tantas vezes monótonas de que dependem a manutenção e o melhoramento real da vida?

Sei que eu volto do samba com vontade de produzir melhorias & alegrias neste mundo - enquanto tantas vezes saio das mais lindas audições de música clássica com pura vontade de sumir, de me desfazer de vez em pó da terra ou em qualquer outra forma de poeira estelar.


II. O que os músculos
escutam melhor que os ouvidos
 

Pareceu-me que o melhor e mais seguro meio
de derramar felicidade em torno de si
seria mostrar em si a imagem da felicidade
- e resolvi ser feliz.
 André Gide

Mas aqui com certeza alguns dirão “sei não... ainda prefiro ouvir sinfonias que ouvir sambas” - e aí preciso esclarecer depressa que não estamos falando do mesmo ouvir! - e que, de resto, também não quero abrir mão das sinfonias! Apenas aprendi a intercalá-las com samba y otras cositas igualmente vitales para não adoecer! - Aliás, Nietzsche já havia sacado essas coisas com aquele papo do apolíneo e do dionisíaco, não é?

Então: o ouvir do samba não é só de ouvido, é com o corpo inteiro - mas, por favor!, não estou falando de um “ouvir com o corpo” metafórico, simbólico, ou induzido pelos poderes da imaginação, como quem diz: “parece que ao ouvir tal peça eu senti as rajadas do vento, ou as ondas do mar batendo em mim”. Isso pode ter seu valor, mas é de outra coisa que estou falando aqui. Definitivamente outra. Uma coisa que até hoje só identifiquei na música da Índia e na que tem raízes na África: seus ritmos têm a ver literalmente com  os ritmos dos processos biológicos do nosso corpo.

Por isso não faz sentido nenhum ouvir samba sentado - pelo menos não o tipo de samba de que estou falando. Só se você estiver doente. E aí provavelmente será chato. Pra realmente aproveitar o samba você tem que estar de pé, e não ter vergonha nem preguiça de deixar o corpo começar a se mexer, mesmo se de modo bem discreto.

Além disso, não bastam 30 segundos, dois minutos desse movimento: é preciso deixar que prossiga por um tempo razoável, até que seja um fluxo que mais ou menos nos carrega independente de qualquer esforço nosso.

E aí você começará a identificar coisas pela interação entre esses ritmos e os sensores internos dos seus músculos - coisas que jamais perceberia só com os ouvidos da cabeça.

Entenda: absolutamente não é preciso “dançar certo” de acordo com alguma receita! Apenas se deixar fazer os movimentos que os ritmos e outros sons sugerem nas diferentes partes do corpo. Aí, de repente você estará de certa forma dançando - e essa forma é importante e útil a você; as formas convencionais nem sempre. (Nesse sentido é pena que em São Paulo se tenda a olhar esquisito pra quem dança fora de formas convencionais; já vi que no Rio existe mais naturalidade quanto a isso - e entre africanos então nem se fala!)

Acontece que esses nossos ritmos biológicos são em grande parte reflexos, dentro de nós, de ritmos do ambiente, do mundo, do universo - de modo que o samba “conversa” basicamente é com os ritmos universais que nos criaram e que mantêm a nossa saúde, muito mais que com as paixões da alma que constituem a matéria principal do romantismo musical, as quais de certa forma modulam, alteram esses ritmos vitais, chegando às vezes a distorcê-los por completo, causando doença.


III. As catedrais momentâneas
e seus discretos sacerdotes
 
Eu havia escrito: ‘Daquele que é feliz e que pensa,
desse se dirá que é verdadeiramente forte’.
 André Gide
 
E pra terminar quero contar de uma imagem que me veio no último carnaval, quando caminhava alguns quarteirões com o bloco aqui do bairro. Bem: era carnaval, e carnaval é mesmo pra ser escracho: tudo o que é feio, bobo, até nojento, tem aí uma chance de se ostentar e se desafogar.

Mas eu não fiquei reparando em nada disso: só aproveitei que estava quase dentro da bateria e me soltei na batucada. E aí percebi que na batucada em si não existia nada de escracho: era prazer, mas era sério, era profundo; no fundo não tinha nada a ver com o grotesco por trás do qual se disfarçava; sua natureza era bem mais a do sublime.

Aqueles homens aparentemente simplórios que caminhavam pela rua compenetrados em bater nos seus instrumentos iam lançando formas pelo ar: formas regulares, harmônicas, que extraíam beleza e sensação dos jogos entre simetria e assimetria... como detalhes arquitetônicos - rosáceas, volutas, arcos, pináculos... na verdade nem conheço os nomes usados para o que eu quero dizer! - formas que se configuravam "no ar" e imediatamente se desfaziam, para voltarem a surgir modificadas aqui, ali restauradas à configuração original, e já modificadas de novo acolá...

Falam da arquitetura sagrada das catedrais, onde as formas e medidas expressam proporções de ritmos cósmicos (só por exemplo, uma das torres da Catedral de Chartres, na França, é proporcional ao número de dias do ano solar, a outra ao do ano lunar).

Falam também que esse tipo de harmonia matemática que flerta com a dimensão cósmica (a "música das esferas" dos antigos) pode ser encontrado na música de alguns compositores, especialmente o já citado Bach.

Pois eu afirmo que estar imerso em Bach ou num bom samba não são experiências tão diferentes quanto os virgens disso possam imaginar.
 
É verdade que Bach desenvolve sua complexidade em grande parte na dimensão do tom - das construções melódico-harmônicas - e não é nessa dimensão que o samba desenvolve a sua complexidade: é mais na da dimensão das durações (construções em ritmo) cruzada com as do tom e do timbre usadas em conjunto como faixas: por exemplo a faixa dos surdos, a das caixas, a dos tamborins, a dos agogôs, que atingem centralmente áreas e funções diferente do nosso sistema corporal (e através dele também o psiquismo - o que nem seria preciso dizer se ainda não vivêssemos no meio de tanta superstição pseudo-filosófica sobre uma suposta "inferioridade do corpo").

Diziam os contemporâneos de Bach que ele atingia seu máximo quando improvisava ao órgão, não quando a música era escrita. Embora dentro de parâmetros muito bem definidos previamente, o nota-por-nota do samba é improvisado a cada realização, irrepetível (como também o do jazz e os da maior parte das tradições musicais do mundo). Mas as construções que o samba produz, desse modo, dentro das dimensões em que atua, não são de nenhum modo menos complexas que as contruções produzidas por Bach nas dimensões com que trabalha, e também não menos ricas de efeitos complexos sobre o ser humano.
 
E ambos produzem uma espécie de arquitetura fugaz, estruturas que surgem no "ar", brincam com as proporções dentro de si mesmas e entre umas e outras, são apreendidas com o ouvido e com o corpo no interior de um instante, e já não existem mais... a não ser nas conseqüências que deixaram em nós.

Quem se deixa arrancar do chão pelos golpes dos surdos para em seguida ser jogado como nas mãos de um malabarista pelas batidas do tamborim, e ter os quadris conduzidos pelo pulsar frenético e ao mesmo tempo harmônico do cavaquinho... esse perde peso e ganha graça - não só no sentido de aparência harmoniosa mas também de sensação de plenitude espiritual: “sim, existe a dor, mas o humano também pode ser isto: erguido acima do seu próprio peso, trepidante de uma glória atingível pelo aperfeiçoamento, realização, intensificação - não pela negação de si.

E aí eu vi a palhaçada dos mais levianos - ali na rua naquele carnaval - como de grande utilidade não só como desafogo para eles mesmos, mas sobretudo para distrair a atenção de potenciais inimigos da profundidade do principal: com mais ou com menos consciência disso nas mentes, por trás de seu leve sorriso, aqueles homens simples no fundo sabiam da grandiosidade das funções sacerdotais que estavam a desempenhar, reoficiando antiqüíssimos ritos de saúde e de afirmação ao encherem o ar com jorros gozosos de forças e formas vitais... como um antídoto contra os equívocos mortíferos da civilização ocidental.

23 março 2008

Filosofia do Convívio como o PÓS PÓS-MODERNO necessário...



Já é de novo o "fim-de-semana teórico" deste blog... e eu nada de achar tempo de escrever as respostas a vários questionamentos que foram levantados quanto a postagens anteriores...

Mas alguma coisa eu prometi que ia postar todo fim-de-semana, não é? Então vai aí, sem muita explicação, o primeiro capítulo de uma nova apresentação introdutória da Filosofia do Convívio (ou Pluralismo Radical)... sobre a qual explico mais durante a semana. Vai lá:


No final do século XX tornou-se comum dizer que havíamos entrado numa "condição pós-moderna", em que não existe mais nenhum esquema explicativo absoluto, de modo que de certa forma "vale tudo".
De modo bem simplificado, é essa a tese central do livro de 1979 do francês Jean-François Lyotard (1924-1998), chamado O pós-moderno na primeira edição e A condição pós-moderna nas seguintes.
Naturalmente muitos contestaram até que exista alguma coisa que possa ser chamada pós-modernidade, enquanto outros autores propunham também outros traços para caracterizá-la – por exemplo Jean Baudrillard (1929-2007), que apontava a vida pós-moderna como dominada por simulacros.
Olhada com seriedade, a idéia de Lyotard não é porém nenhuma bobagem. Sobretudo, apresenta uma característica interessante: quando mais for contestada, mais estará comprovada – pois afirma justamente que não existem verdades seguras e fora de contestação!
Lá por 1995 tive a oportunidade de ouvir um professor doutor da PUC-SP falando com entusiasmo dessas concepções, mostrando o patamar superior de liberdade que havíamos atingido com isso –
... e aí lhe dirigi a pergunta: "professor, se agora de certa forma vale tudo, com que base poderemos dizer que as propostas do nazismo não valem? Que critério restou para explicar por que elas, ou outras semelhantes, não devem ser aceitas? Ou então elas devem ter lugar como quaisquer outras?"
Para minha surpresa, esse experiente professor – que apesar disso tenho fortes motivos para respeitar e estimar – ficou perturbado e terminou dizendo algo como: "É, de fato, a teoria não prevê isso. É preciso pensar essa questão."
Naquele momento eu achava ­– e continuo achando – que já sabia a resposta, mas teria sido bem deselegante, anti-ético mesmo, pretender "cortar a bola" na palestra de outro professor, ainda mais não tendo nenhum dos seus títulos. E além disso seria imprudente, pois na ocasião eu ainda não tinha nada escrito e muito menos publicado sobre essa resposta, a que dou o nome de Princípio do Pluralismo Absoluto.
Tive porém muitas oportunidades, antes e depois, de apresentar publicamente essa resposta, e observei que isso costuma ter um efeito ambíguo: por um lado a resposta convence; sua lógica é auto-evidente. Por outro lado, porém, parece causar certa perplexidade, e até mesmo irritação, porque é simples demais – e nos acostumamos a só apostar no complicado.
Confesso que eu mesmo me sinto extremamente perplexo de que um ponto tão pequeno possa ter conseqüências tão vastas, mas qualquer um que se dê o trabalho de refletir seriamente sobre essas conseqüências verá que o Princípio do Pluralismo Absoluto realmente dá conta do recado de preservar a liberdade plural conquistada pela pós-modernidade (o estado de maior liberdade que o ser humano já conquistou até hoje) protegendo essa liberdade de si mesma, impedindo que ela se auto-destrua –
... e, além disso, dá conta de uma infinidade de outras questões – pois quase que sem perceber acerta na raiz de onde brotam grande parte dos galhos que afligem a humanidade.
Por isso o chamo também de Pluralismo Radical – no sentido de Marx e de Paulo Freire: porque se dirige à raiz.[1]



[1] Karl Marx (1818-1883) e Paulo Freire (1921-1997) usam a palavra "radical" em sentido positivo, reservando a palavra "sectário" para o sentido negativo que se costuma atribuir a "radical".




[1] Karl Marx (1818-1883) e Paulo Freire (1921-1997) usam a palavra "radical" em sentido positivo, reservando a palavra "sectário" para o sentido negativo que se costuma atribuir a "radical".

26 fevereiro 2008

uma pequena cosmologia físico-poética
política & amorosa

1.
A física e astronomia falam hoje de dois impulsos principais no Universo:
... o de expansão (que, segundo a teoria predominante, teria vindo do big bang), pelo qual tudo tende a se separar e a se espalhar pelo universo – até quem sabe sumir de tão rarefeito na infinitude do infinito...
... e o gravitacional, pelo qual as coisas tendem a se unir... se apertar umas nas outras... até que fiquem tão apertadas que toda diferenciação seja esmagada, e tão presas umas nas outras que nem a luz escape mais desse lugar: o buraco negro, que, ao contrário do que o nome sugere, é um lugar de excesso e não de falta.
E no entanto existem galáxias, sóis, planetas, vida...
Um pouquinho mais de gravidade, e tudo se acabava numa união tão densa que nenhum ser teria chance de existir.
Um pouquinho mais de expansão e, tudo se afastaria tanto que só restaria um vazio...
E se expansão e gravidade estivessem equilibradas com exatidão?... Então não teríamos um mundo equilibrado: teríamos nada.
2.
Existir é gingar permanentemente entre duas possibilidades de desequilíbrio.
Existimos enquanto dura a dança. Somos a dança.
Mas a dança só existe se houver dois impulsos opostos brincando de acabar um com o outro, e nunca acabando de fato.
Não estou falando "do bem e do mal". Nenhum deles é o bem. De cada um deles sozinho se pode dizer que é mau: um destrói a vida e a existência em vazio e abandono. A outro a sufoca em excesso de união e de substância.
E a união dos dois deixando de lado suas diferenças seria o suicídio universal.
Convívio de diferentes enquanto diferentes – sem se afastarem demais um do outro, sem se unirem ao ponto de anular as diferenças. Convívio inclusive dessas duas possibilidades de mal... pois a supressão de qualquer uma delas seria a efetivação do outro mal. O bem não está nunca em uma parte nem em outra: o bem está no convívio.
http://www.tropis.org/imagens/polaridadefundamental2.jpg
3.
O amor une ou separa? O amor prende ou liberta?
Lá onde se sufocam as diferenças até tudo "se empedrar" e mergulhar em escuridão – pode-se aí falar de amor?
Lá onde tudo se perde no vazio, no frio e no abandono – pode-se aí falar de amor?
Os planetas não são corpos abandonados no vazio: têm um sol em torno do qual dançar, e em condições especiais até vemos um deles fecundado pela energia do sol, dando nascimento à vida... Mas não se unem ao sol. Unir-se seria o fim de toda graça. Fim de jogo. Ir embora cada um pro seu lado também.
Entre o aprisionamento e o abandono irresponsável, entre a dependência excessiva do outro e uma independência unilateral sem coração... lá talvez exista uma faixa em que o impulso de união e o de liberdade dançam juntos, sem se separar e sem se anular. Numa dança que é provavelmente o que mais merece o nome de amor.
Na China: a existência como a dança perpétua do impulso yang e do impulso yin, os dois gestos do Tao (a realidade última além da nossa compreensão);
Na Índia: o Universo como a dança que a divindade faz existir a cada instante com seus dois pés em movimento;
No cristianismo: Deus é amor. Ou "a condição pela qual tudo existe é Amor".
4.
E nós?
A cada momento cada um de nós é tentado a dominar. Mas se de fato ama, não quererá ver o outro destituído da sua dignidade humana, dignidade que vem toda do poder de escolher por si. (A menos que esteja na verdade à procura de um animal de estimação).
A cada momento cada um de nós é tentado a abandonar. Mas enquanto o amor está em nós, está também a responsabilidade voluntária pelo que se fez – marca de todo ser que cresceu e já não só recebe, mas se tornou capaz de gerar.
(Afinal, o amor é ou não é capacidade de gerar?)
A cada momento uma escolha. Para lá do mero impulso espontâneo, animal, que vem e que passa, o amor é a cada instante um ato de decisão.
Não faz sentido falar de amor a não ser quando se exerce a capacidade de escolha: liberdade.
Não se verdadeiramente cria se não por amor, e não se verdadeiramente cria senão por decisão interna livre do nosso ser. Sem liberdade fazem-se coisas. Mas não se cria.
5.
Liberdade e amor são duas capacidades de uma coisa só: daquilo em nós que é capaz de criar.
Daquilo que é capaz de criar.
Daquele que é capaz de criar, seja em nós, seja onde for.
Mas nada existe se não tiver primeiro se feito dois. Dois que dançam um com o outro, sem voltar a ser um, e sem deixar de ser um: um par.
Não existe existir sozinho: só existe existir com.
6.
Com-viver.
Não existe apenas viver, sem "com"; todo viver depende de que também vivam outros, que vivem com. Rede.
Não aceitar o com é investir em que a existência se extinga.
E por que não? Existir é difícil...
Mas... será mais fácil o desistir?
Tentar desistir: Arrastar consigo um mundo moribundo, eras a fio... todas as partes em sofrimento... porque não queremos mais existir – mas, querendo ou não, enquanto ainda existimos, existimos-com.
Por que, afinal, algo veio a existir?
Não, não me responda. Não será verdade. É mais.
E se ficarmos esperando a resposta, não vamos com isso deixar de existir: vamos seguir existindo em sofrimento-com –
... por não estamos nos doando o suficiente pra que existir seja dança. E seja prazer. Dança-com-e-prazer-com.
Aceitar existir, apesar de todas as dificuldades, talvez seja o princípio do fim das dificuldades.
Desde que se entenda que existir é existir-com.
7.
Mesmo com todas as dificuldades, fazer com que algo exista mediante aceitar o "com": esse é o ato do amor.
E sem ele nada do que foi feito se fez. *
 



 * Do Evangelho de João (1:2). "Deus é amor" se encontra em I João 4:16.